quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

Ataque dos clones

Na semana passada, pesquisadores da Universidade Nacional de Seul, na Coréia do Sul, anunciaram ter conseguido uma proeza científica e técnica.

Eles convenceram células quaisquer de um organismo humano a comportar-se como células-tronco originárias, ou seja, como células não diferenciadas, prontas a transformar-se em todos os tecidos dos quais o organismo possa precisar.

As promessas terapêuticas da experiência são imensas. Um infartado, por exemplo, poderia implantar em seu coração células dispostas a regenerar o órgão ferido.

Claro, a experiência acarreta a possibilidade de que um dia consigamos clonar um sujeito humano a partir de qualquer uma de suas células.

Conseqüência: ninguém comentou a experiência sem manifestar preventivamente sua recusa da clonagem.

Cada vez que se fala em clonar seres humanos, primeiro declaramos nossa oposição. A clonagem tem esse mérito: graças a ela, por uma vez, todos parecemos concordar. A unanimidade e o caráter peremptório das reações me levam a perguntar: com quem estamos brigando?

Não gostamos da idéia de que seja possível reproduzir-se sem passar pelos prazeres e desprazeres do sexo, do amor e do casal. Mas onde está a novidade trazida pela clonagem? A instabilidade dos casamentos já tornou banal que haja homens e mulheres criando filhos sem parceiro; para ter uma prole, casais homossexuais recorrem a barrigas de aluguel ou ao esperma de doadores anônimos; o sexo virtual é, para alguns, a modalidade preferida de relacionamento erótico-amoroso: seus adeptos devem renunciar a maternidade e paternidade?

Desaprovamos o projeto de produzir um ser humano que teria exatamente a mesma carga genética de seu (único) genitor: "O que é isso de querer se duplicar? Cara, qual é a sua, está com medo de morrer?". É curioso: a mesma pergunta poderia ser colocada à grande maioria dos casais que se reproduzem segundo o cânone estabelecido. Já faz mais de dois séculos que fazemos filhos na esperança de corrigir nossa intolerável mortalidade e os amamos por eles representarem nossa segunda chance: quem sabe eles realizem os sonhos que não alcançamos no decorrer de nossa vida.
Alguns se indignam porque, clonando, estaríamos brincando de Deus; clonar, eles notam, não é "natural". Certo, mas tampouco é natural erradicar a peste bubônica, inventar a energia nuclear, modificar o tamanhos dos seios e transplantar rins.

Outros levantam o espantalho da eugenia nazista. Dizem que, se pudermos escolher, soltaremos nossos piores preconceitos, planejando uma raça de loiros de olhos azuis, altos, fortes e livres de estigmas hereditários. Fora o fato de que nem todos temos os mesmos preconceitos (há quem prefira corpos morenos e cabelos encaracolados), será que não estamos já engajados numa eugenia de bom tamanho? Para que servem os exames pré-conjugais? E o acompanhamento pré-natal? E os exames do líquido amniótico, sistemáticos em mulheres grávidas acima dos 40 anos?

Outros ainda se queixam de que a clonagem comprometeria nossa unicidade. Mas a queixa manifesta sobretudo nossa ciumenta vontade de sermos inconfundíveis, pois a identidade de patrimônio genético não ameaça a singularidade dos sujeitos: a vida já se encarrega de diferenciar os gêmeos.

Em suma, somos contra a clonagem de seres humanos. Certo, mas é bom reconhecer que essa oposição apenas renova conflitos ordinários em nossa cultura.

Voltemos à experiência sul-coreana. Os fundamentalistas religiosos (de Bush ao Vaticano, passando pelos evangélicos) desaprovam e querem proibir: consideram que, seja qual for o estágio de desenvolvimento de um embrião, ele já é uma vida humana. Destruí-lo para extrair células-tronco seria, para os fundamentalistas, a mesma coisa que matar um sujeito para transplantar seu coração para outro.

Ora, justamente o cristianismo nos convida a descobrir e a respeitar a humanidade em nossos semelhantes. Para que um embrião que contém uma centena de células-tronco me apareça como meu semelhante, é preciso que minha definição do humano seja biológica. Seria humana qualquer existência, em qualquer estágio, com a condição de que pertencesse à espécie. Por esse caminho, por que não chorar pelos espermatozóides sacrificados, não digo nas camisinhas e nas masturbações, mas na própria hora da fecundação? E por que não pedir que as mulheres enterrem com ritos religiosos cada óvulo expulso na menstruação?

Fora de brincadeira, vale a pena notar o caráter pós-moderno dessa posição moral aparentemente conservadora. Veja bem: se a humanidade é definida por via biológica, então o bem supremo é a sobrevivência. E nenhum valor moral pode situar-se acima do bom funcionamento dos órgãos. Há uma curiosa cumplicidade entre a idéia de que um embrião é nosso semelhante e a idéia de que é mais moral fazer regime balanceado do que ler o jornal tomando café. Se o Paraíso obedecer ao Vaticano, os mártires cristãos que se cuidem: afinal, eles foram para a morte "só" para defender uma idéia.

Quanto a mim, prefiro reconhecer a humanidade de meus semelhantes nas faíscas da emoção, do pensamento e, sobretudo, da dúvida, que talvez seja a atitude mais humana de todas.

Aliás, quando encontro sujeitos que só têm certezas (como, neste caso, os que se indignam com a experiência coreana), eles me parecem ser apenas embriões de sujeitos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2004

Consumidores e assanhados

Na semana passada, assisti a alguns capítulos da novela das oito da Rede Globo, "Celebridade".

Um anúncio da Honda voltava seguidamente, intercalado na novela. No sábado, quando o anúncio não apareceu, senti sua falta: cadê a propaganda da Honda?

Era um breve filme em que um carro, rápido, altivo e solitário, percorria as ruas de uma cidade; o turbilhão produzido por sua passagem levantava as saias curtas e vaporosas de mulheres maravilhosas. O roteiro parecia ditado pelo espírito da "Motivational Research" (pesquisa das motivações) do pós-guerra americano.

Os estudos das motivações dos consumidores foram, se não introduzidos, no mínimo popularizados, nos anos 50, por psicólogos de formação psicanalítica.

O mais famoso foi o dr. Ernst Dichter, que nasceu em Viena e, criança, residiu perto da casa de Freud (curiosidade que não prova nada). Ele foi psicanalisado por Wilhelm Steckel e demonizado por Vance Packard, em 1957, num clássico da sociologia de esquerda americana, "The Hidden Persuaders" (os persuasores ocultos). Dichter saiu de Viena a tempo, passou pela França e fugiu para os EUA antes da invasão nazista. Nos EUA, ele fez fortuna no marketing recorrendo à psicanálise para apontar as razões inconscientes das escolhas dos consumidores.

Em 1995, visitei sua viúva, que vivia em Westchester, ao norte da cidade de Nova York. Tive acesso aos arquivos de Dichter e consegui uma cópia de sua tese de doutorado, que, confesso, ainda não estudei. Queria entender qual era a visão da subjetividade pelo dr. Dichter. Deixando de lado a hipótese do simples oportunismo, perguntava-me: qual otimismo de imigrante neo-americano podia levar o dr. Dichter a pensar que o uso comercial das motivações inconscientes não constituísse uma falha ética, mas talvez contribuísse à formação de uma sociedade de consumo "feliz"? Mas não é esse o tema de hoje.

Ao meu ver, os melhores trabalhos do dr. Dichter não são propriamente pesquisas (embora ele se servisse de entrevistas e grupos de foco). Eles são exercícios de interpretação livre. Por exemplo, num relatório famoso, ele sugeriu a uma fábrica de carros que as concessionárias colocassem sempre na vitrina um conversível, enquanto o carro de quatro portas, apesar de ser o modelo mais vendido, ficaria atrás. Dichter se valia do seguinte argumento (resumido): os homens (na época eram eles que compravam) sempre entram num lugar atrás de uma amante, embora acabem levando uma confortável esposa. Outro relatório salientava a relação íntima do sabonete com o corpo e propunha que a propaganda de sabão se baseasse na sensualidade da espuma e não na virtude higiênica.

Hoje, esses achados parecem ingênuos: como o dr. Dichter conseguia ser pago para "descobrir" trivialidades? No entanto, é preciso lembrar-se de que, antes da Segunda Guerra, a propaganda consistia, em geral, na apresentação do produto, acompanhada da lista de suas propriedades, eventualmente milagrosas. No marketing dos anos 50, era inovadora a idéia de que o consumidor teria duas motivações básicas -poder social e sucesso sexual- e que, portanto, uma propaganda eficiente deveria relacionar o produto a uma delas ou às duas.

Dichter podia dizer-se freudiano, pois Freud teria concordado: as motivações humanas cabem em duas categorias (relacionadas), sucesso social e sexual.

O que mudou desde a época de Dichter? O que fez que, aos poucos, ele fosse esquecido? As motivações não mudaram, mas mudou seu estatuto: elas não têm mais nada de inconsciente nem de vergonhoso ou escondido.

A propaganda da Honda que cativou minha atenção era apresentada, como já disse, no meio de "Celebridade". Na novela, as motivações explícitas de vários protagonistas (motivações que ninguém estranha) são as mesmas que, segundo Dichter, animam o consumidor potencial. De uma certa forma, a propaganda da Honda (deve ser por isso que senti sua falta no sábado) era uma síntese (parcial, claro) da novela.

Meio século depois de Dichter, parecemos continuar exatamente como ele supunha que fôssemos: consumidores sedentos pelo prestígio que as mercadorias conferem e assanhados. A única (e notável) diferença, aparentemente, é que, além de consumidores e assanhados, somos assumidos: sem grande resistência, concordamos com a suposição de Dichter.

Talvez o psicólogo vienense-americano pensasse que, revelando as motivações básicas do sujeito moderno, ele estivesse fazendo uma obra civilizadora, produzindo uma espécie de terapia coletiva. Afinal, graças a ele, motivações inconscientes se tornariam conscientes. Não é isso que se espera da psicanálise?

Pois é, a psicanálise como "ciência" das motivações é mesmo trivial: duas ou três pulsões, uma corrida atrás do desejo (sobretudo o dos outros) e por aí vai. Só que a psicanálise não é uma ciência das motivações, mas uma arte de explorar (e modificar) os meandros pelos quais cada um constrói uma existência singular (sofrível ou sofrida) negociando como pode com as tais motivações básicas triviais.

Sobra, portanto, uma pergunta: se o que nos define não é a banalidade das motivações, mas nossa capacidade de inventar a vida negando, deslocando e transformando as ditas motivações, então por que nos espelhamos docilmente nas idéias de Dichter? Por que aceitamos ser definidos sumariamente por cobiça e luxúria?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2004

Volta a Dogville



Muitos leitores me escreveram comentando a coluna de quinta passada, que tratava de "Dogville", de Lars von Trier. Agradeço a todos.

1) Alguns perguntam por que, ao avaliar um filme, daríamos peso às declarações do diretor: "Não seria melhor considerar a obra em si, sem interessar-se pelas intenções do autor?". No caso, pouco importaria que Von Trier anunciasse estar apresentando a "realidade" americana.
Problema: o que Von Trier declara em suas entrevistas não é ausente do filme. Dogville é um vilarejo americano. O protagonista masculino se chama Thomas Edison. As fotografias da miséria do mundo que acompanham os créditos do filme sugerem uma relação causal: olhem para os horrores produzidos pelo espírito de Dogville que estaria no âmago dos EUA. Essa mensagem está na obra.

Mas há uma questão mais geral. Com o estruturalismo dos anos 60, triunfou a idéia de que deveríamos entender as criações sem pensar nos autores. O objeto das ciências humanas não seria mais o sujeito com suas intenções confusas, absconsas e inexplicáveis, mas a matéria de seus produtos. Limitando-se a essa matéria (texto, filme, discurso etc.), seria possível operar com método e rigor. As ciências humanas alcançariam, enfim, as exatas.

O movimento (no qual militei) prosperou eliminando o que era refratário a seu projeto racionalista (não sei o que fazer com a complexidade das intenções, portanto elas não são relevantes). Com isso, ele se tornou imoral. Um caso foi decisivo para mim: o grupo Tel Quel decidiu que "Bagatelle pour un Massacre", de Louis-Ferdinand Céline, era uma obra de arte sublime e uma esperança da Revolução (sempre iminente). Pouco importava que o livro fosse uma expressão revoltante de racismo. As intenções do autor deviam ser desconsideradas, pois a materialidade do texto, por sua novidade estilística, nos transformaria em homens do futuro. Como dizem os cariocas quando querem sair de perto: a gente se vê na praia.

Hoje, leio, escuto, vejo e entendo levando em conta as intenções dos autores. Claro, a obra diz mais que essas intenções, mas, de qualquer forma, para mim, as intenções fazem parte da obra. A crítica é um exercício, ao mesmo tempo, estético e ético.

2) Outros leitores observam: "O filme repreende os EUA que Von Trier afirma não conhecer, e você parece concluir que "Dogville" é a expressão de um preconceito. Será que produzimos preconceitos a cada vez que falamos de algo que não conhecemos concretamente?".

Acho legítimo e interessante que proponhamos entendimentos ou interpretações de algo que não conhecemos por experiência. O preconceito é outra coisa. Explico.

É banal que, ao descrever uma reunião, digamos: "Havia cinco pessoas". No entanto, havia seis: a gente não se contou entre os presentes. Esse deslize exemplifica o oitavo pecado capital: tirar o corpo fora, ou seja, falar dos outros e do mundo como se nossa subjetividade não atrapalhasse nem o mundo nem nossa fala. O preconceito é filho desse pecado: se me esqueço de mim e de minha história na hora de falar dos outros, é provável que eu acabe lhes atribuindo exatamente aquela parte de mim ou de minha história que quis suprimir.

Isso acontece no caso do filme de Von Trier. Quem conhece as pequenas comunidades americanas e a história da Europa constata que Dogville é diferente das primeiras, mas encena um momento triste da segunda. Uma leitora, Anette Lewin, observou que, no vilarejo que evoca o drama de milhares de judeus escondidos pela Europa afora nos anos 40, o cachorro da cidade (a cidade do cão, Dogville) é chamado de Moisés: vingança do inconsciente.

Corolário. Se, ao contar uma história, tirarmos o corpo fora, a história contada será esquemática, pois só temos acesso à complexidade do humano reconhecendo nossa própria complexidade, ou seja, nos colocando em causa.

Aqui é oportuno que responda a uma leitora que não entende bem a razão de minha "ira". Ela é subjetiva. Nasci europeu (como Von Trier), italiano, filho de um militante antifascista: há esquecimentos com os quais não gosto de brincar e não gosto que alguém brinque.

Nota. Para quem não conhece a "América profunda", uma sugestão: para criticar a pequena comunidade americana, melhor ler Tocqueville que ver "Dogville". Agora, para criticar o racismo e o fechamento na sociedade européia, aí sim, é bom ver "Dogville".

Atenuante. O dito oitavo pecado capital está entre os mais praticados. Há o marido que quer pular a cerca e por isso se torna ciumento. Há o jovem que não tem a coragem de seguir seus desejos e por isso acha os pais conformistas. Somos todos Von Triers.

3) Um colega me dá a lição: o psicanalista não deveria, ele diz, interpretar, mas ajudar o sujeito a interpretar-se sozinho. É bem o que espero que Von Trier faça.

Escrevi sobre Von Trier a mesma coisa que eu diria, logo na primeira entrevista, a um paciente suíço que me contasse que acha o Brasil um horror porque os brasileiros são muito pontuais e ficaram com o dinheiro dos judeus durante a Segunda Guerra.

Morei bastante tempo em Porto Alegre e devo ter sido influenciado pelo analista de Bagé: quando é preciso, dou um joelhaço.

4) Outros leitores acham que minha apreciação negativa de "Dogville" seria um efeito de filoamericanismo. É o contrário. A crítica de Von Trier pratica o oitavo pecado capital, que consiste em atribuir aos outros as mazelas da gente. Não diz nada contra os outros e nos mantém na ignorância do que deveríamos criticar em nós mesmos. Seu maior defeito é de ser ineficaz.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2004

Filme do cão

No inverno de 1994, na Universidade de Nova York, um painel de intelectuais franceses debatia os "malefícios" da internet. Alain Finkielkraut (que, apesar do que segue, é autor de livros respeitáveis) descreveu a net como um pesadelo totalitário. Um estudante lhe fez observar o óbvio: a net é tudo salvo uma estrutura totalitária centralizada. Finkielkraut respondeu que, de fato, ele desconhecia o funcionamento da net e nunca tinha estado on-line na vida. Levantando com brio sua caneta tinteiro, acrescentou que nem sabia se servir de um computador.

Uma minoria achou graça. A maioria foi embora. Meu vizinho de cadeira, ao levantar-se, disse a um amigo: "Não vou passar a noite escutando este babaca".

Concordo: quem fala do que não conhece com a intenção de ser levado a sério é um babaca. E quem fica para escutá-lo é duplamente babaca.

Ora, o diretor e autor do script de "Dogville", Lars von Trier, dinamarquês, declarou que seu filme é uma crítica dos Estados Unidos, onde, acrescentou orgulhosamente, ele nunca esteve. Numa entrevista ao "Guardian" de 15/ 5/2003, ele explicou que não precisa conhecer o país para criticá-lo e repreendê-lo, pois, afirmou expressa e literalmente, os EUA já são uma parte muito relevante de sua consciência, e isso pode bastar.

Lendo a entrevista, embora essa última afirmação me deixasse perplexo, pensei apenas que Von Trier era mais um babaca. Quando o filme estreasse, eu pouparia meus R$ 14.

Mas, recentemente, lembrei-me do seguinte: no inverno de 2002, um amigo, que vivia em Williamsburg (Brooklyn, Nova York), hospedou Lars von Trier em seu apartamento. Além disso, o mesmo amigo jura de pés juntos que o diretor dinamarquês passou meses em Los Angeles entre 1996 e 1997.

De repente, o filme me interessou: queria entender por que Von Trier sentiria a necessidade de nos contar abobrinhas.

Claro, há um oportunismo de marqueteiro: vocês, que, pelo mundo afora, não conhecem os EUA e estão indignados com a atual política norte-americana, bebam à fonte de meus preconceitos. Numa época de vivo antiamericanismo, a atitude garante ingressos.

Mas deve haver outras razões, além da bilheteria, para que Von Trier proponha "Dogville" como uma crítica aos EUA, e, ao mesmo tempo, ao custo de uma mentira (por pequena que seja), insista em declarar que sua crítica é o preconceito de quem não conhece.

A história do filme é a seguinte: nos anos 20, chega a um minúsculo vilarejo norte-americano uma moça perseguida por gângsteres. O vilarejo aceita protegê-la, mas, aos poucos, passa a escravizá-la perversamente.

O filme é pretensioso, o cenário e os diálogos gritando: "Sou o novo Godard, olhem como sou brilhante". Apesar dos esforços admiráveis dos atores, a complexidade das personagens é escassa.

Se o filme fosse uma meditação geral sobre a perversidade humana, ele seria só cínico. E o cinismo é o disfarce mais barato para simular inteligência: "revelar" que os homens são todos ruins é (quase sempre) apenas uma maneira de proclamar que a gente não é burro.
Se o filme quisesse apresentar os efeitos do ódio pelo diferente numa pequena comunidade isolada (e americana), seria inevitável pensar em "Deliverance" ("Amargo Pesadelo"), de John Boorman, 1972, que é incomparavelmente melhor.

De qualquer forma, a história evoca não os EUA dos anos 20, mas a época sombria em que, pela Europa invadida e ocupada, muitos judeus perseguidos pagaram caro a "generosidade" de quem os escondia.

O fim do filme (que não revelarei) é, aliás, estranhamente filoamericano e nos deixa com uma mensagem contraditória: os habitantes de Dogville (que seriam americanos) são horríveis, mas ainda bem que, de vez quando, os americanos chegam para acabar com Dogville. Esse paradoxo se explica se tentamos entender a origem do preconceito de Von Trier.

A Dinamarca foi ocupada pelos nazistas em 1940, em poucas horas; rei e governo se resignaram. A nação resgatou sua honra a partir de 1942, quando começou uma resistência heróica que, por exemplo, em 1943, garantiu a fuga de 7.000 judeus para a Suécia livre. Mas, antes disso, há uma página de história menos gloriosa. Cito uma fonte pouco suspeita, a história da Dinamarca contada pelo equivalente dinamarquês do Itamaraty: "Na ocasião da ofensiva alemã contra a União Soviética em 22 de junho de 1941, os alemães exigiram que os dirigentes comunistas dinamarqueses fossem internados, o que foi feito com um zelo que ultrapassava largamente as exigências alemãs".

Acontece que os pais de Von Trier eram comunistas militantes. Não sei como eles e seus camaradas viveram essa época. Mas duvido que tenha sido um momento feliz. Será que houve comunidades dinamarquesas que abusaram de seus comunistas escondidos como o vilarejo de Dogville abusa de Nicole Kidman, se não pior?

O mecanismo é banal: pelo preconceito, atribuo ao outro alguns traços meus ou de minha história que prefiro ignorar. Apontar a podridão alhures é mais simples que lidar com minhas tripas malcheirosas. E, no reino da Dinamarca, aconteceu algo podre que talvez Von Trier prefira silenciar.

Por isto, o filme, apesar de medíocre e desonesto, é interessante: porque é um exemplo esclarecedor de como nasce e funciona um preconceito.

O título, "Dogville", significa cidade do cão, e, de fato, há um cachorro na história. Mas, considerando que o filme fala das dificuldades de Von Trier com sua própria história e que Dogma é o nome do grupo que o diretor fundou, "Dogmaville" teria sido um título mais apropriado.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

São Paulo 450 anos



Durante as Olimpíadas de 2000, eu estava em Sydney, Austrália.

Na noite do encerramento dos jogos, junto com alguns outros milhares de humanos, eu contribuía para abarrotar a península onde surge o esplêndido edifício da Ópera de Sydney. Todos contemplávamos uma festa de fogos de artifício.

Bem ao meu lado, um jovem casal se abraçava. No auge dos fogos, o rapaz apertou forte a moça e lhe disse, feliz: "And we live here", "E nós moramos aqui".

Gostaria que nestes dias, em São Paulo, houvesse ao menos um casal para viver um momento parecido, para sentir-se feliz de viver aqui. Talvez aconteça amanhã, na inauguração das fontes do parque Ibirapuera. Ou no sábado, quando Caetano cantará "Sampa" na esquina da Ipiranga com a São João. Ou, então, na avenida 23 de maio, domingo, durante a Parada São Paulo 450 anos.

Claro, Sydney compete na divisão do Rio de Janeiro, de Veneza, Roma, Paris, Londres, Nova York e por aí vai: é uma cidade excepcionalmente bonita. E, sobretudo, a frase do moço australiano devia expressar também a satisfação de viver numa cidade amiga, de andar por ruas animadas noite adentro, mas nunca ameaçadoras, de sentir-se amparado por uma comunidade que protege e assiste seus membros nas horas difíceis.

Não vamos perder ânimo. Afinal, não se sabe se primeiro vem o ovo ou a galinha. É certo que o orgulho e a alegria de viver numa cidade são o efeito dos direitos concretos que ela garante a seus cidadãos. Mas vale também o inverso: esse orgulho e essa alegria talvez sejam requisitos para que a cidade se transforme a ponto de merecer esses sentimentos.

Pensando, então, num casal paulistano que pudesse viver o mesmo momento encantado do casal de Sydney, sonhei com algumas festividades que não estão no programa.

1) Poderíamos ter proposto um concurso de poesia para poemas de, no máximo, três linhas (espécie de haicais japoneses), inspirados por São Paulo. Aliás, dois concursos: um para poetas publicados e outro aberto a quem quisesse concorrer. Uma comissão escolheria, sei lá, cem poemas. As agências de publicidade e seus clientes teriam sido contatados e, quem sabe, aceitassem que os outdoors da cidade, grandes e pequenos, fossem substituídos progressivamente por um fundo branco com, em destaque, o texto de um poema, sem o nome do autor. Para que ninguém ficasse triste, apareceria, em letras menores, o anunciante: cortesia do Banco Fulano. No meu devaneio, durante um mês no mínimo, TODOS os outdoors da cidade seriam poemas.

Haveria versos incompreensíveis, outros que provocariam o riso. Os analfabetos pediriam que alguém lhes dissesse o que está escrito. Mas, mesmo zombando, durante um mês, os paulistanos seriam todos leitores de poesia.

2) Não faltarão, nesses dias e durante o ano, exposições e concertos comemorativos. Mas teria gostado que os artistas e músicos paulistas tivessem sido comissionados para que pintassem, concebessem ou compusessem pensando na cidade. À força de respeitar o subjetivismo de nossa época e o mito da inspiração, esquecemos que, no passado, alguns dos melhores momentos da produção artística (a começar pela Renascença) foram efeito de encomendas. Nas praças da cidade, aconteceriam concertos públicos das obras (de jazz, música clássica, samba e MPB) compostas nesta ocasião. Quanto às obras de artes plásticas comissionadas, seriam exibidas numa mostra permanente, o ano todo, na Oca e nas salas da Bienal do Ibirapuera. Como já aconteceu, as escolas visitariam de manhã, e o acesso seria gratuito nos domingos.

3) Dois anos atrás, pois leva tempo, poderíamos ter pedido a Zé Celso e ao Teatro Oficina que, com a ajuda dos melhores historiadores paulistas, escrevessem e montassem uma peça sobre a história de São Paulo. Não uma peça para os espectadores que frequentam os teatros, mas um espetáculo em praça pública, no vale do Anhangabaú, na praça da Sé, embaixo do Minhocão com os espectadores em cima etc. A peça seria produzida num lugar diferente a cada semana, animando a cidade inteira com sua própria história, por truculenta que tenha sido.

As outras companhias paulistas de teatro, também comissionadas, encenariam peças sobre a vida em São Paulo, pelas ruas da cidade. O mesmo poderia acontecer com o balé e a dança moderna.

4) Falando em dança, tenho mais um sonho. Houve o baile do Réveillon na Paulista, que foi ótimo, e haverá outros. O problema dessas reuniões é que elas não juntam as diferentes camadas de nossa sociedade. Com o pretexto (justificado) da insegurança, a classe média não se aventura.

Ora, em Paris, eu gostava de frequentar os bailes do 14 de Julho, a festa nacional francesa. Havia bailes noite adentro nas casernas dos bombeiros e da gendarmaria. Essas veneráveis instituições ganhavam um dinheiro vendendo refrigerantes e cerveja, e todas as classes dançavam juntas numa segurança absoluta. Os bombeiros e policiais (homens e mulheres) que não estivessem de plantão dançavam com os cidadãos. Não seria mal se começássemos a perceber as forças da ordem não como inimigos ou como jagunços que nos protegem, mas como pessoas que nem a gente, a quem é delegada a função essencial de tornar nossas ruas acolhedoras e nossa vida mais pacífica. Adoraria valsar com uma PM em uniforme de gala na caserna da Rota da avenida Tiradentes. Depois disso, vindo do aeroporto, o edifício pararia de me parecer sinistro. E nós moraríamos aqui.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2004

Quedas livres



A experiência sempre foi um valor. "Civilizados" ou "primitivos", antigos ou modernos, parece-nos óbvio prestigiar a quilometragem rodada e escutar quem já percorreu os caminhos pelos quais enveredamos.

No entanto, nos últimos 300 anos, em nossa cultura, a experiência adquiriu uma importância inédita. É fácil entender por quê: a herança do passado não nos define mais. Para dizer quem eu sou, não contarei a ilustre história do burgo em que nasci nem as façanhas de meus pais. Ao contrário, espera-se que eu conte como fui embora do berço e o que aconteceu depois. Ou seja, é à força de experiências que devo me construir.

A forma inicial e fundamental do romance (que é uma das grandes invenções modernas) é, justamente, o "romance de formação", a história de como um protagonista cresce de experiência em experiência. Os primeiros exemplos (maravilhosos) talvez sejam "Tom Jones", de Fielding (1749), e "Tristram Shandy", de Sterne (1759-67). O protótipo ainda é o "Wilhelm Meister" de Goethe (1795). Mas a forma atravessa o século 19 e chega até o gosto atual pelas autobiografias, que são uma versão hodierna do romance de formação. Um dia desses, escreverei uma, sério.

A idéia de que somos definidos por nossas experiências é uma garantia de liberdade. Graças a ela, nos tornamos inventores de nós mesmos: nosso valor depende do que ousamos fazer. Mas a liberdade tem alguns custos.

Primeiro, se a experiência é o critério da excelência do sujeito, a relação entre gerações se torna complicada: não é mais suficiente ser idoso para aparecer como um ancião sábio. É legítimo perguntar, antes de obedecer: "Papai, o que você fez durante a guerra?".

Um segundo problema é que a experiência é um valor abstrato: qualquer aventura pode valorizar o sujeito. Por exemplo, na aurora da modernidade, uma vez estabelecido que todos éramos definidos por nossos feitos, os românticos saíram pelo mundo afora dando um jeito para morrer quer fosse de tuberculose, o sublime mal do século (como Keats em Roma), quer fosse afogados, recusando socorro e desafiando os elementos (como Shelley na baía de Lérici), quer fosse numa guerra com a qual o sujeito não tinha nada a ver (como Byron lutando contra os turcos em Missolonghi, embora, azar dele, tenha morrido de febre e não de espada).

Outro exemplo. Quando era adolescente, seduzia-me qualquer experiência que fosse diferente da dos adultos ao redor de mim. "Fulano passou um ano na prisão", Fulano deve ser do caramba. "Sicrano injeta heroína", Sicrano é o máximo. Uma gíria confirma essa atitude: "ser da pesada" significa, ao mesmo tempo, topar qualquer parada e, como assinala o "Aurélio", impor respeito.
A modernidade nos deixa, em suma, numa grande perplexidade ética. Se a experiência, por sua variedade e intensidade, forma o sujeito e lhe dá valor, quem dirá qual é a experiência moralmente boa? Os anciões que se dizem sábios só porque são idosos? Claro que não. As normas estabelecidas? Ainda menos. Sobra idealizar, com a ajuda de Hollywood, os Fulanos e Sicranos mencionados acima.

Acontece, aliás, com a experiência, a mesma coisa que aconteceu com o livre mercado de homens e mercadorias. Ambos soltaram as amarras das origens e do passado, mas criaram outras. A idéia de valorizar a experiência devia ser um salva-todos: cada um sairia de seu esconderijo e iria pelo mundo, senhor de si. Mas a experiência produziu novas hierarquias: o sábio antigo foi substituído pelo sabido. "Você não tem densidade interior porque não esteve meses no meio do mar como um Amyr Klink." Por que não "Você não sabe da vida porque nunca matou ninguém"?
Ora, acabo de ler, de um fôlego, "Queda Livre", de Otavio Frias Filho (Companhia das Letras). O livro é composto de sete ensaios ou reportagens "de risco", nos quais o autor relata e comenta uma série de experiências às quais ele se submeteu.

Passo sobre o grande prazer da leitura e o interesse da informação transmitida. O que me importa aqui é que as reportagens-ensaios de "Queda Livre" propõem uma solução exemplar para a nossa perplexidade moral diante da valorização abstrata da experiência. Eis como.

No relato de Otavio, cada vivência é narrada a partir de uma falha do protagonista: o medo do avião e das alturas para o pára-quedista; a inquietação com a malária e com os efeitos do tóxico para quem experimenta o Santo Daime na sede do culto, na Amazônia; a fobia dos espaços fechados para o submarinista; a ânsia e o receio do ridículo para o ator improvisado; o silêncio divino e as bolhas no pé para o peregrino de Santiago de Compostela; o pudor e a dor da rejeição para o amante ocasional no universo do suingue; enfim, a tentação do suicídio para o samaritano que, durante um ano, no Centro de Valorização da Vida, recebe os apelos telefônicos dos desesperados.

O leitor, mesmo que não compartilhe as vivências narradas, se reconhece sempre no medo, no pudor e na ironia do protagonista que sabe rir de si mesmo. As experiências adquirem, assim, um valor propriamente moral não por serem "de risco", mas porque seu relato, longe de dividir o mundo entre adeptos e ignaros, revela sobretudo a humanidade do protagonista. E, nessa humanidade, damos de cara com a nossa. Pois nem todos pulamos de pára-quedas, mas todos vamos pela vida, de experiência em experiência, com o coração na mão, em queda livre.

É a mesma atitude que faz a extraordinária qualidade (literária e moral) de "Tom Jones" e "Tristram Shandy": a "formação" do protagonista vale como auxílio para a nossa porque, lendo, reconhecemo-nos humanos nas mesmas tragicômicas falhas.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2004

Os feridos das festas

No dia 1º de janeiro, os prontos-socorros recebem sempre alguma vítima dos fogos de artifício do Réveillon.

Retomando o trabalho depois dos feriados, os psicoterapeutas e os psicanalistas também costumam atender os feridos da estação. São as vítimas de rojões tão explosivos quanto os outros: os encontros de família das festas de fim de ano.

Existe uma explicação básica para essa patologia: o Natal, em particular, idealiza a reunião de família a tal ponto que uma decepção é dificilmente evitável.

Desta vez, no meu consultório, compareceram, no mesmo dia, três adultos (entre 40 e 65 anos) acidentados no encontro com os pais idosos. Talvez, quando filhos e filhas já encaminhados na vida se sentam à mesa natalina com seus pais, uma eventual insatisfação seja mais provável e aguda, pois todos esperam viver um momento perfeito, que constitua uma lembrança, uma última foto feliz.

Seja como for, fiquei com as reflexões que seguem.

É raríssimo que os pais não transmitam nada a seus filhos. Mesmo quando um filho ou uma filha acreditam que inventaram sua vida a partir do zero, sem amparo e sem nenhuma herança material ou simbólica, descobre-se que existiu um legado. Pode ser, aparentemente, pouca coisa: um exemplo de coragem ou de humildade diante de adversidades e sofrimentos, uma palavra que manifestou uma ambição frustrada e deixada para os filhos e as filhas cumprirem.

Ora, quando paira no ar a sensação de que os pais não permanecerão para sempre na Terra, é frequente que o encontro de Natal seja assombrado pela tentação de fechar o balanço dessa transmissão (isso vale sobretudo se o Natal for a ocasião rara, anual, por exemplo, de uma reunião de toda a família). Como na famosa parábola, os pais idosos querem verificar se os filhos fizeram bom uso da herança. É uma contabilidade silenciosa, implícita em pequenas expressões de aprovação ou reprovação, mas facilmente explosiva.

Os pais querem consolar-se com a constatação de que imprimiram uma marca nos filhos e confirmar que foram indispensáveis. Mas é comum que seu legado seja ambíguo. Por exemplo, a herança que um pai destina a seus filhos é uma pequena loja que ele consolidou ao longo de 50 anos de esforços, mas, na verdade, seu sonho era mandar o negócio para o beleléu e sair velejando pelo mundo. A contragosto, a filha ficou com o comércio de família, convencida de satisfazer o desejo paterno, mas, no jantar natalino, constata que o preferido é o irmão, o qual leva uma vida de surfista pelas praias australianas. Quem ficou com a verdadeira herança? Quem é o conforto do pai no fim do dia? Difícil dizer.

Além disso, os filhos têm uma relação incerta com o legado que recebem. Receiam que, reconhecendo sua dívida, eles sacrificariam sua autonomia, ou melhor, comprometeriam a imagem de si mesmos (autônomos) que eles gostam de projetar nas telas de seu cinema de bolso.
Tudo isso não passa de ordinária administração. A pequena série de acidentados deste começo de ano trouxe algo mais. Nas cenas que me foram relatadas, todas emocional ou fisicamente violentas, manifestava-se uma espécie de rancor dos pais. O estranho é que em nenhum dos casos dava para dizer que os filhos não tivessem aceitado e hasteado a tocha de seus genitores, de uma maneira ou de outra. A raiva manifestada pelos pais parecia abstrata, sem objeto, e culminava regularmente com a promessa de "deserdar" filhas ou filhos. As ameaças não seriam levadas à frente; de qualquer forma, nada poderia abolir o legado simbólico. Também era óbvio que essas intenções dos pais, furibundas e pouco justificadas, durariam apenas um dia.

Mesmo assim, elas eram reveladoras: pareciam ser o modelo do comportamento de Deus com Jó, na Bíblia (para não falar da loucura do rei Lear de Shakespeare). Um belo dia, por provocação satânica, Deus suspeitou que Jó fosse devoto só pelos benefícios que o Criador lhe outorgava. E lhe tirou tudo. Claro, a desculpa era que convinha verificar a sinceridade da fé e da piedade de Jó.
Mas suspeito que, no caso dos pais idosos, não se trate de verificar se os filhos repudiados continuariam amando seus genitores. Há, na fantasia de deserdar no fim da vida, um verdadeiro ciúme de quem sobreviverá. A dificuldade de lidar com a hora dos adeus pode nos entregar a uma espécie de ódio por aqueles que ficarão mais um tempo. A ponto, aliás, de esquecer que eles são a única e tênue garantia de alguma permanência nossa.

Esse sentimento pouco nobre existe sempre nos pais e, pudicamente esquecido, é uma das causas de muitos desentendimentos entre gerações. No ocaso da vida, ele se torna mais furioso.
Os filhos, em geral, são menos pacientes que Jó. Descobrem-se odiados, e só lhes sobra desejar que os pais saiam mesmo de cena e os deixem viver em paz. Assim, tristemente, ao redor da mesa natalina, cada geração, por um instante, pode desejar a morte da outra. É paradoxal, pois cada geração deve à outra sua vida: os pais devem aos filhos sua possível continuidade no mundo, e os filhos devem aos pais, bem ou mal, o que eles são.

Nas próprias palavras de um dos feridos das festas, a verdadeira punição imposta pela ameaça ciumenta dos pais não é o repúdio, mas a reação de ódio que ele provoca nos filhos. Pois essa reação os priva de uma última chance de amar seus pais.

Moral da história: para sermos pais, importa aceitar que somos mortais.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2004

Adeus, ano velho

Quando era moleque, em Milão, nos anos 50 e ainda no começo dos anos 60, era perigoso passear pelas ruas perto da meia-noite do dia 31 de dezembro. É que, apesar de repetidas exortações e ameaças de polícia e bombeiros, permanecia em vigor um antigo costume: na hora da passagem do ano, jogava-se louça pela janela.

Não era de todo raro, portanto, que chovessem pratos e sopeiras. As pessoas guardavam, durante o ano, os restos de serviços incompletos, as terrinas rachadas e as vasilhas lascadas, para que se espatifassem festivamente na calçada na noite de são Silvestre.

Era um jeito de declarar que a gente fazia tábula rasa, recomeçava do zero. Nada de muito original nisso; em quase todas as culturas, existiram e existem festividades da passagem de ano que celebram a esperança de um início radical.

Originalmente, aliás, as festas romanas das Saturnalia e Bacanalia (antepassadas do Carnaval) aconteciam nesta época: eram festas de inversão (ou seja, o mestre se fazia de escravo e o escravo podia se fazer de mestre) e manifestavam uma espécie de volta à confusão inicial, a partir da qual tudo seria de novo possível. Em 336 de nossa era, a cristandade decidiu colocar a celebração do Natal na mesma época do ano, para que a chegada do Messias valesse como o símbolo definitivo da renovação da vida.

Mas a celebração moderna, a nossa, tem um sentido, ou melhor, um alcance um pouco diferente do da antiga.

O melhor guia, nessa matéria, é a pequena obra-prima de Mircea Eliade, "O Mito do Eterno Retorno", livro escrito logo depois da Segunda Guerra Mundial (versão recente em português pelas Edições 70), uma leitura perfeita para o começo do ano.

Eliade opõe a modernidade às sociedades tradicionais. Nestas, a experiência do tempo é feita de ciclos que se repetem, e os acontecimentos têm sentido porque aparecem como variantes de mitos conhecidos por todos. A guerra, a doença, a morte, as separações e as perdas são tão explicáveis quanto as estações do ano. O homem tradicional carece de futuro, não se define por seus projetos, mas, em compensação, pode, de vez em quando, jogar alegremente seu passado pela janela, pois não é o passado, mas a repetição que dá sentido à sua vida.

Nós, modernos, ao contrário, acreditamos na mudança, na novidade, na história. Vivemos o tempo como teatro de uma liberdade potencialmente infinita. Não acreditamos em ciclos inelutáveis, mas num progresso que deveríamos aos nossos próprios atos.

Essa suposta liberdade encontra (ao menos) dois limites.

Primeiro, obviamente, existem os outros. Escreve Eliade: "A liberdade de fazer a história, privilégio conclamado do homem moderno, é um engano para quase toda a espécie humana. Os homens, de fato, são livres para escolher entre duas posições: opor-se à história que é feita por uma pequena minoria (e, nesse caso, exercer a liberdade de optar entre o suicídio e a deportação) ou então refugiar-se numa existência subuma na ou na fuga". Embora os horrores da Segunda Guerra Mundial se projetem sobre as páginas de Eliade, há de se convir que seu texto não está muito longe de nossa realidade.

Mas o que mais nos interessa aqui é o outro problema da pretensa liberdade moderna. A história não é apenas o resultado de nossas ações; em grande parte, ela "se faz sozinha, como resultado das sementes lançadas pelos atos do passado".

O passado assombra nossa liberdade; é sempre ele que coloca limites aos sonhos futuros. O tempo, para nós, não é uma repetição que recomeça periodicamente como um ciclo, mas uma linha, um percurso. Sua continuidade acarreta uma consequência: avançamos carregando o peso do que já foi. Viver é construir um passado que decide nossos futuros possíveis.

Preferiríamos esquecer. E não é só no fim de ano que acreditamos poder jogar a louça velha pela janela. O adolescente imagina que, saindo de casa, começará uma vida nova, sem as imposições de sua antiga existência de filho ou de filha. O adulto imagina que, separando-se do parceiro ou da parceira, criará novas relações, diferentes, prazerosas e respeitosas do outro. Muitos imaginam que, ao se mudarem para uma cidade distante ou para outro país onde ninguém os conheça, se reinventarão completamente, aproveitando toda a sua sabedoria acumulada. O lema é : "Desta vez, será diferente".

Horácio, que talvez seja o mais moderno dos poetas romanos, já dizia que "os que atravessam o mar mudam de céu, não de alma". Seu verso vale para qualquer mudança.

A fé ilusória nos novos começos, atributo da modernidade, alimentou (e ainda alimenta) cada tipo de sonho, desde as utopias sociais do século 19 até o mito do "self-made man".

Na aurora do século 20, a psicanálise, estraga-prazeres, veio lembrar que viajamos sempre com mais malas do que é preciso e que não adianta jogá-las pela janela. Para diminuir o excesso de peso, melhor abri-las, repertoriar o conteúdo e decidir o que fazer com ele.

Na passagem de ano, em suma, a dificuldade está em lidar com os restos do ano que acaba (e dos que o antecederam). Por desgastados e puídos que sejam, não são tirados de nossas costas pela simples defenestração.

A todos os que querem mudança, desejo um "adeus, ano velho" feliz e eficaz.

domingo, 28 de dezembro de 2003

O governo somos nós

Acabou o primeiro ano do novo governo, e quase ninguém está satisfeito com a situação do país. No entanto, fato curioso, o governo mantém o mesmo índice de aprovação do primeiro trimestre.
Certo, a gestão é criticada, mas a forma básica de grande parte das críticas recorrentes é peculiar. Numa estranha frente unida (que vai da esquerda militante até a direita conservadora, incluindo os que aprovam a gestão), muitos acusam o governo de não fazer o que ele se propunha fazer. Ou seja, apontando contradições entre o espírito do projeto e a realidade da política econômica e social, essas críticas não adotam a forma usual: "Vocês não fazem o que nós gostaríamos". Mas afirmam: "Vocês não fazem o que vocês mesmos gostariam".

O sentido das queixas é diferente segundo a proveniência. Por exemplo, a extrema esquerda exige uma fidelidade absoluta à promessa de justiça social, a esquerda moderada pede apenas um maior respeito dessa promessa na hora dos compromissos necessários e os conservadores agitam a contradição entre promessa e realidade para desacreditar o governo ("Eles enganaram vocês: dobram-se às necessidades do neoliberalismo pior que a gente e distribuem ilusões como pães quentes"). Mas, além das diferenças, a forma é a mesma. O governo não é acusado de defender interesses escusos que tornariam nossa vida miserável.

Ele é acusado de ser, de alguma forma, infiel a si mesmo. Nisso, as ditas críticas ao governo federal se parecem com nossa autocrítica mais banal.

Afinal, somos constantemente divididos entre uma aventurosa vontade de mudança e escolhas conformistas que são as nossas, mas que nos frustram e com as quais não concordamos. Ou, então, entre grandes princípios nos quais acreditamos firmemente e comportamentos que adotamos (com uma certa vergonha) para proteger nossos interesses.
Quero justiça social já, mas não sou nenhum São Francisco, e a simples redistribuição não resolveria nada. Quero reforma agrária já, mas meu sítio é produtivo e, de qualquer forma, não basta assentar famílias; seria preciso criar uma rede de cooperativas, e isso é complicado.
Quero uma sociedade igualitária, mas três salários mínimos para a faxineira não tem como; se eu for obrigado a dispensar seus serviços, não vai ser pior?

Para explicar a dissonância entre nossos anseios e nossa realidade, acusamos a dureza impiedosa do mundo: gostaríamos de ser generosos e revolucionários, mas, se fôssemos, a realidade nos atropelaria. A desculpa não é maquiavélica. De fato, o mundo não é mole: ele nos força a desistir do que nos parece certo e racional em favor do que é apenas razoável.

Em geral, aguentamos os compromissos aos quais nos resignamos graças a um reforço retórico, a uma dose extra de declarações de intenções e de princípios.

Somos todos (ou quase) José Dirceu ou Palocci na hora dos apertos do fim do mês. Somos todos (ou quase) Lula na hora de declarar guerra à fome ou ao desemprego e de chorar evocando o homem do lixão que come melancia descartada.

Exatamente como o governo, quando apresentamos nossa face ao mundo (e a nós mesmos), esquecemos nosso pragmatismo (ele nos é imposto, não é bem "nosso") e nos imaginamos e proclamamos grandiosamente generosos, embora impedidos.

A oscilação entre entusiasmos revoltados e inércia conformista é uma herança de nossa adolescência. Tivemos que decidir (e talvez estejamos eternamente decidindo) se, para nos tornarmos adultos, é melhor imitar os genitores, sacrificando nossa individualidade, ou contrariá-los, encontrando a prova de nossa autonomia na decepção e no desespero dos pais.
A solução mais popular consiste em tomar o caminho de uma "normalidade" que nos garante algum conforto e que corrigimos com sobressaltos de rebeldia espetacular.

Por exemplo, estudo, sei lá, direito constitucional, mas, à noite, saio na balada com os Gaddafis da vida. Por mais que estejamos infelizes com a situação, o governo atual nos satisfaz, não por suas realizações, mas porque ele encena nossas próprias contradições.

É um conforto constatar que as mulheres e os homens que elegemos se dobram às mesmas necessidades que nós acusamos de frear nossos impulsos generosos e libertários.

Claro, a contradição não nos deixa tranquilos. Na hora dos compromissos, somos atormentados pela voz da consciência. Talvez por isso surja uma simpatia quase unânime (inclusive nas fileiras da direita) pelos excluídos e demissionários do PT.

Aproveitamo-nos dessa ocasião para tomar as dores de nossa parte rebelde. Podemos torcer por nossas Heloísas Helenas e nossos Gabeiras internos sem risco algum, pois o governo (e não nós) se encarrega de silenciá-los e, portanto, leva a culpa.

A mesmice social-democrata não satisfazia nosso anseios radicais de mudança e de justiça. Um regime que seguisse só esses anseios seria provavelmente catastrófico.
O governo do PT inventa uma nova fórmula, adequada à nossa divisão subjetiva: a social democracia neoliberal com retórica radical da esperança.

Estamos insatisfeitos com o governo assim como estamos insatisfeitos com nossas próprias contradições. E o governo está próximo do povo como nunca, pois, pela felicidade da nação, ele é nosso retrato.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2003

É Natal

Os primeiros Natais de minha infância foram momentos encantados. Ou, ao menos, é assim que me lembro deles.

No dia 24, de tarde, cada escrivaninha e console da casa era levado para a sala de jantar e servia para encompridar a mesa, de maneira a acomodar os 20 e tantos familiares e amigos de sempre. Logo começava a preparação do peixe. Meu irmão e eu ajudávamos meu avô na tarefa selvagem de tirar a pele das enguias, que eram o prato tradicional e que nenhum de nós gostava de comer. Antes de ir para a cama, nós, as crianças, preparávamos, perto da árvore, uma mesinha: um copo de vinho branco, um prato com uma fatia de bolo e um pequeno guardanapo. No chão da entrada, colocávamos uma bacia com água e outra com duas ou três cenouras. O bolo e o vinho eram para o menino Jesus. A água e as cenouras eram para a mula que o carregava.

Acordávamos de madrugada, pela ânsia de ver os presentes e de constatar a mágica passagem do menino Jesus. A casa estava deserta, os presentes brilhavam embaixo da árvore, o copo de vinho tinha sido em parte (só em parte) bebido, a fatia de bolo tinha sido mordida, assim como as cenouras. Havia, sempre, em algum lugar do corredor, uma poça: a mula, coitadinha, tinha feito xixi. Da porta de entrada até a árvore, espalhava-se um rasto de folhas e pétalas de flores, que, aparentemente, o menino Jesus deixava atrás de si, por onde passasse.

Não sei por que, na nossa família, era o menino Jesus, e não Papai Noel, que trazia os presentes. A coisa era ainda mais curiosa por meu pai ser declarada e ferozmente ateu. E minha mãe o acompanhava.

Menino Jesus ou não, era bom fazer de conta: o ritual era um segredo de família que celebrava o milagre de estarmos juntos. Também era um alívio constatar que nem todos os presentes vinham de meus pais. E era gostoso acreditar numa certa benevolência do mundo ou de seu criador: havia ao menos um dia no ano em que, indo para a cama cedo e forçando-se a fechar os olhos, alguém, no meio da noite, faria o necessário para que acordássemos felizes.

Houve Natais em que o encanto se perdeu. Num deles, bem perto da meia-noite, morreu de repente o pai de meu melhor amigo. Meu pai saiu correndo com sua bolsa de médico; a festa parou. Nós descobrimos que, às vezes, não só a mula, mas o próprio menino Jesus se esquecia (de alguém, no caso). Os presentes, na manhã seguinte, estavam lá; mas eu não sabia o que fazer com eles. Também estava lá Alessandro, meu amigo do peito, órfão.

E houve outros Natais em que explodiram brigas de família incompreensíveis (para nós). Um tio que saiu batendo a porta porque não gostou do lugar que sua mulher ocupava na mesa ou uma nora que não se dava com a sogra. Esperávamos demais e, à força de querer (e simular) harmonia para a família e o mundo inteiro, vivíamos decepções fellinianas se algum detalhe atrapalhasse o cartão-postal natalino.

Mais tarde, chegaram os anti-Natais da adolescência. Eram proclamações indignadas contra a família. Valia qualquer coisa para contrariar o espírito dos Natais da infância: Natal numa boate? Natal num prostíbulo? Natal jogando pôquer num boteco?

Ou, então, eram proclamações políticas: Natal numa célula de militantes, Natal com amigos e companheiros, sem festa, sem árvore e cheio de conversas sobre as armadilhas "alienantes" do consumo.

Alguns anos atrás, no dia 25, acordei muito cedo, embora soubesse que ninguém viera, no meio da noite, depositar presentes embaixo da árvore. O apartamento estava deserto, todos dormiam ainda. Atravessei a sala assim como costumo dormir, de camiseta, sem pijama. Olhei com carinho para os restos do jantar da noite anterior e liguei a máquina do café. Não sei por que, achei graça enfiar na cabeça um chapéu de Papai Noel que estava em cima da mesa. Logo fui buscar o jornal na porta de casa, caso ele já tivesse chegado.

Por precaução pudica e por preguiça de vestir uma calça ou mesmo uma cueca, tentei inventar um jeito de apanhar o jornal sem impor minha nudez aos (improváveis) vizinhos que estivessem circulando pelo prédio às 6h do dia de Natal. Ajoelhado, abri a porta e estendi o braço; o jornal estava lá, mas longe demais. Insinuei o ombro na abertura, mas não bastou. Avancei mais, sempre ajoelhado, até que, empurrado pela própria porta, que é comandada por uma mola que a fecha automaticamente, estava mais fora do que dentro do apartamento. Por sorte, o batente não fechou atrás de mim. No instante em que, enfim, coloquei a mão no jornal, escutei um barulho. Levantei os olhos: bem na minha frente, um vizinho, também ajoelhado e seminu, era vítima da mesma manobra. Ficamos imóveis um longo momento, até que, de jornal na mão, desejei-lhe "feliz Natal" e recuei.

Cinco minutos depois, sentado contra a porta fechada do meu apartamento, ainda estava rindo, constatando que, durante esse estranho encontro, ficara não só meio nu, de camiseta, mas também de chapéu de Papai Noel.

É um bom retrato de meus Natais de hoje. O chapéu representa uma certa fé no ritual que afirma a permanência dos afetos familiares e das amizades, mas sem esquecer que o espírito de Natal não ganha das notícias do dia (o jornal na mão) nem dos desejos que nascem abaixo da cintura (às vezes estamos sem cueca).

Feliz Natal a todos.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2003

Quem julgará Saddam Hussein?

Resumo alguns sentimentos modernos em matéria de justiça.

O julgamento que conta é o de nossa consciência. A prova disso: fazemos, desde o século 17, uma bela diferença entre o que é legal e o que é justo. Condenados por excesso de velocidade na Dutra, entendemos que 130 km/h seja ilegal, mas nós conhecemos as razões de nossa pressa e só nós sabemos se, ilegal ou não, nossa velocidade era justa ou injusta.

As coisas eram mais simples quando, nem tanto tempo atrás, achávamos que a decisão podia ficar na mão de um Deus que se expressaria publicamente. Acusados, caminharíamos sobre a brasa e seríamos inocentados se nossos pés não queimassem.

Também devia ser mais simples quando podíamos delegar a justiça (não apenas a legalidade) a um sábio, príncipe ou representante de Deus, ao qual reconheceríamos o poder de proclamar, incontestado, se somos culpados ou inocentes.

Esses recursos não valem para quem, como a gente, erige o foro íntimo em corte suprema.
Ora, tantas cortes singulares e inevitavelmente contraditórias não poderiam regrar eficazmente nossa vida social; nos resignamos, portanto, a um compromisso: consideramos justo e toleramos que um júri de outros humanos (cujo foro íntimo seria comparável ao nosso) escute as acusações e os argumentos de defesa e, assim, nos condene ou nos inocente.

Detalhe crucial: os sentimentos que acabo de resumir são uma realidade cultural. Valem para nós, ocidentais e modernos, que 1) damos sentido ao mundo a partir de certezas (ou dúvidas) subjetivas e 2) acreditamos que todos os homens sejam nossos semelhantes.

Essas considerações teriam sido pouco relevantes no processo de Nuremberg. Os nazistas eram tão ocidentais e modernos quanto nós. Ou seja, foi-lhes imposta uma justiça nos moldes da cultura da qual eles também eram o produto. O mesmo vale para o processo em curso contra os responsáveis por crimes contra a humanidade na Bósnia.

A expressão "crime contra a humanidade", aliás, tem um duplo sentido. Designa um crime tão abominável que a humanidade inteira é ferida pela crueldade dos atos. Mas designa também e talvez sobretudo um crime contra a idéia de humanidade, ou seja, contra a idéia de que, além ou aquém de nossas diferenças religiosas, nacionais etc., somos semelhantes, membros de uma mesma espécie. Perseguir, exterminar uma população por sua diferença significa negar a existência da comunidade dos humanos, quebrar um pressuposto que talvez seja a melhor conquista de nossa cultura.

Pode-se dizer que um tribunal de "pares" julgou os nazistas porque quebraram uma regra da cultura à qual eles mesmos pertenciam. O mesmo vale para Milosevic e companhia.

A história de Saddam Hussein talvez seja um pouco diferente. O Iraque é uma criação da cultura ocidental: esquecidos de que a comunidade da espécie humana é uma invenção cultural, os ocidentais acreditaram que na Mesopotâmia, no caso, seria possível a coexistência, numa mesma nação, de diferenças étnicas (árabes e curdos) e religiosas (sunitas e xiitas).

Saddam topou o mandato, mas não seu pressuposto. Governou sua "nação" como um chefe tribal, ou seja, exclusivamente em prol de sua família e de sua tribo, a minoria sunita. Reprimiu e exterminou xiitas e curdos. Perseguiu os opositores como se não fossem gente. É um crime contra a idéia de humanidade. Mas esse crime vale na consciência ocidental moderna. Será que é essa a consciência de Saddam?

Não tenho nenhuma compaixão. Quer a gente condene ou não a intervenção americana no Iraque, não derramo lágrimas por um tirano. Desejo-lhe o destino que desejo a todos aqueles que ameaçam o que nossa cultura inventou de melhor.

Mas acho desastroso que esqueçamos o seguinte: a Justiça que o condenará não será uma Justiça absoluta, que não existe, mas a nossa, ocidental e moderna. O tribunal que se reunirá para julgá-lo será uma emanação de nosso expansionismo cultural. Não lamento que seja assim. Mas lamento que possamos, como acredito que acontecerá, negar mais uma vez a diferença e o conflito cultural que se expressarão no julgamento.

Gostaria, em suma, que nossa cultura abandonasse sua extraordinária pretensão de ser não uma cultura, mas a voz de alguma "natureza humana".

Ao que parece, os atos de Saddam serão avaliados por um tribunal iraquiano. Isso satisfaz nosso sentimento de justiça, pois ele será julgado por um júri de seus "pares" e "semelhantes", não é? Mas pense bem: num eventual júri iraquiano, sentarão xiitas (que, para Saddam, são uma "tribo" oposta e, portanto, menos "humana" do que a sua) e curdos (que, para ele, devem ser uma sub-raça exterminável com a mesma emoção que nós sentimos ao erradicar o mosquito da dengue).

O Ocidente verá, nesse julgamento, a obra de uma Justiça imemorial e universal. O acusado verá apenas um conciliábulo de inimigos que têm o direito de dispor de sua vida não em nome da Justiça, mas em nome da força, ou seja, por ele ter sido derrotado.

Aposto que manterá a expressão perdida do chefe tribal desfilando acorrentado atrás do Exército vencedor.

E, falando em expressão, a cara de Saddam descabelado e barbudo, de olhar apagado, enquanto um médico de luvas de látex examinava seus dentes e repartia seus cabelos procurando lêndeas e piolhos, parecia estranhamente familiar. Era o protótipo do mendigo árabe nas ruas de Paris.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2003

Conselhos para encontrar um amor no verão

A cada ano, inelutavelmente, quando o verão se aproxima, a imprensa nos propõe pautas animadas por uma questão recorrente: como encontrar um amor (ou vários) neste verão?

Não são apenas incitações festivas a libidinagens estivais. Às vezes, aliás, elas são acompanhadas de conselhos para prolongar as paixões de verão e, quem sabe, transformá-las em amores eternos enquanto durem.

Seja como for, é aceita universalmente a idéia de que o verão seria a melhor estação para achar os parceiros ou as parceiras que fizeram falta no inverno.

Claro, durante as férias, todos têm mais tempo e disponibilidade para dedicar-se a essa tarefa. Mas a razão principal que faria do verão a estação dos namoros parece ser outra: no verão, a gente tira a roupa (ao menos em parte) e sai da toca. É o momento de ver e ser visto, de escolher e ser escolhido.

Deve ser por isso que uma parte relevante dos conselhos para um verão namoradeiro são, de fato, sugestões estéticas: como perder aqueles cinco quilos em três semanas, como achatar o estômago, como esculpir os abdominais, como tornear as pernas e arrebitar as nádegas, como conseguir um bronzeado natural e dourado, qual maquiagem usar na praia, como escolher a sunga ou o biquíni certos, como desembaraçar o cabelo depois da água salgada, como vestir-se nas baladas da noite e por aí vai.

Por que não? Afinal, para encontrar um namoro, é preciso seduzir, não é?

Certo, mas não deixa de me surpreender que os conselhos para encontrar companhia sejam quase sempre dicas para nossa aparência. Ou seja, a vontade de achar alguém com quem valha a pena ficar (ao menos um pouco) se traduz em anseios narcisistas. Saímos à procura de um outro para beijar e acabamos embaciando o espelho.

Poderia ser engraçado, se não fosse triste e regular, na volta das férias, o catálogo das decepções. Não havia ninguém que valesse a pena. Ou, se havia, não vi. Quer dizer, havia um cara que não parava de olhar, mas eu não devolvia, claro. Quando levantou e veio na minha direção, abracei-me à minha amiga: "Fala, fala, pelo amor de Deus, faz de conta que estamos num daqueles papos que não dá para interromper". Ou, então, havia, sim, aquela mulher que passava a cada dia na frente da varanda, mas eu ia lhe dizer o quê? "Com licença, minha senhora, estou sozinho e a fim de companhia"?

As praias e os calçadões dos balneários se transformam em arenas de um estranho jogo do desencontro: muitos convergem proclamando planos de amores e conquistas, todos desfilam para que os olhares cruzados confirmem a força de atração de seu "look", mas poucos se permitem um gesto que poderia alterar a máscara que eles compuseram para seduzir.

A razão dessa situação é simples. É possível que cuidemos de nossa imagem na intenção de agradar ao outro, mas esse cuidado é um obstáculo a qualquer encontro ou relação. A perfeição almejada e arvorada como instrumento de sedução seria inevitavelmente comprometida se revelássemos nosso desejo. A arma da sedução (minha imagem malhada, bronzeada e produzida para seduzir) me reserva uma sina de solidão, pois ela pede também que, sendo perfeito ou perfeita, eu mostre ao mundo que não preciso de ninguém.

A mulher que receia parecer atrevida ou pouco pudica, o homem que teme mostrar-se babaca de tanto carente são vítimas do mesmo impasse narcisista: as condições para eles serem desejáveis incluem a impávida demostração de que nada lhes falta.

Em suma, o narcisismo, querendo tornar todos (ou quase) desejáveis, impede a todos de desejar.
Pensando bem, como estação dos namoros, seria preferível contar com o inverno. Quem sabe, na penumbra de um bar, protegidos por casacos e cachecóis, a gente se esqueça um instante dos requisitos da fachada sedutora, baixe a guarda e consiga confessar faltas, desejos e vontades.
Uma lembrança. Aos 16 ou 17 anos, não me lembro direito, passei uma semana de férias em Rimini, na Riviera Adriática. Éramos um pequeno grupo de moços sedentos de aventuras, depois de um inverno de aulas de grego e latim. Todos imaginávamos e antevíamos paixões avassaladoras. Mas só um de nós as vivia: Jimmy, um jovem que nós não achávamos nem grande sedutor nem especialmente bom de papo, voltava a cada dia, ou melhor, a cada noite, para a pensão com uma companheira. O grupo reagiu desdenhosamente: afinal, as moças não eram aquelas deusas com as quais sonhávamos. Mas logo quisemos saber o segredo de Jimmy.

"Qual é o truque, o que você faz?" Jimmy explicou: ele abordava, sistematicamente e sem hesitar, todas as moças e as mulheres que lhe parecessem minimamente agradáveis. Claro, frequentemente a coisa não dava em nada. Ele era, cotidianamente, ignorado ou rechaçado 20, quiçá 30 vezes; para a população feminina do balneário, devia ser um estorvo, mas sempre havia ao menos uma para abrir o sorriso e aceitar um convite. Ficamos estupefatos: o segredo era que Jimmy não tinha medo de uma recusa, nem vergonha de seu desejo. Para ele, simplesmente, as feridas do amor-próprio contavam menos do que sua vontade de não ficar só.

quinta-feira, 27 de novembro de 2003

Em defesa de Michael Jackson

A mídia do mundo inteiro encheu as telas de nossos televisores com Michael Jackson acusado de praticar atos lascivos contra uma criança. Vimos o cantor preso, algemado e solto após pagar uma fiança de US$ 3 milhões.

O procurador, Tom Sneddon, declarou que interrogará as crianças que frequentaram a casa de Michael Jackson nos últimos anos, ou seja, pediu mais denúncias. Psiquiatras e psicólogos compareceram para nos explicar que um pedófilo vive na Terra do Nunca e faz de conta que é Peter Pan para aproximar-se de suas vítimas inocentes.

Tudo isso num clima quase festivo. A ponto de, na CNN, os próprios jornalistas se interrogarem: mas o que há com Michael Jackson (e conosco), que não conseguimos relatar os fatos sem cair na piada? Não encontraram resposta, mas tiveram a decência de perguntar.
Faz muitos anos que rimos de Michael Jackson.

No começo, era por sua transformação. Ele se parecia cada vez mais com o Peter Pan de Walt Disney, que, como se sabe, é branco. Rimos dele como rimos da mulher que passou por não sei quantas plásticas para ter as proporções da boneca Barbie. É o riso nervoso que surge quando nos lembramos de algo que nos concerne e que preferiríamos esquecer. No caso, a mulher-Barbie e Michael Jackson são nossa caricatura, pois, em alguma medida, sofremos do mesmo mal deles: queremos sempre ser outros.

Também rimos de Michael Jackson porque decidiu que seu sítio seria a Terra do Nunca (onde todos ficam eternamente crianças) e decorou sua casa como uma loja de brinquedos. Quando ele se casou com a filha de Elvis Presley, foi comentado que a idade mental dos dois juntos não fazia um adulto. Quando ele escolheu sua enfermeira como segunda mulher (e mãe de seus filhos), ironizamos que, na idade mental dele, só podia casar-se com quem cuidava de seus dodóis, ou seja, com uma mãe.

Como o próprio Michael Jackson disse, ele quer recuperar uma infância que não teve. Mas, por exemplo, o ano de meus 51 anos foi péssimo. Nem por isso tento recuperá-lo. A vontade de reviver uma infância perdida só surge numa cultura em que a felicidade das crianças é a fantasia de todos.

Como a infância é nosso protótipo forçado de felicidade, Michael Jackson quer ser criança. E, como vive num mundo racista, acha melhor ser criança branca. Engraçado? Pode ser, mas, de novo, o riso é nervoso.

Em 1993, o cantor foi acusado de molestar um menino de 12 anos. Ele preferiu entregar uma bolada de dinheiro a encarar o risco de um processo. Hoje, surge uma nova acusação análoga e outras espreitam. Duas observações.

O procurador Sneddon sabe que, na Califórnia, a exploração da prostituição é um crime grave. Houve pais e mães que, durante dez anos, conhecendo o episódio de 1993, mandaram seus rebentos para a Terra do Nunca, porque era "legal" que conhecessem o cantor ou (mais provável) na esperança de cobrar, mais tarde, alguns milhões como preço de seu silêncio. Ser cafetão ou cafetina de suas próprias crianças não dá cadeia?

Em boa clínica, é pedofílica uma fantasia (realizada ou não) na qual um adulto envolve uma criança em práticas sexuais que a criança não entende. É crucial, nessa fantasia, a diferença de saberes: a criança pratica ou sofre atos cuja significação sexual lhe escapa. É dessa desproporção que o pedófilo goza. Pedófilo exemplar é aquele padre do Estado de Massachusetts que mandava um menino satisfazê-lo oralmente, explicando-lhe que essa era a santa comunhão.

Não sou o psicoterapeuta de Michael Jackson. Mas os psiquiatras e psicólogos televisivos
também não são. E tudo indica que, nas festinhas de dormir todos juntos na Terra do Nunca, não se trata de pedofilia. Deviam acontecer coisas impróprias: toque aqui, que toco lá, mostre lá, que mostro aqui, iiiii!, vamos dar beijo de língua. Ou seja, entre os lençóis de Jackson, devia acontecer o que pode acontecer quando crianças se amontoam numa cama sem que haja adultos por perto.
Pelo que sabemos, Michael Jackson não é um pedófilo, mas uma criança que eventualmente brinca com o faz-pipi (o seu e o dos amiguinhos).

Obviamente, essa distinção não tem valor (nem deve ter) aos olhos da lei: o cantor tem 45 anos, e, portanto, suas brincadeiras, se confirmadas, constituem um abuso. Mas, quanto ao diagnóstico clínico, seria bom que os colegas televisivos se contivessem. A não ser que eles, sabendo que o povo gosta de assistir à queda de um astro, queiram liderar um linchamento.

Voltemos ao riso. Por que, de novo, desta vez, Michael Jackson suscita a hilaridade nervosa? É que ele nos lembra algo que, apesar de Freud, muitos ainda querem esquecer: existe uma sexualidade infantil. Na Terra do Nunca, brinca-se também com o faz-pipi. Que horror.

Alguém perguntará: por que defender um "babaca" como Michael Jackson? De fato, sua figura, por trágica que seja, me inspira pouca simpatia, e não sou fã de sua música. Mas, no meio de uma onda repressora e hipocritamente moralista que se expande pelos EUA afora, ao escutar a raiva fria do procurador Sneddon, lembrei-me de um breve texto, que aprendi do meu pai e que é de Martin Niemoller, um pastor que sobreviveu aos campos nazistas: "Primeiro, eles vieram pegar os comunistas, mas eu não era comunista e não falei nada. Depois, vieram pegar os socialistas e os sindicalistas, mas eu não era nenhum dos dois e não falei nada. Logo vieram pegar os judeus, mas eu não sou judeu e não falei nada. E, quando vieram me pegar, não sobrava mais ninguém que pudesse falar por mim".

quinta-feira, 20 de novembro de 2003

Os loucos, os delinquentes e a arrogância da razão

No dia 10, foram encontrados os corpos de Liana Friedenbach e Felipe Caffé.

Durante toda a semana, amigos e leitores me interpelaram, pedindo que refletisse sobre o assassinato ou que me pronunciasse sobre as questões que ele levanta. Sou a favor da pena de morte ou contra ela? E a redução da maioridade penal?

Digo logo: sou contra a pena de morte, mas não porque acredite que a prisão possa reformar os assassinos de Liana e Felipe. Meu tênue argumento é o seguinte: prefiro manter nossa diferença. Eles matam, nós não matamos; somos diferentes deles.

Quanto à redução da maioridade penal, posso concordar com a maioria dos brasileiros, pela razão que já expus: minha fé na possibilidade de reeducar é limitada, seja qual for a idade do assassino. A adolescência é uma invenção cultural graças à qual nossa sociedade prolonga o tempo de "formação" de seus membros até os 20 anos. Essa convenção social não demonstra que a adolescência seja uma época em que um sujeito estaria mais disposto a ser reformado.
Mas, no fundo, pouco me importa debater essas questões. Tampouco estou a fim de encontrar explicações psicológicas ou históricas e sociais pelos atos dos algozes de Liana e Felipe.

Muitos comentários que li e escutei nos últimos dias me inspiram uma vaga desconfiança, pois me parecem sobretudo manifestar que não sabemos aceitar a radical alteridade do mal.
Nos últimos 30 anos, nossa razão produziu um enorme esforço de compreensão do gesto criminoso. Bibliotecas inteiras explicam (sem justificar, mas explicam) a crueldade do assassino ou a violência do estuprador: é a culpa dos genes, das infâncias infelizes, das injustiças sociais. As explicações celebram a engenhosidade de nossa razão e alimentam seu otimismo arrogante: repararemos as injustiças, compensaremos com carinho pedagógico as infâncias infelizes, curaremos os estorvos genéticos. O mal, em suma, é uma anomalia que entendemos e que, portanto, saberemos corrigir.

Talvez esteja na hora de duvidar dessa perigosa arrogância de nossa razão. E de aceitar que há loucuras e há crueldades que escapam ao nosso entendimento e que não podemos emendar.
Primeiro, as loucuras. Em outubro, a Human Rights Watch, uma ONG pela defesa dos direitos humanos, publicou um relatório sobre a doença mental nas prisões americanas, "U.S. Prisons and Offenders with Mental Illness" (Prisões dos EUA e Delinquentes com Doença Mental, acessível on-line, http://www.hrw.org/reports/2003/usa1003/).

Constata-se o seguinte: nos EUA, há mais "doentes mentais" nas prisões do que nos (periclitantes) hospitais psiquiátricos. O editorial da Folha de 10 de novembro salientava os resultados da pesquisa.

Essa situação (que não deve ser muito diferente no Brasil e, em geral, no mundo ocidental) é um efeito da arrogância de nossa razão.

Desde o começo dos anos 60, a instituição psiquiátrica de internamento foi desmantelada, por duas razões, à primeira vista, ótimas. Os progressos da farmacologia levavam a esperar que os pacientes mais graves seriam contidos pelos remédios. Ao mesmo tempo, o clima da época era de otimismo subjetivo: nenhum transtorno resistiria ao diálogo e à inclusão generosa. O presidente Kennedy, em 1963, ao assinar a lei que instituía os centros comunitários de saúde mental, afirmava que a segregação seria substituída "pelo calor da comunidade cuidadosa e capaz". Quer fosse pela química, quer fosse pelo carinho, ninguém ficaria a ver ou a alucinar navios.

Aconteceu, ao contrário, que as ruas das grandes cidades se povoaram de figuras errantes, à deriva, miseráveis ou ameaçadoras.

Claro, nos EUA como alhures, faltaram os investimentos em centros comunitários etc. Mas resta que as duas esperanças, da farmacologia e da mão estendida da comunidade, manifestavam a mesma vontade de negar a existência de transtornos, de sofrimentos ou simplesmente de configurações da personalidade que podem ser inconciliáveis com a convivência social.

A prisão toma conta, hoje, dos sujeitos que não soubemos disciplinar nem à força de drogas nem à força de palavras e gestos de inclusão.

Vamos às crueldades. A prisão moderna nasceu do mesmo devaneio da razão que fechou o hospital psiquiátrico.

Vale a pena revisitar "Vigiar e Punir", de Michel Foucault. Dois séculos atrás, decidimos que não era o caso de infligir suplícios públicos aos criminosos, até porque o espetáculo poderia nos enternecer. Afinal, a modernidade nos convida a reconhecer em cada homem nosso semelhante: como não ter compaixão pelos açoitados, queimados e desmembrados em praça pública? Melhor guardá-los num lugar fechado e apostar que a disciplina da prisão, a longo prazo, os reeducará e os tornará aptos a voltar ao nosso convívio. Tanto mais que o projeto de reformar seus espíritos confirma nossa idéia de que, no fundo, somos todos humanos.

As boas intenções morreram na praia. A prisão deveria celebrar a onipotência da razão mostrando a prodigiosa mudança dos extraviados, que reencontrariam seu caminho. Só mostrou nossa capacidade de isolar os delinquentes. Alguém tem uma proposta melhor?

Talvez a gente invente um dia soluções diferentes para as crueldades que não podem conviver conosco. Só espero que as invenções futuras não sejam ditadas pela arrogância pedagógica de nossa razão.

Pois há formas de loucura que a razão não pode conter. E há formas de ódio que a razão não pode reeducar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2003

"O Presente" do MixBrasil

Começa hoje, em São Paulo, o festival de cinema MixBrasil. Na sua programação, será apresentado "The Gift", "O Presente", documentário de Louise Hogarth.

É uma obra enxuta e corajosa.

Eis o fato: na comunidade gay, sobretudo entre os jovens, a prática do sexo seguro está declinando, e aumenta o número de novas contaminações pelo vírus da Aids.
Podemos culpar as campanhas públicas de prevenção: será que não foram (não são) claras? Será que, não querendo assustar, foram omissas? Ou será que pediram demais e produziram cansaço? Depois de décadas em que até o sexo oral era "proibido" sem preservativo, talvez as pessoas achem na contaminação um pretexto para, enfim, transar livremente.

Podemos culpar o sucesso dos remédios antivirais que produziram a ilusão de que a Aids seria uma doença crônica controlada, sem perigos maiores. Hogarth mostra propagandas na imprensa americana em que os remédios anti-Aids são promovidos à força de imagens de sujeitos soropositivos francamente desejáveis. A realidade é outra: o tratamento está longe de ser definitivo, é penoso e tem riscos e sequelas.

Podemos culpar a própria comunidade. Como conta no documentário o jovem Doug, é mais fácil se sentir "in" sendo um garoto muito "cool" que transa sem perguntar e sem exigir camisinha.
Mas o impacto do filme vem de outra constatação: a contaminação pelo vírus da Aids se tornou para alguns, se não para muitos, um atrativo propriamente erótico. O "barebacking" (cavalgar sem sela, termo que designa a transa anal sem camisinha) não é efeito de um descuido acidental num transporte de paixão. Tampouco se trata de um erotismo de roleta-russa, em que o risco apimentaria os encontros. Ao contrário, a contaminação é procurada como se fosse a fonte de um gozo específico.

Desde o fim dos 90, a (crescente) comunidade de "barebackers" criou um código próprio. "O presente", "the gift", é a contaminação. Há os "bugchasers" (os caçadores de bicho, o bicho sendo o vírus da Aids) e os "giftgivers" (os doadores, que oferecem o presente). Há as "conversion parties": as festas de conversão em que um soronegativo convida uma série de soropositivos a penetrá-lo e contaminá-lo. "Charged" ou "loaded cum" é o esperma que contém "o presente".

No começo dos anos 80, na comunidade gay, circulou brevemente a proposta de tatuar os soropositivos, de forma que seus parceiros fossem imediatamente informados e tomassem as precauções necessárias. A idéia foi recusada como forma abjeta de discriminação. A ironia é que, hoje, a tatuagem volta, mas não como marca de exclusão. Ao contrário, o símbolo convencional que designa o perigo biológico de contaminação é tatuado por sujeitos soropositivos perto do púbis como um incentivo sexual. Pela mesma razão, alguns escrevem no bíceps "HIV-poz".

Outros escrevem "HIV-neg" e saem à caça do vírus para poder, enfim, barrar o "neg".

Quando começou a epidemia de Aids, minha preocupação não era só com a contaminação. Atormentava-me a perspectiva de que, para uma ou várias gerações de jovens, gays ou não, a vida sexual viesse a ser um pesadelo. Receava que a necessidade de preservar a vida acabasse com o sexo. Ou seja, que o risco epidêmico forçasse o desejo a obedecer estritamente à finalidade da reprodução: transem só para fazer filhos e casem virgens.

Mas isso não aconteceu. A preservação da vida, por mais que seja o valor dominante da sociedade moderna, não arregimentou o sexo. Durante duas décadas, inventaram-se jeitos, carinhos, situações e palavras que, mesmo evitando o risco, não desvirtuassem completamente o desejo.

Aparentemente isso não foi suficiente. Sobra hoje uma revolta que não é só contra os limites impostos pela epidemia de Aids.

Os "barebackers" proclamam que existe um presente mais importante que o famoso presente da vida. Mas eles não são apenas apóstolos da morte. Para entender sua escolha, é preciso considerar que, em nossa cultura, o ideal do bem-estar, da prevenção e de uma longa existência saudável se tornou princípio ético preponderante.

É nesse quadro que os "barebackers" descobrem e procuram um gozo desesperado no próprio ato de comprometer a vida.

Se não fosse pela vontade de festejar a abertura do festival MixBrasil e de comentar "O Presente", a coluna de hoje seria sobre "Matrix Revolutions". O curioso é que, no fundo, os "barebackers" são filhos da mesma revolta que anima Neo, Trinity & co. Eles querem transar fora da matriz: "de verdade".

PS:
1) O filme de Hogarth e esta coluna não tratam de uma realidade exótica da Costa Oeste dos EUA ou de Nova York. Escrevo na segunda, dia 10 de novembro. Às 22h em ponto, entro na primeira sala "Gays e Afins São Paulo", no bate-papo do UOL. Um internauta propõe o seguinte apelido: "Sem Camisinha/Ativo". Você acha o quê? É uma informação marginal ou o essencial da fantasia sexual proposta?

2) "O Presente" (62 min.) será apresentado sexta, dia 21, no Centro de Testagem e Aconselhamento de Santo Amaro, SP; sábado, 22, e domingo, 23, no Centro Cultural Banco do Brasil. O festival, como é de costume, viaja: em Brasília, o filme passará nos dias 1º/12 e 4/12 e, no Rio, no dia 11/12.

quinta-feira, 6 de novembro de 2003

Quem matou Sylvia Plath?

Está em cartaz nos EUA "Sylvia", o filme de Christine Jeffs que reconstitui os anos produtivos e finais da vida de Sylvia Plath, a poeta americana que se tornou famosa depois de seu suicídio, em 1963. A data de estréia no Brasil ainda não é conhecida.

Resumindo: Sylvia, jovem bostoniana de classe média, órfã de pai desde os oito anos, estudante brilhante, ganhou uma bolsa para uma pós-graduação em literatura na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Lá, em 1956, encontrou Ted Hughes, jovem poeta inglês. Casaram-se e viveram seis anos oscilando entre os Estados Unidos e a Inglaterra, atrás de empregos e inspirações. Uma filha nasceu em 1960, e um filho, em 1962.

Nesse período, Ted Hughes publicou, ganhou prêmios e consolidou sua fama de poeta. Para Sylvia, escrever era mais difícil, e a coisa piorou com o nascimento dos filhos. Quando, em 1960, ela publicou seu primeiro livro, "The Colossus", só houve uma resenha.

No meio disso, Ted Hughes, embora apaixonado por sua mulher, arrumou uma amante. Talvez Sylvia fosse "intensa" demais. Talvez, simplesmente, ele gostasse de pular a cerca: era o que Sylvia (frágil, possessiva e ciumenta) pensava.

Em 1962, o casal separou-se. Sylvia passou o inverno europeu sozinha com os filhos, em Londres, escrevendo como nunca. Em fevereiro de 1963, não aguentou mais e abriu a torneira do gás.
Quem matou Sylvia Plath? O filme evita atribuir o malogro de Sylvia a algum agente maléfico, seja o marido infiel, seja a fria mãe da poeta. Também não se aventura no terreno minado da psicopatologia. Sylvia carregava consigo um passado de depressões e de tentativas de suicídio, mas é tarde para entrevistar Ruth Beutscher, a psiquiatra que repetidamente tentou ajudá-la. E, mesmo que fosse possível, nada prova que ela teria uma resposta.

Ficamos com a visão tocante de uma infelicidade angustiada e intolerável que está ao alcance de todos: um desespero que, num canto mais ou menos recôndito da mente, cada um poderia despertar e alimentar.

Quando Sylvia morreu, a colega Anne Sexton, que era mestre em cinismo amargo, comentou: "Escolha boa para a carreira". Claro, não acho que o suicídio de Sylvia Plath tenha sido maquiavélico. Mas o ato foi mesmo um sucesso profissional e amoroso.

Como efeito do suicídio de Sylvia, o marido foi condenado a tomar conta das crianças que durante anos tinham absorvido muitas das energias da poeta enquanto Ted escrevia e palestrava. O suicídio também transformou Ted Hughes (que, dos dois, era, até então, o poeta de sucesso) em revisor e editor dos manuscritos inéditos de sua mulher, a começar por "Ariel", que Sylvia deixou em cima da mesa de trabalho. Até 1963, talvez alguns soubessem que Ted Hughes, poeta inglês, era casado com uma americana "bonitinha" que também escrevia poesia. No fim dos anos 60, qualquer um que gostasse de literatura sabia que Sylvia Plath era uma grande poeta e, se alguém evocasse o nome de Ted Hughes, seria por ele ser "o marido de Sylvia Plath".

Sem discutir a qualidade da produção de Sylvia, o fato é que o suicídio lhe conferiu uma extraordinária credibilidade. É assim: se ela se matou, supõe-se que, em seus versos, haja algo forte, perigoso de tão verdadeiro. Ou seja, nós, leitores, validamos espontaneamente o argumento costumeiro de qualquer adolescente que ameace se suicidar: aí, na frente de meu cadáver, vocês vão ter que me levar a sério.

Sem suicídio, talvez Sylvia Plath fosse mais um nome nas antologias de poetas americanas da segunda metade do século 20.

Confesso que nunca fui um grande fã de sua poesia. Se tivesse que escolher uma poeta americana da mesma época, preferiria certamente Anne Sexton.

Só que Anne Sexton, delirante, detestando os efeitos da thorazine em seu corpo, também se suicidou, embora mais tarde, em 1974.

Como fica? Poeta boa tem que se matar?

Nada disso. Há uma longa lista de excelentes poetas americanas do século 20 que não se mataram: Adrienne Rich, Muriel Rukeyser, May Swenson, Denise Levertov, Elizabeth Bishop (minha preferida é Adrienne Rich, de quem recomendo "An Atlas of the Difficult Life"). Ora, com a exceção de Bishop (conhecida no Brasil porque viveu muitos anos em Petrópolis e traduziu poetas nacionais para o inglês), só leitores patenteados de poesia conhecem os nomes dessa lista. Enquanto muitos, se não todos, ouviram falar de Sylvia Plath e Anne Sexton.

Parece que a radicalidade da escolha suicida funcionou, para nós, como uma garantia de alguma qualidade de seus textos. Apostamos que sua poesia lide com uma questão crucial também (se não sobretudo) porque elas se mataram.

Ora, a questão mais importante talvez não emane de suas obras, mas de nossa reação a suas mortes. É a seguinte: em qual sensação constante de inautenticidade e de falsidade vivemos para que o suicídio nos apareça facilmente como o sinal de que alguém levou a vida a sério?

Estranho paradoxo: o suicídio funciona como prova da "autenticidade" de quem se matou. Mas que existência é a nossa, se, para nós, a morte pode ratificar a qualidade da experiência de uma vida?

quinta-feira, 30 de outubro de 2003

Dramas e tragédias

No fim de semana passado, em São Paulo, fui ao teatro duas vezes.

No sábado, assisti a "4.48 Psicose" de Sarah Kane. É o monólogo final da escritora e dramaturga inglesa, que, após tê-lo escrito em 1998, suicidou-se com determinação (primeiro as pílulas, logo, tendo sido salva a tempo, a forca definitiva). Nelson de Sá montou o texto como uma peça a duas vozes (quase três), nos subterrâneos do Sesc Belenzinho, dentro de um enorme tanque cilíndrico que desce no chão. O quadro é perfeito: o fundo do poço.

A fala de Sarah é impactante por ser exata. Tem as duas caraterísticas essenciais de qualquer drama subjetivo: irredutível e cruelmente trivial.

Enquanto Sarah articula sua demanda de amor impossível, na parede circular do tanque aparecem rostos, bulas de remédios e imagens do mundo lá fora. Para quem se engaja (e quem não se engaja?) no caminho do drama subjetivo, a realidade é moída e aspirada na direção de um ralo que é o próprio umbigo do sujeito. Não há história que valha, nem coletividade; nada além de uma contabilidade de dores e remédios, na qual a gente sempre sai perdendo.

Não seria mal se Sarah, tomada por uma repentina paixão montanhesca, pudesse escalar as paredes do cilindro bem na hora em que elas mostram as piores convulsões de nosso mundo. Quem sabe, ela conseguiria, com unhas e dentes, inserir seu drama na tragédia humana. E, assim, salvar-se.

Entre drama e tragédia oscilamos o tempo inteiro. Pedimos que a tragédia (o destino que nos quer frágeis e mortais, a natureza que nos castiga, a história que nos atropela) não apague nossos pequenos dramas (e eu, nisso tudo, ninguém dirá o que eu passei?). E pedimos também que a tragédia dê a nossa vida uma dignidade e um sentido que se perdem nos dramas. É o que deseja, caricaturalmente, um pai, quando, perplexo diante da dor amorosa de um filho ou de uma filha adolescente, exclama: "E a Somália? E o câncer?".

Mas o balanço normal de nossa época é: drama 3, tragédia 0. Pior: em regra, quando tentamos atenuar a miséria subjetiva fazendo apelo à história e à coletividade, que a afogariam em valores e sentidos mais amplos, esquecemos a tragédia. Preferimos acreditar em ficções gloriosas e amanhãs que cantarão: corra atrás de uma bandeira e esqueça.

Estava com essas reflexões quando, no domingo, fui assistir (mas por que esperei tanto?), no Teatro Oficina, a "Os Sertões - O Homem 1ª Parte - Do Pré-Homem à Revolta". É o segundo dos quatro momentos que Zé Celso decidiu consagrar a uma encenação de "Os Sertões". Corresponde à parte do livro em que Euclydes da Cunha apresenta as origens do homem americano e brasileiro, especialmente do sertanejo.

Foi uma das experiências teatrais mais fortes e comovedoras de minha vida. Na lembrança, se compara a uma noite de 1969, quando Luca Ronconi montou o "Orlando Furioso" de Ariosto na praça do "duomo" de Milão.

A analogia é sentimental. Não sei se eram mesmo anos difíceis para a Itália, mas sei que eu vivia num furor abstrato, inconformado com o país que não mudava. Olhava ao redor de mim e não reconhecia uma nação à qual valesse a pena pertencer. Apenas conseguia falar com quem pensasse exatamente como eu: estava a fim de ir embora. Naquela noite de 69, estava encerrado na massa que enchia a praça, todos olhando para o céu: no ar, acima de nós, máquinas e atores transformavam o texto mais bonito da Renascença numa extraordinária festa popular. De repente, ser italiano parecia ter sentido. Não pela festa, mas pela dignidade de uma história e de uma cultura compartilhadas.

Ao assistir à peça do teatro Oficina, a emoção foi a mesma. Mais forte, na verdade. A construção do brasileiro segundo Zé Celso é uma aventura feroz, carnal e amorosa. Pesa sobre ela o prognóstico ameaçador das teorias raciais nas quais Euclydes da Cunha acreditava: que futuro nos reserva a "inferioridade" do mestiço? Pesa a diversidade extrema: como conviverão mulato, cafuzo, sertanejo, português, gaúcho, bandeirante paulista e por aí vai? Pesa o passivo das violências sobre os corpos e as almas, da escravidão, dos estupros e dos extermínios. Mas a própria qualidade trágica da história faz a grandeza e a alegria selvagem desta improvável comunidade de destino.

Sem ficções gloriosas ou promessas de amanhãs cantantes, o "O Homem - 1ª Parte" proclama a dignidade do ser brasileiro. É a tragédia que redime os dramas subjetivos que nos chamam para o fundo do poço.

No fim, paramos na calçada para tomar uma cerveja e medir a relação entre a história que acabávamos de reviver e, lá em frente, o começo do Minhocão, símbolo da dureza urbana do Brasil de hoje. Enquanto conversávamos com um dos atores, Ricardo Bittencourt, um jovem aproximou-se para elogiá-lo. Carioca, estava de passagem por São Paulo, pois acabava de chegar ao país depois de dois anos trabalhando no exterior. Com os olhos molhados de lágrimas, batia a mão no coração: "Obrigado, obrigado, entrei no teatro meio por acaso, que loucura, logo hoje acabo entendendo por que voltei ao Brasil". Ganhou um abraço.

"O Homem - 1ª Parte" fica em cartaz, no teatro Oficina, aos sábados e domingos, só mais duas semanas, até 9 de novembro.

"4.48 Psicose" está em cartaz aos sábados e domingos, no Sesc Belenzinho, até 7 de dezembro.

quinta-feira, 23 de outubro de 2003

Solidões voluntárias

Muitos anos atrás, em Paris, um amigo, jovem psiquiatra, trabalhava nos serviços de assistência pública. Ele fazia visitas domiciliares a alcoólatras severamente marginalizados. O propósito não era curá-los de seu alcoolismo (o otimismo tem limites). Tratava-se sobretudo de verificar e melhorar, se possível, as condições de higiene e saúde dos sujeitos visitados.

É preciso lembrar que os edifícios parisienses de classe média que foram construídos no fim do século 19 comportavam, em regra, um sótão, dividido em cubículos de mais ou menos dez metros quadrados. Havia uma privada comum para o andar, nunca um banheiro completo. Eventualmente, em cada cubículo, havia um lavabo. Esses espaços eram os quartos de serviço dos apartamentos do prédio.

A partir dos anos 50, o trabalho doméstico mudou: sumiram, ou quase, os empregados que residiam no trabalho. Os quartinhos tornaram-se habitações para estudantes ou para pessoas de baixíssima renda. Hoje, juntados e reformados drasticamente, eles compõem apartamentos procurados por charme e vista.

Um dia, na lista das visitas que ele deveria efetuar, meu amigo encontrou dois endereços no último andar, o sótão, do mesmo prédio.

No primeiro cubículo, ele se deparou com um colchão infecto, garrafas vazias ou quebradas no chão, um cheiro miasmático e uma mesa encostada na parede. Um homem estava sentado à mesa, bebendo.

No segundo cubículo, a cena era idêntica. Só que, à mesa encostada na parede, estava sentada, e bebendo, uma mulher.

Os cubículos eram contíguos, e as duas mesas situavam-se cada uma de um lado da mesma divisória. De forma que, se não fosse pela parede, o homem e a mulher pareceriam estar sentados frente a frente, na mesma mesa.

Meu amigo não era ingênuo a ponto de imaginar que a solidão fosse a razão do alcoolismo de seus dois "pacientes". Pensou apenas que, retirando a parede, mesmo que eles não desistissem da empresa metódica de beber até desmaiar, ao menos eles beberiam juntos. Não seria melhor?
Essa imagem ficou comigo como um protótipo do enigma da solidão apesar da proximidade. Lembro-me dela cada vez que ouço alguém se queixar da dor de estar sozinho.

Uma mulher, por exemplo, quando o marido se ausenta por uma viagem de negócios, se entrega a orgias de comida e vômito. É um efeito, ela acusa, do abandono, por temporário e justificado que seja.

Um homem, quando a mulher visita a família num outro Estado, vira a noite na frente do computador, oferecendo-se como escravo passivo nos bate-papos gay. Ele se odeia por isso e também culpa o abandono temporário.

Não é difícil constatar que o dito abandono é quase sempre um pretexto. Ou seja, uma maneira de justificar pela ausência do outro a volta insistente de uma fantasia, de uma paixão ou de uma prática da qual o sujeito preferiria se ver livre.

É uma dinâmica que atrapalha e pode destruir um casal. A presença do outro é desejada, de fato, porque freia os impulsos aos quais a solidão nos entregaria. Logo, o outro é secretamente detestado por ser aquele ou aquela que nos impede de gozar como gostaríamos.

O engraçado é que, na maioria dos casos, não seria impossível revelar ao outro nosso "segredo" (que, aliás, provavelmente ele já conhece). Ele talvez aceitasse e mesmo se fizesse cúmplice de nossas pequenas ou grandes loucuras solitárias.

Mas a revelação demora ou não acontece. Nenhum dos dois quer renunciar não tanto a sua fantasia privada, mas a seu segredo, ou melhor, à idéia de preservar um segredo. Calam-se para proteger um espaço íntimo, ao abrigo da relação.

Quando um parceiro não pode aproveitar a viagem do outro, a luta pelo segredo toma outras formas. Não são necessariamente traições, mas pequenas mentiras. Há a mulher que alega um falso horário de expediente para ganhar tempo e tomar um drinque cotidiano de solteira no balcão de um bar do centro. Há o homem que alega sobrecarga de trabalho para passar horas, depois do jantar, trancado no "office" de casa, mesmo que seja para idiotizar-se à força de paciências.

Talvez essas escolhas sejam restos inevitáveis do passado: afinal, a descoberta do prazer foi, para muitos, solitária. E um dos atrativos da masturbação na adolescência é justamente de ser secreta: tempos e pensamentos subtraídos à presença estafante dos pais na vida dos jovens.

Além disso, o óbvio: somos filhos de uma cultura que exalta a autonomia do indivíduo. Na hora de apostar nossas fichas numa relação, como não sucumbir à tentação de guardar uma ou duas no bolso para jogar sozinhos, mais tarde, enquanto o outro dorme?

Moral da história: não basta abater paredes para estar em companhia.

P.S.: Agradeço um leitor, Wander Cortezzi, que me fez prontamente notar que, na coluna da semana passada, o título da edição brasileira do best-seller de Mitch Albom não é "A Última Grande Conversa", mas "A Última Grande Lição". Peço desculpa; devo ter errado por contaminação, pois o livro é composto pelas conversas do autor com Morrie, seu ex-professor que está morrendo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2003

A vida faz sentido? A) Muito B) Nenhum C) Um pouco

Escolha uma resposta. Provavelmente, se você quiser deixar uma boa impressão, marcará a primeira opção. Com razão, pois, ao que dizem, o sentido nos faz bem e a falta de sentido nos deprime e angustia.

Mitch Albom é o autor de um best-seller de auto-ajuda que foi traduzido em 30 línguas e, de 1997 a 2001, ficou no primeiro lugar da lista dos livros mais vendidos nos EUA: "Tuesdays with Morrie" (publicado em português como "A Última Grande Conversa").

Ele acaba de publicar um novo livro que também se instalou no primeiro lugar dos mais vendidos nos EUA: "The Five People You Meet in Heaven" (as cinco pessoas que você encontra no Paraíso). É a história de Eddie, empregado da manutenção de um parque de diversões, que, aos 83 anos, morre num acidente e descobre que o primeiro estágio do Paraíso consiste em encontrar cinco pessoas que, de perto ou de longe, foram parte de sua vida. Diz a primeira: "Cada um de nós esteve na sua vida por uma razão. Na época, você podia não conhecer essa razão, e, por isso existe o Paraíso, para compreender sua vida na Terra". "É o maior presente que Deus pode lhe oferecer: entender o que aconteceu em sua vida, ter uma explicação. É a paz que você estava procurando." A recompensa por nossas atribulações será descobrir que elas faziam sentido, pois nada aconteceu por acaso, nenhum gesto foi à toa.

Em suma, não só sobreviveremos a nossa morte (o que já é bom), mas nossas vidas, por fajutas que sejam, são necessárias no grande esquema do mundo. Portanto, se você está resfriado e de cama, não é o caso de maldizer sua sorte; de fato, os vírus que infestam seu nariz foram desviados até lá para poupar a vida de uma criança carente e desnutrida que teria sucumbido ao ataque. Vamos ver quem explica por que um relâmpago, no domingo passado, logo em Bikoro, no Congo, matou 11 crianças e deixou 25 em coma.

Peço desculpa; é fácil ironizar. Na verdade, tenho simpatia pelo pequeno livro de Albom. Ele trará a milhões de pessoas um instante de sossego: a sensação de que seu esforço de viver não é fútil e de que o descaso do mundo para com suas existências é apenas aparente. Pois seríamos todos, de alguma forma, necessários aos olhos de uma razão superior: nenhuma vida, por miserável ou triste que seja, é desperdiçada.

Eddie, por exemplo, pensava assim: "Eu não era nada. Não consegui nada. Estava perdido". No encontro final, ele descobre que seu percurso de derrotas e renúncias obedecia a um desenho secreto que lhe é, enfim, revelado.

Em 1933, Arthur O. Lovejoy fundou a história das idéias com uma série de palestras proferidas em Harvard e publicadas sob o título "The Great Chain of Being: A Study in the History of an Idea" (A grande cadeia do ser: um estudo na história de uma idéia). Lovejoy reconstruía, de Platão ao romantismo, as vicissitudes do sonho humano de completude e continuidade, ou seja, de uma ordem racional em que nada seria arbitrário, casual ou contingente, de um mundo em que a questão do "porquê" seria legítima e sempre encontraria, mais cedo ou mais tarde, uma resposta satisfatória.

Ele reconhecia que a fé numa racionalidade do mundo permitiu o nascimento da ciência, mas acrescentava que esse sonho grandioso esbarra numa dificuldade. Por mais que acreditemos que alguma razão governa o mundo, resta que esta história teve um começo: o Big Bang ou a decisão divina de criar, por serem obras do acaso ou da liberdade do criador, escapam à razão que explicaria o Universo.

Do mesmo jeito, podemos aceitar a perspectiva de morrermos um dia, pois nossa morte não é incompatível com a idéia de que tudo tenha sentido. Aqui Ablom ajuda. Mas, em regra, achamos intolerável pensar que, como prometem os astrônomos, daqui a alguns bilhões de anos, o Universo acabará. Dar sentido a uma vida que termina é possível. Dar sentido ao fim de toda vida já é outra história.

Seja como for, o livro de Albom integra a nobre tradição descrita por Lovejoy. Desde Platão acreditamos que, como é dito a Eddie, uma explicação nos dará a paz que estamos procurando. Dar sentido ao mundo e à nossa existência seria, em suma, a condição de uma tranquila e boa saúde mental.

Pequeno problema: depois de quase 30 anos de prática clínica, ainda não sei direito se o que produz mais estragos numa vida é a falta ou o excesso de sentido. O que é pior, por exemplo? A convicção de que nossos atos de hoje confirmam inevitavelmente nosso passado, a ponto de configurar um destino, ou a sensação de sermos apenas um encontro fortuito de células, palavras e paixões?

O verdadeiro drama é que permanecemos na alternativa entre uma leveza intolerável e a procura de um sentido global. Como se os gestos e as escolhas de cada dia nunca se justificassem por virtude própria. Como se o sentido não pudesse ser uma invenção limitada, pontual e modesta. Como se apostar numa ordem do mundo fosse mais fácil que acreditar, simplesmente, no que a gente faz.