quinta-feira, 30 de setembro de 2004

Elogio das eleições

Em época de eleições, sempre ouço comentários sarcásticos: votar é participar de um processo idiota, em que um monte de sujeitos desinformados escolhem administradores e representantes segundo critérios que nada têm a ver com as questões e os valores em jogo.

Responder o quê? É um fato: em sua maioria, os eleitores são desinformados. Eis um exemplo americano (sem ufanismo: a situação no Brasil não deve ser melhor): o Program on International Policy Attitudes (programa que estuda as opiniões dos cidadãos sobre política internacional), da Universidade de Maryland, nos EUA, quis saber o que pensam os americanos em matéria de ajuda a países estrangeiros. Resultados: em 2002, a maioria dos americanos queria que os EUA gastassem US$ 1 em ajuda a países estrangeiros a cada US$ 3 destinados à defesa nacional. De fato, os EUA gastam US$ 1 em ajuda internacional a cada US$ 19 investidos na defesa.

Portanto você poderia imaginar que os ditos americanos quisessem gastar menos em armamentos e mais em ajuda internacional. Nada disso: em sua maioria, os ditos americanos pensavam que os EUA investiam demais em ajuda internacional. Como pode? Simples. Eles não conheciam as alocações orçamentárias: acreditavam que os EUA gastassem 24% de seu Orçamento em ajuda a países estrangeiros (um disparate; na realidade, a ajuda internacional absorve 1% do Orçamento dos EUA).

O que aconteceria na hora de esses cidadãos votarem? Aclamariam o candidato que prometesse diminuir a ajuda a países estrangeiros. No entanto, se conhecessem o tamanho real dessa ajuda, eles prefeririam aumentá-la.

Não me diga que esses sujeitos seriam informados graças ao debate entre partidos e candidatos. Sob a névoa das campanhas eleitorais, é provável que ninguém aprenda coisa alguma. Você, eleitor paulistano médio, depois de semanas de horário eleitoral, sabe mesmo quem começou as obras daquela estação de metrô que lhe interessa?

O eleitor desinformado, então, escolhe baseando-se em quê?

Nosso interlocutor desabusado dirá que o voto é efeito de marketing, de interesses privados imediatos e de simpatias irracionais. Nada a ver com a idéia do bem público. Ele concluirá: não seria melhor desistir da democracia e confiar o governo a quem sabe das coisas? (Detalhe: quem pensa assim, em geral, inclui-se na elite dos que sabem das coisas.)

Sem chegar a tanto, é banal considerar que o funcionamento democrático seria "dos males o menor". Entende-se por quê: nossa cultura valoriza a consciência crítica dos indivíduos. As decisões coletivas nos parecem fadadas ao erro por serem paixões da massa manipulada ou médias estatísticas, consensos numéricos sem argumentação e sem complexidade.

Ora, acaba de sair um livro divertido, perfeito para uma época de eleições, "The Wisdom of Crowds" (a sabedoria das multidões), de James Surowiecki. O livro é uma mina de exemplos, nos quais aparece que as coletividades chegam a decisões parecidas com as dos mais sábios. As experiências relatadas funcionam mais ou menos assim: reúne-se um grupo de sujeitos com grandes competências específicas para a solução de um problema. Para resolver o mesmo problema, reúne-se outro grupo de sujeitos com competências menores e muito menos específicas. Comparam-se os resultados. Misteriosamente, os resultados do segundo grupo (menos homogêneo e menos competente) são parecidos com os do primeiro (ou, então, são melhores). Não me pergunte por quê; o fato é que a diversidade dos sujeitos que compõem o segundo grupo parece valer tanto quanto a competência dos especialistas, se não mais. Os chutes e os palpites dos desinformados competem com as decisões argumentadas dos "experts".

A misteriosa sabedoria das multidões não é o único argumento a favor da prática democrática. Há outro, talvez mais importante. Para introduzi-lo, uma anedota. Zombei de um amigo inglês, pelo fato de a Grã-Bretanha ser "ainda" uma monarquia. Ele me respondeu que eu não entendia a beleza do sistema: a cada semana, o primeiro-ministro, homem inteligente e escolhido pelo voto popular, deve prestar conta a um rei ou a uma rainha ignaros, eventualmente arrogantes e escolhidos pela roleta genética. A humildade necessária para essa prestação de contas seria, segundo meu amigo, a suprema virtude democrática inglesa.

Adaptemos essa anedota ao funcionamento das eleições. Os que sabem das coisas (nós, não é?) devem tolerar que a escolha de representantes e governos esteja nas mãos de uma massa, da qual eles fazem parte, mas que lhes parece ser composta, em sua maioria, de sujeitos que decidem Deus sabe segundo qual critério.

O exercício democrático, nota Surowiecki em sua conclusão, é a "experiência de não ter tudo o que a gente quer. É a experiência de ver nossos opositores ganharem (...) e de aceitar essa situação". Acrescento que é também a experiência de ser apenas um entre outros.

Nisso, as eleições são terapêuticas, pois não há cura para a dor de viver que não peça justamente que desistamos de considerar que somos extraordinários, onipotentes e únicos.

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

Controlar e regulamentar

Regulamentar está na moda.

Nos últimos tempos, 1) o governo propôs a criação de uma agência nacional que fomentaria e fiscalizaria a produção cinematográfica e audiovisual; 2) o presidente da República apoiou repetidamente o projeto de instituir um Conselho Nacional de Jornalismo que exala um perfume de censura; 3) o Conselho Federal de Psicologia apresentou um novo código de ética, segundo o qual os psicólogos teriam a obrigação de denunciar os pacientes que cometessem ou relatassem atos violentos e ilícitos; 4) tramita no Senado um projeto de lei segundo o qual qualquer diagnóstico e qualquer indicação de tratamento seriam atos reservados ao médico. Na semana passada, aliás, profissionais e estudantes de várias categorias da saúde (farmácia, fisioterapia, educação física, enfermagem, fonoaudiologia, nutrição, psicologia, odontologia, biologia, biologia médica etc.) manifestaram-se contra o projeto pelo Brasil afora.

Essas propostas, concebidas supostamente para o bem da comunidade, ferem a liberdade dos indivíduos sem que apareça com clareza a necessidade desse sacrifício.

Tomemos o caso da lei do ato médico. Imagine: estou com câncer e acredito nos poderes de uma terapia oriental pela queima de incenso ou na eficácia de operações espirituais. Você é médico e aprendeu que nada disso funciona. Você tem o direito e o dever de me informar. Pode também excluir essas práticas da lista dos procedimentos oferecidos pela assistência pública, pois é lógico que a dita lista seja estabelecida segundo o consenso majoritário em matéria de saúde. Mas pergunto: é necessário que uma lei impeça meu sábio oriental ou espírita de praticar sua arte, de se dizer terapeuta e de propor seus serviços como cura?

Alguém dirá que a lei do ato médico nos protege contra a charlatanice. Respondo: a comunidade tem o dever de tutelar seus membros, mas será que isso a autoriza a legiferar sobre as escolhas dos cidadãos como se fossem menores? Além disso, os critérios da legislação não são simples.
A história da medicina é uma longa batalha entre idéias e práticas que se acusaram mutuamente de charlatanice.

Considere o eletrochoque. Em poucas décadas, essa prática terapêutica dos transtornos mentais deixou de aparecer como uma cura milagrosa e se tornou uma prática execrada. Hoje, alguns afirmam que o choque é eficaz em casos de depressão grave e resistente; outros querem bani-lo. Se fosse preciso legislar, faria sentido decidir que qualquer prática é legítima à condição que seu defensor seja médico?

Não é melhor não legislar e deixar que o paciente e seus próximos, uma vez informados, escolham livremente a terapia e o terapeuta?

Os espaços sociais, em sua maioria, são administrados pelas interações concretas que os indivíduos inventam; por que, de repente, tantos espaços necessitariam dos cuidados do legislador? De onde vem essa epidemia de propostas que querem nosso bem e comprometem nossa autonomia?

Na "Veja" desta semana, Roberto DaMatta afirma que o governo do momento tem duas faces: uma face que acredita no indivíduo como valor e uma face pela qual a organização do coletivo (sindicatos, corporações, conselhos etc.) seria mais importante do que as pessoas concretas. Em suma, uma face que acredita nas cabeças, e outra que acredita mais nos bonés.

É uma luta que dura desde o começo da modernidade. Num canto, Adam Smith, com a idéia de que é preciso legislar pouco, pois os indivíduos encontram jeitos de conviver à força de acertos e desacertos. No outro, Rousseau, com a idéia de que é preciso estabelecer uma vontade geral, extrair regras "certas" da confusão de nossas vidas e impô-las a todos.

Atualmente, Rousseau parece prevalecer na administração de nossa vida concreta. É estranho que isso aconteça logo hoje, quando Adam Smith prevalece na hora de o governo fazer suas escolhas econômicas fundamentais.
Surge a suspeita de que se manifeste aqui um mecanismo que, no passado, transformou muitos revolucionários em burocratas: não conseguiram mudar as grandes estruturas do mundo segundo seus desejos, mas se dedicaram a regulamentar a vida cotidiana minuciosa e opressivamente. Ou seja, sonharam em vão com um mundo radicalmente feliz e passaram a instituir regras para mil casos em que seria melhor "deixar como está para ver como fica".

Eis uma constatação banal em psicopatologia. Há pessoas que regulam sua própria vida a ponto de transformá-la num pesadelo de obediências. Alguém só pode virar à esquerda se ele chegar na esquina com o pé direito; outro só pode pagar se tiver o troco exato no bolso. Em geral, os sistemas de regras são mais complexos. De qualquer forma, essas pessoas, algozes de sua própria liberdade, têm um traço em comum. Quase sempre, elas carregam consigo a lembrança ou a fantasia de uma imensa felicidade que lhes foi retirada ou com a qual sonharam e que não aconteceu. Em geral, o excesso de regras que elas impõem a suas vidas tem uma dupla função.

Serve para consolar: perdi o paraíso, mas continuo controlando o mundo. E serve para proteger: a lembrança do paraíso perdido é tão forte que minha vontade de reencontrá-lo me atropelaria se eu não regrasse cada passo de meu caminho.

Difícil não perguntar: alguma relação com a atual paixão de regulamentar a vida?

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

"Cama de Gato"

"Cama de Gato", de Alexandre Stockler, estréia amanhã em São Paulo, Rio e Brasília. Espero que chegue logo ao resto do país. Assisti ao filme no sábado à noite, numa pré-estréia, e desde então ele cresce na lembrança.

Conselho a adolescentes, pais, educadores e outros interessados na adolescência: não percam.

O filme chega com duas reputações.

A primeira é a de ser escabroso. Bom, se a visão de dois pintos e um momento de sexo oral forem incômodos para você, feche os olhos e agüente firme: o resto compensará seu esforço.
A segunda é a de ser uma versão brasileira e pobre de "Kids" (filme de Larry Clark, de 1995). Ora, "Cama de Gato" tem uma qualidade moral decididamente superior à do filme de Clark.

Lembra de "Kids"? A gente saía com uma sensação contraditória: o filme inspirava um tipo de horror pela vida violenta e vazia dos adolescentes retratados, mas também conferia à adolescência sem rumo dos protagonistas uma dimensão inevitavelmente glamourosa. Era difícil ser adolescente, ver "Kids" e não querer para si os espasmos desesperados dos "teens" de Washington Square.

Alguns dirão que esse é o efeito sedutor da pátina hollywoodiana. "Cama de Gato" não produziria esse efeito graças à sua filmagem áspera, em vídeo (filmagem, aliás, que eu achei particularmente feliz). E graças a uma montagem que não deixa o tempo de sonhar com identificações possíveis, pois a narração é entrecortada por rápidas entrevistas de adolescentes "reais" ou pela aparição dos três personagens assistindo a seu próprio filme num cinema. De fato, "Cama de Gato" é estilisticamente mais próximo de "Bruxa de Blair" do que de "Kids". Mas não são apenas o tom de documentário e o distanciamento "à la Brecht" que fazem a diferença.

Os três amigos do filme de Stockler são muito mais complexos que os adolescentes de "Kids". Por isso eles são mais próximos dos adolescentes de nossa classe média urbana. Como diz um dos protagonistas, eles são, socialmente, pobres demais para serem ricos e ricos demais para serem pobres. São estudiosos o suficiente para passar em seus vestibulares e decididos a conquistar com diligência um lugar ensolarado para suas vidas adultas. Preocupam-se com as injustiças do mundo no qual vivem. E sua soltura na hora da balada não impede que eles sejam "bons" filhos, que respeitam pais e mães.

É essa "normalidade" que torna escandalosa a outra face dos adolescentes "médios" de "Cama de Gato" -escandalosa não pela licenciosidade (a gente não vai se indignar com uma transa, quatro beijos de língua, um baseado ou mesmo uma linha de cocaína no banheiro), mas pelo conflito trágico que exaspera os protagonistas e os leva ao pior.

Mesmo assim, a tragédia e o conflito poderiam conferir às aventuras dos três amigos uma espécie de grandeza épica "invejável". A inquietude famélica de suas noites poderia ser glamourosa como as aventuras dos "Kids". Ora, "Cama de Gato" evita essa armadilha pela sua força cômica.
Assisti ao filme numa sessão da meia-noite. Ao nosso lado estavam sentados três adolescentes, talvez um pouco "fumados": sua hilaridade contagiante era a prova de que o filme os forçava a se enxergar de uma maneira que devia ser, ao mesmo tempo, certeira e dificilmente tragável. Ou seja, o filme, aparentemente, oferecia-lhes uma imagem na qual se reconheciam, mas com a qual não devia ser agradável identificar-se.

Para não contar o filme, direi apenas que, juntando várias cenas, saí presenteado por uma extraordinária imagem da adolescência. E vai levar um bom tempo para que eu encontre uma melhor.

A imagem é esta: três jovens amigos, errando de carro na noite, fumam raivosamente seus cigarros, talvez por medo de se acalmar; são licenciosos na fala e nos atos, mas prontos a escarnecer a prostituta ou o travesti que lhes fala de um desejo com o qual, de fato, não sabem bem como lidar; metralham considerações pernósticas sobre as mudanças das quais o mundo precisa, mas estão prontos a agredir o miserável, talvez por medo de se parecer com ele; enfim, carregam dois presuntos com os quais não sabem o que fazer. Um é, classicamente, o corpo materno, do qual é complicado se separar; o outro é o corpo de alguém que poderia ser uma companheira se, para os adolescentes, na ingrata tarefa de definir sua identidade, o grupo de amigos não fosse sempre mais importante do que as difíceis negociações de qualquer história de amor.

Também não me esquecerei tão cedo da imagem dos três amigos, perdidos no lixão como personagens de Beckett à espera de um Godot que não chega e que certamente não é o pai; pois os pais, pelo que é de encontrar o norte na hora do vamos ver, talvez sejam tão perdidos quanto seus filhos adolescentes.

Na mesma noite em que assisti a "Cama de Gato", vi (também imperdível) "Redentor", de Cláudio Torres, que, como Stockler, propõe seu primeiro longa. Os dois filmes têm um traço em comum: em ambos, o efeito cômico não é fruto de uma caricatura, não é efeito de nenhuma simplificação grotesca. Admiravelmente, em ambos os filmes, o cômico revela a diabólica complicação do mundo. Viva o cinema brasileiro.

quinta-feira, 9 de setembro de 2004

Um novo código para os psicólogos

Na Folha de domingo passado, uma reportagem de Fabiane Leite apresentava e comentava o projeto de um novo código de ética profissional do psicólogo, que será votado pela categoria em dezembro. Uma novidade inquietante concerne à questão do sigilo profissional.

Segundo o código em vigor, o psicólogo tem a (angustiante) liberdade de decidir em que circunstâncias extremas sua experiência e consciência podem exigir que ele quebre o sigilo e informe as autoridades competentes.

O novo código proposto adota o modelo norte-americano, pelo qual a quebra do sigilo não é um direito, mas um DEVER do profissional. O psicólogo será obrigado a informar a autoridade judiciária não só se ele for informado de um crime, mas quando ele achar que há risco ou ameaça para a integridade física ou psicológica de alguém. Se o dito alguém for criança, adolescente ou idoso, não será preciso que haja risco e ameaça, bastará a SUSPEITA.

Então, se você for psicólogo e não quiser que sua licença seja cassada, não hesite: caso seu/sua paciente declare que para ele/ela teria sido melhor não nascer (risco de suicídio, não é?) ou que seria bom estrangular o marido, a mãe ou a professora de matemática (risco de assassinato, não é?), ligue logo para a procuradoria. Espero que sejam criadas linhas 0800. Para facilitar o encaminhamento das denúncias, sugiro que a primeira triagem seja automática: se seu paciente pensou em suicídio, disque 1; se seu paciente pensou em assassinato, disque 2. Se ele pensou em assassinar a mãe ou o pai, disque 1; se ele pensou em assassinar você, disque 2.

A nova prescrição é catastrófica para qualquer prática psicoterápica. Na primeira entrevista, o psicólogo avisará: "Saiba que, se sua palavras acarretarem um risco, uma ameaça ou uma suspeita de perigo para a incolumidade física ou psíquica sua ou de outrem, informarei as autoridades. Agora fale livremente". Legal, não é?

De fato, como acontece nos EUA, funcionará um regime duplo. O psicólogo que trabalha em serviços comunitários considerará que sua responsabilidade é diante da comunidade; portanto ele encontrará no código o respaldo necessário para quebrar o sigilo sem tormentos excessivos. O profissional liberal continuará decidindo em seu foro íntimo. Conclusão: será institucionalizada a impossibilidade de tratamentos psicoterápicos dignos para pacientes de baixa renda.

Tomemos um caso real em que o novo código forçaria a informar as autoridades.

Uma moça se queixa de que o padrasto tentou seduzi-la. Será que se trata de fantasias em que pesam a recusa do novo marido da mãe e o ciúme pelo sucesso amoroso materno? Sei que qualquer moça, para tornar-se mulher, precisa encontrar (e recusar) algum indício de desejo no olhar do pai ou de quem ocupa seu lugar. Sei também que uma sedução efetiva pelo pai ou pelo padrasto produz um desastre psíquico: a moça se torna mulher, mas uma mulher sem pai. Afinal, se o pai me deseja realmente, ele não passa de um homem qualquer.

Então, denuncio o padrasto? O casal se separará (o padrasto indo eventualmente para a cadeia, por justa causa ou não) ou então a moça irá para um internato e, eventualmente, para outra família escolhida pelo tribunal. De qualquer forma, a moça se sentirá traída e punida por seu terapeuta. Falou de um receio, de uma fantasia ou mesmo de um fato de sua vida e o céu lhe caiu sobre a cabeça.

Segundo o código antigo, o tormento da decisão está com o terapeuta. Segundo o novo código, não tenho tempo para me atormentar: se me calo, sou cúmplice.

O único benefício certo do novo código é que o psicólogo será menos angustiado na hora de decidir sua conduta. Graças a Deus, agora ela é obrigatória.

Aos psicólogos que querem adequar o código brasileiro ao código norte-americano, sugiro a leitura do livro de Cristopher Bollas, "The New Informants".

Também importa lembrar que o psicoterapeuta (psicólogo ou não) tem o dever (isso sim) de interrogar-se sobre suas próprias motivações.

Ora, para evitar o exercício de nossa liberdade, inventamos estratégias sociais (leia-se, para começar, "O Medo à Liberdade", de Erich Fromm). E existem as estratégias singulares e patológicas pelas quais gostamos de transformar os direitos em deveres. Há sujeitos que só conseguem desejar por obrigação. Funciona assim, por exemplo. Alguém é obcecado por uma fantasia homossexual, mas não quer encarar seu desejo; preferem instituir uma regra: se ele chegar no limiar da sauna com o pé esquerdo, será obrigado a entrar. Sem isso, a entrada está proibida. Que alívio, não é?

Há mais. Entrevistado por Fabiane, Marcelo Del Chiaro, advogado do conselho regional de psicologia, declarou: "Tudo o que é ilícito deve ser denunciado. O que está se querendo é nortear um princípio quanto a isso". Entendi: terapia de toxicômano acontecerá só nos presídios.
É estranho. Eu esperava que qualquer psicólogo quisesse sobretudo escapar ao veredicto de Michel Foucault, segundo o qual é inelutável que os cuidados para com o bem-estar se transformem em formas insidiosas de controle social.

Aliás, outra leitura urgente: "A Vontade de Saber", de M. Foucault.

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

A corrida de Vanderlei Cordeiro de Lima

Vanderlei Cordeiro de Lima estava muito bem colocado para ganhar a maratona da Olimpíada de Atenas; depois de 36 quilômetros, corria com quase 40 segundos de vantagem.

Foi agredido, parado e derrubado pelo ex-padre Cornelius Horan, que estava ansioso por comunicar ao mundo sua mensagem. Fato incrível, Vanderlei encontrou a força e a concentração necessárias para retomar a corrida e conquistou o bronze.

Quanto a Horan, ele pagou uma fiança e, nesta altura, deve estar de volta à Inglaterra, acalmado pela breve prisão e por um antipsicótico. Se eu fosse juiz em Atenas, teria condenado o ex-padre Horan a correr uma maratona inteira movido a pontapés no traseiro. Isso, se fosse possível encontrar alguém que tivesse o fôlego para ficar atrás dele e lhe administrar a punição.

Durante dois anos de minha vida, pratiquei esporte de competição (nada de olímpico, apenas campeonatos universitários). Basta-me para ter uma idéia do que é o treino de um atleta como Vanderlei. Nada a ver com malhar para ficar bonito ou saudável. Certo, há o projeto de correr mais rápido que os outros, mas, no fundo, treinar é uma ascese que dispensa a promessa do paraíso ou da vitória. O treino é como uma obra de arte clássica; sua beleza está em sua aparente futilidade, no exercício de uma disciplina que não tem finalidade externa. O treino não transmite nenhuma mensagem urgente; ele "apenas" diz da capacidade humana de se engajar numa tarefa difícil. Por isso o treino é um exemplo moral: ensina que, para se dedicar a viver, não é preciso que a vida tenha um sentido.

Agora, imaginemos que o ex-padre Horan seja um profeta menos louco e confuso. Imaginemos que sua mensagem encontre nossa aprovação: qualquer coisa, desde o genocídio em curso no Sudão até a Aids na África ou a guerra no Iraque. Mais próximo do que ele mesmo deve pensar, imaginemos que se trate de uma espécie de segredo de Fátima que ele seria encarregado de transmitir e que poderia, se fosse escutado, tocar os corações de todos nós.

Pois é, você dirá, muito legal, seu Horan. Mas por que escolher logo aquele momento, com um maratonista brasileiro em primeira posição? Por que não foi para Nova York protestar na calçada da convenção do Partido Republicano?

Fora que, em Nova York, nestes dias, não faltam "Horans" de todo tipo, parece que o ex-padre tem um interesse específico por esporte. Já interveio numa corrida de Fórmula 1 e em jogos de rúgbi.

A competição esportiva deve ser o protótipo do que ele quer atrapalhar: "Parem de desperdiçar suas energias no esforço de correr ou bater bola; parem de torcer pelos atletas de seu coração. Acordem e façam algo mais útil para suas almas e para seus semelhantes".

Se o ex-padre Horan se dispusesse a escutar minha resposta, o que eu lhe diria?

Meus primeiros argumentos seriam uma defesa da vida concreta diante de exigências morais absolutas. É possível, eu diria ao ex-padre Horan, se importar com a guerra no Iraque e o genocídio no Sudão sem parar de viver histórias de amor, de ler romances, de tomar "capuccinos" na esquina, de cortar o cabelo, de treinar e de correr na próxima maratona.

Tentaria explicar ao ex-padre Horan que, certo, concordo: há coisas justas e coisas erradas e há coisas mais morais do que outras. Mas a vida, para nós, não é orientada por uma aspiração ou por um critério absoluto. Nossas escolhas são relativas não porque valeriam hoje e não amanhã, mas porque são concretas, relacionadas (é esse o sentido de nosso "relativismo") a realidades complexas e incertas, a do mundo e a nossa.

No entanto essas explicações conciliatórias talvez sejam enganosas. De fato, por concretas e incertas que sejam minhas escolhas morais, sei reconhecer a imoralidade. Pois acontece que a incerteza moral não é um "laissez-faire" ou uma forma de indiferença. Ao contrário, ela é para mim um valor essencial.

A meu ver, o ex-padre Horan, que não pesa na mesma balança a beleza da corrida de Vanderlei e a necessidade de conclamar sua fé, deu prova de uma inabalável certeza, que é o pecado moral supremo.

Em suma, a luta de Horan e Vanderlei é (como deve pensar Horan) a luta do bem contra o mal, só que (à diferença do que pensa Horan), nessa luta, Vanderlei é do bem, e Horan é do mal.
Nota, em clima de convenção do Partido Republicano em Nova York: é possível contrapor dezenas de razões pelas quais o governo americano devia ou não derrubar Saddam Hussein. Sempre há espaço para discutir sobre o certo e o errado. Mas o intolerável, o que é irremediavelmente errado, é a certeza moral com a qual a decisão foi argumentada.

Disse que a certeza moral é, para mim, o pecado moral supremo. Supremo, mas não por isso absoluto; a tal ponto que, justamente, posso desculpar o ex-padre Horan, porque entendo que seu gesto é o resultado da imponderável cadeia dos eventos concretos que constituem, banalmente, uma vida.

A Vanderlei, que conseguiu continuar a correr e sorrir no pódio, vão as felicitações e a glória devidas a um verdadeiro campeão.

quinta-feira, 26 de agosto de 2004

Quem tem medo dos moradores de rua?

Na madrugada de quinta-feira passada, no centro de São Paulo, dez moradores de rua foram atacados a cacetadas na cabeça durante o sono. Até hoje (terça-feira, quando fecho esta coluna), quatro morreram.
No domingo, novo ataque, do mesmo jeito e no mesmo lugar: morreram mais dois.

Fala-se dos mortos e dos que estão por um fio, mas não se fala das seqüelas para os feridos. Se eles têm pinos que não batem direito, paulada a mais, paulada a menos, qual a diferença? Quando reconheceremos que os loucos e os perdidos são sujeitos como nós?

Levantam-se hipóteses: foi a obra de sicários a mando de comerciantes querendo "limpar" a área? Ou um acerto de contas do tráfico de drogas?

Mas a imagem que me persegue é outra: um pequeno bando de assassinos, na madrugada, percorrendo o centro da cidade, enfurecidos e jocosos como personagens de "Laranja Mecânica", de barra na mão. No meu pesadelo, por escárnio, a primeira matança começou onde nasceu a cidade; vejo eles descerem pela rua São Bento e pela 15 de Novembro, levarem a morte para a praça da Sé e para a praça João Mendes, assassinarem com gosto o travesti Pantera, na esquina com a Tabatingüera. E vão embora pela rua da Glória.

No domingo, os mesmos ou outros voltaram para completar a obra. De onde veio o ódio necessário para erguer o bordão?

Não penso tanto no massacre da Candelária, que foi a tiros, quase profissional. Penso no índio Galdino, queimado vivo em Brasília em 1997, e na morte de Edson Neri da Silva, em 2000, logo na praça da República.

O assassinato de Galdino foi uma diversão para filhos de donos do poder. Colocaram fogo num índio como amarrariam uma serpentina ao rabo de um vira-lata: vamos ver se o animal grita e pula quando a coisa esquenta. O "passatempo" desses adolescentes mimados é diferente do ofício metódico dos assassinos de hoje.

Mas a história de Edson Neri da Silva pode ajudar a entender o que aconteceu na semana que acaba. Você lembra? Foi a obra de "skinheads" decididos a acabar com "uma bicha". Os massacres de homossexuais sempre falam da homossexualidade reprimida de quem mata. Sem exceção, os assassinos tentam abolir uma fantasia sua. Batendo no "veado" na rua, querem acabar com o "veado" que não os deixa dormir, o "veado" que está dentro deles.

É o mesmo ódio que anima os idiotas que passam de carro ao lado do Jockey Clube, à noite, para zombar dos travestis. Gritam injúrias para silenciar sua própria incerteza de gênero e sexo.

Ora, aposto que os assassinos desta semana são tão próximos dos moradores de rua quanto eram próximos de suas vítimas os "skinheads" da praça da República em 2000. Aposto que são sujeitos de uma pequena classe média que a falta de perspectivas ameaça com o espectro da miséria. Aposto que sua fúria homicida é a vontade de apagar a imagem de seu próprio futuro possível. Mataram moradores de rua para "festejar" sua diferença, da mesma forma que os "skinheads" de 2000 quiseram silenciar um desejo que os assombrava.

Na Folha de domingo, Gilberto Dimenstein citou dados recentes da Fundação Seade: em São Paulo, desde 1995, o desemprego entre jovens de 18 a 24 anos subiu de 18% a 30%. Gilberto comentava que tamanho desemprego é um dos "combustíveis da delinqüência". Esse combustível não leva só a assaltar quem tem mais; ele também leva a massacrar quem não tem nada, para esmagar a imagem de um destino que espreita.

O que fazer? Além de prender e punir, podemos inventar uma sociedade em que ninguém esteja a fim de matar a cacetadas o futuro que ele receia. E podemos lembrar que, nessa sociedade, alguém pode perder casa, renda, endereço, identidade e até o nome, mas nem por isso será esquecido, nem por isso parará de ser dos nossos.

Na São Paulo de meus sonhos, depois dos acontecimentos da semana passada, teria acontecido o seguinte. Espontaneamente, na noite de segunda-feira, os edifícios e as casas dos Jardins, de Perdizes, da Mooca, do Tatuapé, da Lapa, da Vila Mariana, do Sumaré, do Itaim etc. iriam se esvaziando. Um a um ou em família, os paulistanos sairiam às ruas, com um saco de dormir embaixo do braço, uma lanterna e uma garrafa térmica. E tomariam o caminho do centro. Nas praças e nas ruas por onde passaram os assassinos, eles se espalhariam, para passar a noite. A maioria não dormiria. Conversaríamos com o vizinho do momento ou ficaríamos acordados por medo dos ratos e das baratas que circulam nas sarjetas. Tanto faz. Seria um jeito de afirmar que a cidade é nossa, não da morte, e que, como qualquer cidade, temos nossos loucos e nossos perdidos: eles abandonaram a corrida, mas continuam parte de nossa comunidade.

Segunda à noite, centenas de representantes de entidades religiosas e de direitos humanos organizaram uma vigília pelas ruas do centro. O evento não ganhou as primeiras páginas, mas foi, até agora, a melhor resposta aos assassinatos.

Sejamos realistas, peçamos o impossível. Que tal decretar um dia em memória dos mortos desta semana e instituir uma tradição pela qual, a cada ano, passaríamos uma noite ao relento, ao lado de nossos moradores de rua?

quinta-feira, 19 de agosto de 2004

Proposta para a criação da Anlivimp

Li o projeto de lei que instituiria a Ancinav, Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual.

Fui conquistado pelos argumentos. Sugiro que o governo institua uma agência análoga para fiscalizar a produção e a difusão de ficção, ensaios e poesia: a Anlivimp, Agência Nacional do Livro e dos Impressos.

À diferença dos jornais e das revistas (que também é urgente monitorar), os livros atingem um número reduzido de cidadãos. Mesmo assim, eles influenciam, direta ou indiretamente, "os valores éticos, históricos, políticos e sociais cultivados pelo povo".

Portanto não podemos deixar que sua produção e difusão fiquem nas mãos dos autores (que são pessoas suspeitas, freqüentemente vistas em botecos) e das editoras (que podem ser ligadas a capitais estrangeiros e que sempre preferem os livros que se vendem bem). Ainda menos podemos confiar no critério dos leitores, que são profundamente alienados, visto que compram livros diferentes dos que nós gostaríamos que eles lessem.

Agora, para o bem da nação, a produção e a distribuição serão fiscalizadas de maneira a oferecer, não obras que fazem sonhar e que divertem, mas obras que apresentem "finalidades educativas, artísticas e informativas" e obras que protejam "os valores éticos e sociais da pessoa e da família". Com isso, o setor editorial evoluirá de maneira "harmônica com as metas do desenvolvimento social do país". É bom que essas indicações sejam vagas, de forma a justificar qualquer intervenção que a Anlivimp venha a julgar necessária.

Não se trata de instituir uma censura. Na regulação das atividades literárias e editoriais, "a liberdade será a regra, constituindo exceção as proibições, restrições e interferências do Poder Público". Como as leis repressivas são sempre decretadas como "leis excepcionais", seria melhor evitar o termo "exceção", pois a imprensa é maldosa e se pega a esses detalhes.

A Anlivimp promoverá a "produção independente" de obras "atentas à valorização da cultura brasileira e de suas peculiaridades regionais", assegurando "o direito dos brasileiros de ver e produzir sua imagem" nos textos escritos como no audiovisual. Graças aos fundos arrecadados com impostos e multas, a Anlivimp financiará obras recusadas pelas editoras dinheiristas e cosmopolitas. Um poema de 48 mil versos em rima, escrito por um conhecido meu e engavetado pela ganância das editoras, será enfim apreciado. O poema é como a gente gosta: regionalista e educativo, pois trata de uma épica luta sertaneja para parar de fumar. Seu título e primeiro verso (conhecido pelos sortudos que tiveram acesso à obra) é "O Cangaceiro de Aço Acabou Seu Maço".

A Anlivimp aumentará "a competitividade da produção" literária e editorial brasileira -tanto no país como no exterior.

No exterior, combinaremos nossas promoções editoriais com as promoções turísticas. Por exemplo, distribuiremos folders representando o Cangaceiro de Aço e uma sambista mulata, ambos sorrindo enquanto balançam a rede em que um turista estrangeiro toma uma caipirinha. Não é uma boa?

No país, a coisa vai ser fácil, pois, por sorte, o leitor brasileiro é pobre. Bastará aumentar o imposto sobre as obras estrangeiras para que ele escolha as nacionais. Ora, os livros e impressos de autores estrangeiros serão sujeitos ao Fome-Cultura (o imposto de Fomento Editorial), de 150%.

Serão fiscalizadas as vitrinas. As livrarias, sob pena de multa, reservarão 50% de seu espaço de exposição a autores nacionais, 30% a autores regionais locais, e só nos 20% restantes será permitido expor obras de autores estrangeiros.

A cada encomenda de livro de autor estrangeiro, as livrarias deverão comprar três exemplares de livros de autores nacionais. As pilhas acumuladas transmitirão ao público a impressão de um sucesso e o encorajarão a comprar.

Outro caso (que exigirá um Fome de 250%) é o dos impressos importados, particularmente perniciosos por ameaçarem a soberania da língua nacional. Sabemos de fonte autorizada que 30% dos impressos vendidos pela livraria Cultura são em língua estrangeira. No lançamento do último volume da série de Harry Potter, a livraria vendeu mais de mil exemplares da edição em inglês só em São Paulo. Para onde vai a nação, se os jovens, que mal aprenderam a língua portuguesa, já lêem numa outra língua? Isso sem considerar que as histórias de Harry Potter, como mostrou um francês (melhor não citá-lo no texto definitivo; afinal, é um estrangeiro), talvez não estejam em harmonia com nossas metas e não promovam os valores que nos importam.

O Ministério da Cultura poderia também instituir a Andim (Agência Nacional do Disco e das Músicas), para fiscalizar a produção e a difusão de gravações de músicas e intérpretes estrangeiros ou de intérpretes nacionais em língua estrangeira (caso mais grave ainda). Seria ingênuo subestimar a influência da música sobre os costumes etc.

1) Esta coluna é irônica. Voltarei ao assunto para tentar entender a paixão de fiscalizar que, às vezes, se apodera de quem governa.

2) As citações são extraídas do preâmbulo e dos artigos 1 a 8 do projeto de lei que instituiria a Ancinav.

quinta-feira, 12 de agosto de 2004

Preâmbulo sobre o projeto de fiscalizar cinema e audiovisual

Na rua, esbarro nos restos de um assalto. Na roda de curiosos que espera a chegada de uma viatura da polícia, ferve um debate. Há o partido da cesta básica: só voltaremos a ser donos de nossas ruas quando, enfim, todos tiverem o que comer. E há o partido da bala básica: não adianta oferecer desculpas, criminoso é criminoso, mate logo.

Conclusão majoritária: o problema é duplo, faltam as cestas e faltam as balas nos revólveres da polícia.
No dia seguinte, um amigo, que se prepara para ser professor e está terminando seu estágio, comenta que uma coisa é óbvia em matéria de disciplina: não adianta que um professor mande alunos para a diretoria a cada aula. O que adianta é a qualidade do ensino. A mesma turma é infernal com um professor duríssimo, mas pouco preparado, e ordeira com outro professor, que nunca levanta a voz, mas transmite uma matéria interessante.

Relaciono a observação do amigo com a conversa na roda do assalto. Se tomarmos a disciplina escolar como exemplo, podemos perguntar: como é mantida a ordem que permite uma boa convivência social? A ameaça de expulsão e a merenda escolar são indispensáveis, mas não bastam. É necessário um outro tipo de alimento, mais "espiritual".

Olho pela minha janela: torres, edifícios, casas, as antenas dos prédios da Paulista. Somos muitos, diferentes e amontoados num espaço exíguo. O que faz com que a gente consiga conviver? Certo, a polícia acaba reprimindo os que são excluídos a tal ponto que lhes falta o mínimo para viver (conviver é o último de seus problemas). A polícia também cuida dos que não são excluídos, mas não querem saber de convivência.

No entanto, não é por medo da polícia que não enveneno o cachorro da vizinha, que late a noite inteira (o cachorro, não a vizinha). Não é por medo da cadeia que trabalho em vez de inventar um esquema fraudulento.

O que torna possível a convivência é outra coisa. É um patrimônio comum de coisas humildes e sublimes, chatas e bonitas, banais e extraordinárias: vozes do rádio, imagens da televisão, filmes, livros nas bibliotecas e nas livrarias, quadros nas salas e nas galerias, jornais nas bancas, poesias e romances lidos ou que ninguém leu e ficam no fundo das gavetas, orçamentos do mês, bate-papos noturnos de internautas, conversas nos botecos, jogos de cartas, torcidas de futebol e receitas de bolo.

Esse saco de gatos, que se chama cultura, é também um saco de normas, hábitos e costumes que praticamos sem perceber. A sociedade é complexa, e ninguém saberia compilar o código dessas regras, mas, sem elas, viveríamos num pesadelo, em que só a repressão nos defenderia da barbárie.

O professor que cativa seus alunos pela qualidade de sua aula está cultivando-os, fornecendo-lhes o necessário para uma convivência social possível.

Em suma, conviver exige inclusão (pão para todos), repressão normativa e riqueza de uma cultura compartilhada.

Os bons governos administram a repressão necessária (que não pode ficar nas mãos dos cidadãos), promovem a inclusão (tarefa assistencial) e, quanto à riqueza cultural, limitam-se a fomentá-la, pois sabem que é graças a ela que a sociedade se auto-regula (com acento sobre "auto"), é graças a ela que a ordem social pode dispensar a repressão.

Essas funções do bom governo devem ser mantidas separadas. Por exemplo, não se recusa assistência médica a um preso nem cesta básica à família indigente de um assassino.

Ora, o Ministério da Cultura acaba de formular um "rascunho" de lei para criar uma Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual. O preâmbulo, que expõe os motivos do projeto, manifesta uma ótima compreensão da função da cultura. É dito que o cinema e o audiovisual definem "padrões de comportamento social" e são "a forma mais rápida e eficiente" de circulação dos "valores éticos, históricos, políticos e sociais cultivados" pelo povo.

No entanto, uma vez reconhecida a relevância da cultura na vida da nação, o projeto quer demonstrar que é fundamental criar "meios de controle e fiscalização das atividades cinematográficas e audiovisuais".

É como se um inspetor pedagógico, ao se dar conta de que, numa aula, os alunos se interessam e se cultivam, confundisse fomentar com reprimir e anunciasse: "Vocês gostaram muito das aulas sobre a era Vargas; a partir de amanhã, quem, numa redação, disser que Vargas não era bonito ficará sem caderno. Na recidiva, tirarei a caneta também". Na aula seguinte, ninguém prestará atenção. Na bagunça, só sobrará o recurso da disciplina.

O redator do preâmbulo imagina que, controlando e fiscalizando a produção cultural, seja possível instalar nos cidadãos os hábitos e costumes desejados (por ele). Parece pensar: "Se há normas, devo ser eu quem as dita".

Ora, como a história cansou de mostrar, não se controla a produção cultural; quem quer controlá-la e fiscalizá-la só consegue torná-la clandestina ou matá-la.

Esse é o meu preâmbulo. O governo deixou 60 dias para que a sociedade civil discuta o "rascunho". Como sou civil e faço parte da sociedade, quero contribuir.

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

Campanhas para eleitores reprimidos e narcisistas

As campanhas eleitorais são sempre um pouco humilhantes.

O mais freqüente é que elas apostem na idéia de que nós, eleitores, seríamos burros e mal-informados. Mas podem também apostar na idéia de que seríamos reprimidos ou fundamentalmente narcisistas. Antes de ilustrar esses casos com exemplos, uma observação.
No dia em que um candidato passar a nos tratar como gente grande, acredito que ganhará votos, seja qual for seu plano.

Sonho que alguém apareça na tela e diga: "Salvo exceções que explicarei, meus concorrentes são pessoas tão qualificadas e bem-intencionadas quanto eu. Temos em comum a vontade de fazer o que nos parece melhor; é claro, dentro do possível, que sempre é menor que o necessário. Somos todos, é óbvio, animados por uma ambição descomunal; sem isso, não estaríamos aqui. Mas nosso gosto pelo poder é corrigido pela vontade de servir o interesse público.

Agora, temos diferenças, sobre as quais, você, eleitor, deve se pronunciar.

É raro que as diferenças sejam de fundo (ninguém, hoje, promove projetos revolucionários). Quase sempre, são questões de prioridade (maneiras divergentes de decidir o que é mais urgente) ou de meios (concepções conflitantes de como chegar a resultados parecidos).
Pode ser que a propaganda eleitoral de meus sonhos nos mate de tédio, à força de argumentações sensatas. Mas ela teria suas vantagens.

Primeiro caso. Recentemente, a campanha de José Serra (candidato que tenho em grande estima) achou bom publicar em seu site na internet uma charge contra Marta Suplicy, intitulada: "Dona Marta e seus dois maridos". A idéia era levantar nossa indignação porque Marta visitou umas obras em companhia de seu ex-marido, o senador Eduardo Suplicy, o qual apóia a campanha de sua ex-mulher.
O texto queria que exclamássemos: "Hã! Marta quer a presença de Eduardo porque ele é muito amado em São Paulo!" (pois é, deveria fazer o quê? Convidar Fernandinho Beira-Mar? Não é normal que um candidato peça o apoio de quem tem a confiança dos eleitores?). Subentendido: "Se ela queria o apoio de Eduardo Suplicy, por que não continuou casada com ele, eh?" (quer dizer o quê? Será que cada candidato deve casar ou, quem sabe, passar noites de paixão com todas as figuras públicas que compartilham suas idéias e apóiam sua campanha? É esta a idéia: nada de palanque sem casamento ou coisa parecida?).

O fundo da mensagem proposta é, obviamente, que a Marta se saiu excessivamente bem; como diz o ditado, ela conseguiu ficar com o leite e com o queijo (com seu novo casamento e, mesmo assim, com o apoio de Eduardo). Imagine: não só ela se separa e volta a casar, mas mantém com seu ex-marido uma relação suficientemente amistosa para que o ressentimento não impeça um engajamento comum.

Essa "constatação" deveria inspirar nosso desgosto e levar-nos a votar alhures. Por quê? Fácil: porque é muita coisa, ou melhor, são coisas que muitos querem e não conseguem fazer. Mas pouco importam os detalhes; o que vale nesse apelo um pouco escroto é que somos chamados a votar contra quem "goza" demais.

Em geral, a birra inspirada pelos supostos "prazeres" dos outros tem esta motivação: detestamos os que alcançam o que nós não nos permitimos porque temos raiva de nossas próprias limitações. Em suma, a charge contra Marta pedia que nosso voto fosse inspirado pela repressão que impomos (ou que é imposta) a nossos desejos. Era um apelo aos eleitores reprimidos.

Outro caso, agora americano. No dia posterior à convenção democrata, um provedor de internet dos EUA pediu a seus assinantes que se pronunciassem sobre algumas citações dos discursos da convenção do Partido Democrata. As frases partidárias receberam, sistematicamente, 50% de votos a favor e 50% contra. É claro, a sociedade americana é politicamente dividida ao meio; se os democratas gostavam, os republicanos não gostavam. Mas havia uma citação (do discurso de Barack Obama) que dizia: "Não existem uma América progressista e uma América conservadora, existem os Estados Unidos da América". Essa frase levou 87% de aprovação.

Patriotismo genérico dos eleitores? Parece-me mais provável que os eleitores estejam cansados de serem contrapostos coletivamente. Talvez se lembrem do seguinte: o que eles compartilham de mais relevante não são as camisetas e os chapéus dos partidos, mas o barco no qual estão todos e para o qual se trata de inventar a melhor rota possível.

Ser democrata, republicano, serrista, malufista ou "martista" é uma maneira de abdicar de boa parte de nossa subjetividade em favor de uma identidade de grupo. É uma maneira de votar com a paixão narcisista de ser sempre igual a si mesmo e a alguns outros que são iguais à gente.

Pois é, eu (e não devo ser o único) preferiria que as campanhas me encorajassem a votar com meus sonhos e meus desejos, não com a raiva de minhas repressões nem com o conforto duvidoso de minhas identificações de grupo.

quinta-feira, 24 de junho de 2004

"Cazuza"

Estreou, na semana passada, "Cazuza - O Tempo Não Pára", de Sandra Werneck e Walter Carvalho.

O desfecho trágico da história é conhecido por todo mundo. Apesar disso, ela me proporcionou momentos de grande alegria. Mas não é só isso, não é só uma questão de momentos.
O filme me deixou numa espécie de felicidade pensativa. Tento explicar por quê.

Cazuza mordeu a vida com todos os dentes. A doença e a morte parecem ter-se vingado de sua paixão exagerada de viver. É impossível sair da sala de cinema sem se perguntar mais uma vez: o que vale mais, a preservação de nossas forças, que nos garantiria uma vida mais longa, ou a livre procura da máxima intensidade e variedade da experiência? Melhor viver a mil (e menos tempo) ou viver com moderação (e mais tempo)?

Digo que a pergunta se apresenta "mais uma vez" porque a questão é hoje trivial e, ao mesmo tempo, persecutória. É melhor ficarmos acordados até tarde pelo prazer da companhia ou voltar logo para casa e para a cama, já que, de manhã cedo, será a hora da esteira e da bicicleta? Vamos transar no domingo à noite ou será que a segunda é um dia muito pesado?

Obedecemos a uma proliferação de regras que são ditadas pelos progressos da prevenção. Ninguém imagina que comer banha, fumar, tomar pinga, transar sem camisinha e combinar, sei lá, nitratos com Viagra seja uma boa idéia. De fato, não é.

À primeira vista, em suma, parece lógico que concordemos sem hesitação sobre o seguinte: não há ou não deveria haver prazeres que valham um risco de vida ou, simplesmente, que valham o risco de encurtar a vida. De que adiantaria um prazer que, por assim dizer, cortasse o galho sobre o qual está sentado?

Mas, por trás dessa obviedade, esconde-se um estranho momento na história da moralidade. Durante muitos séculos, constatamos que a carne era fraca e que o espírito tinha sérias dificuldades em conter seus ímpetos. Ultimamente, encontramos uma solução elegante: delegamos à carne a tarefa de controlar a carne. A experiência dos prazeres deveria ser contida porque é anti-higiênica, biologicamente nociva, ruim para o corpo.

Por mais que a coisa faça sentido, ela não deixa de ser curiosa. No fundo, se admitirmos por um instante que nossa escolha moral nos define, chegaremos à conclusão de que homem bom é aquele que se resguarda; o mérito humano não dependeria das coisas e causas pelas quais arriscamos a vida, o mérito seria preservar a vida de qualquer forma.

Navegamos entre os mal-encarados que nos intimam "A bolsa ou a vida!" e os bem-encarados (bem demais) que nos intimam "O prazer ou a vida!". Ambos prefeririam que escolhêssemos ficar com vida. Eles têm razão, pois quem perde a vida perde também a bolsa ou o prazer. Mas acontece que, ao responder a essa intimações, dizemos sobretudo o que caracteriza nossa vida, o que faz que ela, aos nossos olhos, valha a pena: por exemplo, a bolsa, o prazer ou um tempo suplementar.

Os jovens têm uma razão básica para desconfiar de uma moral prudente e um pouco avara que sugere que escolhamos sempre os tempos suplementares. É que a morte lhes parece distante, uma coisa com a qual a gente se preocupará mais tarde, muito mais tarde. Mas sua vontade de caminhar na corda bamba e sem rede não é apenas a inconsciência de quem pode esquecer que "o tempo não pára". É também (e talvez sobretudo) um questionamento que nos desafia: para disciplinar a experiência, será que temos outras razões que não sejam só a decisão de durar um pouco mais?

Cuidado: o filme não é uma diatribe contra a "vida louca" ou a favor dela. Tampouco ele faz desse dilema uma tragédia. Ao contrário, ele contempla nosso desamparo moral com uma ternura parecida com a dos pais do próprio Cazuza (admiráveis Marieta Severo e Reginaldo Faria). É esse carinho que mantém nosso sorriso.

O amor dos pais de Cazuza pelo filho, aliás, constitui uma das tramas mais tocantes da história. Haverá alguém para achar que Cazuza ainda estaria entre nós, se eles tivessem controlado seu filho com rigor. Outros observarão que, se isso tivesse acontecido, Cazuza nunca teria existido. Provavelmente ambos têm razão. O que significa querer que nossos filhos vinguem? É justo deixar que, pela intensidade de seus desejos, queimem a vida como um cigarro? É certo forçá-los a respeitar nosso desejo de morrermos antes deles acima das paixões que podem consumi-los? Não conheço um pai que, alguma vez, não tenha se colocado essas perguntas.

O filme é imperdível para quem é ou já foi adolescente um dia, para quem é (ou será) pai de adolescente e, em geral, para quem se pergunta ou se perguntou um dia qual é o critério do bem ou do mal quando a paixão de viver é tamanha que ela ameaça nossa própria vida.

Resta agradecer a Daniel de Oliveira por sua performance no papel de Cazuza, assim como a Fernando Bonassi e Victor Navas pelos diálogos.

quinta-feira, 17 de junho de 2004

Guerras íntimas

Trégua de política nacional e internacional. E volta às guerras íntimas.

A ocasião surgiu na semana passada, quando eu estava atendendo um casal briguento e, como de costume, tentava propor uma mediação.

Em regra, nas brigas, a gente age como aquele jogador que está perdendo e dobra raivosamente as apostas até, num último gesto, colocar em cima da mesa sua camisa, seu cachorro e sua aliança: a perspectiva de uma catástrofe conclusiva nos fascina com uma falsa promessa de paz no fim do túnel.

É banal, portanto, que, ao ser consultado por um casal em crise, o terapeuta tente acalmar o jogo.
Era o que eu estava fazendo, quando, de repente, o marido me interrompeu com uma certa irritação: "Mas quando você considera que um casamento não vale mais a pena?".

A pergunta me pegou. E gostaria de tentar responder.

Todos vivemos, de uma maneira ou de outra, um conflito entre o que desejamos e o que nos permitimos desejar. E é bom que seja assim. Se nos autorizássemos tudo o que queremos, a vida e a convivência social seriam complicadas.

Em outras palavras, é normal que a gente navegue num equilíbrio mais ou menos precário entre os desejos que brotam (devaneios, projetos, tesões) e as mil vozes (conscientes ou inconscientes) que nos inibem, que nos pedem procrastinação e desistência ou, simplesmente, que propõem escolhas diferentes.

A indústria farmacêutica conhece bem esse conflito básico; seus maiores sucessos comerciais são remédios que tentam balancear as duas vertentes. A Ritalina para quem não consegue focalizar os esforços, de tanto que seus desejos proliferam; os antidepressivos para quem não deseja o suficiente, de tanto escutar as vozes que aconselham a abstenção, a espera, a prudência e a preguiça.

É irônico, aliás, que, depois de alguns séculos de modernidade (de dois a cinco, segundo a data que a gente escolha para começar a contar), sejamos reduzidos a delegar à química a tarefa de disciplinar o desejo. Mas esse é outro assunto.

Recursos químicos à parte, o conflito em questão produz quase sempre projeções. Ou seja, é freqüente que, para evitar os tormentos da contradição interna, atribuamos aos outros (em particular, aos que nos são mais próximos, mas também ao mundo em geral) a função de nos impedir de desejar além da conta.

São aquelas lamúrias: queria mesmo ser trompetista, mas não deu porque é uma carreira incerta e é preciso pagar a mensalidade da escola das crianças; queria passar as noites nas casas de suingue, mas não ficaria bem para minha mulher se encontrássemos alguém que a conhece; queria passar o dia como uma amélia, cozinhando geléias naturais e bolos de chocolate, mas meu marido quer uma boneca de luxo.

É claro que nós mesmos preferimos a família ao trompete, a respeitabilidade ao suingue e a vida urbana à geléia. Mas é mais fácil encarar nossas desistências transformando os outros em imaginários carrascos de nosso desejo: "Foi por causa deles".

É banal, portanto, que, num casal, cada um considere que o parceiro e o casamento são responsáveis pelas renúncias. "Se não tivesse casado tão cedo, hoje seria atriz", e fica pudicamente esquecido que a futura atriz preferiu casar a encarar filas, testes, provas e fracassos.

Essas acusações, triviais numa crise, não constituem uma boa razão para descartar a relação. Ao contrário, é graças a essas acusações recíprocas que cada um poderia encontrar (e, eventualmente, confirmar ou amenizar) as defesas que ele mesmo inventou para evitar um de seus desejos. Brigando com o outro, que quis um filho logo e, "portanto, acabou com minha carreira de cantora lírica", ganho uma chance de descobrir que, de fato, eu mesma quis ter um filho e que ainda me debato com o preço que esse desejo me custou (a carreira de cantora lírica, que, aliás, talvez eu não tivesse a coragem de peitar). Em suma, acusando o outro, consigo brigar com minhas próprias contradições, preguiças, inibições ou covardias.

Em geral, quando as separações acontecem porque acusamos nosso parceiro de ser um obstáculo em nossa vida, o prognóstico é péssimo. Se o outro era a tela na qual eu projetava impedimentos que eu mesmo invento, é quase garantido que projetarei os mesmos impedimentos no parceiro de minha próxima relação. Em vez de separar-se, seria melhor se dar o tempo e a coragem de aproveitar o dissídio e lidar com aquela parte de mim que me incomoda e que meu parceiro me faz o favor de encarnar.

Então, como responder à pergunta do marido? Será que nenhuma separação se justifica?

Não é bem assim, pois acontece, às vezes, que um dos parceiros vista com gosto a camisa que lhe é oferecida, ou seja, acontece que ele ou ela achem graça em colocar limites ao desejo do outro.

A diferença é pequena, mas decisiva e fácil de ser constatada: tudo depende de quem fala. Se eu me queixo de que o outro me impede de ser rei da China, muito bem, é minha projeção; melhor perseverar e, quem sabe, descobrir, na briga, por que eu mesmo não me mudei para Pequim. Mas, se meu parceiro se queixa de que tenho o extravagante desejo de ser rei da China, o casal está próximo de sua falência.

Pois, afinal, um casal existe para ampliar, não para limitar o campo do que cada um é capaz de sonhar.

A união, como prega o ditado, deveria fazer a força.

quinta-feira, 10 de junho de 2004

Benfica e a Funai da marginalidade

Entre os mortos do motim da Casa de Custódia de Benfica, no Rio de Janeiro, havia dois presos condenados "só" por dano e furto. É óbvio que eles deveriam estar cumprindo sua pena num outro lugar ou, se esse outro lugar não existe, em regime aberto. É triste que a Justiça funcione de maneira abstrata, fingindo ignorar as condições e os riscos objetivos do cárcere onde ela encerra os condenados.

Mas será que é sempre desejável que a administração da Justiça se dobre a exigências práticas?
A matança de Benfica começou quando um grupo de rebelados do Comando Vermelho invadiu o andar onde cumpriam sua pena os membros do Terceiro Comando. Provavelmente, o horror teria sido evitado se os condenados fossem divididos em cárceres diferentes, segundo a organização criminosa à qual eles declaram pertencer (Amigo dos Amigos, Terceiro Comando, Comando Vermelho etc.). É uma consideração prática: o Estado é responsável pela vida de quem está sob sua custódia, portanto (já que nossos recursos são limitados) adotemos disposições que tornem menos custoso garantir a segurança dos presos. Faz sentido.

No entanto, sou sensível ao argumento de Astério Pereira dos Santos, secretário da Administração Penitenciária do Rio: quem manda na prisão deve ser o governo, não as organizações criminosas.

Aceitar o princípio da divisão dos presos segundo suas facções é uma maneira de considerá-los estrangeiros à nossa comunidade. Como é isso?

Um exemplo: na hora de instituir reservas indígenas, ninguém propõe um mesmo espaço para tribos que tradicionalmente se odeiam e se matam com gosto. Essa escolha se impõe porque pensamos que é nosso dever respeitar o que sobrou das culturas indígenas, ou seja, porque o projeto de nossa comunidade, no que concerne aos índios, não é sua integração como cidadãos quaisquer. Por paixão etnográfica ou pela culpa da conquista e do extermínio passados, os índios são, para nós, um mundo separado, com regras próprias, que queremos preservar.

Ora, será que os criminosos, em nosso país, são afastados do projeto de uma cidadania nacional a ponto de que a Administração Penitenciária deveria se tornar uma espécie de Funai da marginalidade?

A comparação é aproximativa. Uma verdadeira Funai da marginalidade operaria antes do encarceramento; erigiria muros entre as favelas, delimitando espaços autônomos, cada um dominado e administrado por uma facção. A divisão nos cárceres é mais parecida com a organização de um zoológico, em que animais inimigos são guardados em jaulas distintas e afastadas (para seu próprio bem, naturalmente).

O pressuposto, em ambos os casos, é o mesmo: marginais e criminosos não fazem parte de nosso mundo. É preciso, de uma maneira ou de outra, mantê-los em seu hábitat natural, que pode ser diferente segundo as "espécies" (os ursos brancos não convivem com os ursos negros).

Quais são os argumentos que se opõem à idéia de um mesmo cárcere para todos?

Há o pragmatismo já mencionado: a gestão da prisão será mais fácil se os presos forem divididos em cárceres diferentes, segundo suas facções.

E há a consideração seguinte. A exclusão social é um processo antigo, pelo qual nossa coletividade é responsável. É irrisório que, logo na hora da prisão, a comunidade nacional se lembre de que seu projeto deveria valer para todos e imponha pelo cárcere comum uma igualdade de direito que é desmentida fora da prisão. Vocês são bichos, tratamos vocês como tais e pouco fazemos para que se tornem gente, mas pretendemos forçá-los a ser cidadãos como nós na hora de enfiá-los numa jaula. Irônico, não é?

Sobre o debate, paira uma reflexão cínica que é freqüente nestes dias: será que o governo carioca não inventou a fórmula certa? Coloque-os todos juntos, feche os olhos e deixe que se matem. Ninguém poderá dizer que houve uma chacina de Estado, tipo Carandiru, e o resultado será o mesmo: a solução para a sobrecarga da população carcerária e uma economia de dinheiro público. Cá entre nós, não dá para dizer que foi uma grande perda para nossa sociedade, não é?

Pois é, o que aconteceu em Benfica constitui ou não uma perda para nossa sociedade?

Não se trata de discutir sobre a promessa e o valor das vidas que foram perdidas. Sei que eram perdidas há tempo; ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que o cárcere teria reabilitado os presos que morreram e os teria devolvido à comunidade como cidadãos.

A perda que nos espreita é outra. Se tratarmos os marginais como índios, "respeitando" suas tribos, teremos que admitir que o Brasil não é nem o projeto de uma Belíndia, mas o teatro de uma guerra entre duas nações distintas, Bélgica e Índia.

Se desrespeitarmos as tribos na esperança de que as prisões se tornem assim matadouros da escória social, nossa Justiça será apenas uma arma de extermínio no conflito entre as ditas duas nações.

Para não perder o rumo de um projeto nacional, resta um caminho árduo. Consiste em encarcerar os presos não como membros de uma ou outra facção criminosa, mas como cidadãos. E em fazer (em gastar) o que é preciso para que, mesmo assim, seja garantida a segurança de todos.

quinta-feira, 3 de junho de 2004

Paranóias e conspirações

Ainda bem que, de vez em quando, alguém me "informa" direito (as aspas significam que estou sendo irônico; melhor dizer, nunca se sabe).

Por exemplo, você sabia que, entre o 11 de setembro de 2001 e o dia dos atentados de Madri, passaram-se exatamente 911 dias? Ora, 9-11 (setembro-11) é, nos EUA, a abreviação da data do ataque ao World Trade Center. Mas não pense que se trate apenas de uma "óbvia" assinatura da Al Qaeda. Não, isso é só o começo: 911 é o número telefônico que, em Nova York, serve para chamar a polícia em caso de urgência. Ironia dos terroristas? Fácil demais. Será que não é um criptograma que revela os verdadeiros autores do atentado? Não é a prova de que foi o governo americano que orquestrou o ataque que justifica a guerra em curso?

Você duvida? É porque você não sabe que, de manhã cedo, em 11 de setembro, milhares de judeus que trabalhavam nas torres gêmeas (sempre eles, ah?) receberam telefonemas anônimos exortando-os a não ir para o trabalho naquele dia. Está entendendo?

Outro exemplo. Você não estranhou o momento em que o "New York Times" publicou o artigo de Larry Rohter sobre a "preocupação nacional" brasileira com os hábitos alcoólicos do presidente Lula? Foi logo quando o Brasil acabava de ganhar a guerra dos subsídios agrícolas na Organização Mundial do Comércio. Quem tinha interesse em desacreditar o Brasil pelo mundo afora, ah? E se Larry Rohter fosse um agente da CIA há tempo escondido no Brasil para ser ativado de repente na hora de tamanha necessidade estratégica? Aliás, nem é preciso que ele seja um agente, pois é notório (não é?) que a imprensa americana é escrava do complexo político-militar-midiático do império. Rohter pode ter obedecido ao "New York Times", que, por sua vez, deve ter respondido a um daqueles telefonemas do governo que eles recebem a cada dia na hora de decidir a pauta.

Ao escutar pacientes paranóicos capazes de delírios organizados, é fácil constatar que um delírio não é necessariamente menos verossímil que outras crenças que não nos parecem delirantes. Por exemplo, a convicção de que Deus exige que os homens se transformem em mulheres para servi-lo melhor é tão verossímil quanto a idéia de que, a cada missa, a hóstia se transforma realmente no corpo de Cristo. A diferença é apenas esta: o projeto de mudar de sexo para servir a Deus não é coletivo, enquanto a transformação da hóstia (a transubstanciação) é uma fé compartilhada.

Os delírios são crenças que não conseguem se socializar.

Hoje essa diferença se tornou incerta. Graças à internet, qualquer delírio pode se tornar público, circular e conquistar adeptos. Logicamente, este é o argumento decisivo de quem delira: está num site na internet. E, olhe lá, é um site que recebe 12 mil visitantes por dia.

Mas a facilidade com a qual os delírios se socializam não explica sua extraordinária proliferação.
Em 11 de maio (de novo, o 11, viu?), chegou às livrarias americanas "The Rule of Four" (A Regra de Quatro), de Ian Caldwell e Dustin Thomason. Em duas semanas, o romance já é número três da lista dos mais vendidos. Conta a história de dois amigos que devem descobrir os arcanos de um texto renascentista (que existe e que é mesmo repleto de enigmas não resolvidos) para entender o que acontece ao redor deles e, enfim, salvar a pele. Em princípio, quem gostou de "O Código da Vinci", de Dan Brown (número um da lista há 60 semanas nos EUA e agora número um no Brasil), vai gostar de "The Rule of Four".

Os comentadores propõem uma genealogia que começa com "O Nome da Rosa", de Umberto Eco, e continua com esses dois romances recentes. De fato, os três livros têm em comum um gosto pela cultura da Idade Média (no caso de "O Nome da Rosa") ou do Renascimento (para os outros dois), épocas em que o mundo ainda era encantado, ou seja, percebido como um teatro de símbolos e signos que, uma vez decifrados, revelariam que os desenhos da providência divina se estendem, feito vasos capilares, até a periferia da criação. Naquela época, só vivia uma vida sem sentido quem não se desse ao trabalho de resolver as charadas inscritas em cada página do mundo.

Mas "O Nome da Rosa" conta uma história policial acontecida na Idade Média (por mais que ela tenha conseqüências em nossa cultura), enquanto "O Código da Vinci" e "The Rule of Four" nos propõem enigmas cuja solução explica os malogros do presente (para manter a filiação com Umberto Eco, os dois romances são mais comparáveis com "O Pêndulo de Foucault" do que com "O Nome da Rosa"). Em suma, o leitor de hoje gosta de enigmas porque eles confirmam que a bagunça de nosso mundo esconde um sentido.

Depois de dois séculos de individualismo realizado, estamos aparentemente cansados de cruzar os dedos esperando com Adam Smith que, por um acerto do acaso, as peripécias de nossas vidas singulares resultem num mundo minimamente ordenado e compreensível.

Somos animados pela mesma angústia que anima os delírios da internet, pois descobrimos, com razão, que a tragédia não é que poderosos e feiosos tramem e manipulem nas sombras. A tragédia, o intolerável é que os feiosos, exatamente como nós, são um atrapalhado exército de Brancaleone. E nossa história, como dizia o poeta, é um conto cheio de barulho e fúria, que não significa nada.

quinta-feira, 27 de maio de 2004

Os "tarados" de Abu Ghraib

Até agora, são sete (três mulheres e quatro homens) os reservistas americanos apontados como responsáveis pelos abusos praticados na prisão de Abu Ghraib.

O comando afirma que eles agiram por inspiração própria: uma vez essas maçãs podres retiradas da cesta, o problema estará resolvido. Muitos comentadores acham difícil acreditar que os soldados tenham agido sem a ordem ou, no mínimo, o encorajamento implícito de seus superiores.

Mas num ponto todos parecem concordar: os sete seriam um bando de tarados.

Já surgiu a pergunta de sempre: como foram fabricados os sete horrorosos de Abu Ghraib? A gente é tarado de nascença ou se torna tarado à força de infâncias e experiências traumáticas, infelizes ou, simplesmente, tortas? No caso, essa pergunta é sem pertinência; eis por quê.
Quinze anos atrás, na França, defendi minha tese de doutorado em psicopatologia (o calhamaço, traduzido em inglês pela editora The Other Press, dorme na minha gaveta, à espera de revisão e cortes que nunca tenho tempo de fazer). O ponto de partida de minhas indagações era um batalhão de 500 reservistas da polícia alemã que, durante a Segunda Guerra Mundial, assassinaram metodicamente, com tiros individuais na nuca, milhares de judeus poloneses, famílias com crianças e mulheres.
Os ditos soldados alemães não eram tropa de elite. Tinham-se alistado na polícia porque essa escolha parecia garantir que ficariam longe da ativa, não arriscariam a pele e não teriam que matar inimigos. De forma parecida, os sete de Abu Ghraib entraram na National Guard (a reserva) para conseguir bolsas para a universidade; nada a ver com os anseios militaristas dos voluntários que compõem o Exército ou os fuzileiros navais.

Os reservistas alemães não tinham sido selecionados por alguma predisposição ao mal (quer fosse de nascença, quer fosse por história de vida). É impossível imaginar que, por um milagre do acaso, eles constituíssem uma turma de 500 assassinos potenciais. Mas, se eram pessoas quaisquer, como se tornaram capazes do horror?

Note-se que a obediência às ordens não explica nada. Contrariamente ao que se imagina, durante toda a Segunda Guerra, ninguém foi perseguido pela Justiça militar alemã por ter-se recusado a atormentar ou exterminar populações civis. Os poucos soldados que não quiseram obedecer a ordens genocidas foram apenas dispensados da tarefa.

Conclusão: há sujeitos que nada, em sua história ou em seus genes, predispõe a ser torturadores ou assassinos, mas que, numa situação social específica, sem precisar de ordens, tornam-se monstros. Ou seja, as condutas humanas não dependem só dos genes e da história singulares de cada um, mas também (e bastante) da situação coletiva na qual cada um está enredado na hora de agir.

Uma experiência famosa (e relevante na argumentação de minha tese) foi conduzida em 1971 por Philip Zimbardo, um grande psicólogo social que ainda ensina na Universidade Stanford, na Califórnia. Numa prisão simulada, Zimbardo encerrou 21 estudantes escolhidos a esmo e divididos (também a esmo) em dois grupos: presos e guardas. Os guardas eram livres para impor as punições que julgariam necessárias ao bom funcionamento do estabelecimento. A experiência, que devia durar duas semanas, foi interrompida no sexto dia, pois o comportamento dos guardas colocava em perigo a saúde mental e a incolumidade física dos presos. Alguns dos abusos praticados se pareciam estranhamente com o que aconteceu na prisão de Abu Ghraib: presos desnudados, encapuzados e por aí vai.

Quais situações sociais transformam moços e moças de boa índole em algozes? A condição básica para que isso aconteça é que a sensação de pertencer solidamente a um grupo seja servida como remédio contra as dores e as dúvidas que habitam a solidão do indivíduo. Em Abu Ghraib, as fotos-suvenir conferem aos sete a coesão "alegre" e brutal de um bando de amigos decididos a passar férias memoráveis.

Mas é fácil encontrar outros exemplos. A cada ano, uma excitação festiva e uma sensação coletiva de superioridade levam universitários bem-comportados a torturar calouros estarrecidos. Uma torcida pode converter um bom pai de família em vândalo. Uma multidão enfurecida faz de cada um de seus membros um linchador assassino. Uma burocracia bem organizada pode transformar seus tranqüilos funcionários em agentes de extermínio.

A plasticidade social do sujeito humano não constitui uma desculpa. Ao contrário, o indivíduo é sempre responsável por não saber resistir à sedução dos grupos nos quais ele se perde.
No entanto, há também a responsabilidade de quem cria as condições para que outros se percam na estupidez do grupo. Como? Por exemplo, organizando uma prisão em que os guardas teriam poderes incontrolados sobre seres ditos inferiores por raça, cultura ou religião.

Aliás, ao redigir uma ata de acusação contra o comando americano, eu me indignaria, claro, com o que aconteceu com os presos iraquianos de Abu Ghraib. Mas também me indignaria com o seguinte: foi permitido que sete jovens soldados se transformassem em torturadores.

quinta-feira, 20 de maio de 2004

De onde vem o autoritarismo?

A história é conhecida: o "New York Times" de 9 de maio publicou um artigo de seu correspondente, Larry Rohter, afirmando que havia no Brasil uma "preocupação nacional" com o uso de álcool pelo presidente Lula. O presidente reagiu cassando o visto do jornalista e ameaçando sua expulsão. O Legislativo intercedeu, a imprensa entrou em campanha, e uma liminar do Superior Tribunal de Justiça protegeu Rohter. O governo recuou. Ótimo.

Mas por que um Poder Executivo democrático se extraviou numa birra autoritária supérflua? Eis uma das respostas possíveis.

Em antropologia e em psicologia, vale esta implicação: quando um sujeito ou um grupo consideram que sua dignidade não é reconhecida pela comunidade da qual supostamente eles fazem parte, esse sujeito ou esse grupo se afirmam no braço.

Exemplo. A violência de nossas ruas não é fruto da miséria, mas da exclusão. Por mais que alguém seja desfavorecido, se ele constatar que a comunidade o reconhece como cidadão, seu protesto poderá respeitar a lei comum. Mas imagine que, pela desigualdade excessiva ou por tradição escravagista, pobres e miseráveis sejam propriamente deserdados. Aos filhos deserdados é recusada, com a herança, a qualidade de filhos; da mesma forma, aos deserdados sociais é negada a qualidade de cidadãos. O fracasso que lhes toca não é só econômico, ele é simbólico. E a quem é excluído simbolicamente (a quem se sente socialmente insignificante) sobra impor-se no real, na marra.

Esse mecanismo explica (parcialmente, é óbvio) por que, quando os deserdados ou seus representantes chegam ao poder, eles sucumbem facilmente a tentações autoritárias. Uma história de exclusão os predispõe a acreditar que, mesmo no governo, eles continuarão excluídos. Convencidos de que a dignidade de seu poder não está sendo reconhecida, fazem-se valer pela brutalidade.

Uma dinâmica parecida pode funcionar entre nações. O economista Alfredo Behrens me fazia observar, numa conversa, que "a suscetibilidade é uma doença afetiva do subdesenvolvimento".
Notas

1) Qualquer dificuldade simbólica (não só uma história de exclusão social) pode levar um governo a mostrar músculos desnecessários. É possível, por exemplo, que o autoritarismo do atual governo americano seja também um efeito do pleito duvidoso que elegeu o presidente Bush. Uma incerteza quanto à legitimidade do governo seria compensada pela brutalidade no exercício do poder.

2) Alguém deveria ter assinalado ao presidente Lula que o artigo de Rohter, estranho para os padrões de nossa imprensa, é banal na cultura americana, onde a) quem se dedica à vida pública renuncia à privacidade; b) é tarefa básica da imprensa vasculhar a vida do homem público. Nos EUA, qualquer candidato enfrenta interrogatórios, investigações, boatos sobre seus hábitos, costumes, comportamentos sexuais e por aí vai.

Alguém também deveria ter explicado ao presidente que, na cultura americana, a menção de sua difícil história familiar e do alcoolismo de seu pai não constituem uma ofensa. Para qualquer americano, esses traços valem como elogios, pois salientam a dificuldade do caminho que o filho percorreu.

3) O chanceler Celso Amorim declarou que o artigo de Rohter ofendia a honra da nação. É uma retórica análoga à dos fascismos europeus: às armas, cidadãos, alguém (um estrangeiro, claro) desrespeita a mãe pátria. Talvez fosse mais sábio entender que a nação tem mais a ver com um conjunto de valores do que com um território à espera de ser violado pelo invasor. Nessa ótica, quem ofende a nação é quem desrespeita um valor fundamental, como a liberdade de expressão. Por exemplo, aos americanos é permitido protestar queimando a bandeira, pois a nação seria ofendida muito mais pela interdição de queimar a bandeira do que pelo próprio ato de queimá-la.

4) O porta-voz da Presidência, André Singer, afirmou que o artigo de Rohter, ofendendo o presidente, ofendia a instituição da Presidência. Incompreensível: a Presidência continua intata mesmo se o presidente escarra, faz cocô, bebe, fuma, transa ou, pior, se ele é corrupto, cocainômano ou idiota. André Singer certamente leu "Os Dois Corpos do Rei", de Ernest Kantorowicz. Talvez o exemplar da biblioteca do Alvorada tenha sido perdido.

5) O antiamericanismo, por mais que tenha razões históricas, é uma escapatória tradicional para elites decadentes e vorazes. É o caso em muitos países islâmicos do Oriente Médio: fogo na bandeira americana e pedras no McDonald's são distrações que impedem de pensar que a situação é sobretudo culpa dos poderosos de casa. Não há por que suspeitar que o governo atual queira proteger as elites nacionais, mas, segundo o "Painel" da Folha de 13 de maio, o presidente contava com a boa repercussão interna de sua decisão: achava que o público gostaria (cito a Folha) "de ver o Brasil "enfrentando" os EUA". Como não dá mais para oferecer jogos de gladiadores ou bingos, demos ao povo um pouco de antiamericanismo, para que se divirta.

6) Depois de ter cassado o visto de Rohter, o presidente declarou que o gesto "serviria de exemplo". Em matéria de autoritarismo, essa foi a pior, a que me obrigou a escrever (postergando a continuação da coluna da semana passada). Pois me ensinaram assim: quando alguém quer nos intimidar, é a hora de se expor, pagar o blefe ou levar uma paulada, tanto faz; o importante é forçar quem intimida a mostrar seu jogo. Aliás, se alguém do governo não gostou do que escrevi, é só mandar um e-mail pedindo meu número de RNE.

quinta-feira, 13 de maio de 2004

As fotografias dos presos iraquianos

Na capa da Folha de sexta passada e nos jornais do mundo inteiro: a soldado americana Lynndie England segurando a tira que mantém um iraquiano, nu e rastejante, na coleira.

O governo americano anunciou que, infelizmente, o conjunto dos documentos sobre a tortura na prisão de Abu Ghraib contém coisas "piores", em foto e em vídeo.

A "New Yorker" publicou a fotografia de um iraquiano nu ameaçado por dois cachorros (capa da Folha de segunda-feira) e descreveu outra, em que aparece um preso ensangüentado. Mas, ao que parece, essas imagens são exceções.

Pelo que se sabe hoje (terça-feira, quando encerro esta coluna), as fotografias que veremos não são imagens de tortura física, mutilação ou assassinato. A galeria dos horrores é no mesmo tom das fotos da semana passada. Só para lembrar: além de Lynndie England com o preso na coleira, Lynndie e Charles Graner (seu companheiro de cama) triunfantes sobre um amontoado de iraquianos nus numa suruba forçada, Lynndie rindo enquanto aponta para o pênis de um preso, outro preso nu encapuzado com uma calcinha e por aí vai.

Segunda à noite, aliás, a CNN informou que, entre as novidades, se destacam presos forçados a simular sodomia e um ato sexual entre soldados americanos.

Apesar de tudo isso, a mídia, quase unânime, fala genericamente de violência e abuso; esquece pudicamente que as imagens são intragáveis por serem FOTOGRAFIAS ERÓTICAS.
Essas maiúsculas respondem ao esforço em curso para que desviemos o olhar do óbvio erotismo das fotografias da semana passada. Dois exemplos.

À esquerda, Robert Fisk (Folha de 9 de maio) dá prova de uma ingenuidade que beira a idiotice, perguntando, sério: quem treinou Lynndie e Charles, quem lhes ensinou essas práticas? Ele vê nos atos fotografados a prova evidente de que torturadores profissionais da CIA presidiram os interrogatórios. Mas de quais interrogatórios ele está falando? Será que Robert Fisk não vê que, nas fotos da semana passada, as humilhações impostas aos presos não têm outra finalidade senão o gozo de Lynndie, Charles e seus cúmplices (da CIA ou não)? Será que Robert Fisk nunca entrou numa "sex shop"? Será, em suma, que ele não percebe que as fotografias reproduzem a banalidade do repertório sadomasoquista? Será que não se dá conta de que a foto de Lynndie de uniforme e botas, com o preso na coleira, poderia ser, assim como está, o anúncio de uma "dominatrix"?

À direita (também na Folha de 9 de maio), Gerald Baker declara que a "depravação" de Lynndie e Charles "é tão difícil de compreender quanto é abominável". Abominável não há dúvida (por ser imposta aos presos); mas "difícil de compreender"? Como é possível, quando o sadomasoquismo integra o jogo sexual da metade (conto por baixo) dos casais do mundo? Qual é a surpresa?

Por que Fisk faz de conta que não percebe o erotismo das imagens? Por que Baker se apressa a declarar que elas manifestam um desvio patológico extremo?

Parece que, para ambos, a trivialidade que se trata de negar é a mesma que foi revelada pelo marquês de Sade: na modernidade, O EXERCÍCIO DO PODER É ERÓTICO. Incômodo, não é?
O presidente Bush disse que achou as imagens de Lynndie e Charles "sickening", nauseabundas. Acredito. Mas, se ele ficou com vontade de vomitar, é porque as imagens devem ter-lhe lembrado, justamente, que o poder é uma fonte de gozo, sempre: goza-se com um preso na coleira, assim como se goza ordenando que comece um bombardeio ou que as tropas avancem.
Não existem motivos nobres que possam eliminar a parte de gozo que acompanha o exercício do poder. Para nós, o poder é sempre erótico, e o erotismo é sempre atravessado pelo jogo do poder.

Quem não quer saber disso se condena a um uso louco do poder, inocentado por suas pretensas melhores intenções.

Se não reprimirem o erotismo que explode na cara de quem contempla as imagens da semana passada, talvez, desta vez, os americanos consigam inventar um uso mais complexo (e, por que não, mais envergonhado) de seu poder. Se isso acontecer, agradeçam a Lynndie e Charles.
Para complementar:

1) A imprensa americana não pára de contrapor duas mulheres soldados: Lynndie England, a abominável, e Jessica Lynch, que foi ferida, presa pelos iraquianos e liberada por um comando americano. Aposto que as duas receberão (para Jessica já é o caso) cartas com juras de amor e propostas de casamento. Muitos, como o presidente Bush, acharão "sickening" (nauseabundos) os homens que implorarão a Lynndie para que ela os amarre na coleira. O problema é que esses muitos não querem saber o seguinte: aqueles que escreveram para Jessica, por traz das promessas de carinho e flores (as famosas melhores intenções), são provavelmente levados pela fantasia de possuir o corpo da jovem como eles imaginam que foi possuído e estuprado pelos iraquianos que a prenderam (os quais, aliás, na ocasião, parece que se comportaram decentemente).

2) Domingo à noite, fiz uma pesquisa na internet. Em menos de duas horas encontrei o que procurava. Nas salas de bate-papo abertas pelos assinantes de um grande provedor americano, seção "Special Interests", numa sala cujo título convidativo era "Squeeze my balls" (aperte meus testículos), lá estava: alguém se apresentava como uma dominadora e usava, como "nick" (pseudônimo), numa palavra só, "LynndieEngland".

Não acabei, a coluna continua na semana que vem, salvo imprevistos.

quinta-feira, 6 de maio de 2004

"Diários de Motocicleta"

Estréia amanhã "Diários de Motocicleta", de Walter Salles, inspirado nos diários que Ernesto Guevara escreveu em 1952, quando, com o amigo Alberto Granado, percorreu a América Latina da Argentina à Venezuela, de moto, a pé, de barco ou de carona.

No filme (como provavelmente aconteceu na realidade), a experiência de Ernesto e Alberto é um momento mágico, em que convivem as duas grandes aspirações das gerações que cresceram na segunda metade do século 20: o anseio de liberdade individual, que nos tornou todos um pouco mochileiros (de verdade ou em sonho), e o anseio de viver numa sociedade justa.

Essas vertentes de nossas esperanças se divorciaram precocemente, e o mundo se dividiu em dois blocos: os mochileiros sem justiça e os justiceiros sem mochila. Somos os filhos problemáticos desse casal divorciado e, como tais, logicamente, gostaríamos de juntar os cacos.
Talvez a vontade de reconciliar nossos dois anseios explique por que a figura do Che se tornou uma marca registrada do espírito de revolta.

Na vida de Ernesto Guevara, a travessia narrada no filme não é só um episódio juvenil, mas uma espécie de matriz. Guevara, por mais que se tornasse uma eminência da Revolução Cubana, nunca tirou o pé da estrada. Pouco importa decidir se, do ponto de vista político e estratégico, as expedições congolesa e boliviana fizeram sentido ou não. Para entender o mito do Che, vale uma outra consideração: as expedições foram, para ele, uma maneira (desvairada, se você quiser) de continuar a viagem, de não se transformar num burocrata do poder (num justiceiro sem mochila). Se o Che foi um ídolo pop de ambos os lados da Cortina de Ferro, é porque, durante toda a sua vida, como naquela viagem inicial, ele não parou de encarnar tanto nossos devaneios de livres aventuras quanto nossas exigências de engajamento radical.

Falando em radical, há, no filme, um diálogo memorável entre Alberto e Ernesto, sentados nas pedras de Machu Picchu. Nessa altura, os dois amigos já sentem os efeitos da viagem: a injustiça os assombra. Alberto tem a idéia de casar-se com uma descendente de inca: "Fundaríamos um partido indígena (...). Incentivamos todo o povo a votar, reativamos a revolução de Tupac Amaru, a revolução indo-americana, o que você acha?". Ernesto responde: "Uma revolução sem tiros? Você está louco" (é, aliás, um dos vários momentos em que Gael García Bernal, no papel de Ernesto, passa repentina e perfeitamente da ternura à dureza).

Brincando, poderíamos dizer que a proposta de Alberto foi tentada por João Ramalho com a ajuda de Bartira: chama-se Brasil. Quanto à proposta de Ernesto, ela não parou de fracassar durante o século 20: do Camboja à própria Cuba, passando pela China, o que foi ganho na ponta do fuzil custou caríssimo em liberdade e em vidas.

Mesmo assim, o caráter radical dos sentimentos de Alberto e Ernesto deixa um gosto amargo. É por decepção ou por covardia que nos tornamos incapazes de inventar e projetar utopias radicais?

É estranho assistir à viagem dos dois amigos numa época em que mal se consegue imaginar um mundo diferente e nos resta sonhar apenas com uma melhoria progressiva das condições econômicas de todos. É estranho escutar a conversa de Machu Picchu numa época em que nossa imagem do radicalismo extremo é o MST, um movimento inspirado por uma ideologia católica do fim do século 19, cuja visão do futuro é um mundo arcaico de pequenos proprietários rurais em economia de subsistência, todos rezando o ângelus do fim do dia. Legal e bem melhor que a fome, mas é isso que chamamos de radical?

Claro, a frustração de não saber mais sonhar é acompanhada pela consciência do malogro que sempre parece espreitar nossos sonhos. É difícil olhar para Ernesto jogando pedras no caminhão de uma mineradora sem pensar em suas lutas futuras. Mas, para mim (e deve ser assim para muitos), o caminho entre a raiva do jovem Ernesto e a morte do Che na Bolívia não é uma gloriosa ascensão em direção à santidade. A regra (trágica) é esta: a magnanimidade que pode nos levar a menosprezar nossa própria vida e a encarar o martírio é a mesma que pode nos induzir a menosprezar a vida dos que obstaculizam nossos projetos. Medindo as palavras: quase sempre as melhores intenções alegam sua generosidade para justificar a pior intransigência.

Constato que falei do filme menos do que queria. Mas falei da viagem na qual Alberto e Ernesto me levaram: montanhas-russas de contradições não resolvidas, no mundo e dentro de mim.
Na chegada, fico dividido dolorosamente entre a nostalgia de uma capacidade perdida de sonhar livremente e a consciência das restrições que os próprios sonhos, quando se realizaram, impuseram à liberdade. Acompanha a sensação de que essa divisão nos condena a uma intolerável preguiça.

P.S.:
1) O filme, isso consegui dizer (ao menos, espero), é uma viagem ao coração das esperanças (as quais carregam a ameaça das trevas, como qualquer sol de verão carrega a ameaça da chuva). Mas ele não é só isso: é também um maravilhosa história de amizade entre dois jovens.

2) Rodrigo de la Serna, no papel de Alberto, deveria ser um sério candidato ao Oscar de melhor ator coadjuvante.

quinta-feira, 22 de abril de 2004

O diálogo contra o conflito



Muitos leitores me escreveram comentando a coluna de quinta passada, "Carta aberta a Silvio Santos", e o encontro de domingo entre Silvio Santos e Zé Celso. Agradeço a todos.

Em sua maioria, os que comentam o encontro festejam o acontecido, sem necessariamente tomar partido: o fato em si lhes parece uma boa notícia por ser uma vitória do diálogo contra o conflito. Compartilho esse sentimento.

Estou um pouco cansado de conflitos. E aparentemente não sou o único. Não me falta a vontade de lutar pelas coisas que importam. Mas parece que o conflito se tornou a maneira imediata de perceber o mundo.

Não é de estranhar que seja assim. Minha geração cresceu com as convicções seguintes: o drama social se entende pela luta entre classes ou interesses opostos, e o drama individual se entende pela luta entre desejos contrastantes ou entre os desejos e as forças que os reprimem.

A visão do mundo como campo de batalha não é falsa, longe disso. Mas, às vezes, ela funciona como uma forma de preguiça, pela qual preferimos o enfrentamento, por doloroso que seja, ao incômodo de entender, aceitar as diferenças e trocar figurinhas.

Essa constatação é comum a alguns dos melhores pensadores das últimas décadas do século passado. Vários defenderam a idéia de que a razão (que, em princípio, todos compartilhamos) resolveria muitos conflitos pelo diálogo. Isso se fizéssemos o esforço de dialogar.

Infelizmente, de Kosovo ao Iraque, a voz da razão ressoa como um réquiem abafado pelas explosões e pelos gritos de agonia. Parece que somos todos racionais, mas nem por isso somos razoáveis. Na hora do vamos ver, gostamos de mostrar os dentes.

Se a razão não basta para suspender o conflito aberto, fazer apelo a quê?

À força de andar pelo mundo e escutar meus semelhantes, uma coisa aprendi. Aquém das diferenças, de casta, de classe, de status, de ideais e de princípios, temos, sim, algo em comum: a alegria ou a tristeza das paixões, a desolação e o medo da vida que passa e acaba, os prazeres da amizade, a decepção das esperanças frustradas e a euforia das que, por mérito ou sorte, são recompensadas. Em suma, compartilhamos a experiência concreta da vida.

Cuidado: não aposto só na compreensão ou na compaixão. Sabemos que o outro está escrevendo uma carta de amor parecida com a nossa, mas nem sempre isso basta para que não joguemos granadas na trincheira da frente. É difícil renunciar à careta do inimigo jurado, pois ela nos proporciona o conforto de uma identidade clara e definida. Eu sou assim, o outro é assado. Só falta assá-lo mesmo, não é?

Mas a vida concreta oferece mais um recurso: sua sabedoria prática. Nela, quase sempre, os pretensos inimigos inventam e negociam, a cada dia, jeitos de baixar as máscaras e de habitar as mesmas ruas.

Vamos ao caso que nos interessa. Alguns leitores se disseram preocupados com a perspectiva de que a modernização do Bexiga acabe com a alma do bairro. Outros, ao contrário, preocupados com a perspectiva de que os obstáculos à mesma modernização condenem o bairro ao atraso e à pobreza.

Não sei qual será o futuro do diálogo que começou domingo. Mas, se me meti, é bem porque acho que o conflito é, em grande parte, abstrato, ou seja, que a oposição transforma ambos os lados em caricaturas desnecessárias. Não acredito que Zé Celso seja nostálgico do cartão-postal de um Bexiga pitoresco e miserável, como não acredito que Silvio Santos deseje um Bexiga sem alma, pesadelo extraído de um filme de Godard. Acredito, ao contrário, que o Bexiga de amanhã possa ser uma mistura de ousadia urbana e história, cinemas de arte e não de arte, padarias e fast food, botecos e pizzarias pronta-entrega, shopping center e lojinhas, teatros de vaudeville e arenas populares antropofágicas. Em suma, um bairro com a cara e as contradições da gente.

Jacqueline (dez anos) é uma das atrizes mais jovens e mais talentosas do teatro Oficina. Algum tempo atrás, durante um ensaio, Zé Celso pediu a Jacqueline que ela encenasse uma grande alegria e, para ajudá-la, lhe sugeriu que pensasse em algo muito prazeroso. Jacqueline se esquivava, e Zé Celso insistiu: "Qual é a coisa que você mais gosta?". "Um McDonald's", respondeu Jacqueline, para a hilaridade geral. Zé Celso não hesitou: "Então pense no McDonald's e encene".

Pois é, se Jacqueline pode encenar alegria pensando num Big Mac, por que, no Bexiga de amanhã, não coabitariam o teatro Oficina e a modernidade do projeto de Silvio Santos? Afinal, elas já coabitam concretamente em Jacqueline e, de fato, em todos nós.

Alguns me perguntaram qual foi minha função nesta história. Respondo com a observação de uma leitora, Lavínia Pannunzio, que, ao mandar seu abraço, retomou assim minha carta de quinta passada: "Você foi o palhaço com o megafone, abrindo caminhos pela cidade". Não podia aspirar a maior elogio.

A Silvio Santos vão meus agradecimentos mais sinceros: sua visita ao Oficina satisfez meu pedido de criança.

P.S.: No domingo passado, às 16h, eu devia estar na Bienal do Livro para lançar "Terra de Ninguém", uma coletânea destas colunas. Peço desculpa por não ter honrado o compromisso: quase no mesmo horário, aconteceu o encontro entre Silvio Santos e Zé Celso, no Teatro Oficina.

quinta-feira, 15 de abril de 2004

Carta aberta a Silvio Santos



Caro Silvio Santos,

Confesso que não sou um espectador de "Todos contra Um". No passado, assisti ao "Show do Milhão" só duas ou três vezes. Nunca comprei um "carnê do Silvio".

Mas meus sogros, Heloísa e Valentim, gostam de você. E, como tenho um grande carinho por meus sogros, sou grato por todas as vezes que eles passaram bons momentos assistindo ao "show do Silvio".

No ano passado, quando surgiu o boato de que você estaria doente, uma senhora, minha conhecida, comentou: "Só o que faltava, não ter mais nem o Silvio". Em geral, minha turma é crítica e pensa que você distribui ilusões como a gente enfia balas nas mãos dos meninos nos faróis. Mas eu acho que há um grande mérito (seu mérito) em conseguir encarnar, para tantos brasileiros, um sentimento sem o qual é difícil viver: a esperança de que amanhã a gente tenha um pouco de sorte.

Por isso, permito-me a familiaridade desta carta.

Escrevo-lhe por uma história que você deve estar cansado de ouvir: o grupo que você lidera projeta um shopping center (ou um centro de convenções) na área do Bexiga em que surge o Teatro Oficina, dirigido por Zé Celso Martinez. Claro, ninguém contesta: o teatro é tombado, pois ele é um patrimônio insubstituível da cultura brasileira, tanto por sua arquitetura quanto pela companhia que ele abriga. Também imagino, embora eu não conheça o projeto em sua fase atual, que nenhum arquiteto se proporia a encapsular o Oficina num casulo de edifícios. Então, qual é o problema?

O problema, como você sabe, é o espaço ao redor do Oficina. É necessário um recuo suficiente para que a luz do dia e o sol atravessem livremente a parede de vidro que, com o teto retrátil, faz do Oficina esta raridade: uma sala de teatro aberta para o mundo. Além disso, no terreno ao lado e nos fundos do teatro, o projeto do Oficina prevê uma arena aberta e locais para atividades que vão além da produção de peças: um lugar de lazer e educação teatral para as crianças do Bexiga que freqüentam o Oficina, um centro de estudos etc.

Pouco importam os detalhes. Meu pedido é apenas este: que você se disponha a encontrar Zé Celso ou autorize seu arquiteto a encontrar Zé Celso. No diálogo, é óbvio que se manifestarão interesses contrastantes, mas poderia também surgir o desejo comum de construir algo que seja bom para o Bexiga, para São Paulo, para o Brasil e para o teatro.

Sobre o Oficina, você já deve saber tudo o que importa. Se não for o caso, outros poderão lhe dizer melhor do que eu. Mas nada vale a experiência. Aposto (sem consultar ninguém) que a companhia se disporia a recebê-lo para uma representação só para você, quem sabe um condensado das duas partes de "O Homem". Mas deixe que lhe conte uma história.
Eu fui uma criança bem-comportada, numa cidade ferida pela guerra, Milão, na Itália. Um pouco por medo de que encontrasse uma bomba não explodida nos escombros, um pouco por respeitabilidade burguesa, meus pais não queriam que brincasse na rua. Ia para a escola, estudava e brincava no meu quarto.

Era raro, mas acontecia duas ou três vezes por ano, que um circo visitasse a cidade. Quando era um circo grande, passava um Fiat 600 gritando pelo alto-falante: "De volta da mirabolante turnê que o levou aos quatro cantos do Universo, ainda fremente pelos aplausos das multidões de Londres, Paris e Istambul, está em Milão o grande circo Togni; crianças, tragam seus pais; elefantes, leões, tigres da Bessarábia [nunca soube se há mesmo tigres na Bessarábia], os trapezistas de Moscou que arriscam sua vida sem rede, o homem-bala de Praga, os cavalos da grande escola de Viena".

Eu, na verdade, preferia os circos pobres, que se instalavam perto de casa. Nesse caso, o alto-falante vinha na mão do palhaço que abria um pequeno desfile de saltimbancos, malabaristas, anões, mulher barbada, homem-serpente e um ou dois bichos, um macaco, um cavalo.

Insistia tanto que meus pais achavam graça e deixavam que eu fosse a mais de uma representação do mesmo circo. Nunca souberam que o espetáculo, para mim, era duplo. Certo, admirava os corpos magicamente bonitos em suas roupas furadas de paetê; comovia-me com o drama do pateta, vítima do clown branco; gritava quando a trapezista voava no céu. Mas, no intervalo e depois do espetáculo, gostava de passear, meio às escondidas, entre os reboques que serviam de casa ao povo do circo. Tinha cheiro de sopa caseira, de roupa lavada e de malhas suadas, risos, gritos de brigas, portas entreabertas que mostravam espelhos, maquiagens e panelas. As duas coisas juntas, o espetáculo e os bastidores, eram, para mim, uma única experiência: foi ali que aprendi para sempre, acho, que é possível sonhar sem deixar de gostar da vida concreta.

Ora, quando vou para o Oficina, sinto a mesma alegria de quando era dia de circo na cidade. Não freqüento os bastidores do teatro. Não é preciso, porque o Oficina é construído para que não haja muita diferença entre cena, platéia e bastidores e porque a magia de seus espetáculos é esta: transformar em teatro a fúria, a euforia, a miséria e a paixão da vida concreta.

Em suma, caro Silvio Santos, receba este escrito como se fosse a carta de uma criança que lhe pede ajuda para que nosso melhor circo continue e cresça.

Obrigado e um abraço,
Contardo