quinta-feira, 10 de agosto de 2000

Pão, circo e corruptos na cadeia


Luiz Francisco de Souza é nosso herói do momento. E com ele todos os procuradores que corajosamente prendem os corruptos e tentam recuperar o dinheiro público saqueado.
É curioso. Há eleições importantes à vista. A propaganda política nos lembra de que, afinal, os eleitores devem contar para alguma coisa, pois os candidatos precisam de seus votos. Esta seria a hora de escolher o melhor porta-voz de nossas esperanças e projetos. No entanto, hoje nos sentimos representados muito mais pela Justiça do que por vereadores, prefeitos, governadores, deputados etc.


Parece que o desfile interminável de políticos traindo seus eleitores levou a gente a desistir da democracia representativa. A corrupção não produz apenas perdas do patrimônio público, ela também acarreta uma progressiva destruição de nossa confiança no sistema.


Se falo de política no boteco da esquina, num táxi ou num jantar com amigos, encontro sobretudo comentários indignados. Está ficando difícil discutir, pois as idéias e os engajamentos políticos de cada um mal são mencionados. Passamos direto ao consenso imediato: a raiva com a corrupção e o desejo de que ela seja enfim reprimida. Quase não há mais discussão política, porque concordamos quanto ao essencial: é necessário perseguir e punir os corruptos.


Ora, os membros eleitos do Poder Legislativo deveriam representar positivamente nossas vontades políticas. Os brasileiros teriam, sei lá, aposentadorias dignas, saúde pública e ensino básico de qualidade, novas formas de participação democrática, porque a maioria elegeu representantes que poderiam dar forma de lei a essas vontades. É assim que, a princípio, a coisa deveria funcionar. Mas quem quer discutir vontades políticas concretas? Qual ensino, qual saúde, qual democracia? Por que se preocupar com a complicação de projetos políticos e sociais com os quais acabaríamos discordando? Não vale a pena, pois dispomos de um projeto policial e jurídico com o qual, oh, maravilha, todos concordamos: que prendam e condenem os ladrões. O resto, parecemos pensar, será uma simples e mágica consequência.


Faça a prova: lance uma conversa sobre a escolha entre Marta Suplicy, Erundina e Maluf. No caso mais simples, logo o papo chegará às conclusões seguintes: Erundina não roubou, Marta não vai roubar e Maluf... bom, a gente sabe. Os interlocutores às vezes saberão apresentar provas, números, histórias de obras superfaturadas, ou não. Mas tente levar a conversa para os programas: o que os candidatos prometem fazer e como. Quase ninguém sabe ou dá bola.
O Poder Judiciário, que não é eleito, tornou-se paradoxalmente nosso representante mais autêntico, porque a variedade de nossos pensamentos políticos e sociais tende a se resumir ao simples e unívoco pedido de que a justiça seja feita.


Nas mesmas conversas em que a discussão política foi substituída pela indignação unânime, também tornou-se difícil debater os caminhos concretos pelos quais a economia do país poderia voltar a crescer. É como se não valesse a pena comparar escolhas e modelos fiscais, produtivos ou administrativos. Resgatar o dinheiro roubado é uma condição prévia tão importante que o resto perde interesse. Parecemos acreditar que, estancando a hemorragia da corrupção, logo nos tornaremos ricos. Teremos tudo o que precisamos para criar uma sociedade melhor.


Em suma, o Judiciário encarna nossa vontade política e promete os meios de nosso futuro econômico. Com isso, ele se torna o garante e o verdadeiro depositário da democracia. O Legislativo e o Executivo não nos respeitam, mas ainda estamos numa democracia porque o Judiciário nos vingará.


Claro que não é nada disso: lutar contra a corrupção não constitui uma plataforma política, assim como recuperar o dinheiro roubado não salva a economia do país.


Acontece, porém, que a corrupção produz uma perda bem maior do que as quantias que ela rouba. Ela desacredita a democracia e, instaurando uma falsa unanimidade, nos convida a desistir de pensar.


Poderíamos imaginar que isso seja um percalço brasileiro. A corrupção, doença endêmica, estaria condenando nossos trópicos a uma miséria política na qual pegar ladrão apareceria como a essência do exercício democrático.


Mas não é assim. A corrupção dos políticos (real ou suspeita) é um argumento conservador, antigo e global, feito para cortar entusiasmos. "Não se meta com política que é coisa suja, os políticos são todos iguais..." Quase 40 anos atrás, na Itália, eu escutava isso ao manifestar minhas simpatias socialistas juvenis.


Bonita armadilha: os eleitos enchem seus bolsos ou servem aos interesses dos que financiaram suas campanhas. Ou, no mínimo, suspeita-se que assim seja. Isso é uma razão para que o cidadão desista de seus sonhos políticos e se divirta festejando prisões e CPIs de corruptos. Ótimo. Só não gostaria que estas se tornassem o equivalente das execuções públicas que o soberano antigo oferecia a seu povo miserável. Tipo: o que o povo quer (para ficar calado)? Pão, circo e corruptos na cadeia.


Será que queremos só isso mesmo?

quinta-feira, 3 de agosto de 2000

Roubaram (também) o sonho liberal

Até terça-feira , quando escrevo esta coluna, o dito escândalo Eduardo Jorge poderia ser uma espécie de tempestade em copo d'água.

Como resumiu Clóvis Rossi, a acusação parece consistir em "índices de comportamento pouco santo". O procurador Luiz Francisco não acrescentou muita coisa ao declarar que EJ teria dado prova de "omissão e má-fé na apresentação de seu patrimônio".

Em particular, não está comprovado que EJ tenha vendido seu acesso privilegiado ao presidente. Talvez ele tenha somente exercido muito a influência de sua função.

Imaginemos que as coisas permaneçam nesse patamar. Ou seja, que não haja nada para abafar e que EJ tenha se mostrado apenas "pouco santo".

O engraçado é que, mesmo assim, sua história me dói mais do que, por exemplo, as sinistras peripécias do foragido Nicolau.

Tento entender o porquê. Supostamente, Nicolau roubou e esbanjou de maneira revoltante. A quantidade monstruosa de dinheiro público do qual ele teria se apropriado, comparada com a indigência do povo e do Estado, leva a cálculos assustadores: quantas casas, quantos hospitais, quantos remédios teriam pago os tristes luxos de Nicolau?

EJ, se nada mais for comprovado, não se entregou a nenhum excesso de ganância de estilo Nicolau. Seu caso apenas enfia nosso nariz na fronteira mal-cheirosa entre Poder Executivo e Legislativo. Revela assim o fedor da banalidade cotidiana do poder.

EJ "pouco santo" mereceria nossa indulgência pois sua culpa maior seria apenas ter sido um político e ter trabalhado nos bastidores do governo. E seria uma culpa globalizada, nem pitoresca, nem especificamente brasileira. Não precisa recorrer ao mito do malandro ou da lei de Gerson. Os corredores do poder não conhecem latitude nem fuso horário, eles estão sempre, e em qualquer lugar, na mesma hora: a do lusco-fusco.

Por isso, a história de EJ me indigna menos do que o atrevimento de quem rouba as galinhas dos pobres. Mas, repito, paradoxalmente me dói mais. Por quê?

A democracia não é apenas uma instituição feita de livres eleições, separação e independência dos poderes etc.

Ela é também um estado de espírito, um sentimento que talvez seja complexo, mas no qual nunca faltam (ou nunca poderiam faltar) três pilares. A sensação de que, com mais ou menos sorte e com méritos diferentes, somos todos feitos do mesmo pano (no Brasil este já é um pilar rachado). A sensação de que os sonhos não têm limites e ninguém nos tirará a liberdade de sonhar. E a convicção de que nosso pensamento e nossas ações podem ter efeito sobre a vida da comunidade. Ou seja, que as decisões sociais e políticas são nossas. É graças a esta convicção que nos animamos a participar, votar, cooperar, opinar.

Ora, no mundo democrático inteiro ouve-se hoje uma mesma queixa. Parece que quase mais ninguém quer saber de política. Os jovens não participam dos ritos democráticos (partidos e eleições). Os adultos não estão muito melhor: onde o voto não é obrigatório, os cidadãos pouco se deslocam para as urnas.

Com isso, brotam as críticas: os jovens de hoje seriam cínicos e hedonistas. Os adultos seriam acomodados, submissos, alienados etc.

Tente recapitular a história do caso EJ. Talvez, como eu, você também acabe sem grande indignação, mas perseguido pela pergunta seguinte: "O que eu tenho a ver com isso tudo?". Não que as decisões tomadas com a contribuição influente de EJ não tenham repercussões em nossas vidas. Obviamente têm, basta lembrar o caso da Encol. Mas a zona cinza do poder, onde essas decisões são tomadas, parece totalmente alheia a nossa intervenção, afastada de nós ao ponto de tornar ridículas nossas cédulas eleitorais.

Pergunta: se jovens e adultos se afastam hoje das práticas democráticas será que isso é efeito de sua cínica alienação? Ou de um sistema que de fato dispensa a participação de seus cidadãos?
Dizem que o sonho socialista está morto -destruído pelos doutrinários, que confundiram o socialismo com a uniformidade das aspirações de todos, e pelas burocracias, que se transformaram em classes dominantes. Concordo.

Agora, suspeito que o sonho liberal também esteja morto. Ou no mínimo moribundo. Socialismo e liberalismo são obviamente sonhos concorrentes, mas além de suas diferenças eles compartilham (compartilhavam?) algo: são os dois sonhos modernos de todos poderem participar da invenção da vida social e política.

Ora, assim como as burocracias roubaram o sonho socialista, também o sonho liberal parece estar sendo roubado por entidades imprevistas que se tornaram dominantes, as corporações. Entre lobbying e financiamento de campanhas, somos forçados a constatar que perdemos até o sentimento de poder influenciar nosso destino coletivo. A história de EJ dói tanto justamente porque confirma esta perda.

Não é de estranhar se a esperança -última deusa, como dizia um poeta- parece hoje desertar as grandes ambições de governo. Ela encontra refúgio em quem luta em espaços circunscritos e concretos, onde a ação e a opinião de cada um ainda parecem contar. De novo, falo das novas revoltas.

quinta-feira, 27 de julho de 2000

Os caça-propaganda, outras figuras da nova revolta

Sigo indagando o espírito da revolta de Seattle e Washington.

Encontro assim uma fotografia: é a sala da máquina para fotocopiar de um escritório. Um jovem, de camisa e gravata, está esperando que a copiadora faça seu trabalho. À direita, uma citação: "Antevejo o dia em que árabes e americanos, latinos e escandinavos mastigarão seus crackers tão entusiasticamente quanto eles já bebem Coca-Cola ou escovam os dentes com Colgate". Assinado: o presidente da Nabisco Corporation.

A imagem produz tristeza e irritação. A tristeza é pela conformidade repetitiva imposta a nossas vidas: alguém está esperando que saiamos todos conformes, como fotocópias. A irritação é com o autor da citação, que confessa sua ambição de planejar nossos gostos. Mistura de triunfalismo ingênuo com cinismo: ele parece apostar que todos, corporações e consumidores, antevejamos um mesmo futuro feliz de salgadinhos, refrigerantes e pasta de dentes.

Outra fotografia: um cubículo anônimo sem janelas. Atrás de uma escrivaninha ordenadamente coberta por papéis, um jovem executivo está na frente de um computador, teclando. Mais uma citação: "Olhando para o futuro, vibro com a excitação dos negócios. Isto porque a companhia da sopa Campbell está engajada numa cruzada para o consumidor global", citado do Relatório Anual de 1994 da Campbell's Soup Company. Desta vez o efeito é cômico pelo contraste absurdo entre a banalidade deprimente do escritório e as (incríveis) vibrações dos cavalheiros cruzados da sopa enlatada.

Ambas imagens fazem parte de um ensaio fotográfico publicado pela "Adbusters" -uma revista canadense que milita contra o funcionamento ordinário de nossa cultura. Os "adbusters" são os caça-propaganda, traduzindo por analogia com "ghostbusters", os caça-fantasma.
O mentor da revista, Kalle Lasn, publicou, no ano passado, um livro programático: "The Uncooling of America". Ele propõe tornar inaceitáveis, deselegantes e sem graça todas as coisas (mercadorias, marcas, estilos) que são promovidas como "cool", ou seja, na moda, "legais". Isso é o "un-cooling".

O esforço para associar publicamente a Nike com a exploração de mão-de-obra infantil na Ásia é um exemplo clássico de "uncooling". Se coloco dois caubóis no pôr-do-sol e escrevo: "Bem-vindos ao país do enfisema", também é uma forma de "uncooling".

Uma outra revista, "Stay Free!" (Mantenha-se livre!), propõe uma série de fotografias de crônica (talvez modificadas, não sei dizer) nas quais personagens desagradáveis aparecem vestindo roupa de marca. Uma simpatizante da Ku Klux Klan, ao ser presa, está de moletom Gap; um molestador de crianças vai para a cadeia com um casaco de Perry Ellis etc.

Exemplo brasileiro: "Época" publica uma fotografia do juiz Nicolau com uma bolsinha Louis Vuitton na mão. Com todo o dinheiro desviado, o homem ainda recorre a este símbolo de status emergente. Ele é patético, e Vuitton perde todo seu "cool".

Mas cuidado: os caça-propaganda não estão criticando os produtos. Nada contra uma caixa de Nabisco, uma sopa Campbell e um moletom quente da Gap numa noite de inverno.

O projeto dos caça-propaganda é mais ambicioso. Lasn considera que a propaganda das grandes corporações é o instrumento pedagógico constitutivo da subjetividade contemporânea e, por isso, o maior projeto psicológico de todos os tempos. É provável que, nas últimas décadas, no mundo inteiro, os gastos com publicidade sejam maiores do que os gastos com a educação básica. Faz sentido: adquirir e consumir é hoje o caminho pelo qual somos convidados a inventar nossas identidades. Sem isso, o neoliberalismo pára.

Ora, os caça-propaganda gostariam de forçar uma nova subjetividade, que não fosse só identificação com bens, estilos e marcas. Mas há um problema: até agora o neoliberalismo se mostrou capaz de recuperar qualquer anseio de mudança. Ser revoltado tornou-se mais um estilo, uma maneira de consumir.

A contracultura, por exemplo, se transformou num ótimo negócio. Você odeia ecologicamente a vida urbana? Vendo a você um Timberland ou um casaco North Face. Com isso, você se define como um sujeito aventuroso, natural, e lá vai besteira. Por que o projeto dos caça-propaganda não seria recuperado do mesmo jeito?

Um acontecimento inesperado me sugeriu uma perspectiva mais otimista. Nos EUA, há uma marca de roupa adotada por muitos adolescentes de classe média: Abercrombie & Fitch. São roupas envelhecidas, esfarrapadas para produzir um efeito de "não estou nem aí". A marca vende o desleixo do adolescente como estilo (para os próprios adolescentes). Um dia, meu filho Ramiro, 17, incomodado com a presença invasiva desta marca entre seus colegas de escola, criou e adotou firme uma peça de vestuário original: pegou uma camiseta branca furada (modelo "esta eu guardo só para dormir") e, com uma caneta indelével, escreveu em letras capitais, no peito: Abercrombie & Fitch.

Talvez a zombaria seja a arma eficaz da revolta futura.
P.S.: Para ler mais veja os sites: www.adbusters.org e www.stayfreemagazine.org

quinta-feira, 20 de julho de 2000

A nova revolta: responsabilidade ilimitada

Angela Davis é um ícone da militância comunista, feminista e negra dos anos 60 e 70.

Numa recente entrevista, ela declarou: "Estou impressionada com o trabalho que os jovens estão fazendo e me irrito com muitas pessoas de minha geração que se consideram veteranos de lutas passadas e que tendem a depreciar o trabalho dos jovens e contribuem para manter a imagem dos anos 60 como a única era revolucionária".

Concordo com ela. A nostalgia do ex-combatente serve para justificar cinismo e desistência.
É mais interessante olhar com respeito para a babel de revoltas e de esperanças que animaram as ruas de Seattle e de Washington, que promete muitas outras badernas pelo mundo afora.
Dos agricultores franceses ao Greenpeace, os novos revoltados têm ao menos um inimigo comum: as grandes corporações. O projeto de um novo estatuto jurídico para as corporações está no centro da pauta de vários grupos. Parece um combate reformista que não vai mudar nada, não é?

Mas, como sugere Angela Davis, não vamos desconsiderar tão rapidamente o trabalho dos jovens.

Nesses últimos dias, as produtoras americanas de tabaco foram condenadas por um júri popular a pagar indenizações punitivas de US$ 144,8 bilhões.

O júri nem se perguntou se os fumantes que adoeceram são ou não também responsáveis por suas doenças. O que importou é que as corporações sabiam que seu produto era nocivo e produzia dependência. Com isso, seguiam caladas vendendo, promovendo e lucrando.

Quando foi formulado o pedido bilionário, as companhias afirmaram que, se fossem condenadas a pagar tal montante, iriam à bancarrota. O júri não se inibiu. Ao contrário, quis condenar as companhias à morte, assim como na Flórida (onde o processo aconteceu) seria condenado à morte alguém que matasse 400 mil pessoas por ano durante 50 anos.

Claro, é provável que o apelo acabe reduzindo substancialmente o montante. Mesmo assim, a reação da Bolsa foi curiosa. As ações da Philip Morris, da R.J.Reynolds e de outras companhias caíram apenas um pouco. Os acionistas não se indignaram e não se assustaram. Como é possível?
É graças a uma lei feita justamente para que as pessoas possam ser pacifistas e comprar Raytheon ou Lockheed, ser verdes e comprar Exxon. A lei diz e garante que, enquanto investidores, nossa responsabilidade é limitada. Muito limitada.

Naturalmente, essa isenção de responsabilidade civil e penal enferruja também nossos sentimentos morais. Se não somos responsáveis legalmente, por que nos sentiríamos culpados?
De repente, como investidores, somos outros sujeitos, além do bem e do mal -alienados num mundo abstrato onde só conta o lucro.

Veja só: se você for dono de um prédio, junto com outros proprietários, e se este prédio ruir matando um transeunte, você, junto com seus sócios, será pessoalmente responsável por essa morte. Provavelmente você também se sentirá culpado, no mínimo triste.

Isso não acontece com os investimentos acionários. A Philip Morris é condenada a pagar US$ 73 bilhões aos fumantes da Flórida. Se ela for à falência, você perderá seus investimentos: seus R$ 2.000 de ações da Philip Morris (imaginemos) não valerão mais nada.

Mas -mesmo no caso em que os bens da corporação não alcancem- os fumantes e seus herdeiros não poderão exigir que seus bens (apartamento, carro, lençóis e bicicleta) sejam vendidos para pagar os danos. Com isso, torna-se fácil investir em Philip Morris sem sequer levantar a questão da responsabilidade moral.

Os fundos de ações aperfeiçoam o sistema: o pessoal investe e não precisa saber no quê. Tudo graças ao princípio da responsabilidade limitada.

Pois bem, um dos projetos da nova revolta anticorporativa americana é este: abolir a responsabilidade limitada. Quem possui ações deveria ser pessoalmente responsável pelos atos das corporações nas quais investe.

Se essa mudança do estatuto de responsabilidade do investidor viesse a acontecer, seria certamente uma catástrofe para as bolsas -uma crise econômica incontrolável.
Mas os efeitos sociais seriam interessantes. A responsabilidade limitada é uma licença para matar: hoje as corporações supõem, com razão, que os investidores só querem lucrar.
Mas, se estes fossem responsáveis civil e penalmente, as corporações se imporiam freios morais. Pois, mesmo para lucrar, não se arriscariam a fazer algo cujas consequências afugentariam os investidores.

Você pensa em comprar ações da Petrobras. Ora, um júri popular poderia decidir que a conta da poluição é mais alta do que a Petrobras pode pagar. Neste caso, os bens dos acionistas seriam leiloados para limpar as praias da baía de Guanabara ou do rio Iguaçu. Você ainda quer comprar ações da Petrobras?

Os pruridos dos investidores assustados imporiam, enfim, algum tipo de controle democrático na atividade de monstros que hoje contam com nossas vidas mais do que os governos eleitos.
Talvez Angela Davis tenha razão: esses novos revoltados são mais radicais do que parecem.

P.S.: Quer ver um projeto de novo estatuto jurídico das corporações? Veja o da Alliance for Democracy (www.afd-online.org).

quinta-feira, 13 de julho de 2000

O segredo de Harry Potter

Na sexta passada, à meia-noite, o quarto volume das aventuras de Harry Potter estava enfim solto pelo mundo. Tinha minha reserva numa livraria de Brookline -tranquila cidade residencial. Como muitas outras livrarias nos EUA, nesta ocasião a loja abriria brevemente de madrugada. Assim, meia-noite se aproximando, fui procurar meu exemplar de "Harry Potter and the Goblet of Fire" (Harry Potter e o Cálice de Fogo). Imaginava que haveria pouca gente: de regra, em Brookline o pessoal janta cedo, as crianças vão para a cama às 21h e não é raro que os adultos antecedam seus rebentos. Ficariam acordados por causa de um livro?

Surpresa: a livraria estava cheia. Por pequenos grupos que pareciam conspiradores apressando o passo na noite, o lugar ia se abarrotando. Eram centenas de pais sonolentos e felizes, trazendo crianças que, como revelavam os olhos avermelhados, haviam lutado até então contra o sono. Outras pareciam já ter dormido e chegado direto da cama: era um desfile de pijamas, camisolas e pantufas. Também havia adultos sem crianças. Atrás de mim na fila, um senhor arvorava uma cicatriz ziguezagueando na testa, como Harry Potter.

Um rapaz fantasiado de mago abria a porta e desejava boa-noite. Mas o clima não era de festa mascarada. As pessoas estavam lá para comprar o livro.

Na minha frente, duas irmãs (12 e 13 anos) acompanhadas pelo pai, ambas de camisola. Cada uma ganha um exemplar. Seria difícil convencê-las a dividir. Ambas abraçam o livro, um tijolo de 730 páginas, como se fosse um ursinho de pelúcia. Passam com delicadeza uma mão na capa, acariciando Harry ou as palavras que produzem o mundo mágico de Hogwarts. Logo começam a ler, enquanto o pai espera o cartão ser processado: a cada frase levantam o rosto, sorriem uma para a outra, apertam forte o volume, suspirando. E voltam a ler.

Os livros de J.K. Rowling são um fenômeno. No Brasil, o primeiro volume, "Harry Potter e a Pedra Filosofal", ocupa os primeiros lugares nas listas dos mais vendidos. Este quarto volume é a maior primeira tiragem da história da edição: 3,8 milhões nos EUA e 1,5 milhão na Grã-Bretanha. Entre meia-noite e 1h, a livraria de Brookline vendeu quase mil exemplares.
Uma sondagem feita pela Internet sugere que, até terça-feira, 38% dos jovens que compraram o livro no sábado já terminaram de ler as 730 páginas. Na mesma sondagem, quase 40% dos entrevistados afirmam que seus pais também lêem Harry Potter.

Não sei se Potter subirá ao firmamento da literatura juvenil como Tom Sawyer, Huckleberry Finn, Lord Fauntleroy, o Pequeno Príncipe, Dorothy do mundo de Oz e os outros. O entusiasmo geral depõe a seu favor. Pois, ao redor de todas essas figuras, leitores adultos e jovens sempre se encontraram como hoje acontece com Potter.

Desde que há literatura no sentido moderno, muitos best sellers foram livros ditos infanto-juvenis, que obviamente não eram lidos só pelos jovens. Na verdade, eram sobretudo livros nos quais uma criança ou um adolescente é o herói.

A maioria das pessoas, quando lhes perguntam quais livros foram mais marcantes em suas vidas, lembram de alguma leitura de infância. A literatura juvenil é tão importante em nossa cultura porque as histórias que ela conta repetem uma espécie de mito fundador da modernidade: um conto de criança que trata do heroísmo de crescer, se tornar independente, se afastar do amparo dos adultos, descobrir e inventar um destino diferente, autônomo. Em suma, é na literatura juvenil que aprendemos a ser modernos.

Para significar e garantir a liberdade infantil e adolescente, as crianças protagonistas -de Tom Sawyer a Tarzan, passando por Narizinho- são sempre órfãs ou quase.

Harry também é órfão. Os pais mortos por Valdemort lhe deixaram um pecúlio suficiente para não se preocupar. Do amor materno, lhe sobra uma proteção permanente contra todo sortilégio assassino. Do pai, uma lição de coragem. Assim, Harry está certo de ter sido amado, mas pode e deve crescer sozinho e livre. Os pais lhe transmitiram apenas o que é preciso, ou seja, as condições de sua autonomia.

Mas há algo mais, que faz de Potter o herói do momento. As circunstâncias levam Harry a lutar contra o malvado Valdemort. O órfão se transforma assim em vingador de seus pais e salvador do mundo. Ou seja, ele encarna um paradoxo: é livre para realizar exatamente os sonhos mais ambiciosos de seus pais. Que liberdade é essa? A contradição faz de Harry um compêndio da glória, das dores e das ilusões de nossa subjetividade contemporânea.

P.S. Livre, mas condenado a vingar os pais e a lutar contra o mal, Harry é uma espécie de Batman jovem.

Mago reprimido, criado pelos tios que odeiam a magia, Harry evoca (numa versão cômica) a triste adolescência dos X-men mutantes da Marvel Comics.

As histórias em quadrinhos (nos quais também leitores adultos e jovens se encontram) fornecem a Rowling vários elementos para atualizar o mito do órfão da literatura juvenil. Essa é mais uma explicação da popularidade de nosso herói.

quinta-feira, 6 de julho de 2000

Terapias virtuais para nossa realidade virtual

Quem não gostaria de jogar videogame para se livrar de sintomas chatos e invalidantes? Pois bem, recentemente "Veja" e "Época" assinalaram a existência de Virtually Better (Virtualmente Melhor). É uma das empresas que desenvolvem programas de realidade virtual para curar medo de avião, de altura, de tempestade, de espaços abertos e de falar em público. A sede é em Atlanta, mas há clínicas afiliadas até em Buenos Aires. Aposto que logo aparecerá uma sucursal em São Paulo.

Eis como se chegou ao uso terapêutico da realidade virtual. Há tempo existem terapias ditas de dessensibilização: os pacientes (sobretudo fóbicos) são expostos progressivamente aos objetos de seus medos, aprendendo técnicas para acalmar a angústia.

Pode-se tentar a exposição pela imaginação: feche os olhos, imagine que está subindo no avião etc. Não funciona muito bem. A exposição real é mais eficaz: paciente e terapeuta viajam no mesmo avião -quem sabe de mãos dadas, seguindo a sugestão de Belchior.

Infelizmente é um acompanhamento caro (pelo tempo que o terapeuta dedica ao paciente). E incerto: por exemplo, seria bom que o primeiro vôo fosse tranquilo, mas como garantir que não haja turbulências naquele dia?

Esses problemas são resolvidos pela realidade virtual, que comprovadamente oferece a mesma eficácia da exposição real, reduz os custos e permite o controle da experiência.

O paciente veste um capacete e, ao virar a cabeça, tem uma visão de 360 graus e som estéreo. Outros aparelhos (um colete, uma cadeira que vibra e mexe) produzem mais impressões sensoriais, aperfeiçoando a imersão no mundo virtual. O terapeuta acompanha o paciente graças a uma tela.

Sua fala ressoa de dentro do mundo virtual. Alguns eletrodos informam o terapeuta sobre o nível de estresse que a situação virtual está impondo ao paciente. Ele pode assim calibrar suas intervenções.

Por exemplo, no programa para o medo de falar em público, o terapeuta controla as reações da platéia. Dependendo do estresse do paciente, ele administra aplausos, indiferença ou vaias. Detalhe interessante: o paciente pode ensaiar dessa forma uma palestra que ele deve realmente apresentar e cujo texto aparece num teleprompter para ele ler.

Estudos pequenos, mas significativos, mostram que a terapia virtual funciona. Seus benefícios não são sempre permanentes; em compensação, é fácil repetir a dose se for necessário.

Pode-se discutir sobre a origem desta eficácia. Alguns acreditam que a melhora seja o efeito da simples repetição. É a idéia do rei Mitrídates: tomando um pouco de veneno a cada dia, a gente se tornaria imune. A meu ver, a mudança não aconteceria sem o diálogo e a confiança depositada no terapeuta.

Seja como for, se a realidade virtual pode nos ajudar a vencer ou a controlar nossos medos, é porque -como comentou um colega, Manoel Berlinck- estes são tão virtuais quanto os programas.

Que o avião caia, que sejamos aspirados no precipício, que nossa voz falhe e a platéia nos devore ou que o espaço aberto nos aniquile, esses pavores são puras virtualidades.
A lição das terapias virtuais não pára aqui. Virtually Better propõe um programa de realidade virtual para o tratamento dos transtornos pós-traumáticos dos veteranos do Vietnã. A memória e seus traumas podem ser corrigidos virtualmente do mesmo jeito que a antecipação e seus medos.

Há mais. No começo dos anos 90, uma outra técnica de realidade virtual -a realidade aumentada- deu resultados positivos com pacientes de doença de Parkinson que apresentam o seguinte paradoxo neurológico: sua marcha é imobilizada, e eles conseguem avançar só se houver obstáculos ou limiares. O caminho deles foi, portanto, obstruído por obstáculos virtuais projetados, o que lhes permitiu avançar.

Também se difunde o uso anestésico da realidade virtual. A imersão num outro mundo produz mais do que uma simples distração. Ela transporta os pacientes alhures durante a dolorosa medicação de queimaduras ou a administração de quimioterapias pesadas.
Em suma, o futuro dos programas de realidade virtual é luminoso. Sua eficácia é garantida, pois eles nos propõem experiências cuja matéria-prima é a mesma tanto de nossos medos quanto de nossas aspirações, fantasias e lembranças.

Sofremos, sonhamos e gozamos com virtualidades -ectoplasmas projetados por nossa subjetividade. São elas que nos assustam e inibem ou motivam e excitam. Não é de estranhar que a imersão em mundos virtuais eletrônicos nos afete.

P.S.: Neste sábado, chega às livrarias americanas o quarto livro de Harry Potter. É a maior primeira tiragem da história: 3,8 milhões de exemplares.

Mesmo assim, as pessoas estão com medo de ficar sem um. Fiz minha reserva e receberei meu exemplar à meia-noite de sexta.

Seguindo o princípio de marketing do livro: na coluna da próxima quinta, vou enfim dizer por que eu e alguns outros gostamos de Harry Potter. Desde já, reserve o seu exemplar da Folha nas bancas.

quinta-feira, 29 de junho de 2000

A TV-realidade mostra a vida como ela é

Estava curioso para ver os seriados da nova TV-realidade que -vinda da Europa- seduz nestes dias os espectadores americanos. Na segunda assisti "The 1900 House", na PBS: uma família de classe média (inglesa) é instalada numa casa de 1900 perfeitamente reconstruída e deve viver -durante 90 dias- se atendo rigorosamente aos recursos e aos hábitos da época. A televisão registra tudo.

Terça é a vez de "The Real World", na MTV. Um grupo de jovens de origens étnicas e sociais variadas passa o verão num casarão de New Orleans. Entendem-se ou não, gostam-se, apaixonam-se, embebedam-se, odeiam-se etc. Na frente das câmeras.

Quarta é o dia do programa de maior sucesso hoje: "Survivor", na CBS. Sobreviventes de um hipotético naufrágio são jogados numa ilha deserta do Pacífico. São pessoas de todo tipo: brancos e pretos, jovens e velhos, legais e chatos. Divididas em duas tribos, elas devem construir abrigos, encontrar a comida que a ilha oferece (churrasco de rato, por exemplo) e competir.

A cada semana, o grupo que perde vota para expulsar um dos seus. Sobreviverá só um sujeito, que levará para casa US$ 1 milhão. Aprendi pela coluna de Anna Lee na Folha que a Globo está preparando sua versão no Ceará.

Os comentadores lamentam o fim da privacidade, o voyeurismo e o exibicionismo generalizados. Estigmatizam o narcisismo: pessoas comuns olham para pessoas comuns, ou seja, olham-se no espelho. Lembram dois filmes recentes como sábios precursores de suas críticas.

"The Truman Show - O Show da Vida", com Jim Carrey, agitava o espantalho de nossa alienação num mundo que seria um estúdio de TV sem que a gente se desse conta. "EDtv" -mais engraçado- fomentava a revolta contra a insuportável invasão de privacidade imposta pela TV-realidade.

Os mesmos críticos evocam a presença persecutória das telecâmeras no universo totalitário imaginado por Orwell em "1984". Ora, toda essa indignação é o maior argumento de marketing do "televoyeurismo". A prova disso: para o 5 de julho a CBS promete "Big Brother", com dez pessoas coabitando presas numa casa onde tudo será filmado minuciosamente.

"Big Brother" (O Grande Irmão) era o nome da agência persecutória no romance de Orwell. Maneira de dizer: "É isso mesmo, que horror! Não vão perder essa...". Enfim, o inesperado foi descobrir que os programas não são chatos. E os protagonistas são ótimos. Em todos os programas há momentos em que eles fazem apartes com a câmera.

Nestes, eles são sempre convincentes, como se estivessem escrevendo para seu "caro diário". Também em todos os programas, a presença dos técnicos filmando não altera em nada o comportamento dos protagonistas. Eles agem, pensam, falam como se a situação de serem filmados fosse-lhes indiferente.

Contrariamente ao que aconteceria com atores, eles reconhecem a presença da câmera, mas não por isso são menos espontâneos. Demonstra-se que sujeitos quaisquer conseguem viver sob o olhar constante de câmeras que gravam e transmitem suas vidas pelo mundo afora sem perder por isso sua naturalidade.

Estava passeando e ponderando esta constatação quando, numa esquina perto de casa, parei ao lado de uma mulher de meia idade. Ela estava visivelmente tomada por alguma fantasia de olhos abertos e falava animadamente com um interlocutor imaginário: "E daí? Você acha mesmo que pode me tratar deste jeito...". Não estava bêbada nem drogada. De um carro, alguém a apostrofou: "Está louca?!". A mulher, vermelha de vergonha, saiu correndo. O grito me trouxe uma lembrança de quando eu era bem moço. Eu fazia isso o tempo todo: ia pelas ruas falando em voz alta com interlocutores ausentes. De vez em quando, o mesmo grito me precipitava na vergonha -só que em italiano: "O maaattoooo!".

Na verdade, ensaiava a peça de minha vida. Às vezes eu previa e preparava um encontro: "Desculpe o atraso, mas..." ou então "Foi impossível completar o dever de casa...". Elaborava maneiras de ser convincente. Não que quisesse mentir, mas -fiel a Aristóteles- sabia que a verossimilhança importa mais do que a verdade.

Outras vezes repetia uma cena que já acontecera, mas que teria um desfecho mais satisfatório se eu agisse de outro jeito. Outras, ainda, me preparava para viver as situações que, segundo prometia o cinema, algum dia se verificariam (o cinema tinha razão, se verificaram quase todas -infelizmente nem sempre consegui me valer de meus ensaios).

Com isso, entendi por que os protagonistas da TV-realidade conseguem ser naturais e espontâneos. Na verdade, estão vivendo a vida de sempre: um triunfo do aparecer, um constante jogo cênico. Vivemos para os outros, somos a imagem que conseguimos apresentar. Que diferença faz que câmeras de televisão estejam ou não apontadas para nós?

A TV-realidade pretende ser fiel à vida. À primeira vista nada está mais longe de nossa experiência do que viver no meio duma selva de câmeras apresentando nossas gestas ao mundo.

Mas é só à primeira vista: de fato, este olhar que nunca pisca e sonda sem parar nossos charmes e nossas misérias é o âmago da vida como ela é.

quinta-feira, 22 de junho de 2000

Ser vítima é bom e explica tudo

O barão de Munchausen ficou famoso por sua férvida imaginação. Ele exagerava e inventava ao contar suas proezas.

De maneira não muito apropriada, seu nome foi escolhido para designar uma síndrome na qual o sujeito produz intencionalmente sintomas para merecer atenção, carinho e cuidados médicos -pouco importa que isso implique investigações diagnósticas pesadas ou intervenções cirúrgicas. Estes "transtornos fictícios", como são chamados, nada têm a ver com as simulações para obter vantagens materiais (como compensações por invalidez). Também não devem ser confundidos com as preocupações do hipocondríaco, que se imagina ou presume doente. A síndrome de Munchausen se identifica pela motivação: o sujeito quer ser reconhecido e tratado como alguém que sofre.

Os pacientes-Munchausen chegam a extremos para produzir doenças dignas de interesse e compaixão. Desde automutilações até injeções de matérias fecais para gerar misteriosas infecções localizadas.

Existe também a síndrome de Munchausen por procuração. Neste caso, um dos pais (geralmente a mãe) produz uma doença em seu rebento para receber -por criança interposta- simpatia e comiseração.

Um estudo na revista "Pediatrics" de junho monitorou casos suspeitos recorrendo a câmeras escondidas em quartos de hospital. Apareceu um desfile desconcertante: mães acrescentando sua própria urina à intravenosa de seus nenês, outras se forçando a vomitar para atribuir o vômito ao bebê etc.

Há quem afirme que 1% das hospitalizações nos países do Primeiro Mundo poderiam ser Munchausen. Também a síndrome seria mais frequente nos países desenvolvidos.
De fato, esta curiosa figura patológica é filha de nossa cultura. As idéias cristãs que estão na origem do espírito moderno promovem a esperança de que as vítimas serão amadas e de que muito será perdoado a quem muito sofreu. Ser vítima deve ser bom.

Mas há algo além disso: nós, modernos, não confiamos nas virtudes do berço. Damos mais importância à experiência. Para nós, as pessoas valem segundo a qualidade e a intensidade de suas vidas. Por isso a banalidade do cotidiano é nossa inimiga permanente, pois imaginamos que nosso valor dependa do valor de nossas experiências. De fato, experiências excepcionais (viver na Antártida, atravessar um furacão, combater a Máfia) dão destaque decisivo a uma vida.
Ora, como o romantismo descobriu logo, o patético é uma forma simples e acessível de excepcionalidade. Sofrer e ser vítima pode ser incômodo, mas torna a vítima diferente e facilmente heróica.

Melhor ainda, numa cultura na qual é fácil e rentável contar vantagens, o sofrimento carrega consigo uma aura de autenticidade. Qualquer um pode contar que circunavegou a Terra num balão, mas quem se atreveria a mentir declarando: "Estou com câncer"? Pois é, o Munchausen se atreve.

Ele não é o único. Fazer-se de vítima é um esporte cultural induzido pela (mórbida) sedução que a figura da vítima exerce sobre nós.

Sandro do Nascimento, o assaltante do ônibus 174, para que suas ameaças fossem escutadas, não proclamou: "Cuidado, que sou sanguinário!". Ele disse (segundo "O Globo"): "Meu pai morreu de tiro. Perdi um irmãozinho na Candelária. Arrancaram a cabeça de minha mãe quando eu era pequeno. Eu sou maluco e não estou para bobeiras". Ou seja, ele é de verdade, deve ser levado a sério porque sofreu.

Como, ao que parece, ninguém arrancou a cabeça da mãe, o assaltante -como um paciente-Munchausen- inventou e elaborou para fazer valer seu estatuto de vítima. A coisa funcionou: a estudante Luana, que estava entre os reféns, ameaçada de morte durante horas, achou bom dizer para Sandro que, na verdade, a maior vítima era ele, o próprio assaltante. Quem sabe esta observação tenha salvo a vida da jovem, pois talvez fosse tudo o que Sandro quisesse ouvir.
Mas não deixa de ser uma estranha inversão.

Na mídia desta semana, a transformação de Sandro em vítima é tema dominante. O assaltante se tornou o "sobrevivente da Candelária".

Sandro foi vítima dos policiais que o levaram preso. Também ele teve uma infância dolorosa. Mas, enquanto assaltante, ele não foi vítima coisa nenhuma. As vítimas dessa história são Geisa Firmo Gonçalves e os outros passageiros.

Ora, acontece que preferimos explicar (justificar seria demais, não é?) seu comportamento de algoz por ele ter sofrido no passado. Aparece assim mais uma função de nosso "vitimismo": ele satisfaz nossa ingenuidade voluntária. Graças a ele, podemos evitar ter de reconhecer desejos incômodos e nojentos. Pois o mal seria apenas uma reação (compreensível, então, não é?) a traumas e dores -uma espécie de vingança das vítimas.

Quem foi bem tratado será feliz e ordeiro, quem foi maltratado sairá errado e assaltante. Você acredita que, se fôssemos um país rico, se os pais reconhecessem seus filhos e se as mães pudessem cuidar das crianças, seríamos também uma sociedade de pessoas boas e de boas pessoas? Bom, não vamos ficar ricos tão cedo. Mas, se acontecer, prepare-se para uma decepção, pois não é assim.

quinta-feira, 15 de junho de 2000

O insustentável peso das palavras e das imagens




Em outubro de 1997, em Cambridge, um menino de 10 anos, Jeffrey Curley, foi estuprado e assassinado por dois homens. Ambos estão hoje condenados e presos. Espera-se que a chave seja esquecida de vez.

O caso volta para a crônica porque os pais de Jeffrey entraram na Justiça com uma ação civil contra a Nambla (traduzindo: Associação Norte-Americana para o Amor entre Homens e Meninos) e seus animadores.

A queixa dos pais de Jeffrey obriga a pensar seriamente numa questão hoje crucial: qual é a responsabilidade das palavras e das imagens públicas que parecem inspirar um crime?
Numa manhã chuvosa, que condizia com a tétrica lembrança dos fatos, fui até a corte federal de Boston para ler o texto da queixa da família Curley.

Ela alega que Charles Jaynes, o principal algoz de Jeffrey, "se tornou obcecado pela idéia de fazer sexo com meninos e de estuprá-los, como resultado direto e próximo da instigação e da promoção da atividade pedófila pela Nambla".

Foi como resultado da mesma instigação que Jaynes abordou o menino e "torturou, assassinou e mutilou o corpo de Jeffrey Curley". Tanto Jaynes quanto seu cúmplice possuíam material da Nambla. Jaynes tinha recentemente se inscrito na associação.

Detalhe sinistro: "Imediatamente antes do ato, Charles Jaynes teve acesso ao site da Nambla na Internet a partir da Biblioteca Pública de Boston". Como se procurasse uma última confirmação.
A queixa apresenta algumas publicações da Nambla para mostrar que esta encoraja seus membros "a estuprar meninos".

A associação pretende oficialmente promover o amor "consensual" entre homens e meninos. Mas os documentos exalam mesmo uma hipocrisia irrespirável.

Se você tiver estômago, considere esta citação que planeja uma expedição nos bosques com os meninos -se não tiver, pule este fim de parágrafo: "Aí queremos levá-los para a barraca e beijá-los e abraçá-los e acariciá-los e fodê-los e sentir seus pequenos corpos quentes fremir de prazer sexual".

A Nambla não inspira simpatia. Isso me ajuda a evitar a facilidade. Em geral, nas discussões sobre a responsabilidade criminal de imagens e de idéias que circulam na cultura e na mídia, é fácil defender a liberdade de expressão.

No caso, os animadores da Nambla não são necessariamente estupradores. Mesmo que eles façam a apologia do estupro e que sua vida sexual seja feita de masturbações com fantasias de estupro, a apologia do crime não é o próprio crime.

Além disso, agita-se como um espantalho a idéia de que estender a responsabilidade até os hipotéticos instigadores seria um pretexto para o exercício ilimitado da censura.

Por esse caminho, por exemplo, por que, junto com o Unabomber, não seriam perseguidos os professores de Harvard que, nos anos 60, formaram a ideologia antitecnológica radical do terrorista americano?

Ou, então, se de repente nas praças brasileiras chover não só ovos, mas tiros, será que quem hoje defende a necessidade da luta armada seria perseguido ao mesmo título do que o atirador? Queremos esse tipo de repressão? Claro que não.

Mas importa, enfim, admitir que as palavras e as imagens da mídia e da cultura influenciam pesadamente nossos atos.

Jaynes, até descobrir a Nambla, não manifestara nenhuma de suas fantasias. O encontro com essa associação lhe permitiu transformar fantasias até então silenciosas em planos e atos. De alguma forma, autorizou desejos que talvez ele nem admitisse para si mesmo.

Mas como? Pois bem, contrariamente ao que aparece em nossas frequentes lamentações, nós, modernos, dispomos de uma moral comum bem compartilhada. Concordamos facilmente sobre o que é certo ou errado. E o fundamento desta moral comum somos nós mesmos, nosso diálogo, nossa comunidade.

Por exemplo, estuprar meninos é errado porque concordamos que é. Não porque assim diria alguma autoridade acima da gente.

Nesta situação, em que a comunidade é a fonte da autoridade moral, é suficiente que uma opção ou uma conduta tenha destaque público para que ganhe alguma forma de legitimidade com isso.
Se algo está no cinema, na televisão, na Internet ou na imprensa, se está entre nós, se faz parte de nosso diálogo público, então tem algum direito de cidadania.

Que uma fantasia, uma conduta ou um desejo possam ser ditos, narrados ou defendidos publicamente, é suficiente para autorizá-los. Na cara perplexa de cada menor preso por homicídio, por exemplo, leio esta pergunta: "Mas não era isso que vocês gostavam de olhar na TV ou no cinema?".

E Jaynes, naquela última visita ao site da Nambla, pode ter pensado: "Pois é, se a Nambla está na Net, então dá para estuprar meninos, pois estuprar meninos é do nosso mundo".
Eu gostaria de um mundo onde todos, até os sinistros membros da Nambla, pudessem, no respeito da lei, trocar suas fantasias como figurinhas.

Mas também onde Jeffrey ainda pedalasse sua bicicleta tranquilo, porque nada encorajaria dois desgraçados a realizar suas fantasias até então inconfessáveis.

É uma contradição difícil. Talvez sem solução.

domingo, 11 de junho de 2000

Uma elite funcional

Os "bobos", com o conjunto de sua ideologia social ecologista, progressista e tolerante, são os responsáveis pelo extraordinário sucesso da economia americana na última década

Se fecho os olhos e penso nas elites americanas, duas caricaturas me afligem imediatamente. A primeira é a cara de J.P. Morgan, com suas suíças e seu nariz excessivo. Mas poderia ser um Vanderbilt ou um Rockefeller: qualquer um dos plutocratas que, na virada do século 19, constituíram-se em uma verdadeira aristocracia do dinheiro. São os protagonistas da "Idade da Inocência", de Edith Wharton, que competiam à força de "cottages" monstruosos e suntuosos em Newport ou nas colinas ao norte de Nova York. É neles que pensava Thorstein Veblen, descrevendo uma elite que afirmava e mantinha seu poder pela ostentação de sua (incrível) riqueza.

Os colarinhos afrouxaram, surgiram novos nomes, alguns se mataram em 1929, a ostentação se acalmou um pouco, mas, até três décadas atrás, substancialmente, a elite americana continuava a mesma. Nesse período, seu traço mais notável foi a disposição para dividir um pouco o bolo, inventando um capitalismo que, para garantir o crescimento, aposta no consumo de todos.

Caricatura apavorante
De repente, chega uma segunda caricatura, apavorante. Poderia ser o protagonista de "American Psycho" ou qualquer yuppie dos anos 80. Não é um plutocrata. É muito pior: trata-se de alguém que tenta desesperadamente compor a imagem de um plutocrata.

Sua vida e seu consumo têm, como única finalidade, a demonstração e confirmação de seu status. Veblen teria gostado do yuppie ainda mais do que de J.P. Morgan. Como então, no espaço de dez anos, foi possível passar de uma elite aristocrática constituída e fechada à cafonice arrivista do yuppismo dos anos da Presidência Reagan? Uma explicação consiste em pensar que tudo aconteceu por causa de uma brincadeira dos intelectuais e acadêmicos que, a partir dos anos 60, decidiram se vingar do proverbial antiintelectualismo dos plutocratas americanos. Um belo dia, eles mudaram os critérios de admissão das grandes universidades. Estas, até então, eram internatos onde os rebentos das "boas famílias" passavam o tempo necessário para selar as amizades e os contatos que lhes seriam úteis mais tarde. Eram, em suma, clubes mirins.

De repente, tornaram-se instituições meritocráticas, oferecendo uma educação de verdade a estudantes selecionados não por via hereditária, mas por sérios e complexos exames de admissão. Os yuppies foram uma consequência imediata, temporária e pouco interessante dessa mudança. E foram apenas um parêntese. Inseguros por serem a primeira leva de elites meritocráticas, eles não souberam inventar nada, mas ficaram com a estúpida ambição de se parecerem com os plutocratas precedentes. Ou de emulá-los. Levaram um tempo debatendo qual seria o relógio, o carro, a camisa e o restaurante certos para isso. E já quase não existem mais.

Agora, chega a terceira e mais recente versão das elites americanas: uma elite culta, descontraída, "cool". É essa que David Brooks descreve com muito brilho em seu livro. São os "bobos", que realizam o projeto meritocrático do qual os yuppies foram apenas um percalço. Os "bobos" eram esperados e indispensáveis. Esperados por quê? Afinal, é difícil acreditar que a mudança nas elites americanas seja apenas o fruto da frustração de acadêmicos que, para se fazer de importantes, se deram o direito de selecionar candidatos aos estudos superiores. O pós-guerra enriqueceu os americanos de todas as classes, criando um consumo de massa inédito.

Muito cedo, já nos anos 50, o marketing americano desconfiou dessa massificação, antevendo que dificilmente ela poderia sustentar para sempre os desejos dos consumidores. Com a ajuda da contracultura, Madison Avenue produziu e promoveu então um ideal de consumo oposto à massificação. Por isso, a partir dos anos 60, consumir não é mais nem tanto uma maneira de ser como os outros, de integrar uma classe social ou de adquirir status. Consumir, ao contrário, é apresentado como uma tarefa mais nobre, autêntica e quase espiritual: é o processo de invenção e produção de nossa singularidade, de nossa diferença.

A busca de auto-realização
Ora, para que essa visão do consumo triunfasse e viesse garantir um crescimento econômico que está hoje em seu auge era necessário uma elite que propusesse ideais mais complexos e variados do que festas à la "Great Gatsby" ou ternos sob medida de Paul Stuart. Os "bobos" respondem a essa exigência: eles se apresentam como uma elite que persegue não simplesmente riqueza ou status, mas sobretudo auto-realização.

O termo inventado por Brooks para descrevê-los -contração de burguês e boêmio- indica que eles pretendem resolver de vez o antigo dilema da alienação, conciliando sucesso financeiro e social com os valores existenciais mais sublimes (o português frustra um pouco essa aspiração dando a "bobo" um sentido provavelmente merecido, mas ausente em inglês).

Já nos séculos 16 e 17 as elites européias começam a se perguntar se no fundo os índios (brasileiros, por exemplo) não teriam o segredo da vida boa. No século 19, com os românticos, aos índios acrescentam-se os pobres. Wordsworth afirmava corajosamente que "os homens mal vestidos são suscetíveis a profundos sentimentos". De lá a perguntar se os maltrapilhos não vivem uma vida melhor do que os ricos há apenas um passo.

Em suma, a elite capitalista, mesmo em suas versões mais sinistras, sempre se perguntou se, acumulando dinheiro e riqueza, ela não estava perdendo algo essencial: algum prazer, algum saber ou mesmo algum sentido recôndito da existência.

Aliás, essa dúvida é responsável pela simpatia que ainda inspiramos ao olhar exótico das elites dos países ditos desenvolvidos. Por sermos índios e pobres, aparecemos facilmente como maltrapilhos dançarinos e primitivos que poderiam conhecer segredos essenciais da existência. Segundo o caso: o segredo do gozo da vida -escondido no fundo dos copos de carnavalescas caipirinhas- ou então o segredo do perfeito acordo com a natureza -escondido no saber iniciático de curandeiros amazônicos.

Seja como for, os "bobos" resolvem essa dúvida professando que o trabalho é para eles expressão íntima, vocação, arte. Em todo caso, ele é parte integrante de uma vida concebida como eterno esforço de aprender, conhecer, melhorar. Com isso e com o conjunto de sua ideologia social ecologista, higienista, progressista e tolerante, os "bobos" são a elite responsável pelo extraordinário sucesso da economia americana nesta última década. E o "bobismo" é a filosofia de "management" do momento -a mais bem adaptada à nova economia.

Por isso, é normal que os "bobos" sejam fundamentalmente americanos, eventualmente um pouco europeus e certamente não-brasileiros. Traços de ideologia "boba" circulam entre nós como modismos. Mas nosso capitalismo não está pronto para os "bobos". Ainda não negociamos o acesso a um consumo de massa e podemos, portanto, nos contentar com elites plutocráticas.

Estas podem eventualmente ser metidas a "bobos". Mais frequentemente, pelo atraso que sempre se dá na dinâmica do estrangeirismo, elas são hoje compostas por plutocratas metidos a yuppies. O que as torna especialmente caricaturais.

quinta-feira, 30 de março de 2000

O álibi do mar de lama

Pitta vai e Pitta vem. Maluf sujou, mas quer voltar para limpar. Também houve vereadores cassados e presos, mas (a menos que se confunda com Jânio Quadros em algum delírio) será que alguém acredita mesmo que conseguimos passar uma vassoura? Perguntem para o presidente da Associação dos Camelôs Independentes de São Paulo...

As notícias se sucedem e mal conseguem se organizar em um parágrafo com pé e cabeça.
Enfim, a metáfora do mar de lama segue atual e quase perfeita.

A lama é enganadora: quem se ilude achando poder pisá-la como se nada fosse logo perde os sapatos, chupados pela viscosidade melequenta; no segundo passo, lá se vão as meias, e, no terceiro, o sujeito começa a afundar. Para flutuar e se salvar, é necessário se deitar, se esticar numa espécie de abraço impossível de se preservar limpo. Ou seja, a moral é: "te enlameia ou afoga". A única outra possibilidade consiste em manter-se afastado de qualquer pântano. Ou seja, "esqueça a vida pública e fique rigorosamente na tua".

Pela virtude de sua consistência líquida, o mar de lama extravasa, transborda e acaba preenchendo a maior parte do globo, tornando-se assim um espaço privilegiado de trocas e contatos mundiais: a lama é cosmopolita e globalizada.

Por mais que eu viaje, esse mar é uma presença inevitável, banha todos os países. A lama estava por todo lado na Itália do pós-guerra. Mais ou menos vistosa, estava também na Suíça, na França e nos Estados Unidos.

Qualquer americano sabe que os custos astronômicos das campanhas eleitorais constituem um dos ambientes no qual a lama vive e se reproduz melhor. Ora, embora ele tenha perdido, a campanha de John McCain para ser escolhido como candidato republicano à Presidência foi surpreendentemente forte e significativa. Mas essa façanha foi possível graças ao caráter de McCain, ao seu passado heróico e à sua moderação: o cavalo-de-batalha de sua campanha -o projeto de reforma do financiamento das campanhas eleitorais- ficou na sombra. Ou seja, todos os eleitores democratas e republicanos parecem achar que é uma necessidade absoluta, uma questão de saneamento básico da vida pública. Mas não se entusiasmaram com isso. Reagiram, simplesmente, como se não acreditassem.

Talvez seja melhor ceder ao cansaço, devolver as armas e, sem vãs indignações e agitações, aceitar enfim que no mundo ocidental inteiro a lama tornou-se parte da paisagem. Ela está naturalizada, um apêndice mais ou menos inflamado, mas sempre inoperável da modernidade democrática. Ninguém acredita que seja possível moralizar a vida pública.

Na semana retrasada em São Paulo, peguei quatro táxis numa mesma tarde. Logicamente, conversamos sobre lama e enchentes. Todos os motoristas se declararam antimalufistas. Coisa impensável três anos atrás.

Mas as quatro conversas acabaram todas numa forma de ceticismo resignado do qual eu mesmo participei. Não era o antigo cinismo de "deixa ele, pois rouba, mas faz". Era assim: "Se ele rouba, então afasta ele, tenta até prender. Mas não esquenta: fica sem ilusões que não tem jeito". A lama é como a bolha assassina, não há como pará-la.

No fim de cada uma das quatro conversas, resultava o seguinte: a lama sufocou nossas esperanças, enterrou nossas ingenuidades corajosas. De decepção em decepção, perdemos a confiança. Agora só não entramos na dança (tipo: "olha, eu vou roubar, pois quem não rouba é trouxa") porque somos do bem. Então pegamos nossa bola e voltamos para casa: aqui não jogo não, está sujo demais, vou cuidar do meu jardim.

Em suma, a lama justifica nosso particularismo, a fraqueza de nossos engajamentos políticos e mesmo a mediocridade de nosso sentimento cívico.

A lama é uma desculpa moral, um álibi perfeito -uma verdadeira racionalização chamada a justificar nossa desistência cívica. Se a lama não existisse, precisaria inventá-la. Pitta, Maluf, os vereadores etc. não nos tornaram inertes e egoístas por excitar nosso ceticismo. Ao contrário: somos inertes e egoístas e -graças a Pitta, Maluf e companhia- podemos acusar a lama.

Suspeito que ainda não tenhamos conseguido assimilar completamente a virada dos anos 70, quando começou a ficar claro (permita a ironia) que os ideais sociais e políticos eram critérios incertos demais para orientar nossas vidas. Aliás, eles alimentavam discussões e discórdias intermináveis. Agora as coisas estão bem melhor: todos concordamos facilmente que nosso bem-estar individual físico, psíquico e financeiro merece ser o farol de nossas existências. É o sonho de Adam Smith realizado: cada um pensa em si mesmo, e, oh, milagre!, todos concordam (que é ótimo pensar em si mesmos)

Mas essa é uma novidade de duas ou três décadas apenas. De vez em quando, alguma nostalgia das quimeras do bem comum ainda deve trotar por nossos cérebros. Quando isso acontece, é bom matar logo qualquer veleidade política, pensando em Maluf, em Pitta ou na Câmara de vereadores. E concluir que é melhor mesmo ficar em casa, pois a lama respinga.

quinta-feira, 23 de março de 2000

Vamos instituir o concurso Papel de Parede

No fim dos anos 70, em Paris, conheci um casal de jovens que, embora mediamente felizes, brigavam com determinação e frequência. As brigas se resolviam regularmente por uma renovada declaração de amor recíproco. Curiosamente, esta era a cada vez oficializada por uma espécie de fórmula sagrada: "C'est juré pour le Brésil!", "Juro pelo Brasil!".

Ambos adotaram essa invocação porque, na mágica da paixão inicial, decidiram brincando que um dia iriam juntos para o Brasil. Não tinham sequer lido um guia turístico do país, e o Brasil não era o lugar mais exótico disponível para seus sonhos. Como muitos, eles passavam férias no Marrocos ou na Tunísia, que, entre odaliscas, camelos e beduínos, são para um europeu lugares mais exóticos do que o Brasil.

No entanto, o Brasil era para eles o nome do lugar improvável onde se amariam e seriam felizes. Nunca testaram a idéia.

Lembro-me desse casal a cada vez que penso no Brasil como sonho ou pesadelo da consciência européia. As imagens européias do Brasil me interessam, pois elas contêm uma parte do segredo das imigrações (aliás, a começar pela minha própria). Com isso, explicam um pouco o Brasil de hoje, que, como todas as colônias, certamente deve um tributo às fantasias dos que para cá viajaram.

Neste estado de espírito e para começar a celebrar os 500 anos, fui visitar a exposição da Pinacoteca do Estado de São Paulo "Coleção Brasiliana". É um conjunto de obras de viajantes do século 19 reunidas por um colecionador que nunca veio ao Brasil (o catálogo, preparado por C. Martins e V. Piccoli, é ótimo).

Saí pensando que os sonhos europeus que deram forma à realidade brasileira são de três categorias.

Primeiro, há os sonhos antes e ao redor do Descobrimento, aqueles que Sérgio Buarque descreveu em "Visões do Paraíso". Na exposição da Pinacoteca essas fantasias estão presentes numa divertida alegoria da América com índios paradisíacos e infernais. Sorridentes canibais que convidam: "Venham explorar, ficar ricos e ser comidos, ou mesmo devorados. A começar (verifiquem) pela bunda".

Depois, há o Brasil romântico dos pintores viajantes. Suas paisagens dão uma espécie de dor no peito. Transmitem a sensação de uma dupla paz entre os homens e a natureza. É como se o Brasil de Gilberto Freyre tivesse conseguido resolver toda contradição dolorosa: o escravo e o senhor estariam felizes numa democracia racial. A aparição noturna do senhor na senzala não anunciaria um estupro a mais, só prometeria prazeres eróticos compartilhados. A dor no peito é uma languidez insustentável, o fascínio e a nostalgia por um mundo inadmissível e que de qualquer forma nunca existiu. Na exposição, contemplem, por exemplo, o quadro de Charles Landseer: o erotismo dos corpos escravos que descansam de tanto caçar borboletas pela paz quase audível da estrada do Silvestre.
Os EUA acham que são responsáveis pela liberdade no mundo, por encarnarem o ideal de democracia. O Brasil poderia se declarar responsável por uma boa parte das fantasias mundiais -sonhos de gozo e de lânguidos prazeres.

Enfim, até a exposição da Pinacoteca me faltava um termo para designar a terceira categoria, a do exotismo mais vulgar e redutor. Achei: papel de parede. Na exposição da Pinacoteca há um extraordinário papel de parede, 15 metros de "Vistas do Brasil". Foi fabricado em 1830 e reproduzido até a Segunda Guerra Mundial. Milhares de exemplares ornaram o "quarto brasileiro" de palacetes parisienses ou provincianos. Segundo o desenhista, o papel devia permitir "viajar sem sair de casa". Tem de tudo: uma caça ao touro selvagem na baía de Guanabara, índios pendurados em ramos como macacos, negros fiéis trucidados por índios infiéis, por sua vez mortos a tiros, caça à onça e ao jacaré e, enfim, paz e felicidade numa fazenda litorânea.

Proponho chamar de papel de parede o caleidoscópio dos lugares comuns mundiais sobre o Brasil. Bem diferente dos sonhos de gozo e das nostalgias sublimes das primeiras duas categorias de imagens, o papel de parede inclui fotos de férias, folders turísticos e desinformação às vezes mal-intencionada.

No aniversário dos 500 anos, poderíamos instituir um prêmio anual Papel de Parede. Serão premiadas as piores besteiras produzidas pela fantasia européia e americana sobre o Brasil.
P.S.: Começo a anotar. Um sociólogo italiano de passagem foi assistir ao Carnaval. Segundo "O Globo", ele decretou que o Carnaval encenava a luta de classe com o objetivo de evitá-la (eta!). E achou "absurdo que não se discuta o Carnaval da forma que ele merece". Em suma, o tal sociólogo não só ignora o básico da sociologia brasileira, mas também se torna ator de um quadro temático do papel de parede: convencer os índios que o que eles têm (o Carnaval) é de grande valor, mas eles não sabem o que fazer com isso (pois eles não têm sociólogos, não é?). É o espírito das grandes companhias petrolíferas: "Deixa que te ajudo a explorar esse óleo bruto". O concurso Papel de Parede está aberto.

quarta-feira, 22 de março de 2000

A inocência das crianças



O horror da história de Jandira está obviamente na idade das vítimas e ainda mais na idade dos assassinos. O de 16 anos ainda passa. Mas como podem duas crianças de 9 e 13 anos matar colegas a pauladas, estuprar e ainda contar tudo sem nem choramingar?

As crianças, na verdade, são inocentes só graças aos esforços de nossa imaginação. Ou seja, nós imaginamos que elas sejam sem malícia e sem pecados, queremos preservá-las da pretensa corrupção da vida adulta e repetidamente declaramos que é assim que gostamos delas: puras e queridas.

É esse esforço de nossa imaginação que acaba civilizando as crianças. Elas se conformam com os anjinhos que nós imaginamos que elas sejam.

O porquê é simples: há uma série de vantagens para quem é amado. Ora, os adultos amam anjinhos. Portanto há vantagens evidentes em ser anjinho.

Nenhum cinismo nessa constatação: a educação moderna das crianças se faz desse jeito. Amando anjinhos para que as crianças tentem se identificar com eles.

Esse mecanismo é menos simples do que parece. Ele entra facilmente em crise de duas maneiras:
1. Quando não fica nada claro para as crianças como e quais são os anjinhos que os adultos gostam e amam.

2. Quando, aos olhos das crianças e de fato, os adultos não amam nenhuma imagem com a qual as crianças possam tentar se identificar. Em outras palavras, quando os pais não conseguem sonhar nem esperar nada para as crianças que produziram.

No primeiro caso, as crianças ficam com a tarefa de reconstruir ou mesmo de inventar o que os adultos querem que elas sejam.

Elas podem acreditar, por exemplo, que seja um bom negócio compor uma identidade feita de pedaços de violência hollywoodiana. Afinal, elas poderiam dizer: "Não é com isso que meus pais e a grande maioria dos adultos se divertem? Não é disso que eles gostam?".

É o que aconteceu, presumivelmente, com a série de menores americanos que nos últimos dois anos se transformaram em assassinos. A marca dessa confusão quanto ao que precisa para ser amado se revela no drama dessas crianças depois dos fatos. Não é que se sintam culpados.

Eles, sobretudo os mais jovens, se surpreendem, estranham que a mãe, por exemplo, não venha e não fique com eles. Nas entrevistas, há uma espécie de pergunta no ar: "Mas como, não era isso que vocês todos queriam de mim? Que eu fosse Rambo ou coisa que valha?".

Os três garotos de Jandira não colocam nenhuma pergunta desse tipo. Matam, estupram ou eventualmente perdem a vontade de matar. Mas em todo o caso nunca parecem ser cativos do amor. Não são reféns de nenhuma vontade de ser amados pelos adultos. Por isso eles estão fora da infância. E fora de nosso alcance

Nada de novo nisso: já sabíamos há tempo que nossa sociedade não se importa de excluir radicalmente um bom número de seus membros adultos e crianças. E ser excluído de uma sociedade moderna significa exatamente isso: ser privado da expectativa de ser amado ou gostado pelos outros. Ora, o horror de Jandira nos lembra que, num mundo que não é mais regrado por um Deus e pelo temor que ele inspira, o verdadeiro destemido, o mais perigoso de todos e para todos é justamente aquele que perdeu a esperança de ser amado.

domingo, 19 de março de 2000

A caminho de Porto Seguro


Porto Seguro - Parece que foi inventada uma língua especial para os 500 anos. Chama-se precaucionês. Ninguém quer anunciar ou mencionar (celebrar nem se fala) o aniversário dos 500 anos sem primeiro prevenir a platéia contra qualquer explosão de ufanismo maníaco. É assim: "Fique bem frio, que não há nada para celebrar; de qualquer jeito, não aconteceu nada de importante. Se algo aconteceu, foi muito errado e deu em algo pior ainda." Todos parecem preocupados com a "versão oficial". Só que, à primeira vista, a verdadeira versão unânime e oficial parece ser justamente o precaucionês que manda desconfiar da "versão oficial". Ainda não encontrei manifestações (oficiais ou não) de entusiasmo cego que justifiquem atitudes tão precavidas.

Temos razões acumuladas para desconfiar do que é "oficial". No balanço dos 500 anos, a administração pública não sai muito bem na foto.

Mas nem tudo o que é coletivo é oficial. Concordemos que, depois de 500 anos, ainda não está consolidado o sentimento de um destino comum e solidário. Nessa condição, será que podemos nos dar ao luxo de renunciar a compartilhar um aniversário?

Venho para São Paulo de TAM. O aniversário é lembrado (ninguém se alarme: sem entusiasmos excessivo) por uma carta do presidente da companhia etc. Converso commeus vizinhos de vôo: o aniversário é do Descobrimento ou do Brasil? Meus interlocutores não querem festejar o Descobrimento, que foi uma catástrofe para os índios. Se fosse do Brasil, seria diferente, mas é do Descobrimento.

Não entendo direito. O aniversário de alguém é no dia do nascimento, mas comemora sua vida toda, soleniza o quese tornou, bem ou mal. É por isso que eventualmente celebramos o aniversário da morte de um próximo, mas nunca o aniversário de um morto.

O precaucionês quer evitar a auto-satisfação babaca, que obviamente não cabe. Mas quem disse que um aniversário deve ser um momento de exaltação auto-satisfeita? Os aniversários são ocasiões de encarar a realidade, revisar o percurso, constatar os erros e projetar os remédios. As marchas dos índios e do MST (com as 500 invasões projetadas), por mais que os organizadores receiem que elas atrapalhem a ordem, fazem parte dos "festejos". Que aniversário seria para o Brasil se nessa ocasião não pudesse pensar seus fracassos como comunidade, se não se confrontasse com as caras de seus excluídos?

quinta-feira, 16 de março de 2000

A culpa e os outros méritos de João Salles

Em 1997, no morro Dona Marta (Rio de Janeiro), João Salles filmou um documentário justamente famoso, "Notícias de uma Guerra Particular". Assim ele conheceu Marcinho VP, traficante, acusado de homicídio. Criou-se, se não uma amizade, uma curiosidade recíproca. João propôs para Marcinho uma bolsa de R$ 1.200 por mês se ele abandonasse o tráfico e tentasse escrever um livro sobre sua vida. Funcionou durante quatro meses.

Quando isso veio à tona, logo antes do Carnaval, deu um estorvo no governo carioca e pano para debate. João foi generoso ou ingênuo? Inventou uma passarela entre morro e asfalto ou apenas ajudou um foragido?

Um amigo, parado numa sinaleira carioca, olha ao redor circunspecto e comenta: "Precisa tomar cuidado por causa dos bolsistas...". Os chistes vingam, como sempre, para assinalar e esconder alguma verdade doída. No caso, trata-se da ferida que divide a "cidade partida". Mas também de contradições que não valem só para o Rio: paradoxos de nossa cultura. Eis quatro pontos, só para começar a pensar.

1. Nós, modernos, não acreditamos em essências subjetivas, mas na possibilidade de cada um mudar radicalmente. Com isso, nossas legítimas pretensões de segurança e de vingança se chocam com a suspeita de que, na hora da punição, o criminoso poderia não ser mais o mesmo sujeito que nos lesou. Como punir quem pode mudar? Imaginou-se um sistema penal paradoxal, que ofereceria ao mesmo tempo segurança e vingança para as vítimas e uma chance para os criminosos mudarem. Neste sistema, Marcinho se emendaria redigindo suas memórias atrás das grades. Tudo bem, mas como fica se de fato o sistema penal é só punitivo?

2. Alguns evocam a "ingenuidade" de João Salles. É engraçado, eu não vejo nenhuma ingenuidade na paixão moderna de reformar, educar e salvar aos outros. A modernidade começou batizando e convertendo à força índios, negros e judeus. Supostamente buscando o bem.

A fantasia de redenção segue ativa em nosso cotidiano: há o homem que casa com uma prostituta para tirá-la da rua e a mulher que sonha em seduzir um homossexual.

Esta vontade de mudar os outros é a face escondida de nossa tolerância: "somos ambos humanos", dizemos ao próximo, "mas quero te mudar. Aceito você, mas não assim como você está". Adoramos ser São Jorge liberando a donzela, mas evitamos de nos perguntar: e se a donzela gostasse de ficar cravada na rocha pelo bafo do dragão?

Pessoalmente, como João Salles, agiria para conquistar a alma de um Marcinho. Mas este esforço é eventualmente uma violência, não uma ingenuidade.

3. Por que querer salvar logo um bandido? Não há remédio: a modernidade é fadada a idealizar o fora-da-lei -cangaceiro ou hollywoodiano. Somos individualistas, vivemos proclamando que nossa liberdade estará acima de toda imposição social. Mas, para conseguir viver com os outros, tragamos -resignados e um pouco covardes- qualquer dose de conformismo. Com esta amargura na garganta, como não criar romances com a vida (miserável) de quem sai atirando nas margens?

4. Entrevistando João Salles para a revista "Veja", Thais Oyama observou: "Muita gente classificou sua atitude como uma tentativa de expiar uma culpa pelo fato de ser muito rico" (a família Salles é dona do Unibanco). João Salles: "É difícil que alguém neste país não tenha culpa social". Oyama de novo: "É melhor fazer algo movido a culpa que não fazer nada?".

Oyama se faz porta-voz de um lugar-comum de nossa cultura: o gesto que se origina na culpa perde sua nobreza, pois hoje é "cool" estar satisfeito consigo mesmo, sem reservas. A culpa está fora de moda.

O modelo dessa culpa culpada é: gostamos de geléia, a mãe decidiu que não, porque é quaresma. Desejamos a geléia, mas, por sentir culpa, aceitamos a frustração. Ou então roubamos uma colherada e, pela mesma razão, não aproveitamos direito. Em suma: a culpa seria submissão a valores que não são de nosso feitio e que nos impedem de gozar das coisas que desejamos.

Mas a história da geléia proibida é um modelo arcaico de culpa, afastado da experiência contemporânea. Com poucas exceções patológicas, nós, modernos, saboreamos a geléia sem lágrima nenhuma. Nossos apetites se legitimam sozinhos e se deixam dificilmente culpabilizar.

A culpa que João Salles reivindica é a culpa moderna: nesta, nossos desejos são a autoridade suprema, portanto é com eles que ficamos sempre em dívida. Não somos culpados de desobedecer a interdições de geléias variadas. Hoje nos sentimos culpados quando não conseguimos fazer o que desejamos.

Alguns de nós, como João Salles, têm anseios de justiça -uma vontade de mudar o mundo, de torná-lo melhor. É fácil ficar em dívida com este desejo, se sentir culpado de não conseguir realizá-lo.

Outros não conhecem esta culpa. Uma emergente, ao perceber olhares de inveja, comenta, feliz: "O povo me adora". Ela, por exemplo, não se sente culpada, porque não deseja, nunca desejou mudar nada.

segunda-feira, 13 de março de 2000

A batalha pela alma de Elián González

Elián González é o menino cubano que perdeu a mãe no naufrágio do barco que o levava à Flórida. Os parentes e a comunidade cubano-americana de Miami querem que ele fique nos EUA. O pai quer que ele volte a Cuba.

Passei por várias fases. Uma fase pró-cubanos de Miami, na qual desconfiava do pai. Pedindo o filho de volta e falando para a pátria ultrajada, ele não estava sendo coagido por Fidel?

Depois, houve a fase indignada com o pós-feminismo: parecia-me evidente que, se fosse o inverso, ou seja, se o pai tivesse se afogado e a mãe estivesse em Cuba pedindo o filho de volta, o rapaz já estaria no avião para casa.

Houve a fase legalista: respeitemos as leis americanas de imigração. Elián, sendo menor, nem pode pedir asilo. O resto é politicagem. Deixei essa fase para a proposta tanto de Bush quanto de Gore: por decreto, outorguem direito de residência a Elián, assim a questão de saber com quem ele fica sairá do direito de imigração e irá para a vara de família, onde prevalece o interesse da criança. Mas qual é o interesse da criança?

Aí outra fase pró-cubano-americanos, simplesmente porque tenho alergia a todo regime que impede seus sujeitos de viajar livremente. Lembro-me dos 63 civis desarmados que tentavam emigrar de Cuba em 1994 e foram assassinados por agentes do governo cubano. Havia 12 crianças entre eles. Por que Elián voltaria para isso?

Por outro lado, um cubano de Miami levanta este cartaz: "A liberdade antes da paternidade". Ou seja, ser livre é mais importante do que ter um pai. É uma versão da regra moderna: crescer não é se conformar aos pais. Mas estamos dispostos a desconsiderar os laços de família por ideais políticos? O que diríamos de uma criança que, em Cuba, denunciasse as simpatias subversivas dos pais seguindo o mesmo princípio?

Imaginei uma solução: devolvam Elián para o pai e autorizem que ele volte para os EUA mais tarde, quando ele quiser visitar seus tios ou mesmo para ficar -só para dizer que americano não rejeita criança que naufragou. Feito. Vamos cuidar da vida.

Mas a figura de Elián segue reinando na imprensa americana e nas conversas sociais. Por quê? A luta ao redor de Elián é uma parábola que propõe uma explicação de quase meio século de nossa história.

Uma comentadora teme que, de volta para Cuba, Elián passe por uma lavagem cerebral. Outros perguntam então como a gente chama a reeducação americana pela qual Elián está passando agora pelas mãos de seus parentes de Miami. Não é lavagem também?

Elián é a derradeira aposta da Guerra Fria. A batalha pela sua guarda e sobretudo pela sua alma é que justifica a Baía dos Porcos, o Vietnã e a Coréia.

A luta é e sempre foi, de fato, entre Mickey Mouse e Fidel Castro ou entre Stakhanov e o Pato Donald. Nessa luta, o Che foi o campeão da esquerda, mas não tinha como ganhar -mais sozinho contra Hollywood do que contra o Exército boliviano.

Eis que Elián volta de sua primeira visita a Orlando, onde foi beijado pessoalmente por Mickey. Na primeira página dos jornais, Fidel, em Cuba, rivaliza e beija a testa do irmãozinho de Elián. Quem beija com mais carinho: Fidel ou Mickey?

Sempre soubemos que a Guerra Fria era sobretudo cultural. Graças a Elián, aparece enfim que, de fato, era uma competição onírica para ver quem conseguiria encarnar o sonho das crianças.
Pouco importa quem organiza melhor a produção, pouco importa quem é mais rico e quem é mais justo, já que, afinal -considerando o lugar extraordinário das crianças e dos jovens no imaginário ocidental moderno-, a questão derradeira é: com quem e com o que sonham as crianças? Pois para lá iremos ou, no mínimo, irão nossos corações.

Os EUA sempre se definiram como a terra das oportunidades. Ora, as crianças e os jovens, para nós modernos, são exatamente isso: os depositários das oportunidades que desperdiçamos. Logo, os EUA são o campo dos sonhos dos jovens. Não deu outra. Os jovens podem contestar o projeto hegemônico americano, discordar, opor-se. Mas seus sonhos são americanos. Assim foi perdida a Guerra Fria, a golpes de rock and roll, calça Levis e batata Pringles (por exemplo).

Provavelmente Elián voltará para a ilha junto com o pai dele e sob o olhar atônito da comunidade cubana de Miami, que não entende como esse homem possa querer voltar para casa.

Vejo a acumulação de brinquedos no pátio de Elián em Miami. Surpreendo o brilho no olhar de Elián sorrindo para os manifestantes na frente de casa: está gostando de seus 15 minutos de celebridade. Constato, por outro lado, a estética austera do outdoor que o governo cubano começou a desdobrar em Cuba: "Devolvam Elián à sua pátria", dizem.

Só falta que, na volta para Cuba, Elián tenha de escutar um discurso de Fidel de três horas. Vai acabar pulando no mar à procura de sua mãe e da Flórida.

Um oficial republicano da guerra da Espanha inventado por Hemingway, observando seus aviões indo para mais uma batalha perdida, dizia: "Como sempre, estamos fodidos". E olhem que, ao ser inventado, ele nem sabia que Hemingway era americano.

quinta-feira, 9 de março de 2000

Viva o Carnaval na Sapucaí

A Sapucaí tem um lado cruel. Na avenida não há ninguém para editar piedosamente as imagens.

Impossível não ver o apoio de destaque e harmonia ou os empurradores atrás dos carros alegóricos. Os diretores de ala puxam, empurram, mandam parar ou correr. Há fantasias que se desfazem antes da hora. Aquele lá perdeu um sapato. Outro foi para a avenida com um tênis preto que destoa e brilha no meio das sandálias douradas. Aí há dois que, em vez de sambar, não param de conversar.

As mulheres e os homens mais bonitos, nus, ou quase, no destaque, enchem a tela da televisão. O telespectador pode imaginar que os corpos de todos sejam formosos e apetecíveis. Mas na Sapucaí, de perto, entre as lantejoulas, aparecem muitas carnes brancas e trêmulas, um pouco enjoativas.

Em suma, pode surgir uma dúvida: não era melhor na TV, tudo bonito, tudo aparentemente espontâneo, um milagre de alegria, sem falhas e sem erros?

Há quem ache isso mesmo. Tarde na noite de domingo, num camarote, há três homens (turistas) e três meninas. Enquanto as meninas sambam, um dos homens, bêbado, deitado no chão, contempla na TV a versão Globo do desfile que está passando logo atrás dele. Os dois restantes preferem fazer sua própria edição. Um olha para a avenida pela telinha de sua videocâmara. Ele prepara a versão uso família: nudez permitida, mas sem provocações. O outro prepara a versão dura: só fotografa as mulheres que respondem obscenamente às suas tentativas (eficazes, aliás) de chamar a atenção.

Afinal, eles estão vivendo um bom momento, quem sabe um sonho. Por que não editá-lo na hora? Na mesma linha, não me estranharia que, um dia destes, um prefeito do Rio colocasse telões gigantes no sambódromo para que possamos, estando na Sapucaí, ver nossa alegria já editada e, portanto (dirão), mais perfeita.

Na fila para comprar os ingressos para o baile do Scala, um jovem quer o baile de sábado, que é o bom. Cinquenta reais é muito, ele diz, mas desta vez ele vai, seja qual for o preço. Confessa: "Não aguento mais ver isto só na televisão".

Ele não vai se decepcionar. Afinal, está já com a experiência editada por anos de Scala na TV. Sua lembrança será igual a seu sonho televisual acumulado, mais a certeza de que ele esteve lá de verdade.

Mas voltemos à Sapucaí. O milagre é que a avenida ganha da TV. Gosto das imperfeições, dos ventres moles, dos sambas de pato bêbado e das fantasias quebradas. É isso que me comove. Reconheço-me no esforço de todos justamente porque é um esforço heróico, obstinado e fracassado.

Mas de qual esforço estou falando?

Sábado à noite, desfilando na avenida, às vezes a harmonia enfraquece, a mágica parece estar prestes a se desfazer. Aprendo logo que o remédio é levantar os braços e os olhos para a arquibancada ou os camarotes, pedindo um retorno: dancem, se mexam, se empolguem conosco.
Nas noites seguintes, como espectador, verifico que é difícil recusar este apelo. Uma vez encontrado um olhar lá embaixo, fica impossível não sacudir e acompanhar. O samba é de todos, porque é de todos o esforço de se ver felizes. É para isso que serve o desfile: a arquibancada se vê na escola e a escola se vê na arquibancada. Juntas se confirmam na vontade de alegria.

Afinal, todos precisamos nos ver de alguma forma. Isso pede invenção e manutenção. O Carnaval é como a malhação anual coletiva necessária para manter a imagem, o "look" que a gente quer. E a imagem aqui na Sapucaí é honesta: não é alegria televisiva ou babaca. Ao contrário, é a própria imagem do esforço que custa passar pela vida mantendo o sorriso e o samba no pé.

Ninguém aqui confunde a fantasia com a roupa de cada dia e todos sabem que a fantasia é imperfeita e embaraçosa.

Há outras maneiras de ver, certamente. As mais patéticas são as que tentam passar por outra coisa que não fantasias.

Por exemplo, alguns anos atrás, um psicanalista francês passou o Carnaval no Rio. De volta à França, declarou a uma assembléia admirativa que o Carnaval carioca era, como ele se expressou, "uma experiência de gozo especular". Até aí tudo bem.

Mas era óbvio, na fala, um desprezo para os índios que gostam de ser alegres e de se olhar nesta alegria. Na verdade o desprezo era pelo simples fato de os índios gostarem de se olhar - ponto. Subentendido: "A gente aqui em Paris não brinca com espelhinhos; a gente nem precisa se ver; a gente, aliás, prefere ser do que se ver". O engraçado é que ele falava numa situação absolutamente parecida com a Sapucaí: ele falava e sua arquibancada só queria se espelhar nele. A única diferença é que, naquele caso, todos queriam se ver não alegres e felizes, mas metidos a besta. Conseguiam muito bem.

Breves:
Por que a bandeira estampada em camiseta ou sutiã pode, mas desenhada no corpo não pode?
Adorei Roberta Close como símbolo da liberdade de escolha. São as verdadeiras "Diretas Já".
As impressões de Carnaval são como um bloco que deveria se chamar A Cada Ano Sai Diferente.

segunda-feira, 6 de março de 2000

Atenção: homens e mulheres trabalhando



Na segunda-feira, o Nasdaq -índice das ações da dita nova economia- fechou em forte queda. Na terça, a coisa piorou. Será que a bolha explodiu?


Não sei, mas a pausa na euforia dá um alívio. Pois é duro aguentar a presença maciça da Bolsa de Valores na vida cotidiana americana e, aos poucos, mundial.


Lembra-se do Brasil dos anos 80? Era difícil passar um dia sem debater o que fazer hoje: comprar dólares, colocar no curto prazo, abrir uma caderneta ou entrar num consórcio? Parecia uma manobra de diversão, para que a gente esquecesse as urgências sociais e políticas. "Revolução? Pode ser, mas deixe primeiro passar no banco."


Hoje, nos EUA, fala-se de investimentos tanto quanto no Brasil daquela época. Só que positivamente: o problema não é como evitar a corrosão inflacionária, mas como não perder o trem da alegria. E o trem é um só: a Bolsa de Valores.


Não foi sempre assim. Até recentemente, a Bolsa era coisa de profissionais -caricaturas de terno e charuto, condensadas ao redor de Wall Street.


Como o capitalismo americano conseguiu produzir uma nação de investidores? Simples: confiando a cada um a tarefa de investir livremente o dinheiro de sua aposentadoria. Um pouco como se, no Brasil, todos tivessem a liberdade de administrar seu fundo de garantia.
Consequência: uma massa de dinheiro fluiu para a Bolsa, valorizando o mercado. A isso acrescenta-se, nos últimos anos, a possibilidade de investir por computador, ou seja, de comprar e vender ações com comissões irrisórias e de dispor das mesmas informações que um profissional.


Por que se queixar? Não é esse o milagre de uma sociedade em que cada cidadão (ou quase) seria diretamente interessado na prosperidade do sistema inteiro? Não é bonito que os trabalhadores invistam suas economias apostando num futuro do qual eles são todos sócios (embora minoritários -desculpe a ironia)?


Talvez seja preconceito de velho esquerdista, mas receio que, com, isso tenhamos sobretudo atingido o fundo do poço. Nunca a experiência da economia foi tão afastada das condições concretas do trabalho, da produção e da vida.


Por exemplo, imaginemos que em janeiro você tenha feito a contribuição (obrigatória nos EUA) a seu fundo de aposentadoria -sei lá, US$ 1.000 . Logo precisa investi-los. Você está sabendo que a biotecnologia é quente e investe nessa direção. Em um mês, seus US$ 1.000 se tornam US$ 1.700. Mas eis que 15 dias atrás Clinton declara que não é bom nem legítimo patentear fragmentos do genoma humano sem nem saber para que servem. As perspectivas de lucro da biotecnologia parecem de repente menores do que se pensava. O setor despenca.


Questão: você consegue aceitar que é moralmente justo que o genoma não seja objeto de patentes e que não se lucre com informações preciosas para a vida de milhões de pessoas? Ou você só pensa que essa brincadeira política de Clinton lhe custou US$ 500 em poucas horas? E, caso você se reconheça na primeira possibilidade, como fica se, em vez de US$ 500, fossem US$ 50 mil?


Na verdade, a popularização do investimento na Bolsa não inventa nenhum tipo novo de participação social. Ao contrário, ela vulgariza o espírito de tubarão, ou seja, a substituição de qualquer problemática moral por interesses particulares e imediatos. O homem da rua adotou o espírito do banqueiro de Londres, como diria Mário de Andrade. Para o trabalhador transformado em investidor, a economia torna-se um jogo abstrato. Uma fábrica que fecha ou uma fila de desempregados são indícios para a compra ou venda de títulos, os quais lhe aparecem paradoxalmente como sendo a economia real. Pergunta-se como o trabalhador, tomado na rede das cotações, concebe seu próprio trabalho, seu lugar no mundo e eventualmente seu próprio lugar na fila dos desempregados.


Por medida de saúde pública, proponho que, nos sites de investimento, seja imposto o uso de um programa pelo qual, a cada vez que o usuário clica para comprar ou vender ações, opções ou outros instrumentos desse tipo, apareça uma janela piscando: "ATENÇÃO: HOMENS E MULHERES TRABALHANDO".


PS: Com a queda do Nasdaq, muitos se perguntarão se a nova economia acabou.
A nova economia se distingue porque nela o valor de uma ação não está ligado à previsão de lucros da empresa. Ora, ela não vai acabar tão cedo, pois é nossa filha legítima. Em nossa cultura, vale o que é desejado, invejado, procurado. Isso é o caso dos produtos e dos sujeitos. Por que não seria o caso das empresas?


Quando o público se torna investidor, a Bolsa funciona como um mercado ordinário: a imagem de uma empresa prevalece sobre sua qualidade intrínseca.


Ninguém se preocupa em saber se, de fato, a intervenção de Clinton modificou as perspectivas de lucros da biotecnologia. O que importa é que assim pensou o público, ou melhor, importa que se preveja que o público pensará assim.


O expert em investimentos é cada vez mais o expert em marketing, pois a nova economia é uma economia de massa e de opinião.

quinta-feira, 2 de março de 2000

Walter Benjamin e "Terra Nostra"

Quarta-feira, nas comunidades brasileiras dos EUA, é o dia em que chegam as fitas da Globo: a semana de novela das oito ou das sete, o resumo do "Jornal Nacional" e os seriados.

Os capítulos das novelas são gravados sem propaganda. Acelerando títulos, retomadas e diálogos repetitivos, um espectador bem treinado assiste a uma semana de novela em duas horas. Nesse processo, aliás, a novela se enxuga e ganha, como se recebesse uma editoração final.

Passo na minha loja brasileira preferida, Terra Brasilis, em Brookline, e pego a dose semanal de "Terra Nostra". Por coincidência, acabo de comprar "The Arcades Project", de Walter Benjamin (Harvard University Press). É a tradução das notas que Benjamin deixou na Biblioteca Nacional de Paris quando, em 1940, fugiu da França invadida pelos nazistas, foi detido na fronteira da Espanha e acabou se suicidando.

Acidentalmente, o volume fica sobre o balcão da loja, junto com a última fita de "Terra Nostra". Os dois objetos parecem compor uma metáfora surrealista. De um lado, mil páginas de fragmentos, fichas, reflexões e citações, uma sublime polifonia filosófica sobre a sociedade moderna. Do outro, um produto televisivo, que certamente Adorno e Horkheimer -outros filósofos da escola de Frankfurt- teriam desprezado como dejeto da "indústria cultural".
O fato é que gosto dos dois. Sou muito feliz por ir para casa com meus dois pacotes.

Preciso esclarecer: assisto "Terra Nostra" sem pretextos. Não planejo nenhum pós-doutoramento sobre a Rede Globo e a ideologia da classe média brasileira. Nada disso. Se fico um tempo com Gumercindo, Francesco, Paola, Giuliana, Matteo etc., não é na esperança de surpreender um novo aspecto da cultura de massa. Ao contrário, faço parte da massa: gosto de seguir a história, gritar de horror contra a pérfida dona Janete ou exortar José Alceu a aceitar, enfim, Antenor como pai. Torço e comento com amigos e parentes.

Aliás, esta é a façanha das (melhores) novelas: invadem a conversa cotidiana, mobilizam afetos, crenças e opiniões, ou seja, elas nos transformam no coro de uma tragédia grega. Impondo-nos esse exercício, elas enriquecem ou mesmo inventam nossa cultura popular. E a cultura popular é o conjunto (grande ou pequeno) das verdadeiras razões pelas quais temos um destino comum como povo: mitos, lendas, histórias que compartilhamos.

"Terra Nostra" não puxa as lágrimas só no Brás ou na Mooca. A coragem, as penas e as alegrias da imigração italiana em São Paulo valorizam para todos a narrativa da cidade, do Estado e, enfim, do Brasil. Em suma, "Terra Nostra" torna essa terra "nossa" para todos os brasileiros.
Ora, eu gosto de Benedito Ruy Barbosa e de Benjamin no mesmo dia, sem problema e sem dilemas. A contradição vem de fora, dos vários Adornos que policiam as ruas da cultura. Perguntam-me: se você se deixa seduzir, como você mantém sua distância crítica, como se guarda das armadilhas "made in Globo"?

Ocorre-me que essas eram também as objeções que Benjamin recebia de Adorno. Benjamin queria escrever sobre as "arcades", ou seja, as passagens ou galerias de lojas onde, na Paris do século 19, as mercadorias se propuseram pela primeira vez como o verdadeiro arcano da modernidade. A variedade dos objetos oferecidos e dos passeantes descobrindo o prazer das compras lhe pareciam compor um rébus cuja solução diria quem somos hoje.

Ora, para Adorno já devia ser problemático que Benjamin procurasse a verdade do mundo moderno na fantasmagoria do consumo, e não na porta das fábricas. Pior ainda que ele desse mais importância aos sonhos dos modernos lambendo vitrines do que às condições reais de existência no mundo industrializado. E devia parecer catastrófico que Benjamin fosse ele mesmo um sonhador, "flâneur" sonâmbulo, seduzido pela cidade e as luzes das lojas.

Por pressuposto (dos Adornos), a massa, seja ela de telespectadores ou de consumidores, é alienada. E, para salvá-la (tarefa nobre), é necessário, primeiro, sair dela.

Ora, reivindico o direito de pensar sem me excluir da massa. Escrevo esta coluna para conquistar o direito de falar de "Terra Nostra" sem encontrar o sorriso de comiseração dos amigos intelectuais.

Pergunta: por que será que a partir do século 18 pensar passou a exigir um desprezo do comum? Logo quando caem as barreiras de casta do antigo regime, quando a igualdade de direitos ameaça pôr fim aos privilégios, eis que a inteligência promete um novo privilégio: uma aristocracia de gostos e de saberes. Curioso, não é?

P.S.: Os críticos americanos que escrevem nestes dias sobre o livro de Benjamin perguntam ironicamente: "Meu Deus, o que Benjamin diria dos shopping centers de hoje?". Subentendido: ficaria horrorizado, ele que apreciava as elegantes "arcades" de Paris. Tentam, em suma, adornizar Benjamin. Ora, eu acredito que ele se perderia em nossos shoppings como nas "arcades" de Paris.

Pois ele seguiria achando que são esses os lugares onde se desdobra a complexidade sedutora de nosso mundo.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2000

A terapia da faca e do superbonder

Há crianças que nascem com uma malformação dos órgãos sexuais suficiente para que surja uma incerteza quanto ao sexo do recém-nascido.

A partir dos anos 50, uma equipe da Johns Hopkins University se especializou em resolver essas dificuldades. Eles eram capitaneados por um psicólogo, John Money, o qual estava convencido de que a chamada identidade de gênero (o fato de a gente se sentir homem ou mulher) era um efeito da educação recebida. Ou seja, segundo ele, pouco importavam os hormônios: as crianças viveriam como machos ou fêmeas por serem criadas brincando -quer seja de bonecas e panelas, quer seja de metralhadoras e caminhões.

Portanto, concluía Money, nos casos em que o sexo anatômico não aparece claramente definido, basta optar firme para o sexo mais fácil de ser reconstruído cirurgicamente. Em seguida, resta tratar a criança como menino ou menina, de acordo com o resultado da operação. A faca escolheria o sexo, e o sentimento de identidade iria se adaptar à nova realidade anatômica.

Os casos tratados pela equipe de Baltimore eram todos de crianças que apresentavam órgãos sexuais confusos e, portanto, também deviam sofrer de algum descompasso hormonal. Faltava um caso que demonstrasse a doutrina sem equívocos. O destino ofereceu a Money essa chance quando o pequeno Bruce Reimer caiu em suas mãos.

A história desse mártir do obscurantismo acaba de ser contada de maneira magistral por John Colapinto, no livro "As Nature Made Him" (HarperCollins), que se lê num sopro de indignação. Em 1966, Bruce e Brian Reimer, irmãos gêmeos, aos seis meses, foram submetidos à circuncisão.

A de Bruce não deu certo, e o pênis da criança foi irreparavelmente queimado. Na época, as perspectivas de cirurgia reconstrutora eram incertas. Os pais encontraram Money e o grupo de Baltimore, para quem Bruce era o caso pedido a Deus: não um hermafrodita, mas um menino normal, com cargas hormonais normais -apenas amputado. Com ele, seria possível mostrar sem ambiguidade que o gênero é só uma questão de educação. Money propôs então transformar Bruce em menina. A criança foi, portanto, castrada (ablação de testículos e escroto), rebatizada como Brenda e criada como menina. Em perspectiva: outras cirurgias para criar uma vagina funcional e hormônios na puberdade, para desenvolver seios e aparência feminina.

Durante anos, Money permaneceu cego ao sofrimento de Bruce/ Brenda -apresentou o caso como um completo sucesso. A fraude foi revelada só em 1997. E hoje Reimer, que decidiu se chamar David e voltou a ser o homem que de fato ele nunca deixou de ser, conta seu calvário.
Lições urgentes de serem ouvidas:

1. Money defendia a idéia de que a educação pode tudo e a biologia não apita nada. Essa idéia era progressista: foi nela que o movimento feminista se apoiou para mostrar que o lugar subalterno da mulher na sociedade não é uma necessidade biológica. Hoje, uma parte do movimento gay acha progressista afirmar que as orientações sexuais são decididas biologicamente. Moral: as ideologias mudam. Portanto, é bom deixar a ideologia na gaveta, sobretudo quando ela comanda uma faca.

2. Os defensores da primazia da educação sobre a biologia castraram Bruce Reimer. Os defensores da primazia oposta já lobotomizaram cérebros e ainda vão cortando. Não está na hora de aceitar que a verdade esteja no meio? Ou seja, que somos uma complexa e indissociável mistura de carne, palavras e imagens, em que não vem ao caso decidir qual dos três pode mais? Um pouco de humildade não faria mal a ninguém.

3. Psiquiatras e psicólogos pensaram que era possível criar Bruce como se ele tivesse nascido menina. Eles acreditaram que os pais nada transmitiriam de sua raiva, de sua frustração ou mesmo de seu sentimento de culpa. Acharam que seria possível organizar a vida de uma criança ao redor de uma mentira sem que isso transparecesse. É só dar as instruções certas para o comportamento dos familiares. Mas quem lhes deu um diploma?

4. Paul McHugh, atual chefe do departamento de psiquiatria de Johns Hopkins, compara as práticas de Money com a lobotomia e encoraja os psiquiatras a voltar a escutar seus pacientes, abandonando as práticas radicais. Ainda hoje, cirurgias irreversíveis são promovidas, por exemplo, na cura de neuroses obsessivas. Antes de confiar os pacientes à faca, cortando cabeças em cima ou em baixo, é bom refletir sobre a história de David Reimer.

5. A pressa em cortar, de Money e de outros, pode parecer um desejo de consertar as coisas. Algo não está certo? Eles querem resolver logo, antes que comece a doer. Chegam de faca e superbonder. Foi esta a idéia com Bruce Reimer: conserta logo antes que ele se dê conta. Não lhe deixa o tempo de urrar à Lua pelo horror do qual foi vítima. Será que é generosidade? Ou então covardia de terapeutas que não querem ouvir a dor de seus clientes? Na pressa de consertar, nós acabamos de ver para o que serve realmente a faca. O superbonder serve para colar a boca do paciente.