quinta-feira, 17 de abril de 2008

O trauma do amor


Todo amor busca compensar um desastre amoroso passado; somos feridos antes da batalha

NESTES DIAS, reencontrei Gérard Pommier, um colega e amigo que não via há quase 15 anos. Ele está de passagem pelo Brasil, palestrando.

Num fim de tarde, sentados na minha cozinha, colocamos a conversa em dia: filhos, trabalho e, claro, divórcios, separações e novos amores.

No capítulo "divórcios e separações", prevaleceu o tema (tragicômico) das indenizações financeiras. Como era de se esperar numa conversa entre homens, constatamos a curiosa contradição entre a reivindicação feminina de autonomia e, por outro lado, o fato de que muitas mulheres, ao se separarem, exigem uma reparação monetária.

Por estarmos ambos sóbrios, não discutimos o fundamento das pensões alimentícias para as crianças nem o da retribuição pelos anos em que uma mulher pode ter renunciado à sua vida profissional para se dedicar ao lar. Apenas estranhávamos o tipo de demanda raivosa que dá a impressão de pedir indenização pelo amor perdido.

Nos homens como nas mulheres, os amores que acabam deixam a sensação de um dano quase físico, material ("retiraram uma parte de mim") -um dano, portanto, que poderia ser compensado. Deve ser por isso que tanto os homens quanto as mulheres, às vezes, "curam" as dores de uma separação com aquisições extravagantes. "Ela me deixou?

Compro uma moto."

Mas as mulheres, freqüentemente, preferem que a reparação do dano seja o ônus do ex-parceiro. Mesmo quando a iniciativa da separação foi da própria mulher (ou compartilhada por ela) e não houve "infidelidade" do lado do homem, as mulheres tendem a viver a separação como uma traição, como uma crueldade que lhes foi feita, uma sacanagem.

Há como explicar essa diferença, mas isso, hoje, não vem ao caso. O fato é que a conversa com Pommier foi interrompida porque eu fui assistir ao filme de Wong Kar-wai, "Um Beijo Roubado", que acaba de estrear. Pommier, que já tinha visto o filme na França, prometeu que ele tinha a maior relação com nossa conversa daquela noite.

De fato, o filme de Kar-wai é uma esplêndida elegia sobre o trauma amoroso. Os quatro personagens principais são todos inválidos da guerra das paixões. Ficam num canto lambendo suas feridas ou saem pelo mundo afora para esquecê-las ou cicatrizá-las, mas, de qualquer forma, para eles, um novo amor é a tentativa de compensar um desastre passado, que os deixou sem chaves para as portas da vida.

Para um psicanalista, é um prato cheio: confirma-se, indiretamente, a idéia de que nos apaixonamos pelos outros porque não nos foi permitido ficar com a mãe e ou com o pai. Todo amor corrigiria uma grande decepção amorosa, forçada e originária, todo amor seria um paliativo contra as dores da renúncia a nossas paixões edipianas. Ou seja, atrás de nossa vida amorosa, sempre há um dano inicial. "Será que alguém paga um dia?", diriam as mulheres evocadas na conversa com Pommier.

Tudo bem, mas o complexo de Édipo, que se tornou sabedoria psicológica comum, não deixa de ser um mistério. Por que seríamos saudosos de uma única relação que nos foi proibida para que todas as outras fossem permitidas? Por que seríamos para sempre queixosos de uma única perda que nos libertou e nos soltou pelo mundo?

Mais misterioso: é raro que a lembrança de nossos primeiros afetos amorosos (com a mãe, especialmente) seja a de um idílio; em geral, ela vem junto com a queixa de termos sido, de uma maneira ou de outra, preteridos ou mesmo traídos. Talvez essa lembrança queixosa seja influenciada pelo que vem depois: a gente veria nossa primeira infância pelo prisma das dores da autonomia, do crescimento e da separação.

Mas talvez haja algo mais, algo que nos torna feridos antes da batalha, queixosos de ter sofrido um dano antes de qualquer amor, inclusive antes daquela primeira relação, miticamente feliz, com a mãe. Talvez a sensação de que fomos traídos, e não nos foi dado o que queríamos e esperávamos anteceda o amor e suas frustrações. Talvez todos os amores, inclusive o edipiano, sejam apenas compensações frustrantes por um dano que, aliás, inevitavelmente, eles renovam. Mas de que dano estou falando?

De qual sensação originária de que o mundo sempre nos priva porque nunca responde à altura de nossos pedidos?

A resposta seria complicada e incerta, mas há um atalho. Pergunte para qualquer jovem mãe esbaforida: "Afinal, o que quer um bebê?".

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Comoção pela morte de Isabella


A tragédia nos lembra afetos dolorosos que regram nossa maneira "moderna" de casar

HOJE, QUARTA-FEIRA, quando acabo esta coluna, não conhecemos os eventos que levaram à morte de Isabella Nardoni; só sabemos que a menina, de cinco anos, foi assassinada, intencionalmente ou não, enquanto estava na custódia do pai e da madrasta. E conhecemos um pouco a história da família: a mãe e o pai de Isabella não chegaram a se juntar -foi um romance adolescente que acabou antes de Isabella nascer. O pai tem dois filhos pequenos com sua mulher atual.

É uma situação trivial: a pensão mensal, as visitas, o padrasto ou a madrasta, os meio-irmãos etc. Mas a banalidade dessa situação não deveria disfarçar o emaranhado de afetos dolorosos que ela produz -afetos que muitos vivem e que todos preferimos esquecer.

Não sei se esses afetos são responsáveis pela morte de Isabella. Mas talvez eles sejam responsáveis pela extraordinária comoção produzida pela sua morte. Como assim?

A morte violenta de uma criança nos fere a todos: é como se, ao mesmo tempo, alguém nos arrancasse um pedaço de nosso próprio futuro e destruísse a fantasia nostálgica da infância, que sempre cultivamos, mesmo que o primeiro período de nossa vida tenha sido infeliz.

Mas a história de Isabella nos comove também por outra razão: as tentativas de "explicar" o acontecido evocam, inevitavelmente, as dificuldades de nossa maneira "moderna" de casar.

São dificuldades nas quais, em geral, preferimos evitar de pensar.

É comum que o marido ou a mulher (às vezes, ambos) levem para o casamento filhos que são frutos de uma relação anterior. Espera-se que isso aconteça sem complicação: afinal, se descasamos e casamos por amor, por que o mesmo amor não reinaria pelo lar todo? Pois é, o amor é uma coisa complicada. Exemplos.

A rivalidade, que sempre existe entre irmãos, vinga entre enteados e meio-irmãos. E vinga redobrada, justamente por ser mais inconfessável do que a rivalidade entre irmãos -por ser silenciosa, reprimida pelo esforço geral de compor uma nova família ideal, em que todos os integrantes se amariam.

Na nova família, à primeira vista, o homem convive com seus enteados melhor do que a mulher. Não é nenhum milagre do "instinto" paterno: o homem encontra uma satisfação narcisista no exercício da paternidade. Ele, aliás, curte ser e se sentir amado por suas qualidades "paternas". Pare ele, saber ser pai de filhos e enteados faz parte de uma virilidade que ele quer que seja reconhecida e festejada pela mulher.

Mas cuidado: a encenação da paternidade, embora às vezes espalhafatosa, não resiste à pressão da culpa de dar para seus filhos de sangue menos do que para seus enteados.

Essa culpa, envergonhada e reprimida, é inevitável, porque há uma coisa que o homem, na grande maioria dos casos, dá mais aos enteados do que aos filhos: sua própria presença no lar.

A mulher, ao contrário, vive quase sempre uma rivalidade dramática com seus enteados: compete com eles como se ela fosse mais uma filha. Para a mulher, o enteado ou a enteada não usurpam o lugar dos filhos que ela trouxe de um casamento anterior, nem o lugar dos filhos que nasceram no novo casamento: eles ameaçam usurpar o próprio lugar dela. Essa rivalidade, escondida, expressa-se de maneiras travessas: por exemplo, numa crítica assídua das manifestações do afeto paterno do homem para com o filho ou a filha dele. Ou seja, para não admitir um ciúme envergonhado do enteado, a mulher censura o "excesso" dos sentimentos paternos do marido. Esse, criticado como pai, sente-se diminuído como homem. O desastre está às portas.

São apenas exemplos. O casamento "moderno" é um nó de afetos reprimidos, uma convivência explosiva que aposta no amor do casal como se fosse remédio para todos os males.

Não se trata de condenar a idéia de que seja possível refazer sua vida com outro ou outra e, nessa ocasião, levar consigo os filhos dos casamentos anteriores. Mas seria melhor que a gente se engajasse nesses projetos sem a ilusão de que os bons sentimentos prevalecerão por conta própria. Seria melhor, para começar, que nossas disposições menos nobres, em vez de silenciadas e reprimidas, fossem faladas, explicitadas. Isso, para evitar que, de vez em quando, a trágica morte de uma menina nos lembre, por um dia ou uma semana, que a vida das famílias "modernas" é muito mais difícil do que parece.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O sonho de Martin Luther King


O amor é o agente da modernidade: os sentimentos vencem os preconceitos das tribos

AMANHÃ FARÁ 40 anos, dia por dia, desde o assassinato de Martin Luther King, em Memphis, Tennessee.

Em 1963, cinco anos antes de sua morte, King contara seu sonho aos manifestantes da marcha sobre Washington: ele imaginava um futuro em que "brancos e negros, judeus e gentios, protestantes e católicos", descendentes de escravos e de donos de escravos, todos viveriam em harmonia, sentados "à mesa da irmandade". Nesse futuro, cada um seria julgado por seus atos e por seu caráter, não pela cor de sua pele, pela herança de sua etnia ou por sua fé.

King pedia que os EUA e o mundo moderno se mostrassem à altura de suas próprias declarações fundadoras: por exemplo, a Constituição dos EUA.

Ao longo das últimas quatro décadas, muitas coisas mudaram. Um balanço rápido constataria, sem otimismo excessivo, que o preconceito e a discriminação das diferenças retrocederam. Foi o efeito de mil lutas, grandes e pequenas, nos Parlamentos, nas ruas e nas padarias da esquina.

Mas as diferenças, durante a própria luta para não serem discriminadas, acabaram se consolidando e nos afastando da irmandade com a qual sonhava King. Em outras palavras, parecemos nos encaminhar para um mundo em que cada indivíduo e cada grupo seriam iguais perante a lei e respeitados em sua diferença, mas em que seria perdido o sentimento de constituirmos juntos algum tipo de comunidade. A sociedade futura seria, então, apenas uma convivência ordeira de diferenças e distâncias irredutíveis: muito longe do sonho de King.

Esse sonho reviveu, nestes dias, no discurso de Barack Obama "A More Perfect Union" (a "união mais perfeita", que era o propósito explícito dos signatários da Constituição dos EUA). Obama é suficientemente atento às diferenças para se lembrar, por exemplo, de que ser filho de imigrante africano não é a mesma coisa do que ser descendente de escravo. Mas, apesar de sua atenção às diferenças, talvez por ser o fruto de um amor inter-racial, ele consegue (novidade absoluta) ser um candidato negro, sem ser um candidato dos negros.

Por isso, muitos americanos talvez vislumbrem nele o símbolo daquela comunidade (não só uma convivência) de diferentes que era o sonho de Martin Luther King.

Não sei se Obama será o candidato escolhido pelos democratas e ainda menos se será eleito presidente.

Quase a metade dos americanos se diz disposta a votar nele; fora dos Estados Unidos, ele é imensamente popular. Será que estamos prontos para o sonho de Martin Luther King logo agora, num momento em que, pelo mundo afora, diferenças religiosas e culturais travam uma luta sangrenta?

Alguns dados encorajadores. No livro "Microtrends" (microtendências, editora Twelve, 2007), de Mark Penn, há um capítulo sobre famílias inter-raciais, que resume uma série de pesquisas recentes.

Em 1970, nos EUA, havia aproximadamente 300 mil casais inter-raciais, ou seja, 0,3% dos casamentos. Em 2000, já eram dez vezes mais, acima de 3 milhões, 5,4% de todos os casamentos. A maioria dos casamentos inter-raciais incluem um indivíduo hispânico (casado com negro ou branco). Mas o tipo de casal inter-racial mais freqüente (14%) é o de um homem branco com uma mulher asiática, seguido pelo casal de um homem negro com uma mulher branca (8%).

As adoções inter-raciais triplicaram. Em particular, nos EUA, o número de crianças confiadas pelos serviços sociais à custódia temporária de pais de uma outra etnia passou de 14% a 26%. É um dado significativo considerando que, dos anos 70 aos 90, as adoções inter-raciais eram acusadas de perpetrar um "genocídio cultural" assimilando "à força" os rebentos de outra etnia.

Qual é a relevância dessa "brasileirização" dos EUA? Pois é, Romeu e Julieta são os protótipos do herói moderno. O amor é o grande agente da modernidade: a vitória do indivíduo contra o peso das tradições é antes de mais nada vitória dos sentimentos, ou seja, de paixões singulares que atropelam os mandatos e os preconceitos das tribos.

Para quem ama, o furor das lutas entre religiões, culturas e tribos que se opõem a seus sentimentos é apenas um resto do passado. PS: Para ler o discurso de King: http://usinfo.state.gov/infousa/
government/overview/38.html
.

Para escutar o discurso de Barack Obama: br.youtube.com/watch?v=pWe7wTVbLUU.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Corpos idosos e eróticos



Não é mais ridículo, aos 60 ou mais, querer uma companhia de vida, um amor ou só uma transa


SE ME lembro direito, 20 anos atrás era freqüente participar de conversas animadas em que se discutia a questão seguinte: devemos ou não deixar nossos filhos e nossas filhas adolescentes dormir em casa com suas namoradas ou seus namorados?

Aparentemente, o partido do sim ganhou. Em geral, a razão que ele invocava (e ainda invoca) era a segurança: é melhor que minha filha esteja no seu quarto com o namorado do que em baladas perigosas ou, pior ainda, "brincando" no carro numa rua deserta. Também contava o fato, comprovado, de que um namoro é quase sempre uma experiência mais rica e mais "madura" do que a agitação das turminhas.

Naquelas conversas dos anos 80, eu ficava em cima do muro e torcia, de leve, pelo partido do não. Achava problemático que os adolescentes tivessem uma espécie de vida conjugal sem ter conquistado sua autonomia: para juntar-se com um parceiro ou uma parceira (a ponto de dormir na mesma cama com ele ou com ela a cada noite ou quase) seria melhor, primeiro, não precisar mais se definir como filho ou filha.

Continuo pensando que eu tinha um pouco de razão: prova disso, os inúmeros casamentos em que um dos membros do casal se queixa de que o outro continua sendo mais filho ou filha do que marido ou mulher.

Mais um detalhe. Freqüentemente, a conjugalidade precoce e protegida de dois adolescentes na casa dos pais é uma caricatura da conjugalidade adulta menos interessante: consiste mais em assistir, na cama, a filmes alugados do que em sair juntos pelo mundo ou mesmo em praticar a arte difícil de se descobrir mutuamente.

Seja como for, o partido do sim ganhou sobretudo por uma razão que não se confunde com as justificações habitualmente propostas.

Acontece que, nas últimas décadas, pela freqüência dos divórcios, a metade dos jovens viveram sua adolescência em companhia de apenas um de seus pais. E muitos desse jovens foram espectadores assíduos (e, às vezes, até confidentes) do folhetim das aventuras e dos namoros de sua mãe ou de seu pai.

E, claro, com que moral o pai ou a mãe divorciados proibiriam o filho ou a filha de levar seus amores para casa se eles mesmos não fazem diferente? Essa grande mudança na vida familiar teve dois efeitos significativos e, a bem dizer, positivos.

O primeiro é que os adultos começaram a levar mais a sério a vida amorosa de seus filhos adolescentes: as brincadeiras condescendentes (o detestável "e aí, tem namorado?") acabaram ou quase.

O segundo efeito aparece agora, 20 anos depois: à força de conviver com os namoros, os namoricos e as decepções, em suma, com as alegrias e as tristezas das paixões de seus pais divorciados, os adolescentes abandonaram a idéia (freqüente em minha geração) de que a vida amorosa e sexual dos adultos seria uma mesmice comportada -que, aliás, no caso dos pais, teria acabado de vez depois da troca mínima que foi necessária para que eles, os filhos, fossem concebidos.

Os adolescentes que tiveram essa experiência são agora jovens adultos, e seus pais são idosos. Apesar da valorização cultural do corpo jovem e sarado como se fosse o único desejável e capaz de desejar, é lógico que esses jovens adultos estejam dispostos a reconhecer que a terceira idade não corresponde a nenhuma aposentadoria do amor e do sexo, ou melhor ainda, que ela não corresponde a nenhuma "maturidade" das paixões: os "idosos" amam e desejam com o mesmo transporte e a mesma ingenuidade dos adolescentes (e, claro, dos ditos adultos).

De repente, hoje, não é ridículo ter 60 anos ou mais e propor um perfil num site de encontros amorosos na internet; não é ridículo, aos 60 ou mais, querer uma companhia para o resto da vida, um amor ou mesmo apenas uma transa.

O bonito filme de Laís Bodanzky, "Chega de Saudade", que estreou na semana passada, nos leva para um baile. Há muitos assim, pelo país afora, em que homens e mulheres da terceira idade se procuram e dançam a cada semana.

Estamos aprendendo, aos poucos: a grandeza (e a mesquinhez) do amor e do desejo não têm estação.

Mas não é apenas por isso que o filme é tocante: é porque no baile, na pista de dança, o enlace do parceiro ou da parceira revela que estes corpos, que talvez tenham chegado mancando, endurecidos pela idade e de pés inchados, são corpos bonitos, eróticos, vivos.


quinta-feira, 20 de março de 2008

O moralizador


Moralizador é quem impõe ferozmente aos outros os padrões que ele não consegue respeitar

ELIOT SPITZER era governador do Estado de Nova York até sua resignação na semana passada.

Sua fortuna política e sua popularidade eram ligadas à sua atuação prévia como procurador agressivo e inflexível contra os crimes financeiros e contra as redes de prostituição e seus clientes.

Ora, descobriu-se que ele era freguês de uma rede de prostituição de luxo e que também recorria a artimanhas financeiras para que seus pagamentos -substanciais: US$ 80 mil (R$ 140 mil)- não fossem identificados.

Esse fato de crônica (no fundo, trivial) foi para a primeira página dos jornais do mundo inteiro -aparentemente, pela surpresa que causou: quem podia imaginar tamanha hipocrisia? Esse "espanto" geral foi, para mim, a verdadeira notícia da semana.

Começou no dia em que Spitzer deu sua primeira declaração pública, reconhecendo os fatos e a culpa, ao lado de sua mulher, impávida.

No programa "360", da CNN, o âncora, Anderson Cooper, convocou dois comentaristas. Um deles, uma mulher, psicóloga ou psiquiatra, ofereceu imediatamente uma explicação correta e óbvia. Ela disse, mais ou menos: é muito freqüente que um moralizador raivoso castigue nos outros tendências e impulsos que são os seus e que ele não consegue dominar. Cooper (que já passeou pelos piores cenários de guerra e catástrofes naturais) quase levou um susto e cortou rapidamente, acrescentando que essas eram, "claramente", suposições, hipóteses etc. Não é curioso?

Em regra, prefiro as idéias que são propostas, justamente, como hipóteses ou sugestões que cada um pode testar no seu foro íntimo.

Mas, hoje, considerar a dita declaração da especialista como uma suposição parece ser uma hipocrisia pior (e mais perigosa) do que a de Spitzer.

Afinal, depois de um bom século de psicologia e psiquiatria dinâmicas, estamos certos disto: o moralizador e o homem moral são figuras diferentes, se não opostas. 1) O homem moral se impõe padrões de conduta e tenta respeitá-los; 2) O moralizador quer impor ferozmente aos outros os padrões que ele não consegue respeitar.

Na mesma primeira declaração, Spitzer confessou, contrito, que ele não conseguira observar seus próprios padrões morais. Tudo bem: qualquer homem moral poderia confessar o mesmo. Mas ele acrescentou imediatamente que, a bem da verdade, esses eram os padrões morais de quem quer que seja.

Aqui está o problema: o padrão moral que ele se impõe, mas não consegue respeitar, é considerado por ele como um padrão que deveria valer para todos. Com que finalidade? Simples: uma vez estabelecido seu padrão como universal, ele pode, como promotor ou governador, impô-lo aos outros, ou seja, ele pode compensar suas próprias falhas com o rigor de suas exigências para com os outros.

Quem coloca ruidosamente a caça aos marajás no centro de sua vida está lidando (mal) com sua própria vontade de colocar a mão no pote de marmelada. Quem esbraveja raivosamente contra "veados" e travestis está lidando (mal) com suas fantasias homossexuais. Quem quer apedrejar adúlteros e adúlteras está lidando (mal) com seu desejo de pular a cerca ou (pior) com seu sadismo em relação a seu parceiro ou sua parceira.

O exemplo da adúltera, aliás, serve para lembrar que a psicologia dinâmica, no caso, confirma um legado da mensagem cristã: o apedrejador sempre quer apedrejar sua própria tentação ou sua culpa.

A distinção entre homem moral e moralizador tem alguns corolários relevantes. Primeiro, o moralizador é um homem moral falido: se soubesse respeitar o padrão moral que ele se impõe, ele não precisaria punir suas imperfeições nos outros. Segundo, é possível e compreensível que um homem moral tenha um espírito missionário: ele pode agir para levar os outros a adotar um padrão parecido com o seu. Mas a imposição forçada de um padrão moral não é nunca o ato de um homem moral, é sempre o ato de um moralizador.

Em geral, as sociedades em que as normas morais ganham força de lei (os Estados confessionais, por exemplo) não são regradas por uma moral comum, nem pelas aspirações de poucos e escolhidos homens exemplares, mas por moralizadores que tentam remir suas próprias falhas morais pela brutalidade do controle que eles exercem sobre os outros. A pior barbárie é isto: um mundo em que todos pagam pelos pecados de hipócritas que não se agüentam.

domingo, 16 de março de 2008

Os filmes de Rambo retratam as variações do espírito americano nos últimos 25 anos

Rambo


"RAMBO 4" está em cartaz no Brasil desde a sexta-feira passada.
Assisti ao filme mais de um mês atrás, no dia de sua estréia nos Estados Unidos. Foi numa sala do cinema AMC, na rua 42, em Nova York, e o espetáculo era mais na platéia do que na tela: já durante as propagandas e os trailers, surgiam gritos que queriam apressar a chegada do guerreiro: "Rambooo!!".

É fácil entender por que John Rambo é um herói popular: ele é um concentrado dos devaneios do indivíduo ocidental. É o pistoleiro de "Gatilho Relâmpago": ninguém imagina quem ele é e do que ele é capaz (parecemos inócuos pais de família, mas somos tigres adormecidos, viu? Não cutuque). É Shane, o andarilho misterioso de "Os Brutos Também Amam" (e de seu remake "O Cavaleiro Solitário"), que chega, faz justiça e vai embora ferido, levando consigo o coração de mulheres e crianças. É o delegado de "Matar ou Morrer", que, sozinho ou quase, enfrenta a todos. E é também, desde o primeiro filme da série, um homem à procura de um pai. Que mais poderíamos querer da vida?

Claro, Rambo é execrado por quem gostaria que nosso repertório de sonhos fosse diferente. Além disso, os filmes de Rambo são, no mínimo, desiguais. Mas não quero falar nem da qualidade cinematográfica dos filmes nem da relação de Rambo com o protótipo do herói promovido pelo western hollywoodiano.

Há um outro aspecto da série que me interessa mais: os filmes de Rambo traçam um retrato das variações de um estado de espírito dos norte-americanos nos últimos 25 anos.

O primeiro, "First Blood" (primeiro sangue, mas, no Brasil, o título foi "Rambo"), de 1982 (inspirado num romance de 1972), expressava perfeitamente o conflito de uma nação que passava da oposição contra a guerra no Vietnã, nos anos 70, à sensação culpada de ter traído seus próprios soldados.

O segundo, de 1985, era a conseqüência imediata do primeiro: o resgate dos hipotéticos prisioneiros da mesma guerra lavava, enfim, a honra nacional. Poucos anos mais tarde, o sucesso do musical "Miss Saigon" confirmava essa peripécia espiritual: a vergonha de uma guerra impopular era substituída pela vergonha de ter abandonado amigos, aliados, presos e (essa era a novidade do musical) as crianças nascidas dos amores de guerra.

No terceiro, de 1988, Rambo já desistira de guerrear. Ele só ia à luta, no Afeganistão ocupado pelos soviéticos, para salvar o coronel Trautman, seu mentor. Mesmo na Guerra Fria "tradicional", em suma, só vale a pena lutarmos se for para defender os "nossos", ou seja, os mais próximos.

Hoje, o quarto (e último, imagino) filme de Rambo é uma espécie de conclusão lógica: intervir, meter-se na casa dos outros é impossível. Os missionários, com Bíblias e remédios, não mudam nada no horror que eles visitam. No melhor dos casos, eles satisfazem sua própria consciência culpada; no pior, eles acabam mortos. A força tampouco muda nada, ela deixa mais um rastro de sangue, e as coisas continuam iguais. Só resta voltar para casa.

No meio da atual aventura iraquiana, que não tem saída em vista e produziu, como efeito, a substituição de um horror por outro, a derradeira aventura de Rambo completa uma longa argumentação pelo isolacionismo -que é uma antiga tentação americana, crescente desde a Guerra do Vietnã.

É possível que uma vitória dos democratas nas eleições presidenciais de novembro leve os EUA a adotar a escolha final de Rambo. Seria um alívio? Pode ser. Mas talvez seja mais sábio ficar com um "veremos".

Afinal, não sabemos como seria o mundo sem o intervencionismo americano.

Na semana passada, também estreou "Jogos de Poder", de Mike Nichols. O filme narra a história verídica (e, aliás, francamente engraçada) de como se decidiu e se tornou possível a ajuda dos EUA à resistência mujahidin contra a ocupação soviética, nos anos 80. Considerando que adotamos facilmente um estilo paranóico na interpretação das decisões políticas (ou seja, imaginamos conclaves sofisticados e maquiavélicos), o filme é, ao mesmo tempo, salutar e inquietante. Saí da sala com esta impressão: no caso, aparecem duas diferenças básicas entre uma improvisação dos Parlapatões e a suposta "decisão estratégica" do governo dos EUA: 1) O espaço dos Parlapatões é na praça Roosevelt, e o governo dos EUA está em Washington; 2) Os Parlapatões têm muito menos dinheiro do que os EUA.

quinta-feira, 13 de março de 2008

É proibido viajar


A modernidade, que começou com a livre circulação, acaba proibindo a viagem

NO EPISÓDIO dos jovens pesquisadores brasileiros barrados em Madri, as autoridades espanholas agiram como se o cônsul-geral do Brasil contasse lorotas para facilitar o trânsito de imigrantes ilegais. O desrespeito justifica a "retaliação" brasileira.

No mais, a cada dia, as fronteiras do mundo (não só do primeiro) barram alguém que tenta viajar, sobretudo se for jovem, solteiro e sem as aparências de uma "vida feita".

Ao atravessar uma fronteira, o passaporte prova que estamos em paz com a Justiça de nosso país. As outras nações devem decidir se somos hóspedes desejáveis. Nas últimas décadas, as "condições" para ser desejável se multiplicaram. Hoje, no caso da Espanha: 1) 70 por dia de permanência planejada; 2) passagem de volta marcada; 3) reserva de hotel, já pago; 4) para quem se hospedar com parentes, formulário preenchido pelos mesmos; 5) quem se desloca para trabalhar deve dispor de um contrato assinado. Normas muito parecidas valem na maioria dos países.

O escândalo é que essas condições podem nos parecer "aceitáveis". Afinal, qualquer Estado quer proteger o emprego de seus cidadãos impedindo a chegada de imigrantes não-autorizados, não é? Pois é, Michel Foucault é mesmo o pensador para os nossos tempos: o sistema social e produtivo dominante ordena nossas vidas furtivamente, convencendo-nos de que não há opressão, mas apenas necessidades "racionais". Se achamos essas regras "aceitáveis", é porque já adotamos a idéia de que, no nosso mundo, só é legítimo ter moradia fixa e profissão estável.

As pessoas com moradia fixa podem, quando elas dispõem dos meios necessários, adquirir uma passagem de ida e volta e sair de seu lar seguindo um programa pré-estabelecido -ou seja, podem ser, ocasionalmente, turistas.

Escárnio: prefere-se que os turistas sejam otários, pagando de antemão. Há uma pousada melhor da que estava prevista? Você quer encurtar a viagem? Pena, você já pagou. Mas isso é o de menos. Importa o seguinte. A modernidade, que começou com a circulação (livre ou forçada) de todos os agentes econômicos, acaba parindo, nem mais nem menos, a proibição da viagem. Como assim? Pois é, viajar não tem nada a ver com férias num resort ou com ser transportado de cidade em cidade para que os cicerones nos mostrem as coisas "memoráveis".

Para começar, viajar é usar uma passagem só de ida.
- Quanto tempo você vai ficar?
- Não faço a menor idéia. Um dia? Três meses? Um ano?
- E você vai para onde?
- Não sei. Talvez eu curta uma pequena enseada, alugue um quarto numa casa de pescadores e fique comendo caranguejos com os pés na areia. Talvez, já no avião ou pelas ruas de Barcelona, eu me apaixone por uma holandesa, um russo ou uma argelina e os siga até o país deles, por uma semana ou um mês.

Se a paixão durar, ficarei por lá.
- E o dinheiro?
- Não sei, meu amigo. Toco violão, posso ganhar um trocado numa esquina ou no metrô. Também posso lavar pratos, ajudar na colheita, cortar lenha, lavar carros e vender pulôveres. E, se a coisa apertar, tenho endereços de parentes e conhecidos que nem sabem que estou viajando, mas não me recusarão uma sopa e um banho quente. Além disso, em Paris, quando fecha o mercado da rua Saint Antoine, sobram na calçada as frutas e as saladas que não foram vendidas; em São Paulo, Londres e Nova York, conheço dezenas de igrejas que oferecem um pão com manteiga; em Varanasi, ao meio dia, distribuem riso com curry e carne aos peregrinos.

Cem anos depois da invenção do passaporte com fotografia, chegamos nisto: uma ordem que só permite se movimentar para consumir férias ou para se relocar segundo os imperativos da produção.

As regras que barram o viajante expressam nossa própria miséria coletiva: perdemos de vez o sentimento de que a vida é uma aventura. Preferimos a vida feita à vida para fazer.
Para quem quiser ler sobre a história da documentação de viagem, uma sugestão: "Invention of the Passport: Surveillance, Citizenship and the State" (invenção do passaporte: vigilância, cidadania e o Estado), de Torpey, Chanuk e Arup (Cambridge University Press).
Para quem quiser viajar, outra sugestão: a mentira, num mundo opressivo, é uma forma aceitável de resistência.

sábado, 8 de março de 2008

Batalha de mitos: casamento ou liberdade?



Em 1973, em plena efervescência do feminismo americano, Marabel Morgan publicou um livro de conselhos às mulheres que quisessem construir relacionamentos satisfatórios ou reanimar casamentos moribundos. Chamava-se "The Total Woman" (A Mulher Total) e foi um best sel-ler. A autora propunha que as mulheres se submetessem à liderança de seus maridos e fossem sempre sexy e atenciosas. Ficou famosa a sugestão de esperar a chegada do homem, às seis da tarde, de "baby-doll" e salto alto (variando cores e modelos, pois a surpresa é a mãe do desejo).

Na época, li o livro com raiva. Seu sucesso provava que a América profunda continuava longe do espírito dos anos 60. As propostas de Morgan só podiam seduzir um público que, para nossa geração rebelde, era o protótipo da alienação. Os verdadeiros casais felizes, pensávamos, serão os que inventaremos, feitos de indivíduos que se manterão autônomos em qualquer relacionamento.

Não deu muito certo: os anos 60 não inventaram o casal feliz. Talvez as reivindicações de autonomia e de liberdade não sejam os melhores ingredientes para um bolo de casamento.
Eis que as idéias de Morgan encontram uma segunda vida no recente livro de Laura Doyle: "The Surrendered Woman" (A Mulher Rendida -ou submissa, vencida, entregue). Doyle acaba de causar sensação na imprensa americana (e brasileira: deu uma entrevista para a "Veja" no fim de janeiro), propondo 27 conselhos às mulheres para que vivam casamentos valiosos.
Como no caso de Morgan, é fácil reduzir o livro de Doyle a uma série de sugestões pitorescas que parecem feitas para suscitar piadas. Há, por exemplo, a proposta de nunca criticar o marido que está dirigindo. Imagine que ele pegue a auto-estrada na direção errada. Você, mulher, não diga nada, deixe que ele se afaste de sua destinação durante quilômetros, mas não critique, não se faça de sabida e não profira nenhum comentário sardônico.

Exagero? É possível, mas Doyle sabe muito bem qual é o pior momento de um casal: quando os cônjuges colocam o prazer de zombar, de criticar e de controlar o outro acima do que poderiam esperar do convívio harmonioso.

Marabel Morgan também sabia disso e escrevia: "O que causa a maioria dos problemas em seu casamento? Acho que o culpado é geralmente o conflito entre dois egos separados... cada um gritando "eu, eu, eu".".

Moral da história: para inventar um relacionamento agradável e produtivo, o projeto de conviver deve ser mais importante do que as exigências individuais. No fundo, o que Doyle pede não é tanto que a mulher se submeta ao marido, mas que ela se submeta ao bem da relação. Sem isso o casamento não passa de uma arena onde dois indivíduos gostam de se pegar.

A maioria das pessoas que se queixam de sua vida de casal não está disposta a sacrificar quase nada para que a relação funcione. Queixam-se, mas não querem negociar suas exigências solitárias. Decida: é mais importante para você ter razão numa briga ou conviver amorosamente com o outro? É mais importante prevalecer ou desistir para que o companheirismo seja mantido?

O casamento perfeito é um grande ideal da modernidade: um sonho de felicidade amorosa, sexual e reprodutiva. Mas frequentemente esse ideal é abstrato: todos dizem que querem realizá-lo, mas poucos estão dispostos a colocar as mãos na massa.

Somos este paradoxo: sonhamos com casamentos perfeitos, mas curtimos sobretudo nossas neuroses celibatárias.

As leitoras de Doyle podem objetar: tudo bem, é necessário dedicar-se ao bem do casal, mas por que essa tarefa seria só das mulheres? Cadê os sacrifícios pedidos aos homens? Doyle responde que obviamente ambos os parceiros devem entregar as armas. Se ela se endereça às mulheres, é porque conhece bem os jeitos de elas sabotarem um casal. Os homens que encontrem seus caminhos próprios. De qualquer forma, a pergunta "por que logo eu deveria mudar antes do outro?" é sempre uma reação celibatária que seria melhor esquecer. Quem se preocupa com isso não está se preocupando com o casamento, apenas não quer perder uma competição com o parceiro. O que importa mais, enfim: o relacionamento ou a vontade de ganhar um jogo no qual quem se corrigisse primeiro perderia por humilhação?

O ideal do casamento perfeito é um mito moderno -e uma maldição, por ser um imperativo impossível de ser realizado. Ao ler Doyle, surge a suspeita de que talvez esse ideal seja perfeitamente realizável, mas com a condição de querer, ou seja, de sacrificar uma porção de nossas ambições de autonomia. O problema é que idealizamos a autonomia ainda mais loucamente do que o casamento perfeito. Em suma, sofremos de uma batalha entre mitos.

Errata: muitos leitores notaram que, na coluna da semana passada, chamei Edward Osborne Wilson, o autor de "Sociobiology", de Edmund Wilson. Nenhuma injúria: Edmund Wilson é um grande crítico literário. E confesso que admiro mais a obra de Edmund do que a de Edward. Peço vênia.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Será que era só isso?

Nos últimos anos, subiu o índice de suicídio na população entre 40 e 64 anos. Por quê?

O "NEW YORK Times" de 19 de fevereiro publicou os resultados de uma pesquisa dos Centers for Disease Control and Prevention dos EUA (centros para controle e prevenção das doenças).
A pesquisa mostra que, de 1999 a 2004, na população entre 45 e 54 anos de idade, o índice de suicídios aumentou, em média, 20% (31% entre as mulheres).

No mesmo período, os suicídios de adolescentes aumentaram 2% e os de pessoas idosas diminuíram.

Em 2004, nos EUA, 32 mil mortes foram oficialmente atribuídas a suicídio. Ampliando a faixa da meia-idade, constata-se que, dessas mortes, mais de 14 mil são de pessoas entre 40 e 64 anos. Segundo o "New York Times", o fenômeno não seria apenas americano: um estudo recente aponta que, em 80 países, as pessoas de meia-idade são as menos "felizes". As explicações são hipotéticas.

Por exemplo, no que concerne às mulheres, desde 2002, diminuiu fortemente o uso da reposição hormonal na menopausa. Talvez o déficit de estrógeno tenha efeitos depressivos diretos ou indiretos.

Também observa-se que pessoas de meia-idade são grandes consumidoras de antidepressivos. Talvez um uso vacilante dessa medicação (com interrupções brutais sem acompanhamento psiquiátrico) seja responsável por momentos de aflição irresistível. Mas é mais provável que, no caso, o consumo de antidepressivos seja apenas prova suplementar de que as pessoas dessa idade são especialmente "vulneráveis".

Em suma, resta a pergunta: o que acontece, entre os 40 e os 64, que levaria ao suicídio mais indivíduos do que em outras faixas etárias?

Sabemos que as adversidades desesperam os adolescentes porque eles têm dificuldade em enxergar um futuro possivelmente diferente.

E imaginamos com facilidade que as enfermidades e o sentimento do fim que se aproxima possam levar alguns idosos a precipitar o desfecho. Mas adultos na plena força da vida?

É claro, a meia-idade é a época em que os executivos que perdem seu emprego ficam no limbo -demasiado qualificados e já "velhos" para retomar sua carreira. Mas, nos exemplos trazidos pelo "New York Times", os suicidas de meia-idade não parecem ser vítimas de crises profissionais.
Algumas observações:

1) Nas últimas décadas, mesmo nas fileiras de quem acredita em Deus ou na revolução futura, vem se impondo a vontade (ou a necessidade) de justificar a vida "por ela mesma". As aspas servem aqui para lembrar que ninguém sabe o que isso significa. Alguns pensam nos prazeres que eles se permitem, outros na satisfação de serem úteis ao próximo, outros ainda avaliam a qualidade estética de sua história ou valorizam a variedade e a intensidade de suas experiências. Seja como for, a vida deveria valer a pena pelo que a gente faz, pela própria experiência de viver.

2) Acrescente-se que, a partir dos anos 60, os adultos de nossa cultura começaram a se preocupar com a adolescência -ou seja, entre outras coisas, passaram a querer furiosamente que suas crianças se preparassem para elas serem "felizes" um dia (em todos os sentidos: sucesso amoroso e financeiro, êxtase, bom humor permanente).

3) Chegam hoje à meia-idade as gerações que cresceram esperando uma "felicidade" que daria sentido à longa "preparação" de sua adolescência e convencidas de que a vida deve se justificar por ela mesma. Os que fracassaram têm sorte: eles podem se dizer que a coisa não deu certo. Os que se acham bem-sucedidos esbarram, inevitavelmente, numa questão inquietante: "Então, é isso? Era só isso?".

Estreou na sexta passada "Antes de Partir", de Rob Reiner, com Jack Nicholson e Morgan Freeman. É a história de dois homens que aprendem que eles têm seis meses de vida, escrevem uma lista das coisas que gostariam de fazer antes de morrer e saem pelo mundo afora. Alguns críticos adoraram, outros acharam que os atores não salvam um roteiro em que as últimas vontades dos protagonistas parecem oscilar entre a obviedade (beijar a moça mais linda, pular de pára-quedas, fazer um safári) e a pieguice (reencontrar os que a gente ama de verdade, causar alegria na vida dos outros etc.).

Para mim, é a própria trivialidade da lista dos dois amigos que faz o charme do filme. Na hora de bater as botas, diante da pergunta "Que mais poderia ter sido minha vida?", é tocante constatar que, no fundo, gostaríamos que tivesse sido mais do mesmo.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

"Me Larga!" (e me abraça!)


As separações são decididas por dinâmica que pouco tem a ver com os defeitos do outro

ÀS VEZES , milagrosamente, um psicanalista consegue transmitir os resultados de sua experiência clínica do jeito certo: sem simplificar, mas sendo mais cuidadoso com o leitor leigo do que preocupado em impressionar a turma dos colegas.

É o caso do livro de Marcel Rufo, "Me Larga! Separar-se para Crescer", recentemente traduzido em português pela Martins Fontes.

Rufo, 62, francês, terapeuta de crianças e adolescentes, segue passo a passo as peregrinações pelas quais o indivíduo conquista sua autonomia, ou seja, o difícil caminho que leva da fusão inicial com a mãe à independência rebelde do adolescente.

Ao longo do percurso, ele apresenta inúmeras vinhetas clínicas: crianças agressivas, infelizes na escola, com enuresia, pré-adolescentes adotados ou que se imaginam sê-lo, outros que fogem sem parar, jovens que se drogam ou querem acabar com sua vida, assim como pais que largam os filhos cedo demais e outros que não os largam nunca.
Mas "Me Larga!" não é apenas um livro para pais e filhos sobre as dores do crescimento. A leitura é, para qualquer um, uma ocasião imperdível para refletir um pouco sobre o conflito (que nunca pára de nos assolar) entre nossos sonhos de sossego e nossos anseios de independência -conflito especialmente complicado, aliás, porque ele se repete dentro de cada um dos campos que nele se enfrentam: o amparo da dependência é também o porto seguro que (mesmo remoto e fantasiado) nos dá a força de continuar navegando para o largo, e não há liberdade sem a nostalgia de um lar que nos prenderia.

Como escreve Rufo: "Prender-se, desprender-se, voltar, sair novamente, encontrar, abandonar... Toda a nossa vida segue esse movimento permanente". E relacionar-se significa encontrar um mágico equilíbrio nesse movimento: "Cada qual precisa do outro para se construir e se conquistar, para se tranqüilizar às vezes, e para compartilhar momentos, idéias e desejos. O outro é precioso na medida em que representa uma abertura para o mundo".

Ou seja: a solução do conflito entre dependência e autonomia nunca é definitiva e é um paradoxo. Como é possível encontrar amarras que nos libertem?

Em suma, o conflito entre nossa necessidade de amparo e apego e, do outro lado, nossa sede de separação e independência é central na constituição de nossa subjetividade e continua crucial durante a vida toda. Sugiro um exemplo.

Em geral, atribuímos tanto os apaixonamentos quantos as separações de nossa vida amorosa ao outro, que se revela, segundo os casos, sublime, incompetente ou sacana. Ou então, às circunstâncias, facilitadoras ou infelizes. Mas talvez os percalços de nossa vida amorosa sejam decididos por uma luta que se trava dentro de nós e que pouco tem a ver com as qualidades e os defeitos do outro ou com as adversidades do mundo.

Talvez a gente se apaixone e se separe sobretudo conforme o ritmo do antigo e inesgotável conflito interno entre nossas aspirações de navegador solitário (a imagem é de Rufo) e nossa nostalgia de uma fusão na qual, enfim, poderíamos descansar de vez. Prova disso?

Primeiro, obviamente, pense nas separações, por assim dizer, "abstratas": aquelas que acontecem em razão de um surto irresistível de independência num dos dois ou em ambos e, inversamente, naquelas que são maneiras de manter o conforto de outro apego: "Gosto de você, mas me largue, porque você me leva para liberdade demais; prefiro ficar aqui no quentinho".

Logo, lendo o livro de Rufo, é fácil reencontrar as modalidades da ruptura amorosa na lista dos percalços das separações pelas quais a criança conquista sua autonomia: separar-se para não ser abandonado, separar-se para crescer e medir o alcance de nossa liberdade, separar-se para testar o outro, para verificar que ele não nos deixará por isso, e por aí vai.

É como se os altos e baixos de nossa vida amorosa fossem, antes de mais nada, a expressão de um conflito entre liberdade e apego que está em nosso âmago e nunca se resolve.

À primeira vista, muitos acharão essa idéia incongruente com sua experiência. Mas, antes de descartá-la, façam o seguinte. Depois de uma separação, quando os "erros" e as "falhas" do outro se afastaram um pouco na memória e começam a parecer irrelevantes, pergunte-se, por exemplo: "Mas, afinal, por que nós nos separamos?" Na maioria dos casos, a gente não sabe responder.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Bigode de madame salva africano morrendo de sono

Na sexta-feira passada, o "The New York Times" publicou uma notícia tragicômica. A reportagem explicava como os bigodes das mulheres de classe média salvarão 300 mil negros africanos por ano. Explico.

A doença do sono é produzida por um parasita introduzido no sangue pela picada da mosca tsé-tsé: quando o bicho chega ao cérebro, o sujeito entra em coma. A doença voltou a ser endêmica na África Central, onde a mosca prospera entre guerras, fome, Aids etc. Segundo os Médicos Sem-Fronteiras, há 300 mil contaminados por ano.

Por sorte, no fim dos anos 70, foi descoberta a eflornitina, que cura até os pacientes já comatosos. Mas os negros africanos, com sua baixa expectativa de vida, suas doenças sexualmente transmissíveis e suas carteiras vazias, não são os clientes ideais da indústria farmacêutica. Acabou a esperança de que a eflornitina funcionasse também contra algum tipo de câncer -o que tornaria sua preparação rentável. A produtora decidiu parar a fabricação.

E os africanos? Pois é, problema deles. Não vale a pena produzir para um mercado pequeno e pobre. Nessa altura, um milagre: Gillette e Bristol-Myers Squibb lançam um novo produto para a remoção dos pêlos faciais: o creme Vaniqa, a base de eflornitina. A produção continuará.
Um encarte da "Cosmopolitan" de janeiro anuncia que, se algum bigode tiver que se intrometer entre duas bocas (de sexo diferente) que se beijam, melhor que seja o do homem. Graças aos milhões de mulheres que pagarão R$ 100 por um tubo de creme que dura um mês, 300 mil africanos a cada ano voltarão para a vida.

Não é uma prova da sabedoria da economia globalizada? Deve ser. Mas é penoso pensar que, se os bigodes femininos não fossem sensíveis à eflornitina, os africanos já estariam adormecendo para sempre.

Fiquei indignado, querendo a nacionalização das indústrias farmacêuticas: como podemos deixar que a saúde pública seja subordinada a lucros particulares?

Mas, se um gesto de vareta mágica abolisse a globalização e voltássemos para um mundo de indústrias nacionais, os africanos não teriam a menor chance -pois seus países não dispõem dos recursos necessários para descobrir ou produzir remédio nenhum. Mais desconcertante ainda: para os sujeitos da cultura ocidental moderna (ou seja, para nós), o maior incentivo é o interesse particular. O triunfo dos interesses privados sobre a solidariedade social é um corolário de nossa cultura que nunca conseguimos mudar por decreto. Por exemplo, se você estivesse doente à espera de que inventassem uma cura salvadora, gostaria que a pesquisa estivesse só nas mãos de agências públicas? Certo que não. Sonhamos com a solidariedade, mas, para obtermos resultados, contamos com a motivação do apetite de ganho.

Acalma-se um pouco a indignação. Não nacionalizaremos a indústria farmacêutica. Esperando uma mudança de cultura, fazer o quê? Console-se: o cinismo deste mundo organizado pelo jogo dos interesses particulares tem uma falha pela qual se insinuam sentimentos solidários. Veja só: não é um acidente que logo um creme contra os bigodes das madames salve 300 mil africanos. Entre os remédios mais vendidos e rentáveis há o Viagra, o Propécia, contra a careca, a coorte dos antidepressivos etc. Os fármacos que cuidam de nossa performance social são os mesmos que sustentam a indústria farmacêutica. Estamos sempre dispostos a gastar para o sorriso, a cabeleira, a ereção poderosa e agora o lábio glabro. Não é por vaidade. Cultuamos as aparências porque são cruciais: elas decidem nossa posição no mundo, nosso sucesso ou fracasso: triste e peluda para baixo, sociável e depilada para cima.

Mas esse culto das aparências nos torna vulneráveis: nosso cinismo não resiste à aparência da dor. É suficiente lembrar o espectro das vítimas da tsé-tsé para que produzir eflornitina se torne uma exigência moral. As madames exibirão seus lábios glabros em campanhas para angariar fundos contra a mosca e seu parasita.

Somos constituídos pelas aparências, por isso as aparências nos afetam. Nosso cinismo redime-se por ser hipersensível às primeiras páginas. É por isso que a ajuda às vítimas é a grande especialidade ética de nossa cultura. Não sabemos decidir o que é justo e o que é errado. Perseguimos sempre nossos interesses particulares, mas reagimos à visão de feridas abertas. Dito de maneira mais incômoda e mais próxima: só queremos arrasar, mas somos voluntários para ajudar as crianças de rua e abrigar os mendigos. Nosso senso moral é como nossas vidas: cosmético. Bom, melhor do que nada.

PS: O novo presidente americano, apresentando-se como um "conservador compassivo", talvez tenha definido um traço dominante da personalidade ocidental moderna. Talvez tenha achado também uma maneira aceitável de confessar que somos, geralmente, cínicos e mídia-sensíveis.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Eleições americanas

No fundo, as eleições nos Estados Unidos são o melhor seriado do momento

Volto das férias com um caderno de notas sobre as eleições presidenciais norte-americanas. Escolho algumas.

1) Provavelmente, em novembro, o republicano John McCain enfrentará um dos democratas -Hillary Clinton ou Barack Obama. Segundo as pesquisas atuais, McCain/Clinton seria quase um empate, e Obama ganharia de McCain.

Torço pelos democratas, mas modero meu otimismo. O racismo, o machismo e o medo do que é diferente e novo são forças que trabalham na sombra.

Muitos eleitores declaram que votarão em uma mulher ou em um negro sem problema. Mas outra coisa é o que acontece no segredo da cabine eleitoral. O discurso conservador sabe instilar temor na massa da pequena classe média branca: "Mas você quer mesmo eleger uma mulher ou um negro como presidente?

Vamos deixar para outra vez?"

Funciona assim: você não tem quase nada a perder, não tem privilégio algum que valha a pena ser defendido, nada que justifique manter as coisas como estão. Mas, justamente, ao votar contra a mudança, você afirma que seu status merece ser protegido, ou seja, você se convence de que conquistou algo na vida que você não pode se arriscar a perder. O que é isso? Nada, apenas essa falsa convicção.

2) Hillary Clinton não é a candidata das mulheres. E Barack Obama não é o candidato dos negros (como foi Jesse Jackson em 1984 e 1988).

Quarenta anos após o movimento pelos direitos civis, uma mulher e um negro são candidatos à presidência sem que cor ou gênero sejam estandartes -ou seja, como cidadãos numa sociedade em que cor e gênero seriam "acidentes" que não implicam uma agenda específica.
Se isso é verdade, os anos 60 foram a verdadeira revolução bem-sucedida do século passado.

3) Obama, 46, é o único candidato que pertence a uma geração cuja visão do mundo não é o fruto direto nem da Guerra Fria, nem da Guerra do Vietnã, nem da contracultura. É lógico que ele tenha a simpatia da maioria dos jovens. Talvez seja por isso também que sua popularidade atravesse as fronteiras partidárias: Obama não enxerga o mundo como uma luta entre "eles" e "nós".

4) A viabilidade da candidatura de Obama prova a boa saúde do "experimento americano" (que é, entre outras coisas, o projeto de uma sociedade de imigração em que os cidadãos valem pelo que fazem, e não pelo que devem a seus antepassados). Obama é filho de um imigrante africano muçulmano e foi criado inicialmente na religião islâmica; seu segundo nome é Hussein. Alguns, pelos bares e pelas ondas de rádio do país, acham isso um disparate. Mas, para a metade dos americanos, no meio de uma guerra que é, no mínimo, apresentada como cultural, isso não constitui um empecilho. Você imagina, sei lá, os franceses elegendo como presidente, em 1939, um sujeito chamado Adolf, filho de imigrante alemão?

5) Não adianta zapear: as eleições norte-americanas são como a Copa do Mundo. Salvo que mesmo um jogo das eliminatórias, como o "caucus" de um Estado só, ganha a primeira página.
É óbvio que, pelo peso geopolítico dos EUA, as eleições norte-americanas acarretam conseqüências mundiais. Mas não é só isso que desperta o interesse da torcida internacional.
Faz um século que a realidade americana parece ser matéria privilegiada de romance ou de filme (aqui está, aliás, o fundamento da dita hegemonia hollywoodiana).

A razão é cultural e simples: o mito fundador do "experimento americano" é também a idéia do indivíduo que, ao tentar "fazer a América", é o único artífice de seu destino -bom ou ruim. E esse mito é uma matriz narrativa básica e inesgotável de nossa cultura.

Há os que podem contar suas vidas e os que não conseguem. Mas, de uma certa forma, o americano ideal, homem político ou mendigo perdido nas vinhas da ira, sempre vive sua vida e a conta para si mesmo como romance ou roteiro de aventuras.

As memórias de guerra de McCain serviram de roteiro para um telefilme, de 2005, que concorreu ao Emmy. Obama ganhou o Grammy de melhor álbum falado por seu livro de memórias, em 2005, e acaba de ganhar outro por seu segundo livro (neste ano, ele competia com os ex-presidentes Bill Clinton e Jimmy Carter). Hillary, verdadeira heroína do caso Lewinski, é autora de uma autobiografia de sucesso.

No fundo, as eleições americanas são o melhor seriado do momento.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Reparação


A brutalidade de nosso desejo sempre nos deixa a tarefa de reparar o objeto desejado


ESTREOU NA sexta passada "Desejo e Reparação", de Joe Wright -uma adaptação, essencialmente fiel, da obra-prima de Ian McEwan, "Reparação" (ed. Companhia das Letras).


O filme recebeu o Globo de Ouro para melhor drama e será certamente um sucesso de público. O livro de Ian McEwan é já um clássico e um best-seller. Por quê?

Certo, Joe Wright fez um filme maravilhoso, e McEwan é um dos melhores escritores do momento. Mas não é só isso.

Acontece que, na tela ou nas páginas, a história contada revela e ilustra um canto ao mesmo tempo escuro e familiar da subjetividade de todos nós, ou melhor, como se diz em psicologia, um mecanismo psíquico que governa nossa vida muito além do que a gente pensa.

Resumindo: uma menina, dotada de uma certa predisposição artística e inspirada por uma paixão amorosa e pelo ciúme inconfessável que essa paixão produz, faz uma sacanagem que estraga radicalmente a vida da irmã assim como a do jovem que ama essa irmã e é amado por ela.

A menina, ao crescer, tenta expiar sua culpa e descobre que ela poderá remir-se escrevendo não tanto a verdade do que aconteceu, mas uma história, um romance. É de uma vida dedicada à literatura que ela esperará a redenção: um romance reparará, enfim, o ato funesto que ela cometeu.

Os distribuidores brasileiros do filme mudaram o título de McEwan.

Acrescentando "desejo" a "reparação", eles fizeram uma escolha aceitável. Evitaram, em particular, a tentação de optar por algo como "Culpa e Reparação", termos ligados por uma implicação óbvia: a gente faz uma besteira, sente-se culpado e tenta acalmar a culpa reparando os danos -às vezes, trata-se de uma decisão consciente, outras vezes, nossa vida inteira se organiza ao redor de um projeto reparador sem que a gente saiba direito por quê (afinal, somos sempre culpados de alguma coisa, não é?).

Claro, a culpa pode exigir reparação, mas talvez a vontade de reparar os tortos não seja apenas a conseqüência das culpas que nos tocam por causa de nossos malfeitos. Talvez essa vontade seja algo mais radical, mais originário.

Foi uma grande psicanalista, Melanie Klein, que introduziu a "reparação" entre os conceitos da psicanálise. A idéia básica é a seguinte: um belo dia, o bebê se dá conta de que os objetos de seu amor são pessoas inteiras (por exemplo, ele descobre que não gosta apenas do seio que o alimenta, das mãos que cuidam dele etc., mas da mãe como um todo). Logo, nosso bebê começa a sentir a necessidade de "reparar" os "danos" que sua visão anterior do mundo teria causado -em suma, de reconstituir o corpo materno que ele havia consumido aos pedaços.

Isso pode parecer bastante exótico aos olhos do leigo. Mas, para entender, basta considerar que nunca paramos de oscilar entre a vontade de despedaçar o outro e a vontade de reparar os estragos. Como assim?

É simples e está no título do filme ("Desejo e Reparação"). No desejo sexual, em geral dilaceramos o outro desejado. Por exemplo, o desejo, sempre um pouco fetichista, prefere os pedaços: o decote, a voz, um olhar, a perna cortada pela cinta-liga, a queda dos rins, a forma dos lábios e por aí vai. Quando amamos a quem desejamos, o amor nos ajuda a reparar os efeitos do estilo carniceiro do nosso desejo: idealizamos o amado e a amada para que a beleza que neles enxergamos os preserve de nossa própria crueldade.

Falando em beleza, justamente, Melanie Klein e seus primeiros alunos já pensavam que talvez a vontade ou a necessidade de reparar o mundo (despedaçado por nosso próprio desejo) fosse a força que anima nossas ambições estéticas.

A incrível persistência humana na tentativa de criar algo bonito lhes parecia ser o jeito que inventamos para compensar a violência de nossa cobiça (não só sexual, aliás). Ou seja, os danos produzidos pela brutalidade de nosso querer nos dariam vontade de arrumar o mundo, de embelezá-lo, de fazê-lo ficar "bom de novo", como dizia Klein.

Em suma, talvez nossa capacidade de criar algo misteriosa e extraordinariamente "bonito" (como o livro de McEwan e o filme de Wright) seja a maneira que encontramos para proteger aos outros, a nós mesmos e ao mundo contra a "loucura" de nossos desejos.

Nota: é bem possível que nossa paixão ecológica de hoje tenha uma origem parecida. Afinal, ela tenta preservar e restaurar o que não sabemos deixar de destruir.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Liberdade para o quê?


Liberdade não consiste em escolher nas prateleiras do supermercado

QUANDO JANTO fora, prefiro os restaurantes onde sou um cliente conhecido, porque, em princípio, eles aceitam com um sorriso meu comportamento, que é um pouco atípico: não gosto de ler o cardápio, peço o prato do qual estou a fim naquela noite, que ele esteja ou não no menu. Caso a cozinha não disponha dos ingredientes necessários, o maître e eu imaginamos um compromisso próximo de meus desejos.

Nota: às vezes os que lêem o cardápio do começo ao fim, à força de hesitar entre massas, risoto, carne ou peixe, acabam se entupindo de pão e couvert -e assim perdem o apetite.
Pensei nisso ao reler "O Paradoxo da Escolha, Por que Mais é Menos", de Barry Schwartz, recentemente traduzido em português (ed. Girafa). Schwartz constata, com razão, que a multiplicação das possibilidades de escolha (que é própria da sociedade de consumo) constitui, de fato, um fardo.

Exemplo: queremos comprar uma calça jeans e descobrimos que existem infinitos cortes, desbotamentos, preços etc. Ótimo, somos LIVRES PARA escolher entre centenas de jeans. Mas, de repente, eis que NÃO somos LIVRES DE uma tarefa, no fundo, fútil: a de encontrar a calça que nos veste melhor na perfeita relação custo/benefício.

Na hora de escolher um carro, uma faculdade, uma profissão, um país ou uma cidade em que morar, as escolhas possíveis são, hoje, incontáveis. Portanto seríamos mais livres, não é? Pode ser. Em compensação, temos a trabalhosa (e, às vezes, desanimadora) incumbência de escolher.

Schwartz opõe dois tipos subjetivos: os "maximizadores" e "os que se contentam com algo suficientemente bom". Os maximizadores querem absolutamente fazer a escolha certa; os outros sabem se satisfazer sem ter que alcançar a certeza de que fizeram o melhor negócio.
Ora, constata Schwartz com razão, o maximizador não é nunca feliz: ele é corroído pelo remorso e pela dúvida (será que examinou efetivamente todas as possibilidades?).

Schwartz chega a imaginar que a epidemia de depressão das últimas décadas tenha uma relação com a multiplicação das escolhas possíveis e, portanto, com a insatisfação crônica de nosso lado maximizador. Obviamente, os que sabem se satisfazer vivem melhor. Conclusão de Schwartz: o excesso de liberdade nem sempre é bom.

Tudo bem. Mas vamos aplicar a visão de Schwartz ao campo amoroso. É claro que, se a tradição nos obrigasse a nos casar com a moça escolhida pelos anciões de nossa aldeia, a vida amorosa seria mais fácil. A liberdade para se juntar com quem quisermos é, de fato, uma complicação: para ter a certeza de que Fulano é meu homem fatal, com quantos Sicranos deverei compará-lo?
Por outro lado, se adotarmos a sabedoria dos que sabem se contentar com o que lhes agrada, nossos parceiros e parceiras não vão gostar.

Em geral, preferimos ser amados por quem acha que somos a melhor escolha possível, em absoluto.

Ou seja, na vida amorosa, os maximizadores sofreriam como sempre, enquanto os que "se contentam" seriam detestados por parceiros e parceiras. Como fica? Pois é, talvez a vida amorosa seja um bom exemplo para descobrir os limites das idéias de Schwartz, porque, nela, a liberdade certamente não consiste em poder escolher o amado numa lista de pretendentes. Amar tem mais a ver com "encontrar" do que com "escolher".

O livro de Schwartz é ótimo e divertido sem contar que pode ajudar todas as pessoas que se inibem diante da multiplicidade dos possíveis. Mas Schwartz parte de um pressuposto, que está implícito desde seu primeiro exemplo (o dos jeans): ele considera a pluralidade das escolhas possíveis como o índice da liberdade. Quando constata que essa liberdade é fonte de tormentos, ele conclui que talvez seja melhor sermos menos livres e mais felizes.

Ora, a visão que Schwartz tem da liberdade é parasitada pelo próprio modelo do consumo, cujos impasses ele castiga.

Ser livre não significa poder escolher entre os objetos disponíveis nas prateleiras do supermercado; ser livre significa saber criar o que queremos e encontrá-lo, mesmo e sobretudo quando não está em lista alguma de liquidações e promoções. Certo, o mal-estar do maximizador é uma patologia da liberdade de escolha. Mas a liberdade de escolher entre as ofertas que estão nos cardápios é, por sua vez, uma deformação da verdadeira liberdade -a de inventar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

"Meu Nome Não É Johnny'


Os desmandos dos filhos constituem o consolo dos pais diante da inelutabilidade da morte

NOS anos 90, João Guilherme Estrella, um jovem de classe média-alta carioca, tornou-se "barão" do varejo de cocaína. Ele exportou "pura" para a Europa, foi preso com seis quilos da droga e, num processo memorável pela sinceridade do acusado e pela inteligência da juíza, foi condenado a dois anos de internação num manicômio judicial. Ele cumpriu a pena e é hoje um produtor musical.

Estréia amanhã "Meu Nome Não É Johnny", de Mauro Lima, com atuações notáveis de Cléo Pires e Selton Mello. O filme se inspira no livro homônimo (Record, reeditado nesta ocasião) em que Guilherme Fiuza reconstruiu e contou a história de João Guilherme Estrella.

O filme (como o livro) começa com uma breve descrição da infância de João Guilherme. Por um momento, pensei (receei) que a narrativa adotasse a explicação que quase sempre liga a toxicomania dos filhos à permissividade dos pais. É aquela lengalenga: os pais nunca souberam dizer não, e os filhos, incapazes de encarar qualquer frustração, procuram na droga a garantia de uma gratificação constante. Pois é, o filme é muito mais inteligente e verdadeiro do que esse clichê explicativo.

Um exemplo. O pai de João Guilherme tolera que o filho estoure um rojão na sala quando o Vasco marca um gol. Mas é melhor a gente não se apressar em julgar e condenar: o pai também exige que o moleque trabalhe para pagar ao menos a metade da prancha de surfe que ele quer.

Quase todos os pais se reconhecerão nessa mistura em que coexistem a fascinação pelas façanhas do filho (deixe, que esse menino vai longe) e as tentativas desesperadas de inculcar nele uma ética do esforço. Esse paradoxo é o drama básico de todos os pais modernos.

No começo de sua "carreira" de traficante, João Guilherme vivia na casa de família junto com o pai, que se separara e estava gravemente doente. Enquanto o pai esperava a morte confinado no seu quarto, cocaína e maconha rolavam soltas nas animadíssimas reuniões organizadas pelo filho na sala da casa.
O espectador talvez se indigne: o pai está cego? Não vê o que está acontecendo? Ou então: como o filho faz a festa enquanto o pai está morrendo?

Mas uma outra leitura é sugerida pelos bonitos planos em que Mauro Lima enquadra frontalmente a casa do Jardim Botânico ou mostra o pai se virando na cama no meio da noite: o quarto do pai doente e a sala da bagunça não são mundos separados.

A contradição é só aparente entre os desmandos do filho e a agonia do pai: talvez, no fundo, o pai queira mesmo o barulho da festa que não o deixa dormir.

É sempre assim. Os filhos são tudo o que nos resta para acreditarmos que a vida continua, e eles têm a tarefa de serem "felizes" para compensar as amarguras de nosso tempo que se acaba. Condenamos os excessos nos quais eles se engajam, mas é apenas "pelo bem deles". O gozo dos filhos, por mais que seja reprovado, é um espetáculo que consola os pais da inelutabilidade de sua própria morte.

João Guilherme Estrella foi traficante de droga. Mas o verdadeiro traficante nunca toca na droga; ele só vende. Para fazer a diferença entre traficante e usuário, a lei só pode indicar critérios quantitativos, que são freqüentemente incorretos: João Guilherme movimentou enormes quantidades de cocaína, mas ele mesmo chegou a cheirar, numa semana, o despropósito de cem gramas. A juíza viu mais o drogado que o traficante. Com razão: ao longo de sua "carreira", João Guilherme não acumulou nenhuma reserva de dinheiro nem organizou uma quadrilha, ele apenas viveu anos na ânsia de uma fruição frenética. Durante o processo, a juíza perguntou a João Guilherme se ele sabia que estava fazendo algo errado ou ilegal.

João Guilherme respondeu que ele não tinha muito clara a distinção entre o que é certo e o que não é. Claro, ele devia saber que algumas substâncias são ilícitas por lei. Mas há uma distinção mais profunda que muitos perdem -não só os toxicômanos, também todos os entusiastas que, a mando dos pais, saem à conquista do mundo. Ou seja, todos nós, quem mais quem menos.

Há um momento, no filme, em que João Guilherme e alguns amigos cheiradíssimos circulam de carro pelo Rio lançando um grito comum: "O Rio de Janeiro é nosso!!!". Que o Rio fosse dele -aliás, que o mundo fosse dele- era tudo o que o pai de João Guilherme queria. E é tudo o que qualquer pai quer para o filho, não é?

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

O saber dos poucos e o dos muitos


Na era do darwinismo digital das idéias, o jeito de sobreviver é fazer barulho, ocupar espaço

NAS ÚLTIMAS semanas, revisei manuscritos em inglês e em português. Em português, sou enganado pelo meu passado francófono. Em inglês, meu ouvido está enferrujado.


Nos dicionários, a gente nunca encontra exemplos que confirmem exatamente a legitimidade da expressão que queremos usar. Ou, pior, a gente confia em exemplos antigos e acaba usando expressões esquisitas porque Machado já as usou. Fazer o quê? Posso recorrer à internet.

Quero saber se uma regência nominal é "boa"? É só digitá-la entre aspas na barra do Google e repetir a experiência com regências alternativas. Adotarei a mais usada.

É claro, dessa forma, a freqüência do uso sempre valerá mais que a regra. Mas, afinal, em matéria de gramática, o que é a regra, se não a formalização do uso?

Por esse caminho, a longo prazo, acabaremos escrevendo à força de clichês, numa língua empobrecida. Não seria muito grave (sempre haverá poetas para inventar novos jeitos de se expressar) se uma coisa parecida não acontecesse com as idéias. Como assim?

Saiu, em 2007, "The Culture of the Amateur" (a cultura do amador), de Andrew Keen. Keen não é um tecnófobo; ao contrário, é uma figura do Vale do Silício e colabora com publicações on-line. Apesar disso (ou por causa disso), ele escreveu uma ata de acusação contra a constituição e a difusão do saber na internet.

Resumindo: estamos na era do darwinismo digital das idéias, em que o jeito de sobreviver é fazer barulho, ocupar espaço. O sonho de uma informação produzida pelos próprios cidadãos, sem intermediários, desaguou no pesadelo de centenas de milhões de cidadãos escrevendo indiscriminadamente sobre qualquer aspecto do passado, do presente e do futuro do mundo (segundo os cálculos de Keen, nasce um blog a cada segundo).

Nunca foi tão fácil plantar notícias falsas e criar consensos ao redor de opiniões estapafúrdias: a difusão multiplica a crença, e a crença dos muitos vira autoridade. Um exemplo: logo depois da inundação de Nova Orleans, as notícias sobre estupros e assaltos no Superdome (onde se hospedavam os refugiados) foram plantadas na net; os jornais acreditaram e repercutiram.


A legislação está perplexa e impotente: mesmo nos EUA, onde é fácil perseguir a imprensa escrita por calúnia, é quase impossível se defender das "notícias" on-line. Quem dispõe de meios técnicos básicos pode manipular qualquer informação, destruir impunemente a reputação de um candidato e por aí vai.

Prova pelo contrário: nos EUA, nas pós-graduações em jornalismo, é regra que nenhum fato pode ser considerado conferido só por ter sido "encontrado", mesmo repetidamente, na internet. As próprias páginas on-line dos jornais são suspeitas: um hacker médio consegue facilmente construir uma "sombra", que imita perfeitamente a página que você imagina estar consultando.


Recebi recentemente, por e-mail, uma coluna "minha" que nunca escrevi. No e-mail, ela aparecia como um "copia e cola" da página on-line do caderno Ilustrada da Folha da quinta anterior. Fato curioso: o texto não afirmava nada de extravagante, nada que eu não pudesse assinar.


Em suma, Keen tem razão. Seus alertas contra o "saber" duvidoso espalhado pelo Google, pela Wikipédia e pela simples proliferação da rede são justificados.

No entanto, seu livro lembra os gritos de alerta que surgiram, no começo do século 19, contra as possíveis perversões da democracia (e, por exemplo, o barateamento do custo da impressão de libelos anônimos). A idéia era que o clamor dos muitos emudeceria a voz dos poucos sábios que, de fato, sabem do que eles falam.

Não há como discordar. Mas resta que, a cada vez que encontro um argumento contra a desordem produzida pela livre e louca circulação de informações e pensamentos, ocorre-me o seguinte: num tribunal, se você for processado um dia, por quem preferirá ser julgado?
Pela expertise (sem ironia) de um juiz ou pela atrapalhada mistura de razões, convicções e sentimentos que animam os membros de um júri popular?

Eu preferiria o júri. Assim como ainda prefiro a bagunça da internet ao privilégio exclusivo de autoridades instituídas. Desejo a todos um 2008 fascinante, confuso e variado como a net -apenas corrigido pela capacidade (e o prazer) de separar, de vez em quando, o joio do trigo.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Presentes para as festas

Nossas tentativas de entender o mundo sempre oscilam entre "zoom in" e "zoom out"


TENHO UM carinho especial pelos livros de imagens de Istvan Banyai.


Dois estão disponíveis no Brasil: "Zoom", em sua 16ª reimpressão (Brinque-Book), e "O Outro Lado", que acaba de ser publicado (Cosac Naify). São livros sem palavras, em que a série de imagens constitui uma história e, ao mesmo tempo, uma reflexão.Nesta época de amigos secretos e de propósitos para o Ano Novo, esses dois pequenos livros são o brinde que mais gosto de oferecer. Além de agradar (espero) a adultos e crianças, eles dizem algo essencial sobre minha maneira de pensar e de viver, ou melhor, sobre como gostaria de conseguir pensar e viver. "O Outro Lado" é, dos dois, o mais fantasioso e, talvez, o mais complexo.

À força de folheá-lo, cheguei a este resumo de sua sabedoria:
1) sempre há um outro lado;

2) vale a pena, em cada situação, olhar para nós mesmos do ponto de vista daqueles que estamos observando;
 
3) esse esforço não é apenas um jogo no qual brincaríamos de passar de um lado ao outro do espelho;
 
4) tampouco trata-se apenas de saber se colocar nos sapatos dos outros (o que já não seria mal);
 
5) os desenhos revelam que, quando a gente se desloca para o lugar dos outros, quando a gente se mexe para "o outro lado", algo muda: o resultado final não é só a mesma cena vista de ângulos opostos, mas é, de repente, uma nova cena.

Veja se você concorda. "Zoom" é de uma leitura mais imediata, mas não por isso é menos rico. Para não estragar o prazer dos leitores, invento uma seqüência parecida com a do livro, mas diferente dela: no começo, você vê alguém de costas, sentado à frente de uma tela de computador, e imagina que esse seja o cenário da história que começa.

O zoom, afastando seu olhar, amplia o campo visual, e eis que aparece o seguinte: aquele cenário inicial é uma propaganda de informática numa revista que está nas mãos de alguém sentado na sala de espera do dentista. Antes de decidir que esse seria, então, o cenário da história, espere: o zoom vai recuar de novo.

E por aí vai. "Zoom" pode ser lido do começo ao fim (sucessão de ampliações do campo visual - "zoom out") ou do fim ao começo ("zoom in": aproximação progressiva do nosso olhar, que, portanto, enxerga de maneira cada vez mais detalhada, mas também com cada vez menos compreensão do conjunto, que se perde a cada aproximação).

Para quem lê do começo ao fim, o livro vale como uma meditação apaziguadora sobre a pouca relevância das pequenas coisas nas quais encalha o narcisismo da gente -a começar pela nossa própria pessoa. Ele lembra um pouco aquelas fantasias por meio das quais as crianças tentam aliviar o fardo do olhar dos pais, que permanentemente tenta convencê-las de que elas são seres únicos e extraordinários.

Nessas fantasias, as crianças imaginam, por exemplo, que nosso "universo" seja apenas um viveiro de bactérias no ventre de um gigante -os terremotos e as inundações sendo, respectivamente, acessos de tosse ou bebedeiras de nosso hóspede desmedido. E não acaba assim: o gigante, por sua vez, sem se dar conta, poderia ser um vírus no corpo de um supergigante, que, por sua vez... Mas, fora esse exercício salutar, que encolhe o narcisismo (ele sim, gigantesco) do qual sofremos normalmente, "Zoom" é também uma espécie de meditação, por assim dizer, cognitiva.

Explico. Nossas tentativas de entender e explicar o mundo estão sempre oscilando entre um "zoom in" e um "zoom out". Ou seja, entre a aproximação máxima que nos permite encontrar a causa de nossos males no microscópio (invasores invisíveis, genes, cromossomos etc.) e a distância máxima que nos leva a procurar a explicação do que acontece, por exemplo, na disposição dos astros na hora de nosso nascimento ou no dia de hoje.

Com isso, alimentamos oposições, quase sempre estéreis, entre explicações pelo infinitamente pequeno e explicações pelo quadro mais amplo -no meu campo, entre a descrição da química invisível que regula nossa mente e a consideração de eventos externos que nos afetam.

Meu propósito, para o ano que vem, é que a gente não fique travado carregando na mão apenas duas objetivas separadas, uma macro e uma teleobjetiva, mas que estejamos dispostos a acionar constantemente o nosso zoom -"zoom in" e "zoom out".

E também, quase ia esquecer, que sejamos capazes de enxergar sempre "o outro lado".

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Os novos janízaros

A assimilação cultural pode ser desejada, mas é sempre vivida como traição e violência

A REVISTA "Foreign Affairs" está publicando os programas de política estrangeira dos candidatos à presidência dos EUA (no número de novembro/dezembro 2007, foi a vez de Hillary Clinton e John McCain).
Os candidatos têm idéias diferentes sobre o futuro do Iraque, a condução da guerra contra o terror etc., mas todos compartilham uma preocupação com a "idéia americana".
Por exemplo, Hillary Clinton cita um discurso famoso de Daniel Webster, que, em 1825, assinalava que os EUA deveriam cuidar não de seu poder, mas do poder da "idéia americana", segundo a qual "com sabedoria e conhecimento, os homens podem governar a si mesmos" (resumo perfeito do que há de melhor na modernidade ocidental).
Em suma, os presidenciáveis discordam na avaliação das políticas que enfraqueceram a autoridade moral dos EUA. Mas todos querem restaurar o caráter exemplar da experiência norte-americana.
A lógica atrás dessa urgência é esta: "eles" nos odeiam porque nos julgam por alguns atos errados e não pelo que somos; é preciso lembrar que, aos trancos e barrancos, continuamos os mesmos que inventaram e defenderam a democracia e a liberdade do indivíduo, contra inimigos externos e internos. É preciso lembrar que somos os mesmos que inventaram narrativas que alimentam os sonhos do mundo inteiro.
Parece uma boa estratégia para captar simpatia, mas é fundada numa ingenuidade da razão. Explico.
Em geral, diante de qualquer outro que tenha valor de exemplo para nós, somos, no mínimo, ambivalentes. Ou seja, podemos endereçar a esse outro pedidos de ajuda e até de adoção, mas também queremos derrubá-lo. Por quê? Porque a sedução que o exemplo exerce sobre nós é vivida como uma violência que nos incita a "trair" nosso jeito habitual de ser, nossa inércia. De fato, odiamos, no exemplo, nossa própria vontade de igualá-lo.
A todos (não só aos presidenciáveis americanos), recomendo a leitura de um maravilhoso pequeno romance, "O Fundamentalista Relutante", de Mohsin Hamid (ed. Alfaguara). O autor (assim como o protagonista do livro) é muçulmano paquistanês, estudou nas melhores universidades americanas e foi consultor em Nova York.
O romance (em forma de monólogo endereçado a um americano, numa cidade paquistanesa) joga uma luz singular sobre o enfrentamento entre o Islã e o Ocidente e, bem além disso, sobre o conflito que surge DENTRO de cada cultura e de cada sujeito quando seduzidos e conquistados pela modernidade ocidental.
Num trecho do livro, o protagonista lembra a história dos janízaros, corpo de elite do exército do sultão, composto de crianças cristãs levadas como escravas e educadas na lei islâmica.
O que teria sido da legendária fidelidade dos janízaros se eles tivessem sido capturados quando já adolescentes ou adultos? Ou se fossem criados mantendo um contato constante com suas famílias e sua cultura de origem?
O sultão não faria uma besteira dessas. Mas é o que o Ocidente faz a cada dia, integrando (alistando) indivíduos pelo mundo afora. O Ocidente aposta na idéia "razoável" de que o charme da liberdade individual e as vantagens materiais do "progresso" amenizem ou compensem, em seus "novos janízaros", qualquer sensação de que, ao integrar-se, eles trairiam suas origens. É uma aposta perdedora.
O novo janízaro pode desejar ardentemente sua "conversão" cultural, mas o modelo segundo o qual ele entenderá e justificará sua mudança é o do escravo arrancado à força de sua terra, de seus costumes e de sua família. O ódio contra a cultura que assimila será tanto mais violento quanto mais a assimilação for fruto de uma escolha e de uma ambição do próprio sujeito que se integra (a tropa de elite dos terroristas, desde o 11 de setembro até os últimos atentados de Londres ou da Escócia, é composta por sujeitos bem integrados na sociedade ocidental).
Nota aos presidenciáveis americanos: na era da globalização, ser símbolo e exemplo da cultura dominante significa também, inevitavelmente, constituir-se como objeto de ódio. A expansão do individualismo ocidental é provavelmente sem volta, mas continuará produzindo, durante um bom tempo, novos janízaros raivosos -revoltados contra a integração que eles mesmos desejam e que, justamente por isso, parece-lhes constituir uma traição dos seus e de si mesmos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

"A Vida dos Outros"

O mistério é a banalidade do bem: por que alguns encontram a vontade de resistir ao horror?

É UMA HISTÓRIA que já contei, mas não tenho como evitar esta breve repetição. Anos atrás, defendi uma tese de doutorado sobre a questão seguinte: como é possível que homens quaisquer, sem nenhuma predisposição moral ou patológica, homens como você e eu, possam se tornar algozes?

O exemplo central da tese eram os inúmeros sujeitos que, durante o nazismo, atuaram, direta ou indiretamente, como agentes de extermínio.

Excluí a minoria que era motivada por uma certeza ideológica e os pouquíssimos sádicos, que, aliás, eram descartados pelo próprio processo seletivo dos SS. Também confirmei que, no caso da "tarefa" genocida, as punições para quem não obedecesse às ordens eram mínimas, se não nulas.
Sobraram-me, então, batalhões de reservistas, pais de família, "brava gente", provavelmente animados pela mesma moral básica que todos compartilhamos. Como explicar sua complacência e seus atos?

Cheguei a esta resposta inquietante: qualquer um (ou quase) pode se esquecer de sua humanidade não por convicção nem por crueldade ou por medo, mas, simplesmente, pelo descanso que ele encontra na obediência, no sentimento de fazer parte de uma máquina da qual ele pode ser uma pequena engrenagem. Desejar, pensar e agir como indivíduo é penoso; muito mais fácil é renunciar à subjetividade (sempre atormentada) para transformar-se em burocrata do mal.

Meus argumentos convenceram os que os leram. Mas fiquei com uma pergunta: tinha jogado um pouco de luz sobre a "banalidade do mal" (como dizia Hannah Arendt), mas o que continuava misterioso era a banalidade do bem. Entendia como milhares de homens comuns puderam se tornar algozes; não sabia por que alguns, nas mesmas condições, tinham encontrado a vontade de resistir.

Não penso nos que, animados por seus ideais, levantaram as armas ou a voz contra os totalitarismos do século 20. Gostaria de entender os pequenos gestos de resistência que surgiram do nada, sem uma motivação que fosse clara para o próprio agente.

Gostaria de entender o fascista simpatizante que, um dia, no meio de uma batida policial, escondeu um judeu, um homossexual ou um resistente. Ou o burocrata que, de repente, apagou o nome de uma família de uma lista de deportação ou avisou alguém que ia ser preso, para que fugisse a tempo.

No nosso cotidiano imediato, na esquina de casa, por que, às vezes, se abrem frestas de humanidade e resistência na parede uniforme da complacência?

Estreou, na semana passada, "A Vida dos Outros", o filme alemão, de F. H. von Donnersmarck, que foi Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007.

Os fatos narrados acontecem durante os últimos anos da Alemanha Oriental, um regime talvez inigualado em seu caráter totalitário e policial.

Claro, é uma história de homens transformados em burocratas sinistros pela vontade de impor seu capricho aos outros e, sobretudo, pelo vazio de sua vida. Mas é também a história do ato de coragem repentino (pequeno ou grande, depende do ponto de vista) de Gerd Wiesler, um oficial da Stasi, a polícia do regime.

Saí do cinema me perguntando o que, no filme, tinha motivado a insubordinação de Wiesler. Foi a descoberta das razões sórdidas de seus superiores? Foi a simpatia por suas vítimas ou, quem sabe, o amor por uma delas? Foi a leitura de um poema de Brecht? Ou a escuta de uma sonata? Ou talvez a comparação entre a miséria silenciosa de sua existência e o ruído de amores, conversas e idéias na vida dos que eram objetos de sua escuta contínua?

Numa cena tocante do filme, Wiesler chega em casa (uma espécie de protótipo do anonimato), cobre seu espaguete com extrato de tomate frio e senta diante do televisor que transmite crônicas políticas do regime. Há, na vida de Wiesler, uma irrelevância e um deserto afetivos que são o próprio estigma da complacência burocrática, mas que talvez sejam, ao mesmo tempo, a causa de uma vontade inesperada de fazer, por uma vez, a diferença, de se permitir um ato que valha a pena ser lembrado e contado. Raramente assisti a um filme que, de maneira discreta e humilde, me ajudasse tanto a entender o que, de repente, no marasmo, pode nos devolver nossa humanidade e nos levar a fazer a coisa certa.

PS: O livro de José Saramago mencionado na coluna passada, "O Conto da Ilha Desconhecida", foi publicado em 1998 e reimpresso recentemente.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Imagens a bordo de um táxi

Como nas eleições, as pessoas preferem lidar com complôs do que reconhecer o seu próprio destino

1. É frequente que o primeiro da classe, aquele que estúpida e invejosamente os outros chamam de CDF, um dia seja seduzido pelo malandro da classe e acabe aceitando, por exemplo, de acender com ele um cigarro na hora do recreio. Normalmente, o primeiro irá sozinho para a secretaria, pois o malandro saberá cair fora.

É banal que, na adolescência, um menino suponha que a glória social, aquela que lhe abriria as portas do mundo dos homens verdadeiros (ironia), seja uma transgressão, mesmo e sobretudo se descoberta e devidamente punida. Qual melhor marca do macho do que uma tatuagem de presidiário?

Assim, a única questão séria que coloca a recente história do ex-ministro Ricupero concerne não a ele, nem ao que ele disse (que, na verdade, para quem leu a íntegra, é pouca coisa), mas ao nosso país. Que tipo de imagem de virilidade nossa cultura promove, se, para se fazer valer frente a um jornalista –membro de sua família–, um ministro escolhe, como forma de cumplicidade, aparecer e se dizer mais malandro do que ele é?

2. Domingo, no começo da tarde, em Porto Alegre, vou para o aeroporto. Com o motorista de táxi se estabelece uma cumplicidade: juntos, lamentamos as coisas que, supõe-se, ambos adoraríamos estar fazendo. Entoamos um coro sobre os prazeres dos intermináveis churrascos caseiros do domingo, a cervejinha, a costela e por aí vai.

De fato, se ele está trabalhando e eu viajando, talvez na verdade ele compartilhe comigo a ojeriza às conversas vazias de tios e tias, uma antipatia certa pela costela gorda e em geral por toda carne assada coberta (contra qualquer lógica culinária) de sal grosso, e talvez enfim deteste a estupidez e o torpor desta caricatura de descanso.

Mas a imagem do churrasco é o lugar comum do qual dispomos, às pressas, para comungar.

O catálogo das imagens, que constituem os estereótipos comuns do prazer como do dever, é o dicionário dos valores dominantes, a lista, não necessariamente dos deuses aos quais sacrificamos, mas dos deuses em cujo culto nos reconhecemos. O acordo tácito, subentendido sobre estas imagens cimenta nossa vida social. E comanda uma série de escolhas, naturalmente.

3. Depois de descer em São Paulo, outro táxi e outro motorista. As eleições monopolizam a conversa. Milagrosamente, entre Guarulhos e a avenida Faria Lima, ele consegue conciliar uma eloquente indignação contra a classe política corrupta, negligente da coisa pública, desprovida de toda moral republicana, com um irreverente e malandro elogio da sonegação.

Nenhuma contradição: as duas imagens coexistem no céu dos valores sociais. A contradição só surgiria se a referência comum que sua conversa procura fosse, não uma imagem, mas um símbolo qualquer. Em outras palavras, se a referência procurada fosse um valor abstrato, aí a moralidade seria contraditória com a malandragem. As imagens, aparentemente, desconhecem estas dificuldades lógicas. Cada uma vale por si só, à simples condição de ser coletivamente admirada.

4. De novo indo de táxi, inúmeras vezes desde o lançamento do Plano Real, volta exatamente a mesma questão: ``Você acha que vai dar certo?'' Não é uma questão que mobilize um critério científico ou moral (se tal fosse o caso, ela se formularia: ``você acha que o plano é ou está certo?''). Também não é um esforço da imaginação para entrever futuros possíveis (que se formularia: ``no que você acha que poderia dar?''). Qualquer uma destas duas versões da pergunta, aliás, suporia um conhecimento e uma experiência do plano, assim como da realidade que ele pretende transformar.

De fato, a pergunta tantas vezes repetida reduz o futuro a uma simples aposta, torna a realidade uma espécie de absconsa estranheza sobre a qual só um lance de sorte poderia agir, e enfim necessariamente transforma o ministro e candidato em um santinho.

A coisa vale, aliás, para todos os candidatos: qual é o santinho que dá sorte? As imagens –banalidade, esta, repetida até o enjôo em época de eleições– prevalecem sobre critérios e projetos. Menos banal é notar que a prevalência do santinho implica uma dupla desistência: espera-se que a realidade mude por milagre e deixa-se de imaginar o futuro.

A imagem, com efeito, abole o tempo. Ela é um ato de fé em uma espécie de eterno instante, como nos devaneios dos adolescentes que podem se imaginar adultos conformes ao ideário de todos os sucessos sem pensar um instante no como e a que preço se chega lá.

5. A modernidade é paranóica. Desde o século 18, atrás do destino ou da ordem –tradicional ou sagrada– das coisas, nossa leitura do mundo aprende a descobrir a figura de um semelhante, um homem como nós, que nos oprime. É uma das grandes novidades da Ilustração. Esta nova visão do mundo acelerou a história. Se os artífices de nossas infelicidades são nossos semelhantes, podemos nos revoltar, combatê-los. Mas esta aceleração tem um preço.

A frustração se torna a única falta que reconhecemos: o que não temos é sempre e só aquilo de que um outro nos frustra. Marxismo e psicanálise produziram esforços notáveis para corrigir a tendência. Manifestamente em vão: o capitalismo, complexa ordem de nossas sociedades, continua nos aparecendo como a maléfica invenção dos capitais e nossas dificuldades subjetivas mais frequentemente nos aparecem como a suma aritmética das injustiças que os pais nos fizeram em nossa infância indefesa.

É um bom jeito de tirar o corpo fora. Não somos nunca nós, são os outros. O mundo é o teatro das injustiças que sofremos. De repente, o que ganhamos em perspectivas de ação, perdemos em entendimento e em experiência. Do que acontece somos sempre as vítimas (inocentes).

Assim, por exemplo, é quase unânime o coro das vítimas das mídias nesta última eleição. Com algumas exceções (por exemplo um recente notável artigo de Tarso Genro, na Folha de 7/10), prefere lidar com complôs e manipulações do que se reconhecer envolvidos em seu próprio destino.

Qualquer teoria séria das mídias sugeriria que, na verdade, os meios de comunicação de massa tentam oferecer a seus espectadores, em primeiro lugar, as imagens nas quais estes mais querem se espelhar.

Talvez por isso mesmo, aliás, nossa relação com as mídias seja facilmente paranóica. De fato, as imagens que elas nos apresentam, para que possamos refleti-las como tantos espelhos, acabam nos perseguindo. É em relação a elas que medimos nossa inadequação, elas constituem um assíduo e frustrante dever. Na ausência de princípios reguladores, são a versão moderna do que a psicanálise chama de superego.

6. As dificuldades econômicas do Terceiro Mundo parece que são, desde sempre, responsabilidade do Primeiro e sobretudo dos Estados Unidos. Talvez a responsabilidade não esteja lá onde nossa paranóia a procura e encontra, ou seja, na avidez dos ``banqueiros de Londres'', dos quais já falava Mário de Andrade. Talvez ela esteja na inevitável modernidade de nosso Terceiro Mundo: somos, tanto quanto o Primeiro, dominados por imagens. Mas, à diferença do Primeiro, não produzimos imagens, mas adotamos as do primeiríssimo mundo. Por este caminho, aliás, o próprio Primeiro Mundo como um todo se torna nossa imagem ideal.

Isso é suficiente para que nosso imperativo não seja mais o desenvolvimento, mas a imediata adequação a sua imagem. Assim, não nos desenvolvemos. Nos transformamos em caricaturas de desenvolvidos, logo todos de celular porque não há rede telefônica. A pressão narcísica de uma imagem realizada de desenvolvidos impede e atrasa o desenvolvimento. O imperativo de ``chegar no Primeiro Mundo'' (vide Collor, mas também as ambições, por certos aspectos, do discurso de Celso Amorim na ONU) pode acabar na distribuição de gravatas de Hermès na cestas básicas da LBA.

Em suma, o Primeiro Mundo talvez nos estrangule um pouco ou mesmo muito, política e economicamente, mas sua imagem, que adoramos, faz mais e pior. Ela nos pára no meio do caminho com a ilusão de que uma boa mascarada vale qualquer chegada.

Uma parte da desconfiança ou mesmo do ódio que os EUA, por exemplo, parecem às vezes inspirar no Terceiro Mundo é certamente ódio de nossa própria paixão por sua imagem, que nos persegue.