domingo, 16 de setembro de 2001

PATRIOTISMO

Há complacência com o terror no sentimento de que os cidadãos do país mereciam punição

A face oculta do antiamericanismo
Os terroristas podiam apostar que, em vários lugares do mundo -e não só entre seus companheiros de loucura-, seriam esboçados pequenos sorrisos


CONTARDO CALLIGARIS
COLUNISTA DA FOLHA

Qual era a expectativa dos terroristas que, na terça-feira passada, surgiram no céu americano e nas telas de TV do mundo inteiro? Qual poderia ser o alvo da operação? Certo, queriam destruir. Mas a morte e a demolição eram apenas um meio. O ganho que eles procuravam era simbólico: o ataque aconteceu no território americano (na capital e em Nova York, a cidade-vitrine do Ocidente) e contra edifícios que fazem parte do imaginário mundial: as torres gêmeas e o Pentágono. O show era para quem?

Para produzir o júbilo de seus adeptos, não precisava de tanto. Agora, se o público alvo eram os próprios americanos (na esperança de enfraquecê-los), o fracasso foi total. Duvido que os terroristas tivessem a ingenuidade de pensar que seu gesto encontraria os favores de alguma oposição interna americana ou que a tragédia semearia a discórdia. Mas, caso contassem com isso, a decepção deve ter sido completa. O ataque parece ter aplainado as arestas da sociedade americana.

Os dois grandes partidos -Democrata e Republicano - entraram em regime de cooperação bipartidária. O Partido Libertário, em seu comunicado de 12 de setembro, execra o ataque terrorista, encoraja solidariedade, doações de sangue e de dinheiro para as vítimas e para a reconstrução.

As pessoas próximas do movimento das milícias, com todo seu ódio pelo governo federal, são inevitavelmente nacionalistas e patriotas. Que simpatizantes desse movimento, como Timothy McVeigh e Terry Nichols, tenham sido capazes do atentado de Oklahoma City não implica nenhuma cumplicidade possível com o ataque de terça-feira.

As milícias têm devoção pela defesa do território - quer seja a nação ou o terreno ao redor de casa, ambos são santuários.

No site The Patriot, há uma sondagem sobre a questão: os EUA devem ou não responder militarmente à agressão? As respostas positivas superam de longe a média nacional.
As margens do leque político dos EUA são quase todas manifestações de um individualismo radical inspirado pelos valores fundamentais da Revolução e da Constituição americanas. É difícil imaginar posições mais antinômicas a um fundamentalismo tradicionalista.

Os terroristas islâmicos poderiam esperar ter mais chances com seus supostos correligionários. É concebível que a Nação do Islã, uma margem extrema, muçulmana e anti-semita do movimento negro, visse no fundamentalismo islâmico um aliado internacional. Aliás, a escolha do Islã como catalisador de uma organização negra foi, desde o começo, uma provocação ao "establishment" ocidental e americano.

Mas os dias de Malcolm X e da conversão de Cassius Clay em Mohammed Ali passaram há tempo: o movimento está em forte regressão. De qualquer forma, a aliança com o fundamentalismo islâmico no exterior, se é que existiu, não tem como se manter quando o país é agredido.

Louis Farrakhan, chefe atual da Nação do Islã, anunciou um pronunciamento sobre o ataque ao país para o dia 16 de setembro, na mesquita Maryam, em Chicago, convidando "todos os cidadãos de Chicago, seja qual for sua raça, sua fé ou sua cor". O caráter excepcionalmente aberto desse convite manifesta a adesão ao clima de união nacional. Já está dito que a declaração será sobre "a horrenda agressão contra os Estados Unidos da América".

Enfim, mais importante: a escolha do World Trade Center como alvo transformou esse centro financeiro num lugar de sofrimento. A figura impessoal (e eventualmente pouco simpática) do homem de negócios é substituída hoje pela humanidade dos corpos desmembrados.

De repente, está colmatada a fratura, que certamente divide a América contemporânea, entre Wall Street e o "heartland", o coração da terra -o país dos americanos médios, trabalhadores rurais e manuais. "O bombeiro salvando os homens de Wall Street" poderia ser uma capa de Norman Rockwell que, descrevendo o heroísmo do resgate em curso, simbolizaria o reencontro solidário de americanos que talvez estivessem afastados indevidamente. Isso, sob a bandeira comum: nos últimos três dias a venda de bandeiras nos EUA explodiu. Na frente das casas dos subúrbios, assim como nas janelas dos apartamentos urbanos, os americanos desdobram bandeiras. É uma maneira de dizer a confiança na persistência do país.

Há outros efeitos paradoxais da destruição -certamente não desejados pelos terroristas. Considere-se, por exemplo, a geração atual de adolescentes americanos, para quem o Vietnã é um filme de Kubrick, a Guerra do Golfo é um videogame e o mundo é tutelado pelo letreiro dos índices Dow Jones e Nasdaq, ao som repetitivo da música tecno. Esses jovens são acusados de serem gananciosos e sem ideais. Na terça-feira passada, eles foram acordados brutalmente: terão de inventar uma maneira nova de dar sentido a suas vidas, uma maneira em que escolher valores é relevante.

Algo parecido acontece com os adultos. Na internet, num bate-papo de psicólogos sobre o ataque, alguém sugere: "É ótimo que as vítimas e suas familiares disponham de aconselhamento. Mas não devemos facilitar o luto de todos. Não devemos querer rapidamente voltar ao bem-estar. Devemos nos lembrar". Todos concordam. Fazia tempo que, numa discussão americana, não encontrava-se um consenso contra a exigência imediata de bem-estar.

Nesse quadro, é estranho ouvir ou ler comentários sobre uma suposta nova fragilidade dos americanos que não se veriam mais como invencíveis. Claro, o território foi violado, mas, longe de sentirem-se diminuídos ou humilhados por isso, os americanos parecem sentir-se enfim justificados. O ataque autoriza uma adesão ao interesse e aos valores nacionais sem reservas e sem pudores.

Surge uma nova boa consciência americana, que aparece, por exemplo, na intolerância declarada para com o antiamericanismo. Os americanos não são mais masoquistas. O presidente Bush assinalou esse estado de espírito ao anunciar que os pêsames não serão suficientes: daqui por diante quem não está com a América, está contra ela. Lance Morrow, num artigo na Time.com, escreveu: "Quem não odeia os que fizeram essas coisas e as pessoas que os incitam e festejam é filosófico demais para ser uma companhia decente". A palavra "filosófico" é uma clara alusão à moda antiamericana que se tornou quase marca obrigatória de (pretensa) inteligência crítica.

Não é difícil entender a razão dessa mudança de tom. Voltemos a perguntar quem é o público alvo do show de horror montado pelos terroristas. Não são os adeptos e não são os americanos. Mas os assassinos suicidas podiam apostar que, em vários lugares do mundo -e não só entre seus companheiros de loucura-, seriam esboçados pequenos sorrisos mal escondidos, no estilo: "Que pena, mas estavam pedindo, não é?"

É razoável pensar que o público estrategicamente mais importante para os terroristas sejam todos aqueles que, embora lamentando a perda das vidas, se felicitariam de ver atingidos os símbolos da potência americana. Nestes dias, circulam na internet listas dos "malfeitos" dos EUA, como para lembrar boas razões para ser antiamericano. Também circulam listas de tributo aos EUA, lembrando os empréstimos e as doações de dinheiro, sangue e energia que os EUA fizeram pelo mundo.

Estava comparando as listas, quando me ocorreu que, em grande parte, o antiamericanismo ocidental talvez seja fruto de uma divisão que está dentro de nós.

Foi assim. Uma amiga americana me telefonou aos prantos no dia 13. Ela acabava de conversar com uma amiga comum brasileira, a qual, preocupada, ligara para ter notícias. A amiga americana percebeu que, atrás dos pêsames, havia uma espécie de complacência moralizante com o terror, tipo: chegou a justa punição do materialismo sem coração. A amiga americana, embora capaz de crítica de seu próprio país, desta vez não aguentou: "Materialismo de quem?", indignou-se. "Cada vez que você vem para Nova York, usa a cidade como um shopping center ou um parque de diversões. E na hora de chorar por Nova York, me faz a moral?" A amiga americana tinha razão. Ela descobria (e me fazia descobrir) assim um mecanismo crucial do antiamericanismo ocidental banal.

Os EUA nos aparecem como o sonho realizado da modernidade; graças a isso, podemos lhes atribuir todas as caraterísticas de nossa cultura. Naturalmente, atribuímos aos EUA as caraterísticas que menos gostamos de reconhecer em nós mesmos. Assim, por exemplo, não sei se os americanos são mais consumistas do que nós. Provavelmente não. Mas os EUA são designados por nós como pátria do consumismo. Eles são sem dúvida a pátria de nosso consumismo. Graças a esse artifício, podemos frequentá-los dando livre curso a nossos desejos de consumir sem considerar que esses desejos sejam nossos. Ao contrário, pretendemos que seja um mal da cultura americana.

Quando algo em nossa cultura nos envergonha, uma boa saída consiste em "descobrir" que esse algo é especificamente americano. O antiamericanismo, em suma, alivia nossas culpas. Melhor, suprime-as, pois elas, de repente, são sempre só americanas. Explica-se assim um mistério sociológico. Na última década, os EUA tornaram-se o objeto da maior vontade migratória e da maior adesão cultural da história da modernidade. A adoção de traços do estilo de vida americano constitui quase uma tentativa de migração por mimetismo. Como é possível que eles sejam, ao mesmo tempo, o objeto de sentimentos suficientemente hostis para que, nas circunstâncias de hoje, apareça, no canto dos lábios de alguns, o ricto de um "bem feito"?

Não seria mal se conseguíssemos interpretar e resolver o antiamericanismo. Isso permitiria que enxergássemos os EUA como um país real e não como um lugar de nossa psique. Também, num momento em que um conflito entre culturas ameaça o novo século, seria útil que pudéssemos encarar o que somos -parando de atribuir ao Tio Sam o que menos gostamos em nós mesmos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2001

Dificuldade em enxergar os inimigos

Premonição: esta coluna foi terminada segunda-feira, 10, antes do ataque terrorista contra o povo dos Estados Unidos.
Na semana passada, aconteceu, em Durban (África do Sul), a Conferência das Nações Unidas contra o Racismo.

Parece-nos natural que todos os homens desejem um mundo respeitoso das diferenças de cada um, mesmo que nem sempre eles consigam conter suas próprias raivas racistas. Pois bem, enganamo-nos. A conferência lembrou que somos (infelizmente, nesse caso) menos globalizados do que parecemos: o sonho de um mundo sem discriminação é apenas uma característica de nossa cultura e da modernidade ocidental.

O encontro de Durban foi travado por dois assuntos.

Um deles foi a questão da escravatura e de como lidar com sua herança (indenizações, políticas compensatórias dos danos passados etc). Voltarei ao tema numa próxima coluna.

Mas o assunto que desvirtuou a conferência foi o conflito entre Israel e o povo palestino. Inesperadamente (porque a reunião não tinha a ambição nem os meios de propor mediações para o conflito), alguns representantes de países islâmicos acharam bom pedir que a política de Israel e o sionismo em geral fossem qualificados pela conferência como racistas.

Para entender o efeito produzido por esse pedido, imaginemos que haja uma reunião de todos os condôminos e inquilinos de um prédio para chegar a declarações comuns, graças às quais a convivência de todos se torne mais digna. Agora imaginemos que se constitua um Grupo do Terceiro Andar (o que já é um problema, por introduzir na reunião um interesse particular) e que esse grupo peça que certos inquilinos sejam definidos como imorais ou barulhentos e, portanto, que sejam expulsos. É claro que os moradores do terceiro andar não entenderam o espírito da reunião. Ou então (mais provável), eles não compartilham o projeto de constituir um condomínio de valores comuns. Só aproveitam a reunião para liquidar o pessoal que os incomoda.

O Grupo do Terceiro Andar é como a Organização dos Países Islâmicos: sua denominação já contradiz o espírito de uma conferência contra o racismo. Em geral, os grupos reunidos por um sistema fechado de crenças promovem a discriminação dos infiéis. É aceitável tratando-se de igrejas. Mas, tratando-se de nações ou supranações, esse funcionamento entra em conflito com nossos valores básicos, a começar pelas liberdades individuais. Aliás, o Brasil não pertence a uma Organização dos Países Cristãos. Também a Bahia ou o Caribe, não participam de uma Organização dos Países Umbandistas.

Em suma, há uma oposição de fundo entre a modernidade ocidental (que é nossa sensibilidade) e as nações que são comunidades tradicionais organizadas ao redor de uma confissão. Trata-se de uma fratura cultural, e seria ingênuo tratá-la como uma simples divergência política.

Uma comunidade tradicional não tem por que sonhar com o convívio harmonioso de indivíduos, de nações e de culturas diferentes. Para ela, os limites do humano coincidem com seus próprios limites. Escravizar, segregar, discriminar o infiel, o diferente ou o cara da tribo é uma atividade normal, se não meritória.

Nós, ao contrário, estabelecemos, entre os princípios formais de nossa cultura, a igualdade de todos, por diferentes que sejam, perante leis comuns. Logo, somos frustrados por nossa incapacidade de realizar os princípios nos quais acreditamos. Ou seja, acontece que discriminamos uma outra etnia, fé ou opinião, mas essa atitude (norma de uma cultura tradicional) é, para nós, uma preocupação ou mesmo um tormento, porque constitui uma distância inaceitável entre nossos princípios e nossos restos tribais -regurgitações de desprezo pelos outros e de sentimentos de nossa superioridade.

A conferência de Durban contra o racismo foi convocada para aprimorar os princípios formais de nossas democracias e para realizá-los concretamente.

O problema é que estamos tão preocupados em derrotar o racismo e a intolerância em nós mesmos que mal conseguimos enxergar e admitir a existência de culturas propriamente opostas à nossa. Reconhecê-las como tais nos parece ser uma forma do racismo que queremos evitar.

Exemplo: muitos comentadores levantaram a hipótese de que os EUA e outros países ocidentais teriam aproveitado a polêmica ao redor do sionismo para invalidar a conferência e assim evitar dolorosas conclusões sobre as eventuais indenizações aos países africanos que foram saqueados pelo comércio escravagista. A hipótese inversa é bem mais verossímil: os países islâmicos produziram essa polêmica para esvaziar de sentido, por exemplo, a proclamação da igualdade de direitos entre homens e mulheres ou a denúncia da discriminação das orientações sexuais, digamos, minoritárias. Agitando seu dedo em riste, os emissários do Irã evitaram discutir o destino reservado, em seu país, aos homossexuais. Os emissários do Taleban evitaram falar do destino das mulheres afegãs.

quarta-feira, 12 de setembro de 2001

Atentados podem recriar a unidade perdida dos EUA


Reuters
Uma bandeira dos EUA permanece intacta em meio aos escombros do World Trade Center, depois dos atentados terroristas ocorridos ontem pela manhã, em Nova York


País precisava encontrar um novo adversário para se redefinir

Ataques obrigam o planeta a se dividir novamente em dois blocos

CONTARDO CALLIGARIS
COLUNISTA DA FOLHA

Houve só um momento, na história americana, comparável ao ataque terrorista que começou (e espera-se que tenha acabado) na manhã de ontem. Foi Pearl Harbor. Sabemos no que deu.
Forçou o ingresso (que já era inevitável) dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Solidificou a coesão nacional. Identificou os norte-americanos com seu governo -mesmo aqueles que não tinham simpatia nenhuma pela Presidência de Roosevelt. Também dispôs todos aos sacrifícios necessários para encarar a guerra e ganhá-la. Submeteu à prova de fogo uma geração que ainda hoje é miticamente considerada, nos Estados Unidos, como a maior de todas. Enfim, produziu décadas de uma primazia norte-americana, econômica e cultural, que ainda dura.

Unidade nacional
O ataque de ontem tem toda a chance de desencadear os mesmos efeitos, a começar pela unidade nacional em torno de um governo que antes disso era desacreditado. Eu mesmo não saberia onde encontrar, hoje, a vontade de criticar o presidente Bush. Por um momento, até gostei de suas palavras.

Os norte-americanos passarão pela redescoberta de uma solidariedade talvez esquecida. Consegui falar com uma amiga, normalmente temerosa, de nariz empinado, no Upper East Side de Nova York: ela estava correndo para doar sangue.

Reencontrarão os valores americanos, atrás dos sonhos de sucesso material e de consumo que prevaleceram nas últimas décadas. Outro amigo, em Nova York, notou que Wall Street fechou e que, com a ruína das torres do World Trade Center, muitas operações financeiras serão atrapalhadas durante dias.

Argumenta que, se essa era uma das intenções dos terroristas, tanto pior para eles: o que importa é que durante dias os americanos nem olharão para os índices Dow Jones e Nasdaq. Talvez redescubram nessa ocasião, acrescenta, que o orgulho nacional tem outras razões além da prosperidade.

A América do começo do século 21 era, até hoje, um país ideologicamente hesitante. Para definir-se, faltava-lhe um adversário, pois o inimigo comunista havia sumido. Só sobrava, como glória nacional, justamente a riqueza -um ideal facilmente desprezível. O multiculturalismo, também, tornava problemático invocar os valores americanos.

Ora, graças aos atentados de ontem, essa fase pode ter acabado -sobretudo porque o novo inimigo não é um governo imperialista ou expansionista como a Alemanha nazista ou o Japão imperial. É um inimigo ideológico: uma concepção do mundo e da vida oposta aos fundamentos da cultura ocidental moderna.

Defensora da civilização
A América, a partir de hoje, poderá voltar provavelmente a desempenhar aquele que sempre foi seu melhor papel: o de defensora da civilização contra a barbárie.

Os Estados Unidos perseguirão todo país que, de uma maneira ou de outra, aparecer como cúmplice dos terroristas que conceberam e realizaram o ataque. É difícil imaginar qualquer outra potência em posição ou com alguma razão de contestar esse direito. Nem a Rússia nem a China. Mesmo uma boa parte dos países árabes concordará, de coração ou por medo.

É possível, com isso, que o ataque de ontem tenha definitivamente alterado a organização política do planeta, sobrepondo a todos os conflitos (econômicos, políticos ou ideológicos) uma divisão cultural. Haverá, de um lado, os que acreditam no ideário da razão ocidental e, de outro, um pequeno (ou grande) catálogo de fundamentalismos. E haverá a necessidade de se declarar.

quinta-feira, 6 de setembro de 2001

O show do meio milhão

Os vizinhos de Fernando e Esdras Dutra Pinto -sequestradores da filha de Silvio Santos- manifestaram opiniões que achei curiosas. Segundo a reportagem de Armando Antenore, na Folha de 31 de agosto, dona Edna, 27, perguntou: "O que significam R$ 500 mil para Silvio Santos?". E Maria Isabel Amorim, 20, comentou que "R$ 500 mil não são nada para o Silvio". Ela acrescentou que os sequestradores eram "mais ou menos heróis". Só faltava confundi-los com Robin Hood, que roubava dos ricos para dar aos pobres.

O pai, Antônio Sebastião, segundo outra reportagem, afirmou que seus filhos, desempregados e vivendo de bicos, agiram por frustração. É uma versão do "ninguém é de ferro": você olha para a riqueza dos outros que esbanjam, você não passa no vestibular, sente a amargura da injustiça e vai saber onde isso pára.

Tudo bem, acreditemos nessa explicação paterna. Mas cuidado. A história dos irmãos Pinto não é um drama da miséria. Eles não estavam desesperados para colocar comida na mesa da família ou para oferecer um teto aos velhos pais carentes. Nada disso. Estavam frustrados na corrida social ordinária: queriam mais bugiganga de shopping center.

Qual é a transição entre essa frustração banal e a decisão de sair sequestrando e assassinando?
Não sabemos o que passou pela cabeça de Fernando, de Esdras e dos outros. Mas conhecemos o paradoxo brasileiro contemporâneo: a convivência, em cada sujeito, dos imperativos da modernidade com visões arcaicas das relações humanas e da atividade econômica.

Comecemos com um arcaísmo: paira em nosso ar uma crença, herdada do colonizador, pela qual a riqueza não deve ser fruto do esforço, mas de uma colheita (sem plantio) ou de um saque. Ela deve ser encontrada e levada embora. Nessa ótica, assim como os diamantes vêm da terra e os maracujás, das árvores, o dinheiro não vem do trabalho, vem dos outros. É só tirá-lo deles, como se corta uma árvore de pau-brasil.

Surge assim o estereótipo colonial do caboclo perigoso e sonolento, cuja violência predatória é felizmente atenuada pela indolência, pois ele espera que a ocasião se apresente e não gosta de batalhar para que as coisas aconteçam. É o jacaré parado na beira do rio.

A esse quadro acrescente-se o motor da sociedade moderna: a inveja. O truque da modernidade é este: organizamos nossas diferenças e inventamos uma ordem social nos medindo recíproca e invejosamente. "Esse cara é mais do que eu: olhe o relógio dele. Aquele cara é menos do que eu, olhe o chinelo."

Motivados pela inveja, acumulamos, consumimos e produzimos cada vez mais riquezas.
O que acontece quando esse sentimento moderno se choca com a convicção de que a riqueza não é para ser produzida, mas para ser encontrada? Nesse caso, a inveja, inventada para estimular a alacridade produtiva de todos, encoraja os anseios dos predadores. Você está com inveja e não quer competir pelo trabalho? Não fique esperando. Procure ativamente outros de quem arrancar um pedaço. O jacaré fica furioso, deixa a toca e vai para a cidade.

Esse pano de fundo talvez explique os discursos compreensivos dos vizinhos e da família, para quem o crime de Fernando e de Esdras parece ser tolerável: ordinária administração de nossas relações sociais.

Mas algo mais fez com que o drama vivido por Silvio Santos aparecesse como uma encenação do paradoxo entre modernidade e arcaísmos obstinados do qual sofremos.

O próprio Silvio Santos deve sua popularidade à produção de programas que celebram a herança colonial pela qual a riqueza é um achado. O dinheiro chove, cai no chão. É uma luta para agarrar as notas. Mesmo assim, melhor isso do que ganhá-las propriamente, não é? Quem sabe, um dia, o Silvio me chame e seja minha vez de encontrar uma grana no meu caminho.
A gente topa tudo por dinheiro. Enfim, quase tudo: topa, por exemplo, sequestrar a filha de Silvio Santos. Trabalhar já seria outra história. O sequestro, em suma, foi um momento, uma extensão do "Show do Milhão".

O clímax produziu-se quando Fernando, sentindo que arriscava a vida, procurou a proteção de sua própria vítima. Até então, sabíamos que o sequestrador era invejoso e, nisso, moderno. Mas, à diferença de um sujeito moderno, em vez de emular produzindo, ele partira para o saque. Por não participar do "Show do Milhão", contentara-se com R$ 500 mil. Agora aparecia uma novidade: para Fernando, Silvio Santos não era apenas um sujeito qualquer, que seria bom roubar. A igualdade do semelhante mais privilegiado é uma idéia moderna demais. Silvio Santos, o invejável dispensador de riquezas, guardava, para Fernando, toda a autoridade do senhor de outros tempos -dono de engenho ou coronel.

No fim da história, foi difícil dizer se o sequestrador queria mais roubar ou receber de sua vítima a proteção que é normalmente reservada a um afilhado.

Fernando nos apresentou, assim, um espelhinho deprimente, no qual aparecia a figura perdida e contraditória de um jovem invejoso, predador e arcaicamente servil.

quinta-feira, 30 de agosto de 2001

Liberdade moral



Alan Wolfe , eminente sociólogo do Boston College, acaba de publicar "Moral Freedom" (Liberdade Moral, Norton & Co.), indagação sobre os sentimentos morais dos americanos.

No ano passado, Wolfe já tinha produzido uma ampla sondagem de opinião sobre esse tema, que foi apresentada no "The New York Times". O novo livro traz uma série de entrevistas efetuadas para aprimorar os resultados da pesquisa inicial. Trata-se de encontros com sujeitos que representam setores extremos e opostos da sociedade americana: Castro (bairro de San Francisco preferido pela comunidade gay), uma base da Força Aérea, a riquíssima Silicon Valley, uma cidade decaída do Estado de Massachusetts e por aí vai.

Entrevistando esses sujeitos anômalos, Wolfe confirma o resultado encontrado originalmente e afirma que, apesar de diferenças radicais de condição social e de idéias, quase todos os americanos praticam a "liberdade moral" moderna. Mas o que é isso?

É claro que as idéias morais de Sue Simpson, mulher homossexual de San Francisco, são diferentes das convicções de Mary Masters, uma cristã renascida do Connecticut. Se elas se encontrassem, detestar-se-iam. Masters condenaria Simpson ao inferno e Simpson acharia a existência de Masters um atraso da civilização. Mas Wolfe mostra que ambas, embora defendendo princípios opostos, praticam a liberdade moral, pois adotam suas posições respectivas por uma escolha consciente e livre, e não pela simples força de regras preestabelecidas e inquestionáveis. As entrevistas revelam que, hoje, mesmo quem defende uma moral normativa valoriza a livre escolha em nome da qual decidiu submeter-se ao rigor da norma.

Em suma, a liberdade moral que, segundo Wolfe, seria dominante nos EUA (se não no mundo ocidental) não tem nada a ver com permissividade. Pratica a liberdade moral quem toma (e quer tomar) suas decisões morais por conta própria. Esse é o caso tanto dos conservadores mais repressivos quanto dos libertinos.

Imaginemos que eu resolva minhas questões morais pela estrita obediência à Bíblia. E que você, ao contrário, em situações análogas, invente livremente critérios para julgar e decidir. Mesmo assim, seremos menos diferentes do que parece: acontece que eu sei e reconheço que a decisão de me submeter à Bíblia foi minha.

Portanto, atrás do livro ao qual me refiro sem parar, o fundamento último de minhas decisões morais sou eu mesmo. Nisso não difiro de você, que inventa seus próprios critérios. Ambos somos praticantes da liberdade moral moderna, pois nossas escolhas éticas são, direta ou indiretamente, o efeito de uma decisão autônoma que ambos prezamos.

Wolfe resume: "Há mesmo uma maioria moral nos EUA. São os sujeitos que querem decidir com sua própria cabeça".

Difícil não concordar com as conclusões de Wolfe. É claro que os sistemas morais tradicionais não conseguem mais se impor sem passar pelo crivo do consentimento dos adeptos. Por exemplo, contra a vontade da Igreja, muitos católicos são favoráveis ao aborto, discutem o fundamento do celibato do clero, acham certo usar camisinha e consideram ridículo o dogma da infalibilidade do pontífice. Para os fiéis modernos, valem os preceitos que eles mesmos aprovam livremente.

Wolfe acredita que a liberdade moral quase não tenha mais adversários hoje. Certo, há fundamentalistas para os quais qualquer livre escolha é uma manifestação satânica. Mas talvez eles sejam apenas restos arcaicos de culturas vencidas.

A verdadeira dificuldade está em nós. Pois a prática da liberdade moral acarreta vários inconvenientes quando comparada com o reinado de uma moral autoritária. Na liberdade moral, por exemplo, é difícil chegar a um consenso e falta uma garantia absoluta de que as decisões sejam corretas. É frequente que cada decisão deixe dúvidas intoleráveis pairando na consciência -quem foi ou conheceu alguém que foi jurado num processo penal conhece esse tormento.

Enfim, a liberdade moral é cansativa, pois requer a cada instante o esforço de inventar critérios para julgar.

Reagimos a essas complicações de duas maneiras. Por um lado, nostalgicamente, interpretamos a liberdade moral, que é nossa originalidade cultural, como uma inconsistência, como uma falha ou mesmo como um sinal de decadência. Lamentamos, em suma, um passado (mítico) regido por códigos de ferro.

Por outro lado, tentamos freneticamente descobrir dentro de nós algo que possa servir de fundamento para as decisões morais. Desde que fomos convidados a decidir autonomamente o que é bom e o que é mau, ou seja, a sermos a origem da moral, exploramos nosso cérebro e nossas tripas buscando um sentimento, um impulso, qualquer coisa que dê legitimidade a nossas decisões.

Procuramos (ou elegemos) uma parte de nós -mais verdadeira- na qual confiar para nossas escolhas morais. A razão? A sociabilidade, que nos faz desejar o bem comum? O instinto de sobrevivência? A vontade de ser feliz?

Qual é, a seu ver, a resposta do dia?

quinta-feira, 23 de agosto de 2001

Um (discutível) conselho para casais

Nos últimos meses, li (ou percorri) meia dúzia de livros de conselhos para casais em crise ou para noivos que queiram construir um casamento feliz.

Os livros de conselhos, em geral, são ótimos compêndios do bom senso. Funcionam, justamente, porque nos dizem coisas que já sabemos. A autoridade que nos aconselha é a sabedoria comum de nossa época.

Saí dessas leituras com a impressão de que, em matéria de casamento, nosso bom senso é animado por boas intenções, mas não deixa de ser a expressão de uma cultura que, fundamentalmente, acredita e aposta pouco nas relações.

Escolho, como exemplo, um conselho que, de formas diferentes, voltava assiduamente nos livros que li. Ele é inspirado por uma sabedoria prática incontestável. Lembro-me de tê-lo eu mesmo oferecido com convicção mais de uma vez.

Diz assim: "Não queira transformar seu parceiro". É a versão íntima de "ame-o ou deixe-o": é preciso gostar do parceiro assim como ele é, com todos os seus defeitos, pois é um erro engajar-se numa relação com o projeto de emendar nosso objeto de amor.

Por quê? Simples: nesse caso, estaríamos amando apenas por confundirmos o parceiro com um ideal saído de nossas fantasias -e estaríamos querendo que ele, coitado, coincidisse com nossas miragens. Uma decepção brutal aguarda quem mantém essa conduta, que transforma as relações amorosas no teatro tragicômico das inadequações de cada cônjuge aos desejos e sonhos do outro.

Portanto diz o conselho: amem-se assim como vocês são, cruzem-se, abracem-se etc., mas, de qualquer forma, aceitem-se. A ambição de transformar o outro pela relação é uma receita para o desastre. Deveríamos circular em nossa vida amorosa como carros nas rodovias: podendo nos cruzar e até andar juntos lado a lado, mas cientes de que as verdadeiras transformações recíprocas só acontecem nos acidentes.

Não há como negar que o conselho parece sábio e bem-vindo. O problema é que ele sugere um pessimismo radical em matéria de relações: preconiza que se relacionar seja uma atividade sem consequência, praticada no absoluto respeito dos indivíduos imutáveis. Juntem-se e permaneçam iguais.

Examinemos de novo o argumento que justifica o conselho. Quando amamos, sempre atribuímos ao outro caraterísticas ideais que nos importam ou nos inspiram. Apaixonamo-nos porque, misteriosamente, vemos no outro qualidades que pegamos emprestadas de nossos sonhos. É inevitável que o equívoco seja desfeito um dia. Por exemplo: "Vi em você a mãe perfeita para nossos futuros filhos, e eis que você só pensa em fazer carreira e trabalhar". Ou então: "Vi em você um amante carinhoso e divertido. Quem é esse cara comatoso na frente do computador ou da TV?". Conclusão do conselho: quem se casa ou se acasala com a intenção de transformar o parceiro compra uma frustração garantida. É preferível evitar decepções e amar o outro pelo que ele é.

Aqui, duas questões. Primeiro: será que existe um amor em que não atribuamos a nosso parceiro alguma qualidade extraordinária que de fato ele não tem? Será que uma relação em que não idealizamos nosso parceiro ainda é uma relação de amor? Em suma, é bem possível que o conselho nos condene a uma vida afetiva um pouco chocha. Paciência.

A segunda questão é mais importante. Pergunto: será que a decepção é o único efeito dos sonhos com os quais embelezamos nossos objetos de amor? Ou seja, será que o amor, em última instância, só nos frustra? Vamos ver.

De novo: quem nos ama vê em nós alguma qualidade ideal que, de fato, não temos. É bem provável que ele se decepcione (muito ou pouco). Tanto faz, pois o que importa é que, de qualquer forma, sua expectativa nos transformará. "Claro, não sou o amante maravilhoso que minha parceira apaixonada imaginava que eu fosse. Sou mesmo comatoso na frente da TV. Mas a expectativa de minha parceira -que me idealiza e que sonha comigo carinhoso e engraçado- é a única coisa que pode me arrancar da poltrona."

Na verdade, mudamos (para melhor ou para pior) sempre graças a algum outro que espera de nós uma mudança. Uma criança cresce, por exemplo, alimentada pela expectativa amorosa dos pais. "Joãozinho é um Mozart", declara a mãe.

Joãozinho abandona a música aos 13 anos: grande decepção. Mas resta que, se aprendeu a tocar um pouco, se a música passou a fazer parte de sua vida e mesmo se ele cresceu confiando em seus outros talentos, tudo isso foi graças ao sonho da mãe que olhava para ele e via Mozart redivivo.

O modelo continua valendo na vida adulta: mudamos graças ao amor de quem nos idealiza e, assim, nos estimula a mudar. O amor é o motor de quase todas as nossas transformações.
Portanto está certo o conselho de não perseguir nossos parceiros com a exigência de que mudem. Engajar-se num amor querendo mudar o outro é um projeto mal-aventurado.

Mas um conselho mais corajoso e menos ditado pelos ideais celibatários de nossa cultura diria assim: esqueça o infausto projeto de mudar o outro, mas ame com o projeto de ser transformado pelo que o outro espera de você.

quinta-feira, 16 de agosto de 2001

Entre as gerações: a guerra dos gozos



Na coluna da semana passada, comentei um sentimento que não é raro nos pais modernos: uma espécie de inveja dos filhos, sobretudo quando eles chegam à adolescência. Somos frequentemente incomodados pelo espetáculo das mordomias que nós mesmos proporcionamos aos nossos rebentos. Passamos o tempo atormentados por um dilema entre lhes proibir ou permitir prazeres. Ou então queremos vê-los felizes, mas lamentamos os sacrifícios que eles nos custam. Tudo isso porque, de alguma forma, gostaríamos de guardar para nós a (pretensa) boa vida que oferecemos a nossos filhos.

Vários leitores me escreveram reconhecendo que essa inveja dos filhos faz parte de sua experiência de pais. Mas alguns acrescentaram, para equilibrar a balança, que também os filhos modernos nem sempre são flores que se cheirem: às vezes, eles olham para os pais de um jeito nada carinhoso. Uma mãe escreveu: "A gente também achava nossos pais meio ultrapassados, mas, no olhar de meus rapazes, vejo o desprezo, uma vontade que eu desça logo do palco".

Em suma, pode ser que os pais modernos invejem seus filhos. Mas os filhos modernos como olham para seus pais? Se fosse com inveja -uma recíproca da inveja dos adultos-, a coisa não seria surpreendente nem dolorosa. É natural que os filhos invejem os pais: conta-se com isso para que eles cresçam. Infelizmente, não se trata de inveja: há mesmo algo diferente e inquietante no olhar que muitos adolescentes modernos destinam aos adultos.

Eles contemplam seus pais com uma espécie de comiseração ou então com vergonha, como se as condutas do pai e da mãe fossem aviltantes até para a prole. Faz parte de uma adolescência moderna assistir com verdadeiro dó ao espetáculo dos pais divertindo-se -dançando ou abraçando-se. Ou então enjoar ao fitar a boca dos pais, enquanto eles saboreiam felizes seus pratos preferidos. Sobretudo os prazeres dos pais, seus jeitos de aproveitar a vida, parecem inspirar asco nos filhos adolescentes.

Uma parte dessa repulsão pode ser explicada como um efeito do bom e velho complexo de Édipo. Por exemplo, o jovem, mostrando sua desaprovação visceral, estaria apenas protestando contra o fato de ele não ser o centro da atenção. Ele acharia que os pais, dançando, são ridículos, porque gostaria de estar, ele, dançando com o pai ou com a mãe (segundo o caso).

Mas essas explicações não bastam. O olhar de muitos adolescentes modernos sobre os prazeres dos pais é radical e abrangente demais para ser apenas uma manifestação de ciúme. Ele pressupõe a convicção de que os prazeres da geração precedente são insípidos e fracassados: os pais não sabem o que é a vida, sua experiência é deficitária, ridícula.

A acusação não é tanto de conformismo, mas de incompetência em gozar a vida. Essa convicção é acompanhada por uma raiva às vezes explícita, um "sai da frente" justificado pela incompetência: "Vocês, pais, não sabem desfrutar a vida direito e, olha que absurdo, ao mesmo tempo, se metem no meu caminho".

É uma atitude que custa caro aos adolescentes modernos. Para justificar e mostrar que têm um jeito próprio e certeiro de gozar da vida, eles são obrigados a renunciar aos prazeres sugeridos e praticados pelos pais. Condenam-se, dessa forma, ao tédio e a um certo desespero, pois não é fácil encontrar maneiras originais de gozar a vida.

Aparece assim frequentemente um quadro familiar quase cômico, em que adolescentes deprimidos, inativos e sarcásticos desprezam adultos que se agitam com entusiasmo, inventando e propondo programas que são, de fato, estereótipos de uma adolescência invejável -que só existe nas propagandas de goma de mascar. Por exemplo, já vi jovens pasmos, atirados na cama, enquanto os pais, a mil, enfiavam capacetes, coletes salva-vidas e caiaques na perua de família.

Por que essa cena é especificamente moderna?

Nas últimas décadas, nossa cultura parece ter aceitado a idéia de que as gerações estariam sempre, "naturalmente", em conflito. Racionalizamos essa chatice com a explicação seguinte: cada nova geração inventaria valores novos -ninguém pára o progresso. Ora, o conflito moderno entre gerações é um conflito de valores só aparentemente. Ao contrário, as gerações se pegam pelos cabelos por elas terem em comum um mesmo valor: o projeto de gozar a vida o quanto mais possível.

Pais e filhos modernos compartilham uma idéia, central em nossa cultura, segundo a qual a vida é um bolo. Importa servir-se direito, comer bastante e, se der, levar um pouco para casa.
Ao redor de um bolo, não há dissidentes, só concorrentes: comensais que se servem mais rapidamente ou mais vezes do que nós, aproveitadores que nos privarão da fatia que poderia sobrar para o café de amanhã etc.

Graças a esse ideal compartilhado, cada geração é, para a outra, uma rival. E cada geração inventa (ou simula, tanto faz) um jeito original de gozar a vida para que sirva de pretexto na hora de empurrar a geração precedente até a porta.

quinta-feira, 9 de agosto de 2001

Recessão para a molecada



Gostamos de imaginar que, se faltasse comida, enganaríamos nossa fome mastigando cadarços -pão, bife e sorvete continuariam aparecendo no prato de nossos filhos. É normal sacrificar-se pelo bem-estar da prole.

Essa é a maneira moderna de amar os filhos: eles são uma espécie de time da prorrogação, encarregado de salvar os jogos que nós não conseguimos ganhar durante o tempo regulamentar de nossas vidas. Portanto vê-los saborear pratos dos quais nós nos privamos é uma consolação: penamos, mas, em compensação, eles, carne de nossa carne, desfrutam cada instante.

Esse estereótipo é confirmado pelos números do consumo juvenil na última década: nas classes médias (e não só nelas), crianças e jovens foram mimados como nunca.
Agora essa década próspera acabou. Nos EUA, as empresas não fazem mais leilões para conquistar funcionários. Ao contrário, fala-se em demissões para conter os custos. A queda da Bolsa acabou com uma fonte de dinheiro fácil.

Nem por isso deveria mudar o estereótipo mencionado acima: só seria preciso que os pais se sacrificassem um pouco mais. Eles poderiam renunciar ao almoço para garantir o celular da menina, suprimir as saídas do sábado para subvencionar a roupa do menino etc. Ou seja, mesmo em clima de austeridade, os rebentos deveriam sofrer por último e sempre menos do que os pais.

Contrariando essa expectativa, um artigo do "Wall Street Journal" de 13 de julho, "A Kid Recession?" (Uma Recessão para as Crianças?), apresentou uma pesquisa segundo a qual, no fim de 2000, os adultos aumentaram (levemente) seus gastos, enquanto o consumo destinado a jovens de 8 a 24 anos de idade diminuiu em um terço. Em 2001, a tendência está confirmada: até agora, os adultos americanos seguem consumindo, mas 12% das crianças tiveram sua mesada cortada de maneira significativa e 16% queixam-se de que recebem menos presentes.
Será um simples efeito da crise? Não acredito.

De regra, as dificuldades financeiras não têm o poder de acalmar a paixão (narcisista) dos pais modernos pelos seus filhos. Todos conhecemos mães que vivem de bicos, mas esbanjam R$ 250 para colocar nos pés do filho um tênis que o moço mal queria, mas que constitui, para a mãe, uma revanche contra a vida. Assim como pais endividados que contratam palhaços e cantores para a festa do aniversário dos seis meses de seu nenê: mesma revanche. Quanto mais os pais se vêem como insatisfeitos, tanto mais eles podem querer compensar suas frustrações pelos filhos. "Não tenho comida? Caviar nos moleques."

Como entender, então, o artigo do "Wall Street Journal"? Pois bem, se a recessão leva os pais a cortar as mesadas e não suas próprias despesas, é provável que a falta de meios seja apenas um pretexto. Quem sabe os pais procurassem há tempos uma desculpa para interromper a festa dos filhos?

Como assim? Não foram eles, os pais, que permitiram e encorajaram a dita festa? Foram, sim. Mas nós, pais contemporâneos, somos atormentados por uma contradição. Adoraríamos que nossos descendentes tivessem tudo o que não tivemos. Ao mesmo tempo, gostaríamos que eles sofressem privações e interdições.

Explicamos essa incoerência da maneira seguinte: amamos nossos filhos e, portanto, somos generosos com eles, mas, para o próprio bem deles, queremos proibir seus prazeres, treiná-los, sei lá, para a "dura" realidade.

Essa explicação é um duplo conto de fadas. Nosso amor não é tão generoso assim: a satisfação dos filhos serve para abrandar nossas frustrações. Do mesmo jeito, uma boa parte de nossa eventual severidade não provém de alguma sabedoria pedagógica, mas de nossa inveja.

Inveja dos filhos? Pois é, antes de discordar indignado, considere esta contradição: frequentemente, quando contemplamos nossos filhos enquanto usufruem as mordomias que lhes proporcionamos, experimentamos um misto de contentamento e de mal-estar. Como se nos irritasse a naturalidade com a qual eles se valem do que nós mesmos lhes oferecemos.

Outra contradição: encaramos qualquer sacrifício para ver nossos filhos felizes e satisfeitos, mas passamos nosso tempo imaginando interdições para policiar seus prazeres. Colocamos uma televisão no quarto de uma criança, mas exigimos que ela a use apenas durante duas horas por dia. Instalamos um computador só para ela, mas queremos limitar e controlar o seu acesso à internet. Oferecemos telefone fixo e celular, mas proibimos comunicações frequentes ou longas demais. E por aí vai.

Gostaríamos, ao mesmo tempo, de dar tudo e de proibir tudo. Por quê? Suspeito que o espetáculo da "felicidade" das crianças -produzido para nosso prazer e consolo- esteja nos enjoando.

Era previsível que isso acontecesse. Mimamos os filhos para contemplar seus prazeres: eles gozando da vida, nós gozaríamos por procuração.

Inevitavelmente essa contemplação tornou-se indigesta. Por que eles e não a gente? Por que promover seus prazeres vicários e não pensar diretamente nos nossos? A maneira moderna de amar os filhos talvez tenha chegado a um impasse.

quinta-feira, 2 de agosto de 2001

Pelas ruas de Gênova, lá vamos nós



Durante os protestos contra o G-8 (grupo que reúne os sete países mais industrializados do mundo mais a Rússia), a imprensa européia entrevistou políticos da esquerda oficial e veteranos de 68. Vários aproveitaram a oportunidade para lamentar, nesses novos manifestantes, a falta de "verdadeiros" projetos de sociedade. "São carentes de propostas políticas, crescerão", disse Mario Capanna, que foi líder do movimento estudantil de Milão em 68. Engraçado: sob a direção de Capanna, o movimento, na época, foi declaradamente stalinista. Se essa for a "proposta política" que falta, melhor que os "carentes" não cresçam mesmo.

Prefiro evitar as nostalgias e reconhecer que aos manifestantes de Gênova não falta nada. Ao contrário, graças à sua diversidade confusa ou mesmo atrapalhada, talvez eles representem, da melhor maneira possível, o estado de espírito de muitos que estão, hoje, social e politicamente insatisfeitos.

De fato, parece-me que poderia manifestar-me com cada um dos componentes dessa massa contestatária. Os grupos diversos e, às vezes, opostos levaram pelas ruas de Gênova diferentes fragmentos de meus humores reformistas ou revoltados.

Olhe só. O resto de minhas esperanças socialistas desfila com a esquerda clássica italiana, em versão social-democrata ou intransigente. Identifico-me com os ecologistas puros e duros (do Greenpeace aos italianos da Legambiente), mais preocupados com o planeta do que com as mazelas dos homens. Posso ter um coração caritativo, animado por paixões missionárias contra a fome e as doenças no mundo (do tipo Christian Aid). E sobra-me uma raiva que deve valer a do movimento anarquista Black Bloc, pedras na mão.

Um leitor poderia observar: "Admito que o ardor político seja, hoje, plural e mesmo confuso. Posso admitir também que essa pluralidade esteja em todos nós. Mas por que se reconhecer num radicalismo destrutivo que parece gratuito?". De fato, quase todos os grupos tentaram se dissociar dos "violentos". Aliás, por esse motivo, falou-se pouco de Carlo Giuliani, o jovem que morreu nos enfrentamentos com a polícia. Não sabemos quase nada de suas idéias ou de sua militância. Até a esquerda prefere esquecer o morto: sem a carteirinha de um partido ou de um movimento e (na foto reproduzida pelo mundo afora) prestes a lançar um extintor no policial que o mataria, Carlo Giuliani parece ser o protótipo da "Internacional da desordem", segundo a expressão do governo italiano. Ou seja, baderneiros enfurecidos sem saber por quê, agitadores abstratos.

De fato, posso não gostar da raiva de Carlo Giuliani e do Black Bloc. Mas ela tem, no mínimo, duas razões de ser.

A primeira é compreensível por qualquer um que já quebrou louça numa cena de família. Os cônjuges jogam pratos e xícaras na parede para resistir à tentação de fazer as pazes. Viram a mesa para que não haja mais um lugar para eles se sentarem juntos. Protegem-se assim contra sua própria vontade de parar a briga e voltar aos prazeres do lar. As pedras que os jovens do Black Bloc jogam contra as lojas obedecem à mesma lógica: são uma barragem defensiva contra a irresistível atração de um mundo do qual, por outro lado, eles não gostam. O quebra-quebra é isto: destruir vitrinas para não desejar a mercadoria exposta, ou melhor, por raiva de ser levado a desejá-la. Queimar carros pelo mesmo motivo.

No semanal italiano "L'Espresso" de 26 de julho, a reportagem de capa sobre Gênova era claramente favorável ao protesto. Mas a mesma edição propunha uma outra matéria, para sonhar e invejar, sobre a costa Smeralda, na Sardenha, refúgio estival dos socialites italianos e internacionais, com foto da vila de Berlusconi, o miliardário magnata de televisão que é hoje premiê italiano.

Pergunta implícita ao leitor: "Você quer que não haja mais Berlusconis ou sonha com uma vila na Sardenha?". Em resposta, o leitor que quisesse um mundo diferente poderia jogar pedras, não tanto para atingir Berlusconi (ou Chirac ou Bush), mas para demolir (em sua própria cabeça) simulacros de vilas numa Sardenha de sonho.

Vamos à segunda razão da raiva do Black Bloc.

Há duas maneiras banais de (tentar) controlar os outros. Uma consiste em afirmar que nós sabemos o que os outros verdadeiramente querem, acima e além de suas declarações ou de seus silêncios. Por exemplo: "Você defende as baleias e a distribuição de arroz na Somália, isso é legal, mas lacunar, portanto vamos completar para você e dizer qual é a sociedade que você realmente deseja". É, no mínimo, irritante.

Mas é a outra tentativa de controle que instiga mais violência. Ela consiste em perguntar: "Afinal, o que você quer exatamente?". Subentendido: "Diga com clareza seu desejo, para que a gente possa controlar direito sua satisfação ou frustração".

Faça a experiência com um adolescente, se quiser exasperá-lo. Com um pouco de sorte, ele acrescentará (com razão) que, para querer, não é necessário saber de antemão o que quer. Basta não gostar da situação e estar decidido a inventar algo diferente.

quinta-feira, 26 de julho de 2001

"Valet Parking" e cidadania

Durante o fim de semana passado encontrei um amigo e li um livro.

Não direi o nome do amigo por razões óbvias. Conheci X nos anos 80, quando ele era segurança num hotel onde eu me hospedava com frequência. Desde então, trocamos regularmente notícias sobre família, trabalho etc.

Um ano atrás, depois de um penoso período de desemprego e bicos, X conseguiu um cargo mais estável, como motorista de "valet parking". Aprendi nessa ocasião que, em São Paulo, o "valet parking" é frequentemente um serviço terceirizado. O vínculo dos motoristas não é com os estabelecimentos onde exercem seu ofício, mas com empresas prestadoras de serviço.
X tem dois filhos. Seu salário está por volta de R$ 280 por mês -sua mulher não pode trabalhar em tempo integral e ganha menos do que ele. As gorjetas que ele recebe não são muito significativas: quando o serviço é cobrado e não oferecido, os clientes acham que já pagaram o devido. O horário de trabalho vai do meio-dia à madrugada. No caso dos restaurantes (o mais frequente), há poucos clientes entre o almoço e o jantar. Portanto, a empresa outorga um generoso intervalo de três ou quatro horas. Os motoristas moram longe demais para voltar para casa, descansar, ver os filhos etc. Ficam numa parada forçada que é chamada de repouso e serve para que não surja a questão das horas extras.

Apesar dessas condições que nos parecem pouco ideais, X estava feliz de ter conseguido, enfim, um trabalho fixo. Eis que, acidentalmente, ele danificou um carro. O seguro das empresas de "valet parking" tem uma franquia, geralmente, de R$ 1.000. Em caso de acidente, quem você acha que pagará os danos até o valor da franquia? Você deve ter adivinhado: o funcionário.
Disseram a X que, com a crise, não havia como a empresa assumir a fatura, mas que (de novo, "generosamente') deixariam que ele pagasse aos poucos. Durante os próximos meses, o salário de X será a metade do que era, até o reembolso completo dos danos.

É normal que a empresa prefira que os funcionários não batam os carros que lhes são confiados. Seria compreensível que ela instituísse regras do tipo: quem bate duas vezes num mês procure um emprego diferente. Mas aqui trata-se de outra coisa: a atividade empresarial repassa sistematicamente seus riscos ordinários e sua responsabilidade para os funcionários.
X poderia recorrer à Justiça do Trabalho. Ganharia, mas acabaria perdendo seu emprego. E a reputação de encrenqueiro fecharia qualquer possibilidade de trabalho no ramo. Melhor deixar uma eventual ação trabalhista para depois da aposentadoria, mas será tarde para as necessidades imediatas de seus filhos pequenos.

Com o salário cortado pela metade e sobretudo com a sensação de que a lei existe e pode até ser justa, mas não vale para ele, por que X não escolheria a delinquência? Afinal, ele é vítima de um abuso contra o qual a lei quer e pode ampará-lo, mas descobre que a sociedade, no seu caso, torna a lei inoperante. Ou seja, há um pacto social, mas do qual ele é excluído à força. Por que, então, respeitar as regras?

O relato dos apertos de X acompanharam minha leitura de "Cidadania no Brasil o Longo Caminho", de José Murilo de Carvalho (Civilização Brasileira), que, de maneira concisa, clara e indispensável, percorre a história dos direitos civis, políticos e sociais no Brasil.

No fim do livro, esta declaração: "José Bonifácio afirmou que a escravidão era um câncer que corroía nossa vida cívica e impedia a construção da nação. A desigualdade é a escravidão de hoje, o novo câncer que impede a constituição de uma sociedade democrática".

A desigualdade da qual se trata não é apenas de renda. Também, hoje, não é propriamente uma desigualdade civil ou política, pois, segundo a letra da lei, não há mais, entre nós, cidadãos de segunda classe.

O lugar de nosso maior mal-estar social parece estar no descompasso entre esse princípio formal e a realidade concreta. Acontece que os cidadãos das camadas mais pobres estão mudando a imagem que eles têm de si mesmos. X, por exemplo, sabe que ele não é nem servo nem escravo: ele tem direitos. Mas, ao mesmo tempo, ele é levado a tolerar uma punição e a mostrar gratidão, como um escravo. Por quê? Será que a lei não é clara? Precisa melhorá-la ou implementá-la melhor? Infelizmente, o problema, nessa altura, parece ser de solução mais difícil, pois ele é cultural ou mesmo francamente psicológico: reside na representação das classes "inferiores" no espírito de uma boa parte das elites. Coquetel complicado: os desfavorecidos começam a acreditar na igualdade dos direitos e a se ver como possíveis cidadãos. No entanto, muitos favorecidos seguem percebendo ao redor (e abaixo) de si apenas um exército de servos e escravos -para os quais imaginam e querem, por exemplo, que valha a regra: "Quebrou um prato? Leva açoite e fica sem comida!".

A violência que assola as últimas décadas não precisaria de outra causa. Bastaria esta contradição.

quinta-feira, 19 de julho de 2001

Polícia em greve



Em qualquer democracia, mesmo ideal, é necessário que haja uma força de polícia para manter a ordem e implementar as leis que os cidadãos se dão e às quais eles se submetem de um comum acordo. Parece haver duas maneiras opostas de instituir uma polícia.

Primeira possibilidade. Talvez para conter os gastos, os cidadãos procuram candidatos alhures -por exemplo, num país chamado Miséria, cujos habitantes aceitam trabalhar por salários de mera sobrevivência, ou seja, sem nenhum lustre social. Eles contratam, assim, soldados e cabos a preço de banana, enquanto a comunidade fornece apenas os oficiais.

A tropa arregimentada dessa forma dificilmente pode ter um verdadeiro compromisso com a comunidade, pois não faz parte dela: trata-se, de fato, de uma tropa só mercenária. Os homens são escolhidos por virem de Miséria e são mantidos na exclusão pela retribuição medíocre e pela distância social. Excluídos da comunidade, eles podem, com razão, considerar-se tão fora-da-lei quanto os bandidos que é sua tarefa reprimir. Aliás, é com isso que eles amedrontam os infratores (e não só eles), estando dispostos a praticar uma repressão tão desregrada quanto o ato delinquente que eles reprimem.

Os membros da comunidade queixam-se, justamente, de recear às vezes mais essa polícia do que os próprios bandidos. Mas acontece que essa maneira de instituir uma polícia é escolhida por comunidades decididas a manter amplas margens de excluídos, talvez provindos do mesmo lugar onde é recrutada a tropa dos policiais. Os cidadãos, portanto, querem proteger-se contra essa massa, que, visto que é excluída, não tem por que respeitar as leis da comunidade. E, para conter os excluídos, o que é melhor do que uma tropa de excluídos?

Além disso, os cidadãos logo descobrem que, se essa polícia é perigosamente descomprometida com as leis, em compensação ela é sensível à corrupção. O laço mercenário inicial é assim consolidado por uma série de contratos privados, que oferecem bicos e salários paralelos a cabos e policiais para que, fora ou dentro do horário de seu trabalho, eles sirvam de segurança particular.

Há um segundo caminho possível. A comunidade escolhe entre seus membros os que parecem mais aptos ao trabalho de defesa da ordem. Os mais corajosos, mais hábeis no uso das armas e mais íntegros tornam-se policiais. São honrados e recompensados de forma a manter concretamente um status social respeitado.

Os cidadãos sabem que algumas profissões devem ser especialmente valorizadas aos olhos de todos. Por exemplo, é importante que os encarregados de educar as crianças sejam vistos como sujeitos que se deram bem na vida. Pois as crianças mal confiariam em pessoas que a sociedade julgasse fracassadas. Por isso a comunidade remunera e honra especialmente seus professores (não é?). A mesma coisa vale para a polícia. Que a profissão de policial apareça como uma escolha de sucesso é um fundamento relevante da autoridade do policial.

Conclusão: no primeiro caso, todos acatam a polícia por medo de sua violência; no segundo, o acatamento confunde-se com o respeito devido a cidadãos que se consagram a uma tarefa necessária e que são parte integrante da comunidade -sua profissão aparecendo como uma das formas de êxito social.

Agora, imaginemos que, num belo dia, ao redigir uma nova Constituição, os cidadãos especifiquem que os que servem aos interesses cruciais da comunidade não podem fazer greve. Razões: o funcionário faria greve, paradoxalmente, contra si mesmo, pois a coisa pública é administrada no interesse dele. E, sobretudo, o compromisso do funcionário-cidadão com o bem geral impede que ele se engaje numa forma de protesto danosa para a vida de todos.

Esses raciocínios valem no caso da polícia apenas se, na hora de alistar a tropa, a comunidade tenha escolhido seus melhores, os que ela honra e recompensa. No caso da comunidade que arregimenta excluídos, os ditos raciocínios não funcionam, pois esses policiais não têm compromisso com o bem de todos por não fazerem parte dos "todos" que importam. Então, estando insatisfeitos, por que não recorreriam à greve?

A greve, nesse caso, revela a natureza da polícia que a comunidade comprou (barato). O protesto apresenta-se como uma insurreição de gladiadores ameaçando os cidadãos, exibindo armas do teto dos quartéis, em provocação parecida com aquela dos fora-da-lei quando se amotinam nas prisões. Ou, então, os grevistas percorrem as ruas da cidade como patrulhas do terror, numa pantomima de arrastões criminosos.

Moral da história: numa democracia, seria melhor que todos fossem cidadãos de direito e de fato, sem exclusões. No caso infeliz de que uma democracia conviva com amplas margens de exclusão, a comunidade, no mínimo, deveria evitar que fossem e permanecessem excluídos logo os que são encarregados de representar e preservar as leis da cidade.

Iria esquecer: qualquer semelhança com fatos da vida real recente na Bahia não é mera coincidência.

quinta-feira, 12 de julho de 2001

A face maléfica dos adultos

A comissão de suspensão das penas do Estado de Massachusetts, EUA, acaba de pronunciar-se a favor da liberação antecipada de Gerald Amirault, 47 anos (os últimos 15 na cadeia). É o epílogo de um vasto fenômeno cultural dos anos 80.

Amirault, sua irmã e sua mãe animavam a escolinha de Fells Acres, em Malden, MA. Num belo dia de 1984, um aluno de cinco anos disse à sua mãe que fora molestado por Gerald Amirault. Depois de uma orgia de interrogatórios, Gerald foi condenado pelo estupro de seis meninas e três meninos, enquanto sua irmã e sua mãe teriam estuprado três meninas e um menino.

Seguiram-se muitos processos parecidos pelo país afora. As crianças contavam abusos saídos de uma versão pornô dos contos de Grimm. Houve o palhaço que levava as crianças para o quarto mágico e mandava comer o almoço na ponta de seu peru. E a bruxa nua que tocava "Jingle Bells" no piano. A escassez de provas materiais competia com a incompetência (ou má-fé) dos procuradores durante os interrogatórios das crianças.

Até os meados dos anos 90, as fantasias sexuais infantis condenaram dezenas de professores, padrastos, madrastas, pais, avós etc.

Na mesma época, afirmou-se a Teoria da Memória Recuperada, segundo a qual muitas aflições psíquicas dos adultos seriam causadas por abusos reais sofridos durante a infância.
Em suma, de 1985 a 1995, nossa cultura -em sua matriz norte-americana- decidiu que as crianças, quando acusavam os adultos de maluquices sádicas, deveriam estar falando a verdade. E, ao mesmo tempo, autorizou-nos a atribuir sistematicamente nossos sofrimentos à suposta crueldade dos que teriam abusado de nós enquanto éramos crianças.

Em 1995, Frances Hill, no livro "A Delusion of Satan" (Um Delírio de Satã), comparou esses processos por abuso de crianças com a caça às bruxas de Salem no século 17 (as acusações provinham de um coro de meninas). Hill lembrava que, desde 1985, nos EUA, 60 pessoas, acusadas de múltiplos abusos, tinham sido condenadas a passar suas vidas na prisão. E 2,5 milhões de americanos maduros ou idosos foram acusados por seus filhos ou netos já adultos que haviam "recuperado" a lembrança de terem sido vítimas de abuso na infância.

Duplo estrago: milhares de famílias destruídas e, por outro lado, a extrema dificuldade, nessa loucura, de reconhecer os abusos verdadeiros, que, naturalmente, continuaram existindo.

Por que tudo isso? Há uma série de hipóteses. Por exemplo, nota-se, na maioria dos casais de classe média, que, durante os anos 70 e 80, ambos os cônjuges passaram a trabalhar. A culpa por deixar as crianças pequenas aos cuidados de outros devia alimentar fantasias sobre os horrores que poderiam acontecer. Ao denunciarem professores e "babysitters", as crianças adotariam as fantasias produzidas pelo sentimento de culpa de seus pais.

Outra hipótese: os anos 80 foram um momento de reação à liberação sexual dos 60. Nesse quadro, era interessante mostrar que a sexualidade chegava às crianças só pela violência de adultos corruptores.

As várias explicações são todas plausíveis, mas não esgotam a significação das acusações lançadas pelas crianças e pelos adultos que "se lembraram" de abusos sofridos na infância.
É óbvio que a grande maioria das acusações não correspondia aos fatos. Mas a massa de denúncias representava um protesto coletivo. Como se, nos anos 80, a infância se revoltasse ao descobrir alguma face maléfica dos adultos.

É frequente que os adultos modernos sejam acusados de desejar o bem de seus rebentos apenas por razões narcisistas, ou seja, por considerá-los como extensões de suas próprias vidas. Tipo: "Seja feliz por mim! Realize meus sonhos!". Esse amor narcisista pode provocar consequências nefastas nas crianças. Mesmo assim, é um tipo de amor.

Mas é raro que se levante a questão da inveja (inconsciente ou não) que os adultos e os pais podem sentir das crianças. Ou então que se fale do ódio produzido nos adultos pelo fato de que os rebentos, por existirem, tomam nosso lugar e tocam o sino de nossa morte.

Do mesmo jeito, estamos sempre dispostos a desvendar as paixões de Édipo e a reconhecer que as crianças podem alimentar fantasias mais ou menos torpes com um adulto desejado ou podem querer que ele morra. Mas evitamos interrogar as ambivalências e os cantos escuros das fantasias dos adultos com as crianças. Jocasta, por exemplo, caiu na jogada de Édipo só por engano?

Ora, nos anos 80, os adultos dedicaram-se como nunca a seu próprio projeto de bem-estar. Propuseram-se a ser eles mesmos felizes em vez de seguir planejando a felicidade futura de suas crianças. Logo estas devem ter percebido que eram vistas como rivais e usurpadoras mais do que como preciosas encarnações das esperanças dos pais. Eram, portanto, objetos de menos amor, mais inveja, mais ódio e mais violência. Com isso as crianças espernearam e, sobretudo, acusaram.

Com razão, pois, de fato, os sentimentos que os adultos lhes reservavam não eram todos confessáveis. A coisa mudou?

quinta-feira, 5 de julho de 2001

Gorilas entre nós

Num pequeno hall, seis jovens estão dispostos num círculo. Três estão de branco, e três, de preto, intercalados, ou seja, há um de branco, um de preto etc. Constituem dois times, cada um dos quais dispõe de sua bola própria. Os times movimentam essa bola entre seus integrantes com passes rápidos. Ao mesmo tempo, o círculo inteiro dos seis jovens gira em sentido horário. Os times não lutam entre si, mas, por causa do movimento, do espaço restrito e da simultaneidade dos passes dentro dos dois times, o jogo é bem animado.
De repente, chega um gorila, na verdade, um sujeito disfarçado de gorila. Ele atravessa o círculo dos jogadores e pára no meio. Os jovens continuam jogando como se não percebessem nada. O gorila olha para você, bate furiosamente no peito, como se espera de um gorila, e sai de cena. O bicho ficou no hall durante nove segundos.

Numa experiência recente do Laboratório de Cognição Visual de Harvard (www.wjh.harvard.edu), essa cena foi mostrada em vídeo a pessoas que, antes de assistirem à fita, receberam a tarefa de contar o número de passes efetuados pelo time branco. Foi suficiente para que a metade dos participantes não notasse a passagem do gorila.

No site do laboratório, é possível ver um trecho do vídeo. Quem assistir achará incrível que alguém não note o gorila. Mas nós não somos mais sujeitos "inocentes", pois sabemos do gorila. Por isso ele catalisa nosso olhar.

A experiência (publicada em "Perception", vol. 28) é uma contribuição ao estudo da dita "cegueira por desatenção" diante de objetos visuais complexos e dinâmicos (seis jogadores, todos se movimentando etc). Aprendemos que a capacidade de perceber um objeto inesperado depende de sua similaridade com os objetos sobre os quais está concentrada a atenção: no caso, a similaridade é mínima, pois o gorila é escuro e os circunstantes devem contar os passes do time branco. Outra variável é a complexidade da tarefa imposta aos presentes: contar os passes pede bastante concentração.

Seja como for, a denominação "cegueira por desatenção" é equivocada. De fato, a cegueira é produzida por um excesso de atenção. Os sujeitos não vêem o gorila porque têm algo para fazer que é, para eles, mais importante do que observar o que acontece: devem e querem contar os passes.

Os psicoterapeutas e os psicanalistas simpatizarão com a experiência. Freud recomendava que os pacientes fossem escutados com uma atenção "flutuante", ou seja, aberta, não-focalizada -justamente para não perder a entrada dos gorilas. Ele também aconselhava que os psicanalistas não se entregassem ao furor de curar. Qualquer terapia se propõe a melhorar a vida dos pacientes, mas o anseio de sarar pode funcionar como uma atenção excessiva consagrada ao número dos passes do time branco.

Bem além do campo da psicoterapia, a experiência do laboratório de Harvard sugere uma revisão do triunfalismo das teorias, digamos assim, "ativas" do conhecimento, pelas quais a crítica e a vontade de mudar as coisas seriam os caminhos privilegiados para entender o mundo -mote: conheçam transformando.

Ora, segundo a experiência do gorila, uma percepção plena exige um olhar não-orientado e não-atarefado, ou seja, ela precisa de uma certa aceitação do mundo. Em outras palavras, é importante querer construir pontes, mas, se olharmos para o vale sempre e só com essa intenção, perderemos de vista o rio, as montanhas e até as pessoas que queremos ajudar a atravessar. Quando nos deparamos com uma análise de situações sociais, políticas ou mesmo familiares decididamente orientada por intenções reformadoras, sugiro que paremos um instante para perguntar: "Alguém viu um gorila por aqui?".

Durante as férias escolares, canso de ouvir pais receosos de que os filhos adolescentes se encontrem sem nada para fazer, desconcentrados. Gostariam de que seus rebentos fossem sempre atarefados, sem tempo para vagabundear. Entendo por quê: uma das figuras ideais do sucesso é o sujeito ocupadíssimo e focadíssimo. Não por acaso o sofrimento psíquico é hoje frequentemente resumido segundo duas vertentes principais: a depressão e a dificuldade de concentrar-se, o dito Attention Deficit Disorder (ADD). Essas categorias são exatamente o inverso da figura que mencionei acima: o deprimido não se ocupa o suficiente, e o sujeito com déficit de atenção não focaliza. Nos termos da experiência de Harvard, o deprimido acharia que não vale a pena contar esses passes, e o sujeito com déficit de atenção não se concentraria o suficiente para contar. Com isso eles certamente enxergariam o gorila.

O sujeito ideal, no fim do vídeo, mostrará a conta certa, orgulhoso e convencido de responder às expectativas que foram depositadas nele.

Infelizmente, a metade desses sujeitos prestativos, por mostrarem serviço, não verá o gorila.
Entretanto talvez ninguém esteja a fim mesmo de reparar nos eventuais gorilas que circulam no meio da gente

domingo, 1 de julho de 2001

Fratura Americana


Contardo Calligaris
Manifestação contra a pena de morte no dia da execução de McVeigh


por Contardo Calligaris



Decadência econômica das pequenas cidades dos EUA causada pela globalização e a imigração faz ressurgir a defesa dos ideais fundadores da nação americana, que para muitos se encarnam no discurso de Timothy McVeigh, executado no último dia 11


Ao lado do entrada da Penitenciária Federal de Terre Haute, Indiana, dois dias antes da execução de Timothy McVeigh (que ocorreu em 11/ 6), piscava um painel luminoso: "A favor: encaminhem-se para Voorhees Park; contra, para Fairbanks Park". A polícia queria evitar brigas entre manifestantes. Mas o painel também orquestrava as questões levantadas pela execução, prevendo que só haveria opiniões a propósito da pena de morte: a favor ou contra, tanto faz. A cobertura de imprensa confirmou a previsão: foi excessiva e denegatória. Falava-se de execução e pena de morte, no entanto ninguém estava a fim de perguntar por que McVeigh matou e morreria. Para outra execução, uma semana depois, estiveram em Terre Haute 75 jornalistas credenciados. Para McVeigh, houve mais de mil. Certo, há a magnitude do crime: o atentado contra o edifício federal de Oklahoma City, em 1995, matou 168 pessoas, entre as quais 19 crianças. Mas suspeito que a comoção nacional em torno da execução de McVeigh tivesse também outro fundamento. McVeigh não era um criminoso comum. Morreu convencido de ter agido "pelo bem maior de todos" e de ter adotado "táticas militares legítimas" em sua luta contra o governo federal -considerando a morte das crianças e das vítimas que não eram funcionários federais como danos inevitáveis numa guerra.

Divórcio exasperante
O livro de Lou Michel e Dan Herbeck, baseado em entrevistas com McVeigh ("American Terrorist", Regan Books, EUA), confirma a imagem do soldado exemplar que virou um "regicida" moderno por convicção.

Na fase final do processo de McVeigh, quando se tratava de decidir a pena, a defesa apresentou ao júri uma série de atenuantes. Por exemplo, McVeigh acreditava que agentes federais fossem os responsáveis pelas mortes acontecidas em Ruby Ridge e Waco (leia textos na pág. 11) e que esses agentes ficaram impunes. Também pensava que os agentes do governo usavam táticas militares para transformar os EUA num Estado policial.

Os jurados levaram em conta ambos os atenuantes. Logo foi apresentada a idéia de que McVeigh acreditava profundamente "nos ideais sobre os quais são fundados os EUA". Admitir essa tese significaria conceber que a revolta assassina de McVeigh pudesse surgir da defesa enlouquecida dos princípios originários da nação. Os jurados tiveram que recusar essa idéia para condenar McVeigh à morte. Mas alguns americanos pensam que existe um divórcio exasperante entre o país e seus ideais fundadores. Com isso, abominam a bomba de Oklahoma, mas, de alguma forma, "entendem" McVeigh.

No sábado anterior à execução, bem na frente da penitenciária, instalou-se um manifestante que não cabia em nenhum dos parques previstos.

Era Chuck Scines, 56, inspetor de ferrovias de Dayton, Ohio. Seu cartaz dizia de um lado: "O mal vinga quando as pessoas boas não fazem nada. Deus trabalha por meio de nós... Mantenham-se firmes na liberdade". Do outro, explicitando: "Poucos comparecem quando um apelo às armas se justifica. Tim McVeigh, patriota americano!". A seguir, reproduzo e comento trechos do que ele me disse: "Tomei minha decisão há tempos, quando tive quatro filhos e me dei conta de que estamos perdendo a liberdade nos EUA e de que há uma agenda socialista para instaurar um governo mundial único" (do seu jeito, Chuck está falando da globalização e do aumento vertiginoso das regulamentações profissionais, fiscais, sociais que regem o cotidiano americano). "Portanto lutei contra o controle das armas (todas as leis para limitar posse e uso de armas), defendendo o artigo 2º da "Carta de Direitos'" (parte da Constituição americana -o artigo 2º garante o direito de carregar armas). "Timothy McVeigh era frustrado pelo que aconteceu em Waco, Texas, onde o governo fritou mais de 80 pessoas, ou em Ruby Ridge, Idaho, onde os agentes pulverizaram a metade da cabeça de Vicky Weaver e mataram seu filho de 14 anos. Não tinham direito nenhum de fazer isso, eram indivíduos como você e eu. Ninguém está enfiando uma agulha no braço de Janet Reno (ministra da Justiça na época de Waco e Ruby Ridge) por isso. Ora, ela é responsável, ela tomou a decisão no caso de Waco e declarou que tinha sido uma operação de primeira classe... Só que, por acaso, havia lá 16 crianças, que morreram. Agora Timothy McVeigh está lá assumindo a responsabilidade pelo que ele fez. Eu sou a favor da pena de morte. Entendo as frustrações de McVeigh, mas não concordo com seu alvo.... A América está indo pelo ralo do esgoto."

Uma nova fratura
Nessa altura, um repórter do News Channel 15, que se aproximara escutando e gravando, não se conteve e perguntou: "Você é contra a pena de morte?". Resposta imediata: "A pena de morte não é a questão. A América é a questão".

O repórter não devia ser surdo. Mas entre ele e Scines corre uma fratura que divide a América -mais dolorosa do que a fratura entre velha e nova economias e talvez mais irremediável do que a própria fratura racial.

No mundo do qual o repórter faz parte, é inaceitável agir por idéias. Só se age por interesse ou por problemas psicológicos. Um psiquiatra que examinou McVeigh disse que o terrorista encontrara na bomba de Oklahoma seu antidepressivo. A monstruosa revolta de McVeigh era reduzida à patologia kitsch do momento -manifestação de um cinismo para o qual a motivação ideal é um disparate.

O repórter do News Channel 15 não ouve as idéias. Scines fala que a América vai pelo ralo do esgoto -suspeito que o repórter pense nas dificuldades do índice Nasdaq -Bolsa eletrônica que reúne as ações das companhias de alta tecnologia. Scines fala de liberdade, de abusos etc. -o repórter pergunta sobre a pena de morte para cortá-lo. Não quer saber de um delírio que pode atrapalhar o funcionamento divertido da prosperidade.

O repórter, coberto de acessórios de vestimenta e tecnológicos de última moda, é um membro representativo da corte da mídia que cobria a execução.


A modernização torna insignificantes aqueles americanos sem os quais a América não tem muito como se definir -é só um colosso poderoso


Eles são todos urbanos, elegantes, supertecnológicos, se locomovendo pelo gramado ao redor da prisão a bordo de carrinhos de golfe, pendurados em celulares e agendas eletrônicas, chamando alternadamente seus agentes financeiros em Wall Street ou suas redações. Eram quase obscenos, no contexto. Scines, em uniforme de americano médio, está de cara fechada. Seu veredicto sobre a América é acompanhado de lágrimas não fingidas.

A ética da sentinela
Scines não está sozinho. De onde vêm os recrutas? Há o êxodo rural das grandes planícies. No centro dos Estados Unidos, nos anos 90, mais de 60% dos condados perderam habitantes. Multiplicaram-se as cidades-fantasma e as fazendas abandonadas. Numa espécie de vingança da história, os índios voltam a habitar as terras das quais foram expulsos no passado, enquanto os colonos que desbravaram o Oeste vão à falência. E há, sobretudo em zonas industriais menores, pequenos artesãos e comerciantes que são as vítimas da globalização. Perderam seus empregos com a saída de fábricas para o México, a Indonésia etc. e com a chegada de imigrantes trabalhando abaixo do custo sindical. Chuck é inspetor da ferrovia.

Em Terre Haute encontrei outros manifestantes libertários: um perito químico, um marceneiro, um pedreiro -todos habitantes de pequenas cidades. A prosperidade das últimas décadas é hiperurbana -das grandes cidades ou da cidade mundial que é a rede.

O campo (as fazendas familiares) e os pequenos cidadãos das pequenas cidades são os derrotados habituais de qualquer modernização. Mas, no caso americano, esses derrotados têm um estatuto especial: podem afirmar com razão que, com eles, são derrotados os valores essenciais da nação. Essa classe de pequenos fazendeiros e de trabalhadores da América das pequenas cidades é o modelo mítico da vida americana.

O próprio repórter do News Channel 15, quando casar e tiver filhos, fugirá da cidade para os subúrbios, convencido de que esses são o melhor lugar onde educar suas crianças. E os subúrbios devem seu charme à idéia de que imitariam a vida da América das pequenas cidades (das quais são, de fato, a caricatura medonha). Do mesmo jeito, quando ele levar os filhos à Disneylândia, seu passeio por Main Street será um tributo (fúnebre) à América das pequenas cidades.

A modernização torna insignificantes, logo, aqueles americanos sem os quais a América não tem muito como se definir -é só um colosso poderoso.

O sentimento desses americanos, como o de Chuck, é facilmente libertário. Defensores ciumentos das liberdades fundamentais que foram inventadas pela revolução americana, eles se opõem a quase todas as regulamentações governamentais. Nenhuma concessão por razões de interesse, conforto ou saúde pública: são contra a interdição de fumar, o limite de velocidade e a obrigação de usar cinto de segurança. As regras são ruins por serem regras.

Esse integrismo da liberdade comanda uma ética da sentinela, tensa, alerta -e paranóica.

A distância da ética dominante -a do bem-estar- não poderia ser maior. Ela alimenta o desprezo pelas ondas de imigração recente (legais ou ilegais) que vieram confessadamente ganhar e gastar melhor -e não guardar, de armas na mão, o reduto da liberdade. Contradição insolúvel: a liberdade que os libertários almejam é possível no isolamento do colono das grandes planícies ou então na comunidade harmoniosa da mítica pequena cidade. Aí reinariam convenções espontâneas, compartilhadas por todos e, portanto, nunca impostas. Mas a mítica pequena cidade (se é que já existiu) está morrendo também por causa da própria liberdade que ela promove. Seus filhos saem à procura de mais liberdade ainda. Emigram para a metrópole para desprenderem-se dos laços tradicionais da pequena comunidade. Ora, na cidade grande, para que se possa conviver, a convenção comunitária perdida deve ser substituída por regulamentações. O sonho de liberdade vira pesadelo, pois a cidade grande exige uma formalização e uma proliferação de regras bem mais opressivas do que os códigos que regravam a vida da cidade pequena. McVeigh era de uma pequena cidade: Lockport, no oeste do Estado de Nova York. Após a Guerra do Golfo, ele circulou, nômade, pelas feiras de armas, vivendo no carro. Boa receita para um desastre: um libertário que perde o vínculo com a comunidade.

Sentimento popular
Atrás das fileiras em que milita Scines, há um sentimento popular difuso. Voltando de Terre Haute em direção a Indianápolis, parei em Brazil, em Indiana. Nina, 54, é caixa da farmácia CVS na esquina da rua 40 com a 59. Perguntou se eu estava na região por causa da execução de McVeigh e quis saber o que eu pensava. Disse que achara um dia triste para todos. Ela: "Você é de que parte dos EUA?". Respondi: "De Bôôst'n", carregando o sotaque da Nova Inglaterra. Nina falou da pena que sentia, como muitos outros, pelo pai de Timothy McVeigh -numa espécie de identificação. Lidava como podia com a contradição entre o horror de Oklahoma e a familiaridade de McVeigh: "Talvez alguém tenha lhe dado uma droga para ele fazer isso... Quero dizer: ele é americano". Tomei o partido de concordar, sempre. No fim, Nina chamou as colegas: queria mostrar alguém da Costa Leste que pensava como ela (ou como elas). Era uma festa imaginar que o país talvez não estivesse irremediavelmente dividido. O drama é que McVeigh, monstruoso por seu ato, defendia valores que talvez sejam banais no coração da América profunda.

O controle das armas
O controle das armas é o último baluarte dos libertários, o lugar da resistência final. Pois é aqui que eles descobrem e reivindicam a herança do espírito de 1776. Afinal, a Revolução Americana foi isto: pequenos fazendeiros, artesãos e burgueses, cada um com sua espingarda, se revoltando contra o soberano, porque não gostavam de impostos e regulamentações. Criaram uma nação sobre o princípio (por eles posto em prática) de que um povo tem direito a se rebelar. As armas não são apenas o símbolo, mas a possibilidade concreta da insurreição. Distribuídas, elas são um instrumento da razão ilustrada: afirmam que o poder está em última instância com o povo, que o povo pode revogar o poder que ele delegou e se defender, se surgir um tirano. Elas são, desde a Revolução Americana, o símbolo histórico do fim de uma relação incondicional com a autoridade. Devolver as armas -ou mesmo limitar sua posse- significa, para os libertários, devolver concretamente a essência da liberdade política. Portanto, a vontade do governo federal de controlar as armas produz, como no cartaz de Chuck, um apelo às armas. O enfrentamento já começou e é horrivelmente sangrento. Sobre esse tema, o mal-entendido entre as duas Américas é penoso e total. Em Stilesville, Indiana, como um sanduíche no Mill Creek Inn. Atmosfera reservada, ninguém queria puxar conversa sobre McVeigh. Mas um dos clientes saiu atrás de mim. Apoiados em sua pickup batida, com placas de Indiana, conversamos. Disse: "Sabe qual é a razão por que querem controlar as armas, de maneira que só a polícia e os federais de todos os tipos tenham acesso a elas? Eles têm uma razão: é que, na América deles, eles têm drogas, merda e porcaria. Por isso eles querem controlar as armas. Mas o que nós temos a ver com a América deles?". Pedi seu nome. Desconversou.

Postscriptum
Estamos acostumados a pensar que o processo de globalização é a mesma coisa que a difusão pelo mundo afora do modo de vida americano. Ora, a América, nesse processo, se perde tanto quanto nós nos perdemos.

Do ponto de vista do homem global, o americano das pequenas cidades é tão exótico (e desprezível) quanto uma baiana ou um gondoleiro. O desprezo e as caricaturas são aqui formas de repressão. Entende-se por quê. No caso, o integrismo da liberdade que sobrevive e protesta na América profunda é a contestação de um axioma crucial da globalização. Pois ele repete e grita que a liberdade inventada pela Revolução Americana tem pouco a ver com a liberdade dos mercados.

quinta-feira, 28 de junho de 2001

O ideal de amor romântico está em que filme?

Durante muito tempo, pensava que fôssemos todos vítimas de um ideal inalcançável: a visão de um casal gloriosamente feliz no amor e no sexo. Os casais concretos fracassariam por almejarem tamanha perfeição. Cada dificuldade deixaria os parceiros inconsoláveis ao descobrirem a distância entre seu dia-a-dia e o ideal. Logo eles procurariam outras chances.

Imaginava, portanto, que a vida dos casais se tornaria mais praticável se fosse possível baixar a bola de nossas aspirações. A dificuldade, em suma, parecia ser o próprio ideal romântico de felicidade amorosa e sexual.

Precisava criticar esse ideal, desmontá-lo -Jurandir Freire Costa fez isso admiravelmente em "Sem Fraude nem Favor" (Rocco, 221 págs., R$ 22,50)- e ajudar os casais a conviver com suas imperfeições. Sugestão: "Renunciem a ser o príncipe e a Cinderela, destinados a viverem felizes para sempre, e encarem as trapalhadas que vierem".

À primeira vista, esse projeto deveria funcionar. É o que pensava, sem dúvida, a maioria das pessoas que se reuniram, no fim de semana passado, em Orlando, Flórida, para a convenção anual Smart Marriages, Happy Families (Casamentos Inteligentes, Famílias Felizes), uma grande reunião de terapeutas, padres, pastores, pesquisadores e outros preocupados em defender o casamento periclitante -tudo num clima "tradição, família e propriedade".

Parece que o destaque foram os cursos de preparação para o casamento, dos quais são esperadas maravilhas. Nos EUA, em certas igrejas, um curso em mediação de conflitos já é requisito obrigatório para os noivos. E alguns Estados subvencionarão programas educativos para futuros cônjuges, com o propósito de diminuir o número de divórcios.

Afinal, se o problema for amenizar os efeitos de um ideal impiedosamente exigente, é bem possível que uma mistura de crítica cultural e terapia preventiva funcione, ou seja, consiga tornar mais razoáveis as exigências que impomos a nós mesmos e a nossos parceiros amorosos.
Infelizmente, acredito que esse esforço pedagógico venha a ter efeitos mínimos. Pois me pareceu que, contrariamente ao que achava no passado, o convívio amoroso e sexual não é nosso ideal cultural dominante. O casal moderno não sofre de um excesso de idealização da felicidade casamenteira. Ao contrário, ele luta (batalha bem mais ímpar) contra uma falta de idealização: o casal não tem onde encontrar inspiração, pois seus percalços não fazem sonhar ninguém.

Como cheguei a essa nova conclusão?

Pense no repertório moderno das condutas apetitosas e dos heróis que gostaríamos de ser: o cinema. Aparentemente Hollywood não pára de idealizar a paixão amorosa, de "Casablanca" a "Titanic", não é?

Ora, em "Casablanca", você se identifica com quem? Com Bogart, que renuncia a viver seu grande amor e -macho para caramba- entra na resistência clandestina? Ou com Ingrid Bergman, que viverá um casamento chocho, sempre saudosa dos momentos mágicos passados com Bogey em Paris e Casablanca? Seja como for, são idealizadas a renúncia e a saudade, não a felicidade de um casal.

Em "Titanic", você prefere ser DiCaprio salvando sua bela ao preço da vida? Ou Kate Winslet, guardiã da lembrança de um amor que nunca teve o tempo de vingar? Seja como for, são idealizados o sacrifício e o luto, não o convívio de um casal apaixonado.

Repita esse tipo de análise com qualquer filme. Por exemplo, na linha "Love Story"-"Moulin Rouge" (que estréia no Brasil em 24 de agosto), a paixão vem com a garantia de uma morte anunciada. O ideal não é o convívio amoroso, mas o charme da viuvez inconsolável ou então a idéia de sobreviver como lembrança indelével na memória de quem fica.

Às vezes a história acaba bem, com o casal encaminhando-se para amanhãs radiosos. Como em Cinderela, viverão felizes para sempre. Mas você reparou que isso acontece sempre fora da tela? Quando um casal consegue se juntar, a história acaba.

Em suma, o que é idealizado nunca é o convívio, mas a perda, a saudade, o luto ou, no máximo, a procura. Para saber como continua a história depois de um final feliz, precisa mudar de canal, passar do filme ao seriado de televisão, do estilo épico e dramático ao burlesco.

O príncipe encontrou a princesa: acabou o tempo dos heróis com os quais gostávamos de nos identificar, aquela coisa de matar dragões, sofrer privações e feridas pensando na bela (ausente, por favor) e vice-versa. O que segue é vaudeville, o tempo dos palhaços.

O ideal não é o convívio com o outro amado, mas sua falta (atual, antecipada ou saudosa). A figura de nossos devaneios não é um casal, mas o sujeito solitário dignificado pela perda, pelo anseio ou pela renúncia -e, por isso, sedutor.

Não estranha que não sonhemos com a presença do outro. Afinal, a insatisfação e a falta estão sempre inscritas em nossos corações, e o contentamento com o que temos é destinado a parecer ridículo. Essas são as condições subjetivas mínimas para o bom funcionamento (econômico e social) do mundo moderno.

quinta-feira, 21 de junho de 2001

Separados e maduros

Cada vez que escrevo sobre relações conjugais, recebo alguns e-mails perguntando-me: "Afinal, qual é a sua? Será que você quer que as pessoas fiquem casadas, sacrificando sua autonomia e sua singularidade? Deveríamos renunciar a nós mesmos para continuarmos juntos?". Certo que não. Conheço a tristeza das relações falidas que continuam por inércia. Não quero (nem poderia) promover a volta a uma primazia da instituição do casamento sobre e contra os amores e os humores dos indivíduos.

Mas meus correspondentes têm razão: quase sempre me parece que vale a pena fazer o esforço de colar os cacos de uma relação em crise. Ou, no mínimo, que vale a pena tentar.

Essa atitude é uma medida preventiva, que me protege dos poderes de um lugar-comum: muitas ideologias terapêuticas contemporâneas idealizam as separações (não só de casais) como se fossem sempre provas de força e de saúde mental. Separar-se é bom, juntar-se é ruim. Separar-se é forte, juntar-se é fraco.

As relações ditas saudáveis seriam aquelas em que cada um poderia, sem problema, licenciar o outro -sempre mantido a uma distância prudente. Nessa ótica, respeitar o amigo, o amante, o cônjuge ou o parente significa não pretender que ele mude por causa da relação. Do mesmo jeito, respeitar a nós mesmos é não aceitar que sejamos transformados pela relação.

Paradoxo: a relação de sucesso acaba sendo definida não como aquela que descobriu um jeito de dois ou mais ficarem juntos, mas como aquela que pode quebrar tranquilamente, porque cada um ficou na sua.

Nenhuma surpresa. Nossa cultura valoriza o indivíduo. Portanto medimos a maturidade de um sujeito pela sua independência dos outros. Ou seja, nossa concepção da maturidade é botânica: "Amadureceu? Então, tem de cair do ramo". A isso acrescenta-se que, contrariamente à regra botânica, quem se separa vinga e cresce, enquanto quem fica preso murcha ou apodrece.
Tornar-se adulto significa saber renunciar ao seio e à presença da mãe, logo sair de casa e dispensar a mesada dos pais. Enfim, desejar sem concessões ou compromissos com o desejo dos outros. Aliás, o contrário da separação para nós não é a relação, mas imediatamente a fusão, em que toda individualidade será esmagada. O moto é: separe-se ou perca-se.

Nunca é bom contrariar um leitmotiv cultural. Dispomos de infinitos exemplos dos efeitos catastróficos de fusões não resolvidas entre mães e crianças, entre pais e filhos ou então entre amantes e entre cônjuges.

É claro que é melhor que a vida de um casal não seja uma sauna úmida onde todos se perdem e quase sufocam. Também é bom para as crianças que saiam do útero materno, que se afastem da mãe e, eventualmente, que deixem a casa dos pais e façam sua vida. Mas talvez não seja necessário que todo esse processo seja quase sempre descrito e apresentado como uma separação, e não como a constituição ou a invenção de laços diferentes e viáveis. Parece que, em nossa cultura, amadurecendo, todos devem aprender a separar-se, mas ninguém deve aprender a relacionar-se.

A separação como ideal subjetivo inspira nossos comportamentos em todas as relações que, por serem cruciais, parecem ameaçar nossa autonomia. Por exemplo, muitos pais queixam-se de que, ao lançar qualquer discussão, eles encontram uma recusa brutal dos filhos adolescentes. Quando o papo esquenta um pouco, os jovens saem de perto. "Fazer o quê? Amarrá-los?" Numa cultura em que o afastamento é o caminho ideal que dá acesso à maturidade, não há por que estranhar que os jovens gostem de bater as portas.

Quando uma relação está doente ou em crise, é frequente que a culpa seja atribuída à escassa autonomia dos sujeitos, e não à sua dificuldade em relacionar-se. Os problemas seriam efeitos da infantilidade dos envolvidos, os quais não seriam suficientemente independentes, pediriam demais, contariam demais com o outro etc.

Nessa linha, os problemas de um casal seriam resolvidos quando fossem resolvidos os problemas de seus integrantes. Mesma coisa para uma família ou para qualquer outra relação em crise. Há uma verdade nisso: imagine, por exemplo, que alguém seja constantemente animado pela fantasia inconsciente de produzir gritos e lágrimas na hora de sua saída. É inevitável que suas relações sejam repetidamente tempestuosas e fracassadas. E, se ele resolver seu problema, as relações nas quais ele se envolverá serão beneficiadas.

Mas as dificuldades de relacionamento não são apenas a suma das dificuldades dos parceiros que se relacionam. Nem são sempre uma consequência da falta de autonomia deles. Elas podem ser, banalmente, o efeito de uma insuficiente disponibilidade ou da incapacidade de travar amores, amizades e convívios.

Ora, minha simpatia pelos esforços para manter e conciliar relações é uma maneira de apostar que a maturidade não só seja a capacidade de tolerar as separações mas também consista em inventar uma arte de relacionar-se.

Não terminei. Continua numa próxima coluna

quinta-feira, 14 de junho de 2001

Desigualdades intoleráveis

"Desigualdade e Felicidade: os Europeus e os Americanos São Diferentes?" é uma recente pesquisa do National Bureau of Economic Research, realizada por A. Alesina, R. di Tella e R. MacCulloch. O texto está acessível em www. nber.org.

A pesquisa mostra que os cidadãos dos EUA e os europeus sentem e pensam de maneira diferente em matéria de desigualdade social. Na Europa, a desigualdade é um fator de insatisfação, por isso ela é combatida por várias políticas de redistribuição de renda. Nos EUA, a indigência é considerada um mal social, mas a desigualdade não -as políticas assistenciais são, portanto, mais limitadas.

Na Europa, quanto mais um sujeito é pobre, tanto mais ele está insatisfeito com a desigualdade social. Parece óbvio: os desfavorecidos devem se sentir melhor numa sociedade mais homogênea, não é? Surpresa: nos EUA, o bom humor dos pobres é insensível à desigualdade. Os únicos americanos que parecem ficar tristes com as diferenças sociais são os ricos de esquerda.

Como explicar essa diferença? Os autores sugerem uma causa: a mobilidade social. Os Estados Unidos apresentam uma mobilidade social maior do que a da Europa. Por isso os pobres americanos vêem na desigualdade a promessa de seus privilégios futuros. Moderar a desigualdade seria limitar seus sonhos.

Ao contrário, na Europa, onde há menos mobilidade social, a desigualdade é percebida pelos pobres como uma situação dificilmente alterável, um destino infeliz.

A pesquisa tem relevância política. A esquerda americana protesta porque o país prospera, mas a desigualdade aumenta descaradamente. Segundo a pesquisa, isso não tem importância nenhuma. Robert Samuelson, colunista da "Newsweek", ao comentar a pesquisa, afirmou que, como qualquer americano, ele não se sentiria melhor se Bill Gates ficasse pobre.

E nós com isso? No Brasil, a desigualdade social é maior do que nos EUA (da Europa nem se fala). E ela é constantemente invocada como uma razão da infelicidade nacional. Não paramos de medir quantos salários mínimos e quantas cestas básicas cabem no custo de qualquer luxo de classe alta. A falta de segurança de nossas cidades nos parece ser um efeito "merecido" da desproporção entre ricos e pobres. A distância entre os mais e os menos favorecidos é "a" praga nacional.

Em suma, sofremos de uma desigualdade pior do que a americana e estamos insatisfeitos com esse descompasso, como os europeus. Somos americanos na desigualdade e europeus na insatisfação com a desigualdade. Parece fácil entender por quê: a desigualdade só é tolerável quando existe uma grande mobilidade social, como nos EUA. Numa sociedade com menos trânsito entre as classes, como a da Europa, a desigualdade, por menor que seja, é fonte de insatisfação. Ora, a representação que temos do Brasil é esta: uma desigualdade à americana com a escassa mobilidade dos europeus -portanto uma desigualdade intolerável.

Mas há um problema: essa representação do Brasil não corresponde plenamente à realidade. No ano passado, José Pastore e Nelson do Valle Silva publicaram "Mobilidade Social no Brasil". Mostraram que, de fato, desde os anos 40, a mobilidade social no Brasil é considerável. Por exemplo, hoje "apenas 20% dos integrantes da classe alta são filhos da própria classe alta". Num quadro comparativo, o Brasil é um dos países com mais mobilidade -acima dos EUA.

Pastore e Valle Silva atenuam esses dados observando que, no Brasil moderno, muitos crescem, mas crescem pouco. Mesmo assim, é curioso que a sociedade brasileira nos pareça imóvel. Os EUA encarnam para todos o mito da "terra das oportunidades". O Brasil, com uma mobilidade maior ou, no mínimo, equivalente, vê-se, ao contrário, como o paraíso das elites. Só encontro uma explicação para a permanência desse estereótipo: nossa percepção da mobilidade social depende da experiência cotidiana, ou seja, de como são vividas concretamente as diferenças sociais. Explico com exemplos.

Nos EUA, a mobilidade é confirmada a cada instante pelo estilo do comportamento social. Um americano pode ter infinitamente menos do que ricos e poderosos, mas ele acredita que subir seja sempre possível, pois é tratado pelos mais favorecidos como alguém que amanhã poderia entrar na turma de cima. "Cozinho seus ovos e sirvo seu café. Mas seu respeito indica que você não exclui a possibilidade de qualquer dia estarmos juntos do mesmo lado do balcão."

No Brasil, a mobilidade, embora exista de fato, é frequentemente desmentida pela prática dos estilos mais arcaicos de poder. "A sociedade pode me oferecer recursos e chances de subir na vida, mas como acreditarei nessa possibilidade, se, por eu ter menos do que você, serei tratado com a familiaridade condescendente que se destina normalmente aos servos?"

No Brasil, a mobilidade social, por mais que seja efetiva, não faz parte da experiência social cotidiana. Por isso ela não aparece no cartão-postal do país. Por isso também as desigualdades permanecem intoleráveis.

quinta-feira, 7 de junho de 2001

A paixão pelo novo e o casamento

No meu quarto, o espelho para enxergar-se de pé está ao lado da cama. Resultado: quando acordo, sento e vejo-me. Estranho um pouco, mas acabo reconhecendo a figura.

Poderia achar prazer em reencontrar-me. Mas, em geral, a experiência é de tédio ou de vaga decepção: não fui vítima de nenhuma metamorfose. Voltei do sono e sou o mesmo. Não virei barata, nem príncipe encantado. Que droga.

Essa sensação não me surpreende: há poucos traços tão relevantes na subjetividade moderna quanto a paixão pela mudança -e, por consequência, a ojeriza da mesmice. O gosto pela novidade é crucial em nossas vidas. Ele preside, por exemplo, à insaciável variedade dos objetos oferecidos a nossos apetites. Com isso, funciona como incentivo essencial para o sistema de produção e consumo no qual vivemos.

A paixão pelo novo e a ojeriza da mesmice não comandam apenas nossa relação com os objetos. Elas dominam também nossa experiência íntima. Queremos novidades não só nas ruas e nas vitrinas, mas em nossas vidas. Chegamos a medir a qualidade de uma existência pela variedade das experiências que ela proporciona. Lamentamos uma vida definida pelo tranquilo preenchimento de uma função. Preferimos a aventura.

Gostaríamos de ser Indiana Jones, mas à condição de passar direto de um filme da série para o seguinte, sem os intermezzos da rotina que -supõe-se- deve constituir a vida "normal" (estudo e ensino) do professor Jones.

Achamos mil culpados pela mesmice que nos assola. Mas logo a lista dos acusados chega a parceiros e parceiras -como se fossem bolas amarradas no pé, correntes que nos travam. O cônjuge torna-se a encarnação dos motivos pelos quais desistimos do novo e da aventura. Ele é responsável por nosso tédio, culpado de toda estagnação. Ele carrega, aos nossos olhos, os estigmas da mesmice: imaginamos dever-lhe tudo o que parece nos prender -um domicílio, a responsabilidade de sermos pais, mais uma família que se acrescenta ao peso da nossa família de origem etc.

De fato, o cônjuge é acusado injustamente: geralmente ele é apenas o porta-voz do medo que acompanha e modera nossa paixão pelo novo. Somos filhos de uma cultura que, ao mesmo tempo, promove o pequeno núcleo familiar fundado no amor e idealiza a liberdade de quem não pára de se reinventar sozinho. Queremos aventura, mas receamos esse nosso desejo e procuramos portos seguros. Culpar o cônjuge é uma maneira de evitar a contradição.

Respeitando esse dilema, a literatura de ajuda, descrição e análise do casamento segue duas tendências. Há os aventureiros, que encorajam homens e mulheres a -expressão consagrada- "realizarem seu potencial" perseguindo novos horizontes. E há os casamenteiros, partidários de compromissos e negociações que permitiriam atravessar a vida de mão dada.

Na última década, os casamenteiros parecem prevalecer. Como medida preliminar, todos eles pedem que não esperemos eternos transportes de felicidade amorosa e sexual. Ou seja, sugerem que não contemos encontrar no casamento as mesmas fortes emoções que procuramos em nossas aventuras (sonhadas ou verdadeiras). Infelizmente, não há como colocar muita fé nos efeitos desses conselhos bem-intencionados: fracassam como convites para uma festa chocha. Mas eis que acabo de ler "Surrendering to Marriage" (Entregar-se ao Casamento), de Iris Krasnow, jornalista. É um livro breve, divertido, repleto de depoimentos e de confidências corajosas sobre o casamento da autora. Krasnow é exemplar de uma interessante tendência casamenteira, segundo a qual lidar com a imperfeição do casamento poderia ser, paradoxalmente, uma aventura extraordinária. Engraçado: o esforço para conviver com a mesmice, levado a sério, nos reservaria uma novidade a cada esquina.

De fato, o livro de Krasnow descobre (ou inventa, tanto faz) uma épica possível do casamento laborioso. Indiana Jones e Lara Croft (seu homólogo feminino) que procurem glória e tesouros não pelo mundo afora, mas nos pequenos esforços para manter unido um casal. Afinal, para muitos, mesmo após décadas de convivência, o cônjuge e a própria relação seguem sendo continentes inexplorados.

Se os esforços para manter ou reinventar o casamento nos parecessem tão emocionantes quanto a procura e o risco da novidade, o casamento encontraria um fôlego extraordinário, pois conciliaria a paixão pelo novo com a nostalgia de um porto seguro.

Em suma, o casal tornou-se descartável como a esferográfica e o isqueiro. "Não funciona mais? Jogue fora." A metade dos casamentos americanos quebra e acaba em divórcio. Mas nos últimos anos há certamente muitas pessoas querendo colar os cacos. Para alistar mais alguns, Krasnow pretende que esse empreendimento pode constituir um desafio complexo e envolvente como um bom sonho de aventura. Por que não? Há pletora de candidatos (prova disso: desde 1970, nos EUA, o número de profissionais licenciados como terapeutas de família e de casal multiplicou-se por 50).