quinta-feira, 26 de abril de 2001

O segredo da acumulação primitiva neoliberal

Na quarta-feira da semana passada, a coluna de Elio Gaspari na Folha evocava o drama recente de um navio de crianças escravas errando ao largo da costa do Benin. Ao ler o texto -que era inspirado-, o navio tornava-se uma metáfora de toda a África subsaariana: ilha à deriva, mistura de leprosário com campo de extermínio e reserva de mão-de-obra para migrações desesperadas.

Além da África, a viagem do navio negreiro evocava o sofrimento de imigrantes asfixiados em caminhões que atravessavam o Canal da Mancha, afogados no meio do rio Grande ou vencidos pelo sol e pela sede no deserto do Texas -os heróis das fotografias de Sebastião Salgado.

Elio Gaspari propunha um termo para designar esse povo móvel e desesperado: "os cidadãos descartáveis". "Massas de homens e mulheres são arrancadas de seus meios de subsistência e jogadas no mercado de trabalho como proletários livres, desprotegidos e sem direitos." São palavras de Marx, quando ele descreve a "acumulação primitiva", ou seja, o processo que, no século 16, criou as condições necessárias ao surgimento do capitalismo.

Para que ganhássemos nosso mundo moderno, foi necessário, por exemplo, que os servos feudais fossem, à força, expropriados do pedacinho de terra que podiam cultivar para sustentar-se. Massas inteiras se encontraram assim, paradoxalmente, livres da servidão, mas obrigadas a vender seu trabalho para sobreviver.

Quatro ou cinco séculos mais tarde, essa violência não deveria ter acabado? Ao que parece, o século 20 pediu uma espécie de segunda rodada, um ajuste: a criação de sujeitos descartáveis globais para um capitalismo enfim global.

Simples continuação ou repetição? Talvez haja uma diferença -pequena, mas substancial- entre as massas do século 16 e os migrantes da globalização: as primeiras foram arrancadas de seus meios de subsistência, os segundos são expropriados de seu lugar por uma violência comparável à da fome, por exemplo, mas quase sempre eles recebem em troca um devaneio. O protótipo poderia ser o prospecto que, um século atrás, seduzia os emigrantes europeus: sonhos de posse, de bem-estar e de ascensão social.

As condições para que o capitalismo invente sua versão neoliberal são subjetivas. A expropriação que torna a passagem possível é psicológica: necessita que sejamos arrancados nem tanto de nossos meios de subsistência, mas de nossa comunidade restrita, familiar e social, para sermos lançados numa procura infinita de status (e, hipoteticamente, de bem-estar) definido pelo acesso a bens e serviços. Arrancados de nós mesmos, devemos querer ardentemente ser outra coisa do que somos.

Depois da liberdade de vender nossa força de trabalho, a "acumulação primitiva" do neoliberalismo nos oferece a liberdade de mudar e subir na vida, ou seja, de cultivar visões, sonhos e devaneios de aventura e de sucesso. E, desde o prospecto do emigrante, a oferta vem se aprimorando. A partir dos anos 60, por exemplo, a televisão forneceu os sonhos para que o campo não só devesse, mas quisesse ir para a cidade.

Cuidado: a criação das condições psicológicas necessárias para o neoliberalismo não coincide com a simples promoção de um consumo massificado.

O requisito para que a máquina neoliberal funcione é mais refinado do que a venda dos mesmos sabonetes ou filmes para todos. Trata-se de alimentar um sonho infinito de perfectibilidade e, portanto, uma insatisfação radical. Não é pouca coisa: é necessário promover e vender objetos e serviços por eles serem indispensáveis para alcançarmos nossos ideais de status, de bem-estar e de felicidade, mas, ao mesmo tempo, é preciso que toda satisfação conclusiva permaneça impossível.

Para fomentar o sujeito neoliberal, o que importa não é lhe vender mais uma roupa, uma cortina ou uma lipoaspiração. Mas alimentar nele sonhos de elegância perfeita, casa perfeita e corpo perfeito. Pois esses sonhos perpetuam o sentimento de nossa inadequação e garantem, assim, que ele seja parte inalterável, definidora da personalidade contemporânea.

Provavelmente seria uma catástrofe se pudéssemos, de repente, acalmar nossa insatisfação. Aconteceria uma queda total do índice de confiança dos consumidores. Bolsas e economia iriam para o brejo. Desemprego, crise etc.

Melhor deixar como está. No entanto a coisa não fica bem. Do meu pequeno observatório psicanalítico, parece que o permanente sentimento de inadequação faz do sujeito neoliberal uma espécie de sonhador descartável, que corre atrás da miragem de sua felicidade como um trem descontrolado, sem condutor, acelerando progressivamente por inércia -até que os trilhos não aguentem mais.

PS: Ocorre-me que, na coluna da semana passada, eu lamentava que a imprensa vendesse, às vezes, sonhos indiscriminados de felicidade e de perfeição. Uma amiga comentou que o texto lhe parecera "patrulheiro", ou seja, estraga prazeres. Pois é, sem querer, acho que respondi um pouco. E-mail:

quinta-feira, 19 de abril de 2001

Felicidade e facilidade na capa

A partir dos anos 70, as tribulações e as esperanças de cada dia pararam de ser assuntos frívolos. Na imprensa, cresceu o número de artigos sobre comportamento, sociedade e vida cotidiana. Talvez os novos temas distraíssem os leitores de afazeres mais sérios, mas, pelo menos, a maioria das reportagens indagava os objetos escolhidos. Imagine uma capa sobre o elixir de longa vida: os artigos relatariam os entusiasmos populares, mas logo exporiam os interesses econômicos em jogo e questionariam a credulidade das massas.

Algo mudou. As páginas de comportamento e de vida cotidiana são cada vez mais importantes na imprensa, mas muitas reportagens parecem sobretudo alimentar ilusões.

Acontece em todos os jornais e revistas. Esta semana foi a vez de "Istoé". Matéria de capa: "A Receita da Felicidade". Bravamente o artigo tenta mostrar a complexidade da questão, mas títulos e subtítulos desmentem o esforço dos repórteres. Por exemplo, é citada inicialmente, no texto, uma pesquisa americana insossa que acha possível nos ensinar a sermos felizes. No fim do parágrafo, os jornalistas comentam, justamente irônicos: "Simples assim". Mas o subtítulo da matéria contradiz qualquer ironia: "Cientistas comprovam que a felicidade etc". O mesmo vale para as "janelas" que acompanham o texto: são os "truques" dietéticos "para levantar o astral" e a própria "receita da felicidade".

Na semana passada, foi a vez de "Época". Nesse caso, o título da matéria de capa -"A Reconstrução do Corpo"- concordava plenamente com a reportagem: os leitores aprendiam que "técnicas arrojadas permitem o encontro das formas perfeitas". Parece-me que, poucos anos atrás, uma reportagem sobre esse tema desmascararia os lucros da indústria da aparência física, exporia os riscos das cirurgias e enumeraria as patologias do desejo de modificação corporal.

Enfim, indicaria que a insatisfação com o próprio corpo expressa quase sempre um sentimento de inadequação que se origina em outras áreas da vida, mais fundamentais e perniciosas (inadequação no amor, nos relacionamentos etc).

Mas nossa época prefere que a beleza seja fácil. E que a felicidade seja receitável.

O fenômeno não é só brasileiro. A capa de "U.S. News", de poucas semanas atrás, prometia revelar enfim "os segredos da gagueira". Ora, a reportagem propunha uma versão apenas melhorada da pedagogia da palavra de apoio que, há décadas, permite que os gagos falem. Na mesma data, a capa de "Time" convidava o leitor a descobrir "as novas curas prometedoras para centenas de fobias". De fato, do Paxil às terapias do comportamento, a única coisa nova no artigo era o otimismo de seu subtítulo.

Esse jornalismo sorridente, para festejar soluções, está disposto a inventar de maneira radical. Recentemente foi divulgada uma pesquisa sobre a localização cerebral do amor: a paixão parece ativar zonas diferentes da ternura. Isso não tem nenhuma implicação para a vida da gente. Mas o "Boston Globe", em vez de perguntar, sei lá, se a pesquisa valia o dinheiro que custou, prometeu a todos, no futuro, paixões como a de Brad Pitt por Jennifer Aniston, logo transformadas na tranquila felicidade de Paul Newman com Joanne Woodward.

O que está acontecendo? Há a hipótese paranóica: o Matrix está apoderando-se do planeta, começando pelas editorias de comportamento e de sociedade. Os extraterrestres nos preparam assim para que aceitemos a pílula da felicidade que distribuirão numa próxima invasão.
Fora essa eventualidade, resta considerar que o jornalismo da boa notícia seja um porta-voz privilegiado do momento cultural. E alguém já disse que hoje a qualquer problemática prefere-se a "solucionática".

Mas cuidado: é quase natural para nós debochar da facilidade. O romantismo nos inculcou a idéia de que as interrogações atormentadas são a nobre substância de verdade e de autenticidade. Durante muito tempo, o que não fosse triste, sombrio e difícil era considerado piegas e ridículo. O direito à felicidade, que, no começo da modernidade, foi proclamado como a nova pretensão do homem moderno, aparece hoje como uma ingenuidade para almas simplórias.

Ganhou força, sobretudo na cultura européia, a fascinação pelos impasses radicais. O impossível tornou-se sinal de elegância e de alta cultura, enquanto o possível e o realizável seriam preocupações de baixo nível. Ora, é possível que essa disposição romântica esteja se esgotando. E que, na coluna de hoje, eu seja apenas um velho rabugento que chora sobre os cacos do romantismo.

Por que não parar com isso e festejar a facilidade da felicidade? Pois é. Antes de entrar na dança, uma última pergunta: será que o sucesso da "solucionática" é o sinal de uma nova disposição de espírito mais alegre diante da tarefa de viver? Ou será que essa pretensa leveza do ser é uma vassoura com a qual empurramos furiosamente nossos problemas para baixo do tapete?

quinta-feira, 12 de abril de 2001

Preocupações de pais de adolescentes

"Não é nada de grave, mas você sabe como são as coisas, nós nos preocupamos com seu futuro..."

Há dois dias, essa mesma frase, quase literalmente, foi-me dita por pais diferentes. Eles tentavam comunicar assim sua angústia diante de uma guinada imprevista na vida dos filhos adolescentes.

Acontece o tempo todo: os jovens se afastam das trilhas convencionais que deveriam levar a um pouco de tranquilidade econômica e social. E os pais sofrem e resistem. Eles perdem o sono, às vezes se desesperam ou, pior, reagem com violência repressora, produzindo tragédias ou armando bombas de efeito retardado.

No alto da lista das preocupações que afligem os pais: um relacionamento amoroso muito precoce, a escolha de profissões nas quais o pão cotidiano parece incerto (artista plástico, ator de teatro, capoeirista, poeta etc.) e a decisão de interromper os estudos e de sair pelo mundo afora de mochila nas costas. Ou a vontade de encurtar o passo, reduzir a velocidade da corrida e aproveitar um pouco mais a vida -com ou sem o auxílio de um baseado.

Não é que os pais não entendam. Ao contrário, é frequente que a decisão do adolescente coincida com uma aspiração antiga do pai, da mãe ou de ambos -a retomada de um desejo ao qual eles renunciaram. Por exemplo, eles queriam tanto dar a volta ao mundo de barco a vela e acabaram no escritório de um banco. De repente, o filho ou a filha parecem querer compensar essa antiga desistência dos pais.

O "nada de grave" com o qual começa a frase citada manifesta que os pais não condenam a escolha do adolescente. Afinal, como está subentendido, eles não são manequins para ternos cinza e tailleurs azul-marinho. Eles também preferiram outra coisa do que ao sossego. Eles também quiseram ser atores de teatro, poetas, escultores ou mochileiros. Seus devaneios foram e talvez sigam sendo exuberantes. A ponto de, às vezes, os pais, apesar de agoniados pela decisão do adolescente, mal esconderem uma espécie de satisfação, como se o jovem levantasse uma bandeira que eles, feridos pelas obrigações da vida, deixaram cair. A coisa causa medo nos pais (sabe-se que o porta-bandeira leva chumbo facilmente), mas inspira orgulho. E mesmo uma certa inveja.

O inciso que segue, "você sabe como são as coisas", procura a cumplicidade de quem ouve: você -outro adulto que escuta minha queixa- sabe como a vida é complicada e dura. E, de fato, não há como discordar: a desistência não é só covardia, o sacrifício também exige coragem. Compreendemos sem dificuldade tanto as renúncias quanto as preocupações dos pais. Eles escolheram servir às obrigações da vida. Podem até admirar a revolta de seus rebentos, mas prefeririam que eles também desistissem de seus projetos ousados para garantir um futuro tranquilo. Faz sentido.

Aqui o adolescente propõe uma réplica que merece ser ouvida. Ele pergunta: por que vocês não esquecem um pouco o meu futuro? Por que não se preocupam com meu presente?
Quando olhamos para as crianças, certamente imaginamos seu futuro e desejamos que seja radioso, mas nos importa também que elas sejam felizes hoje, não só amanhã. Com o adolescente, a coisa muda: parecemos conceber sua existência como uma longa véspera, uma espécie de cursinho. Na hora em que o jovem se desvia da estrada que desejamos para ele, quase perdemos a capacidade de enxergá-lo. No seu lugar, vemos apenas o fantasma ameaçador de um futuro comprometido.

Ora, para o adolescente, a vida não é o futuro (calmo ou ousado que seja), a vida é aquela que ele está vivendo agora. Certo, todos cansamos de renunciar a desejos e prazeres em vista de um amanhã melhor. Mas acharíamos a experiência penosa, se não intolerável, se, como o adolescente, nos transformássemos numa espécie de cheque pré-datado, sendo vistos, amados ou receados apenas como a promessa do dia em que chegará a hora da compensação.

Na maioria dos casos, as famílias acabam inventando compromissos entre os medos prudentes dos pais futurólogos e as decisões do adolescente revoltado que conclama: minha vida é agora. Mas há pais irredutíveis, que nunca admitem as escolhas arriscadas dos filhos. Provavelmente a rebeldia adolescente reviva neles antigas feridas dolorosas demais. As razões, às vezes, são mesquinhas, como nesta memorável observação de um pai preocupado com o filho: "Como ele quer sair viajando, quando eu desisti de dar a volta ao mundo logo porque sua mãe ficou grávida dele e tive que botar as mãos na massa?".

Recomendo o exercício seguinte a todos os pais -e, em particular, aos pais intransigentes- na hora em que se preocupam com os efeitos futuros da rebeldia de um adolescente. Depois de bater na madeira e cruzando os dedos, perguntem-se: e se ele morresse amanhã? Se, por alguma razão, o futuro de meu rebento, que me atribula tanto, não viesse a ser? O que direi do tempo que ele viveu? Que não foi nada que valesse por conta própria, mas apenas uma espera interrompida antes que a vida começasse?

quinta-feira, 5 de abril de 2001

Dores do espírito e dos músculos

Respondendo à solicitação dos familiares, encontrei uma senhora que acabava de receber um diagnóstico de fibromialgia (literalmente: dor das fibras musculares).

A doença começa a chamar a atenção da grande imprensa. Ela foi reconhecida (ou inventada) oficialmente há uma década e afetaria hoje 2% dos americanos (sobretudo mulheres brancas). No site da fibromialgia na Internet (www.fmnetnews.com), são lembrados os critérios diagnósticos: dores corporais difusas durante três meses e vários pontos do corpo doloridos ao toque - no mínimo 11 numa lista de 18 localizações em várias regiões: pescoço, ombros, quadris, joelhos e cotovelos. Além disso, uma série de sintomas associados, um pouco incertos: fadiga, irritabilidade intestinal (qualquer coisa da diarréia à constipação), desordens do sono ou sono não-restaurador, dores após o exercício físico, dor de cabeça, cólicas menstruais e por aí vai.

A fibromialgia não tem causa conhecida e não produz alterações fisiológicas verificáveis. Os médicos estão divididos. Alguns aceitam a existência da doença e se dedicam a tratar os sintomas dela com analgésicos (inclusive opiáceos ou metadona). No extremo oposto, outros duvidam da existência de uma doença cuja única prova são as sensações relatadas pelos pacientes. A maioria dos médicos e psiquiatras se situa provavelmente no meio, perplexa.

A família da senhora recém-diagnosticada comunicara-me vários acontecimentos muito penosos que poderiam ser relacionados com o surgimento das dores. Segundo seus próximos, a senhora reagira a uma série de perdas e desastres com surpreendente indiferença e logo adoecera. Tentei levar a conversa pelo lado desses fatos recentes. A senhora não quis tocar no assunto. Para contornar essa recusa intransigente, expliquei-lhe que, mesmo que as dores estivessem relacionadas a acontecimentos infelizes, nem por isso elas seriam menos reais: aflições psíquicas podem produzir dores físicas perfeitamente autênticas. Acrescentei que, de qualquer forma, talvez não fosse inútil que ela conversasse um pouco sobre o período sofrido que acabava de atravessar. Não houve jeito, a senhora tinha sido surrada pelo destino, mas não estava disposta a considerar que seu corpo doído pudesse ser o resultado metafórico dessa surra. Ao contrário: a dor que ela sentia no corpo parecia ter a função específica de evitar questões, indagações e conversas.

Essa posição era bem compreensível. Imagine uma série de catástrofes em sua vida -como diz a expressão, uma dor de cabeça atrás da outra. Imagine agora que seja possível tomar a dor de cabeça ao pé da letra, ou seja, converter todos os seus malogros e problemas em dores físicas. Seu filho não passou de ano, você perdeu o emprego, seu parceiro sumiu e os sofrimentos psíquicos eventuais seriam resumidos por simples dores de cabeça.

Não seria maravilhoso? Curaríamos as dores da existência com um analgésico. A tranquilidade estaria nas estantes da farmácia da esquina e custaria o preço de uma Novalgina.

Logo nos dias que seguiram meus encontros com a senhora, os jornais da Costa Leste dos EUA revelaram a difusão crescente, entre os adolescentes da região, de um remédio usado como droga: o OxyContin. Trata-se de um opiáceo poderoso justamente recomendado no tratamento da fibromialgia. A venda do OxyContin é estritamente controlada, de forma que ele chega ao circuito paralelo das drogas sendo revendido por pacientes para quem ele foi prescrito. Curioso círculo, no qual artrites, ciáticas, fibromialgias etc. parecem solidárias de uma nova toxicomania.

Claro, no uso como droga, os comprimidos de OxyContin são pulverizados e inalados ou então diluídos e injetados -o que deve produzir um "barato" imediato. Mas não deixa de ser notável que uma das drogas do momento venha a ser não um alucinógeno ou qualquer coisa que altere a consciência, mas um analgésico. Como se a dor de viver pudesse aparecer hoje como uma dor física. E, portanto, sua cura consistisse em sedar a sensibilidade do corpo.

Em suma, talvez nossas dores espirituais estejam transformando-se em dores musculares. Não seria de estranhar. Afinal, definimos o bem-estar cada vez mais do lado do corpo e cada vez menos em termos psíquicos ou espirituais. Por que não aconteceria a mesma coisa com o mal-estar?

Uma piada que ouvi nestes dias resume a situação. Um fiel pergunta levando os olhos ao céu: "Senhor, quero entender, por favor: há ou não há vida após a morte? Há ou não há vida eterna?". Depois de ele muito insistir, eis que, enfim, as nuvens se abrem, aparece um raio de luz e uma voz profunda responde: "Meu filho, essa coisa de vida eterna é muito complicada. Mas posso garantir que, se fizer exercício regularmente, parar de fumar e se alimentar direito, você viverá três ou quatro anos a mais. Por que você não se concentra nisso, que é muito mais simples do que a questão da vida eterna?"."

quinta-feira, 29 de março de 2001

Amores possíveis, com um pouco de sorte

Estréia amanhã "Amores Possíveis", de Sandra Werneck.

No começo do filme, Carlos e Júlia têm compromisso na porta de um cinema. Em cartaz não estão paixões cinematográficas inimitáveis, mas os próprios "amores possíveis". Com esse exemplo, deveria ser mais fácil se encontrarem, mas Júlia não chega. Passam 15 anos e descobrimos versões diferentes de Carlos e Júlia. Carlos número um organizou sua vida com Maria no conforto de um casamento tranquilo. Carlos número dois casou-se com Júlia, mas encontrou Pedro, apaixonou-se por ele e agora não sabe bem o que quer. Carlos número três ficou trancado na adolescência, borboleteando, sem convicção, de aventura em aventura, protegido pelas saias maternas. Por essas tramas alternadas, filhas do desencontro inicial, desfila a complexidade de nosso cotidiano amoroso.

Assisti ao filme há mais de uma semana. Mas suas imagens não me deixam. Voltam constantemente, evocadas pelas queixas e pelos sonhos de amor que ressoam no consultório de todo psicanalista ou psicoterapeuta. A lembrança do filme induz em mim uma benéfica humildade terapêutica, sugerida por Carlos números três, quando ele declara que, para achar a pessoa certa, já falou de sua infância, meditou e lançou berros. Esgotado o arsenal terapêutico, agora ele quer uma moderna agência de par perfeito. Pois é, talvez ele tenha razão.

Na clínica, atrás de nossas dificuldades sentimentais, descobre-se um pouco de tudo.

Há destinos que aparentemente excluem qualquer felicidade amorosa. São vidas vigiadas pelo desejo de uma avó que esperava que ao menos uma neta fosse freira. Ou pelas palavras de um pai maldizendo o dia em que decidiu casar. Ou simplesmente pelo desejo de uma mãe que não quer ficar sozinha. Não é impossível jogar com esse tipo de cartas marcadas. Leva tempo, mas chega-se a reviver e a reescrever um pouco o passado -quanto basta para que se tornem praticáveis futuros até então proibidos.

Outros impasses são efeitos de nossos sintomas neuróticos. Por exemplo, um sujeito hesita, imóvel, entre desejos diferentes: amo ou não amo? E, se amo, qual das duas ou dos dois? É uma maneira (dispendiosa) de não perder nada. Ou de nunca apegar-se para evitar as dores de uma separação. Outro sujeito, como um dos Carlos, o número um, prefere guardar a paixão no gueto dos sonhos, onde está sob controle. São cálculos que podem parecer avaros, covardes ou absurdos e, sobretudo, dolorosos.

A lista das armadilhas no caminho do amor não pára aqui. Há um caleidoscópio de imagens distorcidas capazes de atrapalhar o projeto de compor um par. Alguém olha no espelho e se acha impossível de ser amado ou bonito demais para ser tocado. Outro desqualifica todos os candidatos, pois não se equiparam a algum ícone venerado. Há, enfim, o efeito desalentador dos ideais sociais. São visões de amores grotescamente felizes (portanto impossíveis) que perseguimos como uma obrigação. Ou então, paradoxalmente, devaneios de perfeita independência celibatária.

Mas imaginemos que todos esses obstáculos nos concedam uma trégua. Às vezes isso acontece e, mesmo assim, a agenda continua vazia. O telefone não toca. O que falta? Será que o sujeito que se queixa está se enganando e nos enganando? Será que pensa estar disposto a um encontro que de fato ele (ou ela) ainda recusa, sei lá, inconscientemente? É nessa altura que aceito a sugestão de Carlos número três, mencionada antes.

Você conhece a história do homem que choramingava que nunca ganhara na loteria. Deus, cansado de ouvir suas lamúrias, perguntou: "Mas, meu filho, você está comprando o bendito bilhete?". O homem entendeu a lição e decidiu que dar a si uma chance de ganhar era mais interessante do que ter uma razão permanente para lamentar-se. Conseguiu enxergar-se como um possível ganhador, e não como um eterno derrotado. Desde então, ele faz corajosamente suas apostas. Em suma, foi curado pela palavra divina. Mas, para que haja cura, falta alguma coisa: ganhar.

A história vale também para a vida amorosa. Você pode mudar, reparar seu sintoma, corrigir o peso de sua história familiar e dos ideais culturais, retocar as imagens que povoam seu espelho, dispor-se a negociar compromissos com aspirações irrealizáveis etc. Mas os amores -mesmo razoáveis, "possíveis"- precisam também de acasos bem-aventurados. Ou seja, banalmente, de sorte.

Sem dúvida, eu teria exortado Júlia a, naquela fatídica noite de 15 anos atrás, ajudar a sorte e ir ao cinema. A chuva não é uma razão para aceitar as preguiças do desejo. Mas concordemos que teria sido em vão se Carlos, por sua vez, decidisse ficar em casa.

De qualquer forma, se ambos comparecessem e juntos assistissem a "Amores Possíveis", garanto que seria bom para seu eventual futuro amoroso. Ou seja, recomendo o filme aos que procuram um amor, aos que não sabem bem o que desejam e aos que acham que seria bom recolocar paixão em sua rotina. Em suma, a todos

quinta-feira, 22 de março de 2001

Brasil e EUA: uma diferença retórica

É uma velha pergunta: por que os primos do norte são bem-sucedidos enquanto a gente pena tanto? Questão de clima, território, religião, tipo de colonização?

Lendo a imprensa norte-americana nos últimos tempos, ocorre-me que talvez a diferença crucial seja sobretudo retórica. Com isso não me refiro aos ornamentos que adotamos para falar ou para escrever bonito. Mas penso nas formas que se impõem naturalmente quando descrevemos a nossa experiência e o sentimento de quem somos.

A diferença entre Brasil e EUA aparece, em particular, na maneira de apresentar e de encarar dificuldades e fracassos. Um exemplo. Recentemente as Forças Armadas norte-americanas parecem ensaiar (tragicamente) um filme dos Trapalhões.

Em fevereiro, um submarino nuclear treinou emersão rápida com 16 civis a bordo brincando de marinheiros: afundou um pesqueiro japonês e matou nove pescadores. Uma semana depois, dois helicópteros do Exército se chocaram durante um treino noturno no Havaí: 6 mortos e 11 feridos. Logo aviões americanos atacaram alvos perto de Bagdá: mataram três civis e várias moscas.

Em março, no Kuait, um avião da Marinha teve mais sorte e matou militares, não civis. Só que eram militares norte-americanos (cinco) e um aliado neozelandês.

No meio disso, desde o ano passado, os "marines" não sabem o que fazer com o projeto do Osprey, que pousa como um helicóptero e voa como um avião. Em 2000, os exemplares em serviço já mataram 23 fuzileiros em dois acidentes.

Parece que, por alguma razão, não foram realizados os testes necessários antes de confirmar a encomenda...

Fora da esfera militar, as coisas não estão melhores. Também em fevereiro um agente do FBI foi acusado de ter vendido segredos aos russos durante 15 anos.

Na semana que vem, acaba uma grande recontagem dos votos da Flórida e os americanos correm o risco de aprender que o homem que está na Casa Branca chegou lá não só por decisão partidária da Corte Suprema mas contra a vontade do eleitorado.

Nada de tudo isso é escondido. Tudo é investigado. Confia-se que erros, malandragens e acidentes venham a ser corrigidos, porque o desastre, a estupidez e a corrupção nunca são apresentados como manifestações de alguma propriedade especificamente norte-americana. Ao contrário, por mais que sejam frequentes, eles surgem como momentos nos quais, por assim dizer, a América (sua essência supostamente gloriosa) se ausentou.

Imagine acontecimentos parecidos no Brasil. Tome o caso do submarino nacional que afundou num cais do porto porque, ao que parece, alguém se esqueceu de fechar uma escotilha. O culpado foi o descaso de um marinheiro, mas essa descrição não basta: insinua-se a convicção de que o descaso é um vício tupiniquim.

Os eventos mais sinistros funcionam, em última instância, como prova (e efeito) da "natureza" (infausta) do brasileiro. Na retórica nacional, a autodepreciação coletiva é uma forma imediata de entender o social. Por que a violência e a corrupção? Simples: porque somos violentos e corruptos -quer explicação melhor?

Infelizmente, é uma explicação que imobiliza e deprime: como corrigir, punir e investigar de maneira eficaz se acreditamos ser corruptos, sem-vergonha etc. por essência?

Para os americanos, o caráter nacional é uma ficção intangível e incorruptível que brilha no alto da colina. Os indivíduos e os fatos que contradizem essa imagem gloriosa são aberrações e serão emendados. Por exemplo, acontecem acidentes nas Forças Armadas? Ninguém evoca o Exército Brancaleone. Repete-se que as Forças Armadas norte-americanas são as melhores do mundo. Ora, aconteceram alguns pepinos, mas isso não muda nada no essencial.

Eis então a diferença retórica: os primos do norte não atribuem o mal à sua essência. Portanto são cheios de si e prontos a consertar as falhas. Os brasileiros duvidam de poder modificar males que lhes parecem ser a expressão de sua essência bichada.

Essa diferença pode ser explicada, no estilo Max Weber, pela diferença entre protestantismo e catolicismo. Na perspectiva protestante (calvinista) dos primeiros colonos norte-americanos, os eleitos foram escolhidos pela graça divina: são eles, incontestavelmente. A partir dessa certeza inabalável, eles lidam com os acidentes e com as ovelhas perdidas. Na perspectiva católica, a graça não é garantida a ninguém: de antemão, somos todos igualmente pecadores.

Outra explicação: os americanos conhecem muito bem a pós-modernidade globalizada, por serem, de uma certa forma, seus promotores. Eles sabem, portanto, que, no jogo do narcisismo, sai ganhando aquele que consegue ser o objeto inalcançável da inveja de todos. Eles sabem também que, para isso, é melhor dissociar-se do que não dá certo, admitir o mal apenas como acidente.

Certo, outras satisfações narcisistas são possíveis. E mesmo o fracasso oferece suas vantagens: inspira o carinho e a simpatia de todos -até porque não ameaça ninguém. Mas é um pouco cansativo, não é?

quinta-feira, 15 de março de 2001

O Incrível Hulk em todos nós

De novo, na semana passada, um adolescente norte-americano saiu atirando. Perto de San Diego, Califórnia, Andrew Williams, 15 anos, matou dois colegas e feriu 13 pessoas.

Logo surgem vozes contra a violência na cultura popular. Talvez Andrew não tivesse matado num mundo onde o "rapper" Eminem não cantasse "bleed, bitch, bleed" (sangre, sua puta, sangre). Ou num mundo em que cinema e televisão deixassem de glorificar a morte e em que os videogames parassem de estourar miolos.

Ninguém acredita que a cultura popular seja a única causa da violência real. Mas é fácil mostrar que ela fornece uma espécie de retórica pronta. Você quer se expressar de maneira decisiva? Quer se posicionar como uma exceção à regra social? Pois é, as representações da violência na cultura oferecem uma prontuário para isso.

De fato, a psicologia experimental não demonstrou de maneira conclusiva que uma criança assistindo a filmes de porradas teria um comportamento mais violento do que uma criança que passasse o tempo lendo "O Pequeno Príncipe". No entanto as experiências lembram aquelas pesquisas dos anos 50/60 sobre os efeitos do fumo, quando não estava comprovada a relação entre cigarro e câncer...

Ora, logo nesses dias, encontrei um argumento novo em defesa da hemoglobina, dos socos e das metralhadas de nossa cultura de massa. Deve sair este ano, pela BasicBooks, "Power Play" (jogo de poder/força), de Gerard Jones (escritor de quadrinhos e de roteiros -"Batman", "Homem-Aranha" etc) e Melanie Moore (que pertenceu ao centro de estudos sobre adolescência da Universidade de Stanford). Num trecho já publicado na Internet, Jones conta que aos 13 anos ele era um menino sozinho e apavorado. Foi salvo pelos quadrinhos: conheceu o Incrível Hulk, que lhe forneceu um ego alternativo para expressar sua "raiva reprimida".

Uma vez adulto, conversando com os jovens que gostavam de suas produções, Jones encontrava sempre a mesma história: eram "pessoas que saíam de armadilhas emocionais imergindo em histórias violentas". Ou seja, "graças a fantasias de combates e destruições", os leitores ou espectadores conseguiam uma nova integridade em que podiam admitir (e domesticar) fragmentos reprimidos de sua própria violência.

Em suma, Moore e Jones afirmam que histórias e fantasias violentas são positivas para o desenvolvimento de crianças e jovens. Por exemplo, a fantasia de "ter poderes super-humanos serve às crianças para vencer o sentimento de desamparo que deriva inevitavelmente do fato de elas serem jovens e pequenas". A dupla identidade dos super-heróis ajuda a conciliar os imperativos da socialização com a necessidade de proteger segredos e intimidade. Enfim, a "violência criativa" permite que as crianças conheçam e controlem sua raiva.

Talvez a violência na cultura popular motive alguns a serem violentos. Em compensação, segundo eles, para cada um influenciado desse jeito, milhares devem seu desenvolvimento harmonioso a fantasias violentas.

A tese de Jones e Moore faz sentido. Despedaçar alienígenas na tela do computador pode não ser uma instigação assassina, mas válvula de segurança para não despedaçar nossos camaradas.
Mas, cuidado, a tese implica este pressuposto, quase sempre aceito como uma obviedade: a violência seria uma propriedade humana inata. Dedução: se somos "naturalmente" violentos, temos de fazer algo para que nossa violência não nos impeça de conviver em sociedade.

Reprimi-la inteiramente, sugere a tese, não é possível: ela explodiria como uma panela de pressão. Portanto devemos brincar, fantasiar com a violência para exorcizá-la. Conclusão: é necessário e bom que a cultura popular seja violenta. Festa em Hollywood.

Ora, o pressuposto em questão não é nada certo. Quem diz que a violência seria nossa maneira natural de ser? De onde vem a suposição de que seríamos originariamente violentos -e apenas num segundo tempo contidos, reprimidos ou exorcizados? É um traço constitutivo da modernidade: nós imaginamos que na origem de tudo esteja o indivíduo sozinho, sem pactos, sem comunidades e sem amigos -valendo, portanto, apenas por sua força. Por isso a violência tem, aos nossos olhos, o glamour da natureza indômita. Ela nos fascina como uma espécie de autenticidade perdida.

As representações da cultura popular permitiram que um adolescente franzino sonhasse em ser Hulk -verde, irascível e brutal. Graças a esse sonho, ele imaginou fazer-se valer e sentiu-se melhor. Andrew (também franzino), com a ajuda de uma arma, tornou-se em Hulk de verdade. Eles agiram de maneiras diferentes, mas ambos com a convicção de que a violência (real ou fantasiada) é o caminho natural para fazer-se valer -pois, atrás de camisa e gravata, somos todos verdes.

Essa convicção não jorra da natureza. Tampouco ela precisa, para se consolidar, dos "pow-pow", "ratatatá", "boom" e outros gritos de telas e telinhas. Basta o fato de que o individualismo moderno, inevitavelmente, quase por definição, idealiza a violência.

quinta-feira, 1 de março de 2001

Darwin virando-se na tumba



Na coluna da semana passada, comentei que as recentes revelações sobre o genoma humano confirmam a hipótese da evolução das espécies. Darwin tinha razão.

Esse triunfo da teoria da evolução é um bom momento para lembrar que, desde seus começos, o darwinismo é perseguido por uma ameaçadora caricatura de si mesmo.

Fundamentalmente, Darwin observou que os animais com traços biológicos que facilitam a sobrevivência e a reprodução transmitem seus genes e mantêm sua espécie. Os outros acabam sumindo. A partir disso, ele tentou explicar a evolução das formas de vida em nosso planeta. Não me parece que essa visão suponha a idéia de um plano de Deus ou da natureza. Apenas há o esforço dos seres vivos que querem sobreviver. A evolução e a seleção acontecem, o que não significa que sejam um bem. Ou seja, por estarmos aqui, a teoria diz que somos "superiores" a outras espécies extintas, mas essa superioridade não tem sentido moral, ela indica só uma eficácia biológica maior.

Ora, logo depois da publicação de sua obra prima, "A Origem das Espécies" (1859), Darwin se queixou de uma resenha segundo a qual seu livro demonstrava "que a força vale como direito, que portanto Napoleão estava certo e também que qualquer comerciante desonesto tem sempre razão". A resenha fundou uma longa dinastia que acompanha o darwinismo como uma maldição. Nessa dinastia, as descobertas de Darwin justificam qualquer status quo. É simples: a evolução é apresentada como uma intenção da natureza. Portanto as espécies e os indivíduos que sobrevivem são justificados na ordem do mundo: o sucesso está sempre moralmente certo.
O capitalismo selvagem encontrou no pseudodarwinismo sua justificação moral explícita: a competição e a exploração seriam apenas formas "normais" da seleção natural.

Nas últimas décadas, a coisa piorou. Floresceu a dita sociobiologia ou psicologia evolucionista: uma série de biólogos, sociólogos e psicólogos aplicou a teoria da evolução ao comportamento social humano. Eles consideram que as disposições culturais, as escolhas morais e políticas, as condutas amorosas etc. devem ser avaliadas em função de seus efeitos na seleção natural. Sendo que, nessa ótica, sobreviver à seleção é o bem supremo.

Edmund Wilson escreveu a bíblia do novo campo: "Sociobiology" (1975). Esse livro (respeitadíssimo) já é contaminado pelo espírito da resenha da qual Darwin se queixava. Wilson, por exemplo, considera com perplexidade a idéia de que a sociedade ajude os mais miseráveis. Numa perspectiva pseudodarwinista, os mais desfavorecidos perderam a corrida da seleção natural. Mantê-los em vida significa se expor ao risco de que seus genes se misturem com os nossos -péssimo para nós, os favorecidos. Essa observação, além de moralmente repugnante, é simplória. Pois é provável que a força da espécie humana e nossa capacidade de sobreviver dependam também dos afetos que nos distinguem dos outros animais.

Contrariamente aos dinossauros, a gente enterra os mortos, se atrasa para ajudar os que não conseguem andar, alimenta os incapacitados e as crianças abandonadas. Talvez seja por isso mesmo que os homens ainda estejam nessa terra.

Desde o livro de Wilson, o pseudo-darwinismo tornou-se uma disciplina acadêmica na moda. Sua receita é fixa: se um comportamento existe, é porque foi aprovado pela seleção natural, que é o grande projeto da natureza. Com isso, o comportamento é legitimado com a aparente bênção da ciência.

A disciplina cresce a cada dia. Leio assiduamente, mas ainda não encontrei uma obra que não fosse fútil. Houve o sucesso do livro de Robert Wright, "The Moral Animal" (1994), que queria formular a moral da seleção natural.

Aprendi, no caso, que o arrivismo é natural e justo porque ele é necessário ao sucesso em nosso mundo e portanto está de acordo com as necessidades da seleção natural.

No ano passado, fizeram barulho dois acadêmicos, Thornhill e Palmer, com "A Natural History of Rape" (uma história natural do estupro), em que quiseram mostrar que, para o homem, estuprar é uma conduta natural e bem adaptada. A tese era deduzida das seguintes premissas: a evolução (o famoso plano da natureza) favoreceria a promiscuidade dos homens (que devem espalhar seus genes) e a modéstia das mulheres (que devem se guardar para os homens geneticamente mais brilhantes e reproduzir só com eles).

Ou seja, para o bem da espécie, o homem deve cuidar da quantidade e a mulher da qualidade (boa maneira machista de autorizar o adultério masculino e manter a fidelidade feminina). Os autores concluem então que, com essa contradição "natural", é inevitável que, de vez em quando, as mulheres apanhem. Bom, falem isso para as mulheres que foram estupradas na guerra da Bósnia.

Uma coisa é certa: à vista do sucesso do pseudodarwinismo, é possível afirmar que vender bobagens como verdades científicas deve ser moralmente justo, posto que parece ser útil e frutífero na seleção natural (e acadêmica) dos autores.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2001

O genoma e a auto-estima da espécie



A prendemos que o genoma humano contém por volta de 30 mil genes. Muito menos do que era previsto. Geneticamente, temos bastante em comum com o verme, não somos muito diferentes do rato e somos quase idênticos aos primatas.

Por isso, num jantar em Cambridge, alguém comentava que, para defender a especificidade humana, deveríamos colocar nossa esperança não nos genes, mas nas proteínas que produzimos -as quais seriam bem diferentes das do rato e das verme. Nessa altura, outro comensal interveio: "Falando em proteínas -disse- , estou patenteando um novo suplemento protéico que vai fazer sucesso...". A observação era inoportuna e babaca.

Mas cheguei à conclusão de que o comensal apenas reagiu do jeito que nossa cultura preconiza. Explico-me. As descobertas sobre o genoma parecem constituir uma derrota para nossa sensação de sermos especiais, únicos ou simplesmente importantes. Desde o começo da modernidade, nossa auto-estima leva uma punição atrás da outra.

Primeiro, houve Copérnico e Galileu. Até então, os humanos pensavam estar no centro do universo e da criação. O Sol e as galáxias davam voltas ao redor da Terra. Tudo existia só para que eles pudessem ser testados aos olhos de Deus.

De repente, descobriu-se que era a Terra que dava voltas ao redor do Sol. E isso na confusa periferia de um Universo sem forma. Inicialmente a igreja não gostou porque a coisa era contrária às Escrituras e à tradição. Mas ela deveria também se preocupar com o estado de espírito dos fiéis: como lidariam com a notícia de que eles talvez não fossem o único motivo da criação? Essa preocupação era desnecessária.

Os humanos saíram do enrolo tornando-se modernos. Eles perderam o interesse exclusivo por Deus e pela harmonia do Universo? Pois bem, fizeram um rápido luto e decidiram que eles mesmos seriam, desde então, a fonte do conhecimento, da sabedoria e do sentido das coisas e do mundo.

Três séculos mais tarde, Freud mostrou que nossas palavras mais sábias e nossas intenções explícitas eram dominadas por uma entidade que nos determina e que não controlamos direito: o inconsciente. Era outra revolução de tipo copernicano. De novo, os humanos foram expropriados. Tinham-se tornados modernos, passando a acreditar que eles mesmos estavam na origem do conhecimento e das certezas. E então aprendiam que eles não eram donos nem de seus próprios atos e pensamentos.

Entre Galileu e Freud, houve outras pauladas. Com Marx, apareceu que a organização do sistema produtivo influenciava nossa maneira de ser e de pensar. Darwin nos colocou em continuidade com o mundo animal, sem diferenças qualitativas especiais.

Hoje, os resultados da leitura do genoma confirmam as idéias de Darwin: se temos bastante em comum com formas de vida muito menos complexas, provavelmente devemos ter origens comuns. E acrescentam mais uma lição de humildade: nosso privilégio entre os seres vivos consiste em poucas centenas de genes. Mais uma vez somos ejetados de nosso trono.
Em suma, na modernidade -desde Galileu até as últimas notícias do genoma-, deveríamos ter baixado a bola. Aconteceu exatamente o contrário. Quanto mais as ciências (as do espírito como as da natureza) nos confirmam que não somos nada de extraordinário, tanto mais conseguimos nos convencer de que somos a única coisa que importa.

Isso começou logo depois de Copérnico. Retiraram-nos a harmonia e o sentido divino do Universo e reagimos fazendo de nossa razão a origem de todo o conhecimento e de a toda verdade. Retiraram-nos o amor exclusivo de Deus e nos consolamos com o amor-próprio. Aliás, logo demonstramos que podíamos inventar ciências e técnicas capazes de dar a esse Universo abandonado por Deus sua nova vocação: a de servir nossas vontades.

Depois de Freud, houve uma reação parecida e incrementada. Retiraram-nos a certeza de sermos donos da verdade e reagimos com um surto de paixão narcisista, que continua ainda. Passamos a ser, para nós mesmos, a única verdade que importa.

Acredito que nunca tenha existido uma cultura tão vociferante sobre a relevância do indivíduo, de seus desejos, de seus direitos e de seus prazeres. Em geral, imagina-se que uma cultura sirva para frear um pouco as paixões egoístas e defender alguns valores que possam ser compartilhados socialmente. A cultura contemporânea, ao contrário, é um esforço contínuo para proclamar e exaltar os direitos de nossa irrenunciável singularidade.

Vivemos este paradoxo: nunca soubemos tão bem que não somos nada e nunca fomos tão convencidos de sermos a única coisa que importa. Uma grande parte de nossos sofrimentos neuróticos tem sua origem nessa necessidade cultural de continuar pensando que somos a coisa mais importante do mundo -o que nunca cola com nossa miséria existencial e cotidiana.
O comensal de Cambridge seguiu a regra: aproveitou o gancho das proteínas para compensar as notícias -que eram ruins para o orgulho da espécie- com o relato de um triunfo pessoal

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2001

Músculos impossíveis e invejáveis

Quase a metade dos homens americanos está insatisfeita com seu corpo. O mesmo vale para os europeus. O caso dos brasileiros não deve ser muito diferente. É uma insatisfação calada, pois se supõe ainda que "um macho" não ligue para sua aparência. Mas é suficiente para mobilizar uma indústria. Em 1999, os homens americanos gastaram 2 bilhões de dólares em mensalidades de academia e a mesma quantia em aparelhos para exercitar-se em casa. A isso acrescentam-se as cirurgias plásticas e o mercado dos suplementos alimentares: 3 milhões de americanos (entre os quais 6,5% dos jovens de 15 e 16 anos) tomam ou tomaram esteróides anabolizantes para facilitar o crescimento da musculatura e queimar gordura.

Claramente, nas últimas duas décadas, constituiu-se uma cultura masculina da modificação corporal. Por que não aplaudir? Afinal corpos enxutos e malhados na praia são uma visão mais agradável do que carnes flácidas. Pessoalmente, levanto ferro há 35 anos e acho ótimo tanto para a saúde quanto para o humor. Então qual é o problema?

Acontece que uma parte não-negligenciável dos malhadores não encontra saúde nenhuma. Só nos EUA, as pesquisas mostram que, para quase 1 milhão deles, a insatisfação com seu corpo deixa de ser um incentivo e transforma-se numa obsessão doentia. Eles sofrem de uma verdadeira alteração da percepção da forma de seu próprio corpo. Por mais que treinem, "sequem" e fiquem fortes, desenvolvem preocupações irrealistas, constantes e angustiadas de que seu corpo seja feio, desproporcionado, miúdo ou gordo etc. Passam o tempo verificando furtivamente o espelho. Recorrem a dietas ferozes que acarretam verdadeiros transtornos alimentares (anorexia e bulimia já se tornaram patologias também masculinas). São as primeiras vítimas do uso desregrado de qualquer substância que prometa facilitar o crescimento muscular.

Nos casos mais graves, a obsessão do corpo destrói a vida social, profissional ou escolar dos sujeitos. Convencidos de sua feiúra, eles se escondem -num leque que vai desde se recusar a tirar a camisa até se trancar em casa. Abandonam estudos e carreiras para passar o tempo treinando. Sacrificam casamentos e relações amorosas. Não são raras as tentativas de suicídio.
Um livro recente, "The Adonis Complex: The Secret Crisis of Male Body Obsession", de Harrison G. Pope, Katharine Phillips e Roberto Olivardia (Free Press, 288 págs., US$ 25), tenta explicar a nova obsessão masculina do corpo e descreve sua patologia.

Segundo os autores, nas últimas décadas, os corpos vêm sendo encarregados de marcar as diferenças entre masculino e feminino. Mulheres e homens não se distinguem mais por funções sociais respectivas.

Hoje somos masculinos e femininos pela aparência, não por nossos encargos. Portanto o peso metafórico da virilidade se encarnou num corpo ideal forte e poderoso. Poderia ser uma simplificação: afinal, malhar quatro vezes por semana parece uma tarefa mais simples do que ser "homem" segundo exigências de grandeza de espírito, que são de difícil definição. Não é nada disso.

Infelizmente, o corpo que encarna o ideal social de virilidade é mais inalcançável ainda do que os mais complexos exemplos de força moral. Faça a experiência: pegue um bonequinho de GI Joe de última geração, que é para as crianças o modelo de força, determinação etc. Meça as proporções do boneco e calcule no que elas dariam em tamanho adulto. O boneco que usei dava um homem com a cintura de Britney Spears e um bíceps quatro vezes o braço de Schwarzenegger no seu ápice.

A masculinidade era um ideal espiritual enigmático e complicado. Agora se tornou um corpo impossível. Quem levar a sério a exigência social de ser "homem" poderá entrar numa aventura dolorosa. (A mesma coisa vale para as mulheres e a feminidade. Tente repetir a experiência das medidas com uma Barbie.)

Mais um comentário. Quase todos os insatisfeitos dos músculos declaram que eles tentam adquirir um corpo que seduza as mulheres. Ora, sistematicamente, nos testes aparece o seguinte: o corpo masculino que, segundo eles, enlouqueceria as mulheres é dez quilos (de músculos) mais pesado do que o corpo masculino que as mulheres realmente gostam. Ou seja, as mulheres preferem homens próximos da média -não excessivamente musculosos. Será que os homens se enganam e treinam em vão? É mais provável que querer seduzir seja uma desculpa. Os homens querem ser impossivelmente musculosos não para encantar as mulheres, mas para competir com os outros homens.

Tanto para os homens quanto para as mulheres, o motor da relação com os ideais modernos não parece ser o desejo que gostaríamos de suscitar na dama ou no cavalheiro.

De fato, a esperança de conquistar um parceiro ou uma parceira nos anima menos do que a vontade de sermos objetos da inveja de nossos semelhantes.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2001

Uma outra maneira de dar o peito

Jenna Franklin é inglesa e terá 16 anos no dia 23 de agosto deste ano. Para seu aniversário, os pais lhe oferecerão implantes de silicone nos seios. A praxe é esperar até mais tarde (depois dos 20 anos) para que a intervenção modifique um corpo que já tenha parado de crescer. Mas duvido que a moça não encontre um cirurgião disposto a operá-la logo. Tanto mais que os pais generosos são conselheiros profissionais em cirurgia plástica. E a mãe é uma veterana que fez seios, nariz, bochechas e duas lipos.

Essa notícia fez recentemente a primeira página dos tablóides ingleses. Prevaleceram as expressões indignadas contra nosso mundo que cultua as aparências: onde iremos parar se os pais autorizam ou, pior, transmitem diretamente o dever de agradar aos outros? Que desastre moral se prepara? E por aí vai.

A história e a polêmica se tornaram um despacho da Associated Press do começo de janeiro -que é minha fonte.

Jenna e sua mãe, Kay Franklin, foram entrevistadas. Jenna disse que desejava seios maiores desde os 12 anos e, questionada por que, acrescentou: "Precisa ter seios para ser bem-sucedida". E ainda: "Uma pessoa em cada duas na televisão teve implantes. Se eu quiser ser bem-sucedida, devo tê-los também e eu quero ser bem-sucedida, embora no momento ainda não saiba no quê". E enfim: "Só quero ser feliz com o meu corpo".

Kay, a mãe, declarou: "Há tantas jovens que se deprimem ou se atrapalham por causa de sua aparência. Então, se der para fazer algo para evitar isso, ótimo".

Gosto dessa história pelas reações que produz. Faça a experiência: conte para alguém. Na enorme maioria dos casos, a resposta será despropositadamente indignada. Como pode essa mãe desnaturada induzir na filha uma tal religião das aparências?

Antes de jogar mais uma pedra, pense um pouco: será que o presente da mãe de Jenna é essencialmente diferente do gesto das numerosas mães que oferecem academias, spas e regimes a suas filhas? Ou mesmo que lhes impõem aparelhos ortodônticos que parecem cabrestos?

Na verdade, a mãe de Jenna não é diferente de nós. Ela é a banalidade da maneira moderna de amar os rebentos: queremos que eles seduzam bem além do que nós conseguimos. Não imaginamos uma forma de felicidade, uma gestão do prazer ou uma forma de sucesso que não passem pela conquista da aprovação dos outros. E como não querer a felicidade de filhos e filhas?

Quanto a Jenna, sua fala vale um livro ou dois sobre o tema do narcisismo. Ela nos explica que a relação com nós mesmos, nossa maneira de julgar a imagem que aparece no espelho passa sempre pelo olhar dos outros.

Jenna quer ser feliz com o seu corpo. E acha que isso acontecerá quando ela fizer parte do grupo de implantadas que povoam a tela da televisão. Aparecer na televisão não é concretamente um ideal para Jenna (ela não quer ser apresentadora, nem modelo, nem atriz), mas é uma boa metáfora do sucesso narcisista, pois é provável que quem está na televisão seja aprovado pelo olhar dos espectadores.

Ou seja, Jenna quer (e deve) ser gostada para se gostar. Esse sucesso narcisista é um fim em si: o campo no qual ela poderia ser bem-sucedida é indiferente. A fantasia de Jenna é o sucesso que os seios lhe darão: a profissão em que os mesmos seios poderiam promovê-la não alimenta seus sonhos.

A vida de Jenna, mesmo com os seios novos, não será fácil. Como não é fácil, em geral, a vida de todas as nossas jovens -se suas mães se parecem com Kay. A dificuldade não está na tarefa de serem bonitas, mas na impossibilidade de definir um cânone.

Se o cirurgião fizer um bom trabalho, homens, mulheres e a própria mãe, todos poderão adular os seios perfeitos de Jenna. Mesmo assim, aposto que a moça não parará de achá-los insuficientes, exagerados, assimétricos, desproporcionados etc.

A dificuldade do narcisismo moderno não reside na tarefa de agradar, mas na perpétua insegurança. É inevitável: se a tarefa da vida for agradar aos outros que nos importam, nenhum olhar será definitivo, nenhum elogio e nenhum amor bastarão para decretar que o seio é perfeito. Pois o julgamento dos outros é uma suposição nunca resolvida. Podemos contar as pétalas da margarida (me ama, não me ama, me ama...) ou modificar o corpo (mais silicone, menos silicone...).

Na mitologia grega, um salteador chamado Procusto espreitava os viajantes. Queria forçar cada um deles a caber perfeitamente num leito. Esticava ou cortava fora os membros dos infelizes. Para o sujeito moderno, o problema não é evitar Procusto, mas encontrá-lo, para saber enfim o que precisa cortar e o que esticar. Encontro impossível: Procusto é apenas um mito.

P.S.: A procura de Procusto não é um problema só feminino, tipo: as mulheres sempre quiseram ser desejadas etc. Os homens e os rapazes das últimas décadas pensam como Jenna e sofrem da mesma incerteza. Na próxima coluna, comentarei pesquisas recentes sobre essa mudança na relação dos homens com seus corpos.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2001

A MISÉRIA DO CAPITAL 6

Até o ano que vem, em Porto Alegre
CONTARDO CALLIGARIS

DE PORTO ALEGRE

Na última manhã do Fórum, a cerimônia de encerramento está atrasada. O plenário, repleto, entoa coros. Paro na frente da sala de imprensa, que já começa a esvaziar. Uma faixa chama a minha atenção: "Legalizar o aborto é possível" -é o resto de uma pequena manifestação do dia anterior. De repente, estranho: num país onde as mulheres encaram o pesadelo dos abortos artesanais, um Fórum dito Social mal tocou no assunto. Também a presença feminista foi tímida. Havia um estande do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids e certamente houve oficinas preocupadas com o cotidiano dos corpos e dos desejos. Mas foi difícil encontrá-las.

Até visualmente o Fórum foi dominado pelos bonés vermelhos da CUT, as bandeiras do PT e os bonés verdes da Via Campesina. Nada parecido com o caleidoscópio de cores que é esperado nos encontros da nova revolta, depois de Seattle.

Em poucos minutos, no saguão meio vazio, seis delegados de oficinas diferentes me abordam. Cada um me entrega uma cópia do relatório de sua oficina. O leque vai desde um projeto de arte ecológica até a idéia de constituir uma democracia representativa mundial via Internet. A alma de meu defunto tio Ubaldo, anárquico e fanático do esperanto, deve estar nesse saguão, com seu sonho de língua universal na mão.

No entanto, no plenário, cantam "Guantanamera". Parece um resumo do Fórum: aqui no saguão, delegados de oficinas que ninguém notou procuram um último jornalista para quem confiar sua mensagem. E, na sala, bandeiras, coros, celebrações e holofotes.

A imprensa caiu na armadilha. Cobriu os comícios e entrevistou os políticos de sempre para receber as respostas de sempre. Às quatro da madrugada de ontem, heróicos repórteres escutavam mais uma coletiva de José Bové. O agricultor francês mereceria o codinome de "Lavoura arcaica": defende um protecionismo absoluto em agricultura, que seria um desastre para qualquer produtor brasileiro e que, na França, é uma carta da luta imperial francesa contra a cultura americana. E nós com isso? Os repórteres cobriam, na verdade, o MST que adotou Bové. Seguiam os holofotes manobrados pelas organizações da esquerda tradicional.

Anunciam, enfim, que o Fórum de 2002 será de novo em Porto Alegre. Ótimo. O governo do RS e a prefeitura da capital gaúcha se qualificam para hospedar o Fórum não por serem do PT, mas por realizarem uma nova forma de participação popular na administração da coisa pública.
Seria bom lembrar isso na hora de organizar e convocar 2002. Essa exortação vale apenas se existe a intenção de que Porto Alegre hospede, em 2002, um Fórum da nova esquerda -coisa que o Fórum que acabou ontem não conseguiu ser.

terça-feira, 30 de janeiro de 2001

A MISÉRIA DO CAPITAL 5

Fórum alegre

CONTARDO CALLIGARIS
DE PORTO ALEGRE

D epois de cinco dias de Fórum, me descubro entregue a uma espécie de ciclotimia. Quando estou nas oficinas da tarde - sobretudo as que são propostas por ONGs que trabalham em projetos sociais concretos -, sinto-me prestes a acreditar na possibilidade de um mundo melhor e confiante no futuro da espécie. Nos depoimentos da noite e nos painéis da manhã, meu humor é variável. Fico sombrio e irritado quando me deparo com falas projetadas para entusiasmar. As falas que entusiasmam não são necessariamente as mais políticas. Ao contrário, como notou Lula em seu testemunho, os atos mais concretos talvez sejam os mais políticos. As falas que entusiasmam (e me deprimem) são aquelas que tentam fazer apelo ao que há de pior - em mim e, portanto, devo concluir, também em meus companheiros de platéia. O que é isso? É a disposição humana a aderir para fazer grupo, acompanhada por um pensamento mágico, em que a certeza deriva do entusiasmo e da constatação de que ele é compartilhado ao redor de nós. Quando essa sensação me pega no pescoço, a desconfiança é física - uma mistura de medo com depressão. Devo ter um gene contra o entusiasmo coletivo - herança do antifascismo do meu pai. Peço vênia ao leitor se isso me leva a privilegiar, no Fórum, os momentos que mais me irritam. Por exemplo, às vezes, durante o Fórum Parlamentar (que reúne deputados e senadores de 29 países), toquei o fundo do poço: houve várias falas comprometidas só com o entusiasmo imediato dos ouvintes. Poderia aguentar firme e, por exemplo, privilegiar a plataforma que o Fórum Parlamentar apresentaria ontem. Provavelmente será um documento significativo. Afinal, o Fórum das Autoridades Locais (prefeitos e autoridades municipais) apresentou uma lista de propostas que compõem uma ética básica da administração citadina. Eu me pergunto: como seria um Fórum que me deixasse constantemente esperançoso? Seria composto de mais oficinas, poucos painéis com tarefas de trabalho bem específicas e pouquíssimos testemunhos. Nesse Fórum ideal, como foi o caso em muitas oficinas, seria bem-vindo discordar e não seriam colocados em causa os pressupostos éticos de quem discorda. Nesse Fórum, não seriam vaiados nem os que julgamos inimigos, pois todos saberiam que ninguém detém o monopólio da solidariedade. Nesse Fórum, não aceitaríamos que a descrição da realidade fosse alterada para embelezar os fracassos de nossas idéias e de nossos esforços. Nesse Fórum, um debate com participantes de Davos não seria um match de acusações para o prazer da torcida. Esse Fórum alegre, de fato, já está acontecendo durante uma boa metade do tempo - o que é um sucesso e justifica que a coisa volte a acontecer.

domingo, 28 de janeiro de 2001

A MISÉRIA DO CAPITAL 4

O perigo de ouvir só o que a gente gosta
CONTARDO CALLIGARIS
DE PORTO ALEGRE

Na tarde de sexta-feira, fui escutar Eduardo Galeano. Queria uma fala bonita, depois de oficinas específicas e práticas. Foi bonito demais.

Galeano leu uma seleção dos textos de seu livro "Patas Arriba" (1999) e abriu-se o debate.
Recebeu perguntas sobre o subcomandante Marcos, McDonald's, a repressão do narcotráfico etc.

Fosse qual fosse a bandeira levantada, ele nunca decepcionava, ou seja, sempre conseguia responder exatamente o que a platéia queria ouvir.

Afirmou, por exemplo, que "a luta contra a droga é só uma máscara da guerra contra os pobres" e que não há americanos do norte na cadeia por tráfico de drogas. A platéia ovacionou feliz.
No começo, ele falou de uma crise universal da fé na capacidade de transformar a história e o mundo.

Ele tem razão. É necessário reconstituir a confiança na possibilidade de ação.
Mas será que o melhor caminho para isso é o culto coletivo de enunciados que têm apenas a função de celebrar nossa fé comum?

É o mesmo mecanismo da missa em latim: não importa o que está sendo falado, importa a celebração.

Desde o primeiro dia do Fórum, o trabalho de quem coloca as mãos na massa complexa do mundo parece ser silenciado pelo clamor da celebração.

Assim Jorge Beinstein afirmou que temos muito o que aprender com a democracia cubana. Ahmed Ben Bella (ex-presidente da Argélia) afirmou que não há democracia nos Estados Unidos, o que, na verdade, deveria seduzi-lo, pois também disse que ele não é democrata. Todos aplaudidíssimos.

Em Davos, os participantes pagam US$ 20 mil para escutar um argumento imprevisto -não seriam loucos de pagar esse dinheiro para ouvir o que já pensam.

No Fórum de Porto Alegre, às vezes, parece que milhares vieram do mundo inteiro para ouvir exatamente o que queriam e já sabiam. É verdade que é de graça e, com isso, a festa é legal.
Mas se o problema é tomar (um pouco) as rédeas do mundo, melhor levar a realidade mais a sério.

sábado, 27 de janeiro de 2001

A MISÉRIA DO CAPITAL 3

Topografia

CONTARDO CALLIGARIS
EM PORTO ALEGRE

O parque da Harmonia -um bonito espaço arborizado na beira do rio Guaíba- abriga o acampamento das delegações indígenas e o da juventude. Neste último, leio a faixa do grupo Juventude Participativa de Alvorada: "Sem juventude não há revolução". A juventude é um lugar-comum retórico da modernidade, provável parente da paixão pelas novidades. A ponto de todos os totalitarismos que conheço terem feito uma apologia da juventude. Giovinezza! Giovinezza! Por sorte, aqui o clima parece ser democrático: de discussão e de festa tranquila.
As delegações indígenas e os "jovens" convivem simpaticamente. Mas há diferenças de ecossistemas. De noite, o acampamento dos jovens quer continuar a festa e amplificar a música. Os índios acham que está na hora de dormir.
Entre os índios e os jovens militantes, estão os verdadeiros indígenas: um grupo de sem-teto que moram no parque da Harmonia desde sempre. Eles estão muito felizes com o Fórum. Não sabem o que é, mas constatam que traz benefícios: chuveiros, sanitários, comida, um pronto-socorro médico. Devem achar que a cidade decidiu assentá-los ao ar livre, como gostam.
Que maravilha!
Mas nem todos passam a noite no parque. Paolo Gasparotto, o colunista social do "Zero Hora", assinala que haverá uma recepção para Danielle Mitterand e Jean-Pierre Chévènement. Será oferecida pelo consulado francês no clube Leopoldina Juvenil, que é o clube tradicional da classe mais abastada da cidade. Duvido que os membros de "Le Monde Diplomatique" não apareçam. Seria a reunião da esquerda-caviar.

A UTOPIA DO DIA

Responsabilidade - Acabar com a responsabilidade limi- tada de empresas e corporações de maneira que os dirigentes sejam individualmente responsáveis. Por exemplo, a Firestone sabia que uma grande quantidade de pneus montados no Ford Explorer explodia, mas atrasou a decisão de chamar de volta os veículos, talvez por medo das repercussões sobre a cotação das ações (cf. "Idéia feita do dia"). Entretanto dezenas de pessoas morreram. A Firestone pagará danos e multas punitivas. Mas, sem o princípio da responsabilidade limitada, os dirigentes iriam para a cadeia.

IDÉIA FEITA DO DIA

Pela qualidade - Pagar aos trabalhadores com ações talvez não leve à sua participação concreta. Mas -é uma outra idéia feita- pagar aos dirigentes com opções garantiria a qualidade de seu empenho. Eles teriam, assim, o maior interesse no futuro da empresa. Essa idéia, imposta pela globalização especulativa, produz efeitos trágicos na gestão das empresas, pois muitos dirigentes (donos de pacotes de opções) trabalham mais para valorizar a empresa no mercado financeiro do que para desenvolver seu potencial e sua presença na produção.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2001

A MISÉRIA DO CAPITAL 2

Um cheirinho de naftalina

CONTARDO CALLIGARIS
EM PORTO ALEGRE

N uma entrevista coletiva para a imprensa, Bernard Cassen, diretor de "Le Monde Diplomatique", disse que o Fórum de Porto Alegre não é contra aquele de Davos; ao contrário, Davos está contra Porto Alegre. Pois, como ele explicou, na Suíça, os poucos tramam contra os muitos. Acrescentou que, em Davos, só há indivíduos falando por conta própria e, portanto, defendendo interesses pessoais. Em Porto Alegre, há representantes de organizações, "pessoas que representam mais do que a si mesmas". Em suma, os muitos têm mais razão do que os poucos, e é melhor não falar em seu próprio nome.

Em assembléias de 30 anos atrás, esses chavões retóricos rendiam aplausos certos. Eu achava que, com a acumulação dolorosa das experiências, a esquerda tivesse desistido de negar suas melhores origens iluministas e individualistas.

No programa de Porto Alegre, o número de organizações e grupos norte-americanos mal passa de dez. Claro, os "baderneiros" de Seattle, com suas tendências anárquicas, odiariam ouvir que falar em seu próprio nome é menos legal do que representar grupos. Ou que os muitos são sempre melhores do que os poucos.

No futuro, seria interessante que a revolta contra o mundo neoliberal não fosse toda traduzida ideologicamente pelo mesmo academismo político francês. Isso acaba excluindo grupos e indivíduos (mas os indivíduos não importam, não é?), que não combinam com o cheiro da naftalina.

Triste confirmação de última hora: na cerimônia de abertura houve vaias para a pequena delegação dos Estados Unidos e aplausos para a Coréia do Norte (uma delegação oficial?).

quinta-feira, 25 de janeiro de 2001

A MISÉRIA DO CAPITAL 1

Preliminares

CONTARDO CALLIGARIS
EM PORTO ALEGRE

Qual é , para mim, a relevância do fórum?
A realidade econômica da globalização pode ser violenta, mas também pode ser corrigida. Aliás, os impasses (e os horrores) são óbvios até para muitos dos que estão em Davos.
Preocupa-me mais não o Consenso de Washington, mas o nosso próprio consenso. Ou seja, a facilidade com a qual, nas últimas três décadas, as classes médias ocidentais mais bem-intencionadas acabaram pensando que os sonhos progressistas teriam sido enfim realizados (ou quase). Por exemplo, "ser livre" é poder escolher produtos num mercado aberto e mundial.
"Participar democraticamente" é poder investir on line, sem intermediários.
"Ser informado" é dispor das mesmas informações do que dispõem os investidores institucionais. "Desenvolvimento" é crescimento do PIB. E por aí vai.
Parece que, por malícia ou por preguiça, sem que nos déssemos conta, os termos com os quais pensávamos nosso futuro foram desvirtuando-se. Do Fórum Social Mundial espero, sobretudo, isto: que devolva seu alcance a algumas palavras. Não seria pouca coisa.
A cada dia (ou quase), apresentarei brevemente um projeto utópico discutido no fórum (ou em seus bastidores). Também criticarei uma idéia feita contestada (ou adotada) aqui.

Utopia do dia
Para limitar o poder político de empresas e corporações, uma reforma das leis de financiamento das campanhas eleitorais (a começar pelas americanas) adotaria o seguinte princípio: só os cidadãos, singularmente, devem ser autorizados a financiar candidatos e legendas, pois só os cidadãos, singularmente, votam. Para evitar espertezas, haveria uma contribuição máxima por votante - digamos, por exemplo, cem dólares. Também seria permitido financiar apenas um candidato ou uma legenda por eleição -ou seja, não mais seria possível contribuir com as campanha de todos para ser sempre credor de quem ganhasse. Se os fundos levantados fossem insuficientes, teríamos campanhas mais breves, mais concretas e menos espalhafatosas. É um problema?

Idéia feita do dia
Nos anos 90, triunfou a idéia de que pagar aos trabalhadores com ações ou opções seria uma nova forma de todos controlarem o processo produtivo. Eram ultrapassados o capitalismo démodé da velha economia e o socialismo derrotado: graças às ações possuídas, os trabalhadores seriam proprietários. Problema: as oscilações do valor de ações e opções têm pouquíssima relação com os esforços dos trabalhadores-acionistas. Ou seja, a distribuição de títulos não cria nenhuma participação concreta. Por exemplo, imaginemos que uma empresa tenha sido racionalizada, eufemismo para dizer que ela demitiu 10 mil funcionários. As ações sobem. Os desempregados, que levam consigo seus pacotes de ações e opções, devem ficar tristes ou alegres?

Por que escutar adultos inconsistentes?

Os adultos conclamam que é importantíssimo ajudar e aconselhar crianças e adolescentes. Dizem que querem iluminar o caminho de seus rebentos, propor ideais e servir de exemplo. Mas, geralmente, na hora do vamos ver, eles apenas exigem duas coisas: obediência e resultados escolares. Essa é a conclusão de uma recente pesquisa do Search Institute -uma organização de fins não-lucrativos que promove o bem-estar de crianças e adolescentes. A pesquisa foi feita com adultos americanos, mas aposto que os resultados seriam os mesmos em qualquer país ocidental.

Nos últimos dez anos, o Search Institute elaborou uma descrição do capital moral cuja presença facilitaria o desenvolvimento socialmente harmonioso de uma criança ou de um adolescente. Chegou-se a uma lista de alicerces que, naturalmente, não são dádivas divinas. Eles devem ser construídos pelo comportamento dos adultos e das comunidades em que vivem os jovens.

Eis alguns exemplos banais de comportamentos que produzem capital moral. Ter conversas significativas com os jovens e dar conselhos são atitudes pelas quais os adultos manifestam seu apoio -o que constitui um bom alicerce para o desenvolvimento dos jovens. Solicitar a sua opinião produz neles um sentimento de autonomia -outro sustentáculo necessário. Servir à comunidade de maneira exemplar é uma conduta pela qual um adulto institui expectativas sociais positivas. Ensinar valores compartilhados e discutir valores pessoais permite a elaboração de uma ética. Ensinar respeito pelas diferenças culturais cria uma competência social. Transmitir tradições confere à juventude uma identidade. E por aí vai.

Foi assim estabelecida uma lista de 19 ações dos adultos que seriam essenciais para os jovens. O Search Institute quis saber se os americanos colocavam fé nesse catálogo. Foram realizadas 1.425 entrevistas aprofundadas com adultos representativos da sociedade americana em sua diversidade. Os pesquisadores jubilaram-se pois, das 19 ações da lista, 9 foram qualificadas como cruciais por 70% dos entrevistados e outras 9 foram assim qualificadas por entre 50% e 70% dos adultos entrevistados.

Em suma -independentemente das diferenças de origem étnica, fé religiosa, sexo etc-, a maioria dos adultos americanos compartilha de um verdadeiro consenso sobre as ações que eles poderiam e deveriam realizar para ajudar, assistir e acompanhar o desenvolvimento de crianças e adolescentes. O resultado deveria inspirar uma onda de otimismo pedagógico.

Mas a pesquisa também quis verificar se os mesmos adultos praticam essas ações que a maioria deles considera importantíssimas para o bem-estar de crianças e jovens.

Consternação! Constatou-se que, das 18 ações que suscitam seu grande entusiasmo (retórico), a maioria dos adultos pratica somente estas duas: exigir respeito e bom desempenho escolar.
Conclusão: a relação dos adultos com jovens e crianças é marcada pela inconsistência. Os comportamentos não correspondem às proclamações.

Imaginemos um exemplo caseiro. Um adulto pode acreditar sinceramente que a honestidade de todos garantiria um país melhor e, portanto, proclamar que a honestidade é um valor que deve ser frisado no espírito de todas as crianças. Entretanto esse adulto talvez seja nepotista, aproveitador, desrespeitoso da coisa pública etc. Isso seria justificado eventualmente pela constatação habitual: todos são assim, não serei o único trouxa. Portanto o adulto vai perorar sobre os valores morais, mas não se aventurará a transmiti-los direta e concretamente a filhos e filhas por receio de ser tachado de hipócrita e mentiroso. Os jovens são sempre excelentes intérpretes dos adultos e raramente deixam de perceber a incongruência do que está sendo preconizado com o que está sendo praticado.

Não é por acaso que, de todos os entusiasmos pedagógicos dos adultos, sobram, em geral, as duas ações mencionadas. Elas parecem escolhidas a dedo. Primeiro, os adultos não param de exigir respeito: provavelmente, com esse pedido abstrato, eles tentem compensar a perda de autoridade moral que foi produzida por sua própria hipocrisia.

Segundo, eles querem bons desempenhos escolares. A sabedoria moral proclamada é reduzida a uma exigência pragmática de sucesso: "Estude, meu filho/minha filha!". Se a exortação não for acompanhada de razões morais concretas, ela não soará diferente de "veja se consegue se dar bem na vida". Os jovens podem obedecer a essas duas exigências, mas sempre adotando, resignados, o cinismo dos pais.

É difícil sair desse impasse entre gerações: o desprezo suscitado pela inconsistência dos adultos torna os jovens impermeáveis (ou quase) a qualquer palavra pedagógica.
P.S. A íntegra dos resultados da pesquisa pode ser consultada em www.search-institute.org. O título da pesquisa é "Grading Grown-ups - Avaliando os Adultos".

quinta-feira, 18 de janeiro de 2001

O adolescente deprimido e a professora inválida



Converso regularmente com um adolescente de 17 anos, exasperado e deprimido. Ele já teve outras experiências terapêuticas forçadas e não aguenta mais falar de pai, de mãe, de irmãs e de companhia. Em geral, comentamos as notícias do dia.

Na semana passada, ele foi atraído por uma história "edificante". Uma universidade americana dedicara um anfiteatro a uma professora de escola primária e secundária que, depois de uma longa carreira de ensino, foi paralisada pela doença de Lou Gehrig (uma distrofia muscular progressiva) e seguiu ensinando. Quando perdeu a voz, passou a ensinar surdos-mudos. Na reportagem, ela estranhava a atenção e os elogios: era uma mulher em paz com ela mesma e com o mundo, sem furores caritativos ou vocações martirológicas. Sua vida parecia simplesmente normal.

Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida. Essa idéia, concordei, passaria por qualquer cabeça. Mas por que a professora não foi por esse caminho?

Claro, se ela atravessasse a vida como uma prova aos olhos de Deus, poderia encontrar conforto na perspectiva de uma recompensa final. Mas como seria possível essa existência - ao mesmo tempo dura e tranquila- sem o recurso da fé religiosa? O insuportável numa doença como essa, afirmou então meu interlocutor, são os limites, as impotências.

Notei que há uma infinidade de coisas que não conseguimos fazer. Afinal, não sei voar, nem ficar sem respirar por mais de dois minutos. Com paciência condescendente, meu amigo explicou que essas são coisas que ninguém consegue fazer. O que dói, acrescentou, é não conseguir fazer as coisas que os outros conseguem. E declarou que, se tivesse uma invalidez grave, talvez ele pudesse seguir vivendo, mas só entre pessoas tão inválidas quanto ele. Conclusão da conversa: o problema não é a invalidez, o problema são os outros. Melhor dizendo, a necessidade de se comparar aos outros.

Voltemos à professora. Ela transmitia uma sensação de paz justamente porque, pelo menos na aparência, escapava ao demônio da comparação. Justificava sua vida em si. Parecia ter nascido como um soldado ao seu posto, com uma tarefa definida. Que chovesse ou fizesse sol, que ela estivesse saltitante ou paralisada, tanto fazia, pois ela era professora, sua vida era ensinar.
O demônio da comparação não é um acidente, nem uma patologia. Ao contrário, talvez seja a norma social contemporânea: é nos comparando aos outros que encontramos nosso lugar, nossa função e nosso valor.

Essa arquitetura social comparativa foi inventada na esperança de produzir uma sociedade livre e mais justa. De fato, se todos se definem por comparação, todos podem mudar, evoluir, crescer. Ninguém é forçado a exercer uma função, ninguém tem sua vida decidida pelo berço em que nasceu ou pela cor da pele. Mas há um paradoxo: a sociedade assim produzida acarreta um potencial inédito de exclusão. Pois qual lugar sobra para quem não tem recursos para competir?

Quem, por qualquer razão, não pode encarar a comparação é mais excluído do que os párias numa sociedade de castas ou os escravos do passado. O horror moderno é que as vidas humilhadas, impedidas ou azaradas não encontram mais justificação nenhuma na ordem da sociedade e do mundo: elas são puras derrotas. A não ser, evidentemente, que a gente consiga seguir um pouco o exemplo da professora e encontrar sentidos para a vida que não sejam comparativos.

Olho para meu jovem amigo. Visivelmente não se lava há mais de um dia. Nem o rosto. Sua roupa é manchada e muito amassada. Deve ter dormido com ela.

Sua tristeza e seu desleixo não se confundem com o estilo "excluído-fashion" -feito, sei lá, de cabelos amarelos e calças rasgadas à Xuxa. Muitos adolescentes manifestam algum desprezo pela ordem moderna do mundo - por exemplo, pelas coisas que os adultos prezam, só para serem invejados pelos outros. Quase sempre é um fazer de conta salutar: os adolescentes parecem querer se subtrair do jogo adulto das comparações, mas é uma atitude que serve para eles tornarem-se incomparáveis. Essa revolta banal é um momento padrão no processo de assimilar a sociedade dos adultos.

A depressão de meu jovem amigo está um pouco além disso. Ele é mesmo apavorado e revoltado pela corrida que o espreita, aquilo que chamam de vida. Pior, ele se desespera porque sabe que sua raiva e sua indignação são mais alguns elementos desprezíveis de conformismo, apenas maneiras banais de querer ser diferente.

Trouxe-me a história da professora para formular uma pergunta: será que há como inventar uma vida que se justifique por algum mérito intrínseco? Será que dá para sonhar com uma maneira de viver que não deveria tudo ao olhar dos outros?

Pois é, competir, se distinguir, brilhar são as formas básicas de nossas relações sociais. Mas eis um aviso aos pais e aos adultos que gostariam de ser escutados por jovens e adolescentes: a professora, de sua cadeira de rodas, pode falar mais alto do que muitos Bill Gates.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2001

Leis para indigentes morais

Acaba de chegar a Massachusetts um grupo de adolescentes sudaneses que viajaram diretamente da Idade da Pedra, ou quase, até a América de 2001.

Eis a história, segundo a reportagem do "Boston Globe". No fim dos anos 80, o governo fundamentalista muçulmano do Sudão começou a perseguir os cristãos separatistas do sul do país. Os jovens machos dessas populações (33 mil), particularmente ameaçados, fugiram marchando (e morrendo) para a Etiópia, onde ficaram em campos de refugiados. A guerra civil local forçou os jovens a uma nova marcha de 500 quilômetros até o Quênia. Sobraram 5.000 filhos das tribos Dinka e Nuer, que agora estão sendo distribuídos pelos Estados Unidos. Para muitos, a viagem de avião é a primeira experiência em um transporte motorizado.
Conversas bostonianas no fim-de-semana: qual será o maior estranhamento para esses jovens? A neve e a calefação? Os celulares? A Internet?

As organizações de assistência, conhecendo as dificuldades de um transplante cultural violento, pediram que os anciões das tribos gravassem sua sabedoria para os jovens levarem consigo na forma de fita cassete. Na nova terra, isso seria um recurso valioso na hora dos apuros. Os anciões consignaram, assim, suas melhores diretivas. Ora, aos ouvidos americanos, os preceitos, uma vez traduzidos, soam genéricos ao ponto de serem inutilizáveis.

Por exemplo: "Aconselho-lhes que sejam muito cuidadosos com as mulheres". Se um desses jovens acabar no mesmo colégio onde estudaram meus filhos, ele receberá um código escrito no qual é dito que, na área do colégio, são proibidos beijos prolongados. Aprenderá que, segundo o código, prolongado é um beijo durante o qual a intenção das partes pode mudar. Ou seja, um beijo é comprido demais quando um dos dois tem dificuldade em interrompê-lo caso não esteja mais a fim. Continuando seus estudos, o mesmo jovem encontrará novos códigos explicitando quantas vezes o consentimento deve ser pedido a cada etapa da corte amorosa.

Outro conselho prático dos anciões: "A cerveja é uma coisa que vocês não conhecem. Não se metam nisso". Equivalente civilizado: bebidas alcoólicas só podem ser compradas depois dos 21 anos; quem aparentar menos de 40 deverá mostrar identidade; menor de 21 pode entrar num lugar onde se vende bebida alcoólica só se for também restaurante; é proibida a venda de álcool no domingo; é proibido beber em lugares públicos, mas é permitido beber na rua com a condição de que a garrafa não apareça, e por aí vai.
O maior choque para os jovens sudaneses não virá das diferenças de comportamento. O susto virá da quantidade de leis formais detalhadas e explícitas que regram a vida americana, enquanto a vida da tribo era regrada por poucas normas quase sempre implícitas -ou seja, pela confiança de todos numa moral comum tácita.

Nossas leis tornam-se cada vez mais detalhadas, pois há a idéia de que um código exaustivo garantiria o funcionamento de uma comunidade justa. De fato, essa proliferação revela a angústia de uma cultura insegura de suas opções morais. Por sermos indigentes morais, compilamos uma casuística da qual esperamos que nos diga exatamente o que fazer em cada circunstância. O dito legalismo da sociedade americana, tão frequentemente denunciado, é apenas o sinal dessa indigência.

A tentativa de animar uma comunidade por uma lengalenga de leis testemunha a fraqueza do vínculo social. Não podemos confiar numa inspiração moral compartilhada, portanto inventamos regras para ter, ao menos, muitas obrigações comuns.

Na Olimpíada de Sydney, uma jovem ginasta romena perdeu sua medalha de ouro por ter tomado duas pílulas de Sudafed (pseudoefedrina). Esse banal descongestionante nasal era incapaz de melhorar a performance da atleta. Todos admitiram isso, mas, por estar a pseudoefedrina na lista das substâncias proibidas, a sanção pareceu necessária. Foi exemplar do quê? Do triunfo da moral ou de nossa incapacidade social de decidir segundo a consciência?
Pense em dois mundos. Num deles, seria possível e adequado apertar o ombro de um adolescente que sai de casa, dizendo: "Comporte-se direito, meu filho". No outro, entregar-lhe-íamos um calhamaço de diretivas, pois não poderíamos apostar que ele compartilhasse conosco e com todos a mesma implícita preocupação moral. Não é preciso dizer em qual desses mundos vivemos.

P.S. Sobre a relação entre normas sociais implícitas e leis, um livro recente ajuda a pensar: "Law and Social Norms", de Eric Posner. Nestes dias, li também "When Law Goes Pop", de Richard Sherwin, que é uma história da invasão da cultura popular pela prática jurídica, de Perry Mason até os programas da "Court TV" americana -processos verdadeiros debatidos e decididos ao vivo por juízes que são estrelas da televisão. Talvez a prática jurídica ocupe tanto espaço na cultura popular porque o espetáculo da administração da lei substitui e compensa a mediocridade de nosso senso moral.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2001

Tampas e panelas de pressão

Na manhã de 26 de dezembro, em Wakefield, perto de Boston, Michael McDermott, 42, foi para o trabalho armado até os dentes e matou sete colegas a tiro. Então esperou a chegada da polícia.

A imagem de McDermott, barbudíssimo, desgrenhado e inquietantemente grande, foi servida como uma caricatura de ogro. Mas as reportagens desmentiam o fenótipo. Ele era um cara legal. Doava plaquetas sanguíneas a cada duas semanas. Era adorável com as crianças. Entendia de explosivos, mas dava conselhos pacifistas a seus interlocutores.

Único problema: uma pequena dívida de Imposto de Renda e um atraso nas mensalidades do carro e do condomínio. Eis o estopim presumido: a pedido do governo, uma parte do salário do homem seria retida automaticamente, e ele não gostou. Sete mortos por causa de 3.000 dólares?

Felizmente para os comentaristas, surgiu uma outra explicação: McDermott não devia estar bem da cabeça, pois tomava Prozac e outros remédios não determinados. O advogado de defesa certamente alegará a irresponsabilidade, no estilo: se tomava Prozac, devia ser louco.

É uma idiotice. Mas é o preço do sucesso dos antidepressivos: eles se transformaram em aspirinas do espírito. São frequentemente prescritos por clínicos apressados e sem diagnóstico específico. Está triste? Tome, que faz bem! Está delirando? Também tome, nunca se sabe! Usar Prozac pode ser índice de qualquer condição: "spleen" do poeta, angústia do vestibulando ou esquizofrenia.

O advogado de McDermott também considera a possibilidade de uma "defesa Prozac", ou seja, tentará mostrar que os efeitos colaterais do Prozac foram responsáveis pela fúria de seu cliente. Há um precedente: o caso de Joseph Wesbecker, que, em 1989, em Louisville, Kentucky, semeou a morte em seu lugar de trabalho e deu um tiro na cabeça.

A Eli Lilly (fabricante do Prozac) foi processada por sobreviventes e herdeiros das vítimas: eles alegavam a responsabilidade do remédio no comportamento de Wesbecker. A decisão inocentou o Prozac, mas, dois anos mais tarde, a Corte Suprema do Estado descobriu que a Lilly pagara secretamente aos querelantes para que, sem revelar o acordo, eles enfraquecessem seus argumentos e perdessem o processo (os detalhes estão no recente "Prozac Backlash", de J. Glenmullen).

Portanto é provável que o processo McDermott reanime as acusações contra o Prozac. Será tempo perdido debatendo uma questão mal colocada.

É verdade que a molécula do Prozac pode ocasionalmente produzir ansiedade e agitação graves, mas as histórias de Wesbecker e de McDermott denunciam sobretudo um extraordinário mau uso clínico. Um exemplo. Os antidepressivos, quando chegaram ao mercado, foram prescritos também para atenuar os efeitos de lutos dolorosos. Tratava-se de combater o efeito químico produzido no cérebro pela perda e assim atenuar o sofrimento.

Numerosos psiquiatras, psicólogos e psicanalistas acharam essa possibilidade bem-vinda, mas lembraram que o sujeito, mais cedo ou mais tarde, deveria fazer seu luto. Ou seja, melhor que o remédio não anestesie totalmente e que seja acompanhado por um trabalho psicoterapêutico para que o sujeito possa, aos poucos, reconhecer sua dor e conviver com ela.

Isso vale para todo sintoma psíquico. Alterar quimicamente humores, afetos e pensamentos sem oferecer a possibilidade de questionar o destino e as circunstâncias que levaram ao mal-estar é arriscado.

Wesbecker, um mês antes de seu surto assassino, passou a tomar Prozac sem acompanhamento psicoterapêutico. Quiseram "melhorar" a química de seu cérebro sem ajudá-lo a debater as idéias paranóicas que se iam formando na sua cabeça. A história de McDermott parece ser a mesma.

O sujeito está em ebulição? Pois bem, não vamos mexer com o que está na panela! Só apertemos a tampa! Mas, por mais que a panela seja de pressão, se ninguém encontra um jeito de baixar o fogo, não há tampa que aguente.

Nas histórias de McDermott e de Wesbecker, o culpado não é a molécula do Prozac, mas uma cultura que coloca uma fé infinita nas possibilidades de mudança e, ao mesmo tempo, seduzida pela facilidade, acredita em atalhos e milagres. Por exemplo, no atalho da pílula que cura logo e muda a cabeça sem conversa.

Hoje, os comentaristas do caso de McDermott estão prestes a acusar a molécula do Prozac com o mesmo entusiasmo de quem esperava que a molécula resolvesse sozinha os problemas da vida.

Ora, McDermott, por exemplo, nasceu Mike Martinez. Ele é latino, não irlandês. Aos 22 anos, decidiu mudar de nome e de origem. Engraçado, todos mencionam esse fato pouco banal, e ninguém pergunta: o que houve? Qual foi o drama interno (e social) que levou a uma decisão tão radical? Questão complicada, com a qual certamente McDermott não conseguiu lidar pelo atalho da mudança de nome. Assim como, nos últimos meses, as pílulas mágicas e silenciosas que ele tomou não resolveram as perguntas que seguiam fervilhando na sua cabeça. Foram apenas tentativas de segurar a tampa...

quinta-feira, 28 de dezembro de 2000

Prosperidade e miséria da década que acaba

Chega o fim do ano. Ao mesmo tempo, terminam o século e o milênio. Apesar dessa circunstância excepcional, é a década de 90 que, nestes dias, me parece merecer um balanço.

No controle da Polícia Federal americana, em Miami, há três filas: a da esquerda para os visitantes, a do meio para os residentes e a da direita para os cidadãos americanos. Um agente grita: "Vocês, cidadãos, passem à direita, avancem sem esperar...". E acrescenta: "You own it!". O tom maroto situa o significado de sua frase entre "é seu direito" e "vocês são donos do pedaço".

Penso, no estilo dos anos 90: "Falou certo! A democracia é uma espécie de co-propriedade. Há o dono da cobertura com piscina e o cara da quitinete do primeiro andar. No entanto são condôminos". Mas de onde vem essa idéia de democracia como condomínio? Lembro o antigo slogan da Bolsa de Nova York: "Own a share of America", ou seja, "Seja dono de uma parte (um título acionário) da América". Justamente criava uma confusão deliberada entre ser acionista e participar de uma democracia.

Desde os anos 40, vigora o projeto de convencer o cidadão de que possuir ações é um investimento seguro e altamente moral. Quando, mais tarde, os americanos foram convidados a investir autonomamente o dinheiro acumulado para suas aposentadorias, eles puderam, assim, participar da festa especulativa com todo o orgulho, pois quem investe em ações -sugeria o slogan- investe na nação, portanto ele persegue o bem comum.

Os anos 90 deram o toque conclusivo ao marketing da especulação. Graças à Internet, tornou-se fácil negociar ações e fundos passando por cima dos intermediários tradicionais. Dispensar os serviços dos agentes financeiros foi apresentado como uma revolução social, uma maneira de devolver o poder aos cidadãos. Graças ao investimento eletrônico, renascia a democracia direta.

Os cidadãos-investidores da década que acaba não precisam que ninguém os proteja contra os colossos da economia mundial. Eles desconfiam até dos governos, que sempre podem ser comprados por esses monstruosos poderes. Preferem manifestar diretamente sua vontade. Está cansado da IBM e prefere o estilo cool de Steve Jobs? Compre ações da Apple. Quer punir a Nike por ela explorar crianças tailandesas? Venda suas ações da companhia. O investidor exerceria sua influência diretamente sobre os verdadeiros centros do poder.

As cassandras repetem que o mundo de hoje seria governado por companhias que se situam acima dos governos nacionais eleitos e que são, portanto, insensíveis às formas tradicionais de controle político. Talvez elas tenham razão, mas já encontramos o remédio certo. O cidadão ideal dos anos 90, comprando e vendendo livremente suas ações, retoma as rédeas do mundo.

Essa idéia não teria vingado sem a ajuda de um outro consenso que também domina o espírito dos anos 90. A década começou simbolicamente, em novembro de 1989, com a queda do Muro de Berlim. A vitória do capitalismo sobre o socialismo foi promovida não como triunfo de formas melhores de participação democrática, mas como vitória da liberdade de mercado. O consenso dos anos 90 grita que o mercado livre é o grande, talvez o único, pressuposto da democracia, a qual só avançaria pela queda dos impostos alfandegários e das reservas de mercado.

A década promoveu nos EUA e, progressivamente, no mundo ocidental um consenso inédito segundo o qual investir, especular e consumir são as práticas democráticas por excelência. Uma fantástica operação cultural conseguiu fornecer um pretexto moral tanto à sede de lucro do capital financeiro como ao consumo supérfluo: ambos manifestariam nosso anseio de democracia.

Segundo os anos 90, a democracia vinga quando podemos comprar e vender livremente produtos e ações. Ou seja, o meio democrático de agir sobre o mundo, nossa expressão política eficiente é a compra e venda. Somos cidadãos por sermos investidores e consumidores. PFL, PSDB, PT... qualquer escolha é irrelevante. Mas importa que possamos circular nos corredores dos supermercados e escolher a Garoto contra a Nestlé e a Tobler. Logo voltaremos para casa e, indignados, sei lá, com o custo dos remédios, venderemos on line nossas ações farmacêuticas.

Em 1989, o capitalismo ganhou do socialismo. O sonho dos anos 90 talvez fosse que o capitalismo tripudiasse também sobre a democracia liberal e realizasse uma nova utopia econômica, psicológica e social na qual o mercado seria a única dimensão de nossas vidas.
Em novembro de 1999, exatamente dez anos após a queda do Muro de Berlim, houve a primeira de uma série de manifestações -a de Seattle contra a Organização Mundial do Comércio. Disseram que era uma baderna. Só podia: todo barulho é pouco para nos acordar do sonho dos anos 90.

Ainda bem que a década acabou. Como o Grinch com o Natal, acho que ela queria roubar a democracia.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2000

O paradoxo da razão e de Narciso

"Será que o Timor Leste deve mesmo ser independente?" Estava voltando de Dili, quando um amigo me colocou essa pergunta. Respondi, sem refletir, que não havia mais escolha. É o argumento óbvio, que vale nos lugares onde a brutalidade da repressão deixou um passivo inesquecível.

Onde isso não aconteceu, tomar partido é complicado. Será que a Catalunha deve se separar da Espanha? E a Córsega da França?

Em geral, aplaudimos a idéia de que todos têm direito de decidir seu destino. Que as pessoas e os povos escolham livremente se querem associar-se ou dissociar-se! Viva a autodeterminação.

Por outro lado, acreditamos que a razão deveria sugerir caminhos de convivência e de harmonia universais. Compartilhando uma mesma faculdade de pensar, poderíamos apaziguar todos os nossos dissídios à condição de argumentar segundo a santa razão.

Isso em tese, pois, de fato, sempre nos acompanha o sentimento de diferenças irreconciliáveis, que só serão resolvidas a facadas. Tendemos a explicar essa contradição da forma seguinte: no caminho da razão e da paz universal, nos perdemos correndo atrás de ódios étnicos e religiosos, racismos, egoísmos e oportunismos - paixões alimentadas por nosso narcisismo doentio. Extraviados, em vez de raciocinar, gritamos: "A minha (etnia, religião, opinião) é melhor que a sua...". "

Sujeitos racionais poderiam calmamente decidir quem jogou melhor no domingo passado. Agora, se você tiver uma paixão (irracional) para o Corinthians, e eu para o Palmeiras, não haverá diálogo.

Pois bem, esse iluminismo espontâneo, pelo qual nossa razão seria uma sábia conselheira, leva chumbo no relatório de Richard Nisbett sobre "Cultura e Sistemas de Pensamento", que já comentei aqui na semana passada.

Nisbett e seus colegas conceberam uma experiência para verificar se ocidentais e orientais lidam de maneiras diferentes com os argumentos que contestam suas opiniões. Os pesquisadores reuniram dois grupos, ambos compostos por coreanos e norte-americanos.

Ao primeiro grupo, eles apresentaram uma série de argumentos a favor de subvencionar uma pesquisa científica. Todos os membros desse primeiro grupo (coreanos ou americanos) foram uniformemente convencidos. Ao segundo grupo, eles apresentaram os mesmos argumentos a favor, mas acrescentaram uma outra série de argumentos (mais fracos) contra o projeto de pesquisa.

Aqui apareceu a diferença: os coreanos levaram em conta os argumentos contrários e ficaram menos convencidos da necessidade de fundar a pesquisa. Os americanos, longe disso, uma vez examinados os argumentos contrários, ficaram mais favoráveis ainda ao projeto que estava sendo criticado. De fato, eles ficaram mais entusiastas que seus conterrâneos que não foram expostos a nenhuma contestação do projeto.

Nisbett e colegas concluem: quando lhes forem apresentados argumentos contra, os orientais questionam sua própria opinião, enquanto os ocidentais, paradoxalmente, exaltam sua posição inicial. A lógica da reação é esta: quanto mais você me critica, tanto mais me convenço de que estou certo.

Está assim refutada a idéia de que o diálogo e o debate possam resolver nossos conflitos. Aparece uma propriedade inesperada da conduta racional ocidental: a oposição não produz argumentação, mas um fortalecimento "paixonal" da posição inicial.

Estávamos acostumados a perceber a razão como árbitro imparcial que tenta conciliar nossas diferenças raivosas. Eis que, segundo a experiência de Nisbett, a própria razão alimenta a divisão e o conflito.

Podíamos imaginar ingenuamente que houvesse dois sujeitos dentro de cada um de nós: por um lado, o idiota de Narciso, apaixonado por sua própria imagem e cuidadoso apenas de seu interesse. Pelo outro, um sujeito nobre e desinteressado que gostaria de obedecer à razão. A superioridade desse último brilharia num conflito moral resumido pela pergunta: você gosta mais da sua cara ou da verdade? Ora, a experiência proposta por Nisbett mostra que Narciso e a razão caminham juntos, indissociáveis e sem contradição. Aliás, nosso racionalismo fomenta nosso narcisismo: longe de controlar nossas paixões, a razão tem paixões por conta própria.

Curioso paradoxo: somos dotados de um formidável instrumento de debate, mas esse instrumento é sem muita eficácia para nós, pois, no fundo, pouco nos interessa que a razão triunfe. Só nos interessa ter razão.

P.S.: Há uma explicação possível desse paradoxo. A razão ocidental é fundada na certeza subjetiva: em princípio, os sujeitos sabem intuitivamente o que é racional ou não. Por exemplo, "uma afirmação não pode ser ao mesmo tempo verdadeira e falsa": essa certeza não vem dos livros nem da autoridade da tradição. Ela está em cada um de nós. Exercer a razão significa confiar em nossa intuição subjetiva. Talvez não seja de estranhar que o exercício da razão acabe encorajando um gigantismo do sujeito, o qual, uma vez que é dono da verdade, confunde facilmente suas razões com "a" razão.