quinta-feira, 18 de março de 2010

O custo de nossa fé na redenção




Se não fosse tão difícil internarmos indivíduos perigosos, Glauco e Raoni estariam conosco


GLAUCO MAL me conhecia, mas eu o conhecia bem: ele era presença familiar no meu café da manhã, a cada dia, há muitos anos. Dos personagens que ele inventou, em suas tiras na Folha, quais são meus preferidos? Gosto muito do silencioso Nojinsk, de Zé do Apocalipse e do Casal Neuras, mas Geraldão e Geraldinho são os que mais me tocam, talvez por serem retratos milagrosamente exatos da voracidade que é, hoje, um traço dominante, em todos nós, adultos e crianças. Por sorte, vou poder matar a saudade, pois os dois personagens ganharam coletâneas em livros (LPM e Companhia das Letras, respectivamente).

O assassino confesso de Glauco e de seu filho Raoni é um jovem de 24 anos, que frequentava a Céu de Maria, igreja do Santo Daime fundada pelo próprio Glauco. O jovem é ou era dependente químico e sofre ou sofria de transtornos mentais graves; pelo que entendi, havia a esperança de que ele encontrasse, no ritual do daime, uma saída -da droga e da desordem de seus afetos e pensamentos. Isso não impediu que, na noite do assassinato, ele se confundisse com um profeta ou com o próprio Jesus Cristo.

Às vezes, o convívio social proporcionado por uma igreja ajuda um drogado a abandonar sua dependência ou um louco a conter-se e a reencontrar algum equilíbrio mental. Essas "recuperações" são, de fato, precárias e incertas.

Cuidado, não estou minimizando apenas o poder terapêutico do convívio religioso. Critico o otimismo que nos leva a acreditar na possibilidade de transformações definitivas -pelo encontro com um deus, pela prática de uma religião, pelo uso de psicofármacos ou pela psicoterapia.

Esse otimismo é, provavelmente, um efeito da ideia cristã de que não existe um pecado que não possa ser esquecido e perdoado se o penitente for sincero. Na lista dos santos, muitos foram grandes pecadores, transfigurados irreversivelmente por uma iluminação ou pelo arrependimento. E o exemplo dos santos serve para afirmar que somos todos livres: suscetíveis de transformações radicais. A fé na possibilidade de cada um se regenerar é um traço central de nossa cultura porque parece ser uma condição da liberdade: nada do que somos hoje é definitivo, podemos mudar.

Agora, se a redenção é sempre possível, a decisão de excluir e prender se torna, para nós, envergonhada e culpada. É quase inadmissível internar um indivíduo perigoso na intenção de proteger a sociedade dos atos que ele poderia cometer, pois, internando, negaríamos o mantra segundo o qual a conversão e a redenção do indivíduo são sempre possíveis ou, por que não, prováveis. Em outras palavras, é impossível sancionar a periculosidade de um indivíduo, pois precisamos acreditar que ele possa mudar (para melhor, é claro).

Logo antes do Natal de 2009, em São Paulo, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, Henrique de Carvalho Pereira, 21, foi golpeado brutalmente com um taco de beisebol por alguém que desconhecia. Seu agressor, em abril de 2009, tinha quebrado uma vitrina da mesma livraria, também a tacadas. Confuso, delirante e ameaçador, tinha sido preso e logo liberado, como se diz, após a assinatura de termo circunstanciado. Ninguém soube, pôde ou quis transformar aquela prisão em internação. Reconhecer que o homem era obviamente perigoso seria privá-lo da liberdade de mudar, não é? Pois é, se alguém tivesse reconhecido, sem culpa e sem vergonha, que é preciso internar um delirante de taco na mão, Henrique de Carvalho Pereira, em vez de permanecer em coma, ainda estaria circulando entre as estantes da Livraria Cultura.

Da mesma forma, o assassino de Glauco e Raoni deve ter dado mil sinais ameaçadores, que foram ouvidos por próximos, parentes, colegas e amigos. Segundo a polícia, há testemunhos que permitem afirmar que o assassinato foi premeditado, o que significa que, para alguém, a loucura do assassino não foi uma surpresa. Então, por que ninguém levou as ameaças a sério? Por que ninguém parou o assassino antes que matasse?

Pois é, se alguém tivesse dito ou até gritado que aquele jovem confuso era perigoso, dificilmente ele teria sido escutado. Ao contrário, os alertas seriam malvistos: você está querendo o quê? Prender o cara só porque está estranho, sem lhe dar uma chance de ficar melhor? Por esse caminho, continuaremos contando e chorando as vítimas.

14 comentários:

  1. A loucura do assassino foi além da possibilidade "otimista" do discurso cristão. A propria igreja mantém um criterio para qualquer tipo de comportamento diferente ou inapropriado. Nesse caso seria um perdao que está fora dos poderes carnais. Esse perfil de psicopata vive por aí; uns encostados em igrejas, outros são colegas de trabalho, e todos tem em comum a imprevisão, precisando de freios sociais.

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  2. Você é psicnalista, não? Passou a vida inteira enfiado num consultório particular ou teve a oportunidade de trabalhar no serviço público?

    Seu texto é extremamente irresponsável, superficial e desconhecedor das políticas públicas construídas, junto aos familiares e usuários de saúde mental, para o acolhimento e cuidado em saúde mental, inclusive durante a crise. Recomendo, para vc que é profissional da saude mental (é?!?!?!)e só pra começar, MUITA LEITURA!

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  3. Eu concordo completamente com o que o autor diz, faço curso de psicologia, sou estudiosa do tema violência e as coisas acontecem exatamente assim, como o autor colocou, temos o costume de minimizar as coisas, fingir que nada acontece porém estamos cercados de pessoas desiquilibradas que a qualquer momento cometem praticas crimonosas, ficamos estarrecidos(no momento) depois esquecemos até acontecer outra que nos chocará mais ainda.faço estágio no sistema penitenciário e presencio, surtos, crises horrorosas, ainda bem que eles estão lá dentro, contidos e medicados por que se estivessem aqui fora....

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  4. Flávio Disse...
    A Mônica lá de cima, a primeira que escreveu discordando do Contardo, é de uma ignorância galopante, além de agressiva. É verdade que a política de reforma psiquiátrica que vem sendo implantada no Brasil é um verdadeiro fiasco. Seu início teve motivos legítimos, mas foi tomando um rumo de oba oba e arregimentou profissionais da maior incompetência, pois tinham "boas intenções cristãs". Trabalhar no serviço público no Brasil é uma miséria sem tamanho. Que bom que o colunista não trabalha neste sistema e que pena se a comentarista lá trabalha. Mudam-se os nomes, mas os problemas persistem: pacientes agora são usuários (patético), departamento pessoal virou de pessoas (patético), no entanto, as más condições de trabalho, os salários indignos, a falta de medicação, a falta de leitos para internação etc. continuam as mesmas de 20 anos atrás. Nada muda, só os nomes. E esta reforma que se transformou em mazela só muda pra pior. Lamento pelos PACIENTES...

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  5. Saulo de Medeiros/ Fui presidente da Associação de usuários de saúde mental do estado de Goiás27 de março de 2010 19:13

    Parabéns Gotardo voce colocou aí a sua opinião e é seu direito opinar participar e propor debate sobre o que quer que seja.dentre os tantos e tantos este é um assunto sobre o qual pessoa alguma corrente alguma ou grupo algum detém a palavra final...assim como discordar é perfeitamente plausivel e natural. Não existem detentores da razão ou da verdade absoluta por mais laureado que seja o cidadão ou esse e aquele grupo. O direito ao debate é de todos e só deve ficar de fora as disputas de ego e quedas de braço envolvendo conceitos...A evolução na área da saúde mental assim como nas demais áreas se fará com bon senso honestidade e pessoas de boa vontade independente de correntes ou grupos que para contribuirem necessáriamente devam pertencer.
    Portanto acredito que a pergunta que se faz é a seguinte se sociedade deve pagar e tem pago com vida de inocentes para ver ou se deve debater de forma clara livre e transparente em busca de uma abordagem e intervenção que se mostre mais eficiente e adequada.

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  6. ana lucia da silva28 de março de 2010 08:04

    Anônimo disse... Ficamos todos tão sensibilizados com o que aconteceu a Glauco e Raoni, realmente crimes brutais como este sempre nos levam a questionamentos de qual mundo é este em que estamos vivendo e procurarmos soluções paliativas como a internação do executor. Sentimo-nos de mãos atadas, excluir não é mais a solução, retroceder a reforma psiquiátrica já não é nem deve ser possível, ela trouxe dignidade a tantas pessoas e não podemos negá-la. Mas o que fazer com os Cadus que vemos a todo instante, eles escorregam em sua sociopatia, a psiquiatria não consegue dar conta deles no aspecto preventivo e os de seu convívio próximo se assustam com a barbárie cometida, uma vez que mostram-se em geral, doces, gentis e sociáveis. Não são fruto da degenerescencia social, então não podemos culpar os indivíduos enquanto sociedade, a família ou mesmo a inclusão social vislumbrada a partir da reforma psiquiátrica. Como profissionais de saúde mental, temos que saber que estamos sim sem respostas, e não é pelo viés da culpa ou na responsabilização no outro (instituições) que compreenderemos estas questões.

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  7. Por que crucificar Cristo novamente?
    ... Ou se o próprio Glauco e Raoni não estivessem iludidos de que o Santo Daime fosse capaz de curar a dependência química do rapaz; ou se o próprio Glauco e Raoni não tivessem fundado uma igreja e iludido seus membros de que o Daime cura enfermidades. Bem, provavelmente Glauco e Raoni ainda estivessem vivos.
    Cristo não está em igrejas de Santo Daime. Nem entre políticos corruptos que se apossam ilicitamente do (nosso) dinheiro que deveria custear a saúde pública.
    Sexta-feira morreu Jamara, 2 anos, filha de moradores de uma localidade com o sugestivo nome de Boa Saúde, na Amazônia, por falta de atendimento médico. Jamara é o segundo caso de morte pelo mesmo motivo, em menos de um mês. Ontem morreu Mayara Coelho Francelino, 8 anos, a 16ª criança que esperava vaga em UTI no Maranhão!
    É muito provável que seus pais tenham posto a vida destas crianças nas mãos de Deus por não restar, naquele momento de dor, homens a quem pudessem recorrer. Cristo não está nas igrejas de Santo Daime. Mas seguramente está com quem deposita suas esperanças Nele.
    Porque você, que era tão próximo de Glauco não questiona “os poderes” do Daime? O que pode ter se desenrolado dentro daquela Igreja que pudesse ter desencadeado em Cadu a crise que o levou a matar? Por que crucificar Cristo novamente????

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  8. Ótima solução: internaremos todos aqueles "periculosos": os dependentes químicos de toda natureza, os impulsivos, os ciumentos, os perversos, os que bebem e dirigem, os homófobos, os racistas,os que têm conflitos com os vizinhos, etc... todos estes comportamentos que podem ocasionar crimes brutais, como exemplificam todos os dias os jornais, sobretudo os mais populares. Talvez sobre alguém aqui fora, os perfeitos ou razoáveis,para conduzir o destino do mundo.

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  9. Pois é, Arnor, talvez se internarmos todos esses, tenhamos uma sociedade "melhor" e nos transformaremos em alienistas, como nos alertou Machado de Assis. Mas... será que sobrará alguém aqui fora?
    Quandos se fala da ineficácia do modelo de atenção proposto pelo movimento da luta antimanicomial, deveria se falar das dificuldades de investimento em capacitação profissional, de abertura de novos serviços de saúde mental (e não de manicômios, instituições totais que só produzem a doença) em vez de divagar sobre uma suposta ineficiência de um modelo que considera o "louco" como um ser humano, como um sujeito de direitos e não simplesmente como uma coisa a ser enjaulada e separada da sociedade.

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  10. Interessante seu texto. Todavia, o discurso da prevenção "por indícios" pode ser tão destrutivo quanto o que defende a possibilidade irrestrita de reabilitação de pessoas "doidas". É preciso desmistificar os dois lados da moeda. Exemplos do tipo "ele poderia ter sido impedido antes de matar suas vítimas" precisam ser contrastado com exemplos do tipo "ele não merecia ter sua liberdade cerceada por isso". Seria interessante colocar lado a lado Mark Chapman e o protagonista mais-que-verossímil do filme "Bicho de sete cabeças"...

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  11. Um "anônimo" no dia 29 de março, escreveu aqui neste blog que Cristo não está nas igrejas do Santo Daime. Eu sinto muito... Sou de orientação cristã, e deploro tudo que é dito pelos homens em nome de Cristo. Muitos de nós só usamos o nome dele para acusar-nos uns aos outros por pura incapacidade de vermos nossos próprios erros e limitações.
    Acho que Cristo está onde há entendimento e compreensão. Nunca acusaria.Quem acusa são os homens em nome dele. E isso, a meu ver, é um perigo social, político e religioso.
    Cristo não está nas igrejas do Santo Daime? Certamente está. Nunca fui em nenhuma delas, mas acho que nelas com certeza há pessoas dispostas a ajudar os outros.

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  12. a pergunta que não quer calar é...
    e você, seria capaz de cometer tal ato?
    o que nos diferencia de "cadu", ou de tantos outros, que não nos permite cometer um delito de tal monta?
    o que você tem feito para de alguma forma contribuir para a prevenção de qualquer violência?
    a maldade, o egocentrismo,a arrogância, prepotência,e ou, pensamentos nem sempre "nobres", você nunca os teve, nunca passaram por sua cabeça, o que te faz diferente?
    fácil é julgar, condenar , o difícil talvez seja compreender, e ou fazer algo para contribur, quando vimos caso de violência extrema qual é a vontade que temos?
    principalmente se um de nossos ente queridos é acomtido por ela?
    talvez questionarmos seja uma hipotese de prevenção, e outra fazer algo objetivamente pela comunidade, quando pensamos em fazer sempre nos vem a idéia de "macro", talvez se fizer em seu lar, se for um "lar", já estará fazendo grande coisa.
    pela observação do comportamento da maioria das pessoas em "seus tantos ambientes" de convívio possamos ter uma idéia de como anda a comunicação, o diálogo, a interação entre as pessoas, por exemplo, no metrô, a maioria dos jovens colocam seus fones de ouvidos e mochilas nas costas, sem ao menos se preocuparem em pedir "licença", um " muito obrigado/a", "por-favor",e por ai vai...precisamos e eu me incluo, como futura profissional da psicologia, esquecer os julgamentos e arregaçar as mangas, de alguma forma contribuir para que inocentes não sofram situações de perdas irreparaveis e pense que esse inocente poderia ser eu ou você...

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  13. Caríssimos/as, com todo respeito a sabedoria do Calligaris, do qual sou leitor, mas ele está equivocado ao falar de ser cristão. Mesmo em uma sociedade secularizaca acho estranho chamar de cristão essa "Igreja" chamado Santo Daime. Segundo estudiosos no assunto isso é uma tremenda contradição. Essa expressão reliosa é uma bricolagem e não um modo novo de ser cristão.

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